CRISTO A VERDADE CENTRAL DA DINÂMICA DO EVANGELHO.
C. J. Jacinto
A célebre passagem de Jesus, registrada no Evangelho de João, capítulo
8, versículo 32, exige uma profunda reflexão para que possamos compreender a
fundo o ensinamento de Cristo. Em João 8:32, lemos: "E conhecereis a verdade,
e a verdade vos libertará".
No breve ensaio
filosófico de J. A. Medeiros Vieira, intitulado "Filosofia à Verdade como
busca da natureza humana", apresenta-se uma definição sobre a natureza do
conhecimento da verdade. O autor postula que os critérios para se alcançar a
verdade se fundamentam no critério da evidência. Essa evidência pode ser
alcançada tanto através do raciocínio discursivo, que envolve uma análise
cuidadosa e aprofundada, quanto por meio da intuição, que se manifesta de forma
imediata no interior do sujeito. Independentemente do método, a evidência é
considerada o caminho essencial para a descoberta da verdade.
A perspectiva
cristã bíblica sustenta que a verdade é imutável, tendo sido revelada. Como
expresso na Epístola de Judas, capítulo 1, versículo 3, a fé foi dada de uma
vez por todas, sendo, portanto, definitiva. Essa verdade fixa e completa
encontra-se contida nos 66 livros da Bíblia.
Ademais,
entende-se que a revelação divina, embora progressiva na economia de Deus,
progrediu do Antigo Testamento para o Novo Testamento, ou seja, da Antiga
Aliança para a Nova Aliança. Desta forma, o desenvolvimento e a frutificação da
verdade ocorreram após sua germinação no Antigo Testamento. A verdade se
manifesta plenamente no Novo Testamento, embora suas raízes se encontrem no
Antigo Testamento.
Assim, a
verdade é una e se completa por meio da Nova Aliança, de modo que nos 66 livros
da Bíblia encontramos uma verdade fixa, revelada por Deus. A Bíblia Sagrada,
portanto, é a palavra de Deus.
Durante seu
ministério terreno e ao longo de sua vida, Jesus enfrentou oposição à sua
mensagem. Inicialmente, foi rejeitado como a personificação da verdade, como o
Messias. Posteriormente, sua divindade foi negada, e ele foi rejeitado como
Filho de Deus e como o Verbo. Essa rejeição não se limitou à sua pessoa, mas
também se estendeu aos seus ensinamentos, que foram, em grande medida,
negligenciados. A verdade, portanto, manifesta-se em um conceito unificado. No
Novo Testamento, e particularmente no Evangelho de João, a verdade é
apresentada tanto como uma pessoa quanto como um conjunto de ensinamentos. Conseqüentemente,
a verdade é personificada em Cristo e está intrinsecamente ligada aos seus
ensinamentos.
A. T. Robertson, no seu magnífico “Comentário
do Texto do Novo Testamento Grego” afirmou: “A verdade é uma das marcas de
Cristo, Jesus afirmará ante Tomé ser a personificação da verdade, para os discípulos
era um aprendizado executando a vontade de Deus, está é uma liberdade que
somente Cristo dá”
A compreensão
da experiência e do conceito de verdade exige atenção ao contexto da declaração
em João, capítulo 8, versículo 32. No versículo 31, lemos: "Jesus dizia
aos judeus que haviam crido nele: ‘Se vocês permanecerem firmes na minha
palavra, verdadeiramente serão meus discípulos.’" Portanto, a verdade que
liberta e o conhecimento da verdade estão ligados a um princípio: permanecer na
palavra de Cristo. Ao nos aprofundarmos na palavra de Cristo e permitirmos que
ela penetre em nós, estabelecemos um relacionamento de obediência e orientação
espiritual com aquele que é a Verdade. Jesus é o caminho, a verdade e a luz;
quem o segue não caminha nas trevas. Assim, aqueles que cultivam intimidade,
relacionamento e comunhão com o Senhor estão aptos a discernir a realidade
espiritual e a reconhecer a verdade contida nos ensinamentos de Cristo. A
verdade proclamada está intrinsecamente ligada à pessoa que a proferiu.
Portanto,
é imprescindível compreender que a experiência da verdade que proporciona a
liberdade reside na constância em Cristo e na fidelidade à sua palavra. Essa é
a essência do cristianismo bíblico, que se fundamenta na revelação divina, na
encarnação do Verbo. Essa é a plenitude da revelação de Deus, manifestada em
seu Filho, que veio ao mundo para transmitir a verdade. Não se trata apenas de
um conceito abstrato, mas da verdade personificada, da verdade prática que
liberta e transforma, transcendendo a mera filosofia. É uma verdade pessoal,
celestial e progressiva nas paginas do livro sagrado.
Após a partida
dos apóstolos, o conceito bíblico de verdade original gradualmente esvaziou-se
de seu sentido. Ela se fundiu com idéias e conceitos filosóficos gregos,
notadamente de Aristóteles e, em especial, de Platão entre outros, além da
influencia pagã. Desse modo, a verdade foi convertida em um sistema
ritualístico, um conjunto de cerimônias adotadas como se fosse parte integrante
do cristianismo genuíno, embora representasse um desvio. Reduzir o cristianismo
a uma filosofia ou a mais uma religião é, em essência, um equívoco. O
cristianismo é a verdade por essência, natureza e fundamento. Contudo, Cristo não é uma verdade abstrata ou subjetiva, mas
uma verdade concreta e objetiva. Ela se centraliza em uma pessoa, em uma figura
histórica que faleceu e ressuscitou literalmente, que está assentada à direita
de Deus literalmente e que retornará literalmente. Esta é a essência da
história. Portanto, o cristianismo se inicia a partir deste ponto, pois não é
possível compreender o cristianismo sem considerar Cristo como uma pessoa
histórica, divina e Salvadora. A
compreensão da verdade fundamental do cristianismo bíblico reside nesse cerne.
Quando a
verdade, conforme revelada na Bíblia e nos ensinamentos de Cristo, que
expressam Sua própria pessoa, é deturpada e passa a ser propriedade de uma
organização humana ou instituição, observa-se, em certa medida, um sinal claro
de apostasia. Este processo ocorreu na história do cristianismo, e a própria
Reforma Protestante não conseguiu se libertar completamente dessa visão
equivocada. O cristianismo, de acordo com o Novo Testamento, está fundamentado
em uma pessoa, e não em uma instituição.
Portanto,
evidencia-se que a verdade não se constitui em uma instituição, nem em um
conjunto de cerimônias ou sistemas ritualísticos e sacramentais. A verdade
persiste como uma pessoa, cujos ensinamentos se encontram intrinsecamente
relacionados a essa figura divina. Essa é a base da verdadeira libertação
espiritual, o libertador é uma pessoa não uma instituição ou um conjunto de
idéias religiosas.
No mesmo
capítulo, no versículo 44, Jesus apresenta outra perspectiva. Ele acusa os
judeus, como se observa: "Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis
satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não
permaneceu na verdade, porque a verdade não está nele. Quando profere mentiras,
fala do que lhe é próprio, pois é mentiroso e pai da mentira."
Dessa
forma, enquanto Cristo é apresentado como a personificação da verdade, o diabo
é retratado como a própria personificação da mentira. Ele não é apenas o
mentiroso, mas também a origem e a fonte de toda a mentira.
O
contraste estabelecido é fundamental para a compreensão da declaração de Cristo
sobre a libertação. Entendemos que Jesus fala da libertação do poder e do
domínio do pecado, pois todo pecado teve início com uma mentira. O diabo
desenvolveu essa mentira, utilizando a Palavra de Deus de forma indevida,
interpretando-a de maneira equivocada, em desacordo com os princípios dados a
Adão. Assim, o diabo distorceu a palavra de Deus, iniciando sua ação de
mentiroso e pai da mentira desde o princípio.
A afirmação de
Jesus em João 8:32, sobre a verdade, ressoará por todo o Novo Testamento,
estabelecendo o princípio de que Cristo é a Verdade. Essa perspectiva se
manifesta em passagens como Efésios 4:21, onde Paulo declara: "a verdade
está em Jesus". Essa posição é consistente em todo o Novo Testamento. A
verdade, não reside em uma instituição, em um conjunto de dogmas, doutrinas
humanas, cerimônias, rituais, sacramentos ou qualquer organização religiosa. A
verdade, acima de tudo, é uma pessoa, e isso é reiterado por Paulo: "a
verdade está em Jesus". Paulo direciona a verdade para uma pessoa, não
para uma instituição. A base sobre o qual repousa a libertação do pecado para a
salvação eterna é crer em Cristo e na sua obra consumada, “Quem crer nele não é
condenado, mas quem não crê já está condenado” (João 3:18) A ordem, o
imperativo fundamental é crer para não ser condenado, crer numa pessoa, não é
obras cerimonialistas institucionalizados para oferecer como produto religioso
de caráter salvifíco. “Crê no Senhor Jesus e será salvo tu e a tua casa” (Atos
16:31)
Permitir-me-ei
realçar um ponto. Quando uma denominação ou igreja enfatiza a divindade de
Jesus Cristo, reconhecendo-o como o único e suficiente Salvador, aquele que,
mediante sua obra consumada, aceitável e perfeita, cumpriu integralmente a
justiça divina, e que no seu caráter doutrinário mais puro, coloca a salvação
como uma ação puramente divina e não humana, e quando essa instituição
centraliza sua teologia em Cristo, renunciando à pretensão de ser a própria
verdade, mas reconhecendo Cristo como a verdade absoluta e a instituição como
um meio de apresentar Cristo como o caminho e a verdade da vida, tal
instituição, sem sombra de dúvida, demonstra sua fidelidade à autoridade de Cristo
como a verdade.
A verdadeira
Igreja de Cristo se distingue por sua representação fiel de Cristo. Ela O
manifesta, O proclama e O apresenta em sua pessoa, por meio de suas ações e
testemunho. A Igreja encarna o corpo místico de Cristo, expressando sua vida e
presença. Ela é, portanto, a representante confiável da pessoa histórica,
divina, ressurreta, gloriosa e salvífica de nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo. Como expressão do corpo de Cristo, a Igreja é a manifestação da
verdade, sendo, nas palavras de Paulo, coluna e sustentáculo da verdade, através
de sua teologia, confissão de fé e testemunho e defesa dos fundamentos da fé
cristã.
Permito-me
apresentar o que não corresponde à verdade. A verdade, como já expus e
reafirmo, transformou-se, desde a morte dos apóstolos, em um construto
filosófico, um conjunto de dogmas, rituais, cerimônias e sacramentos que
excluem a suficiência salvífica de Cristo e a perfeição de Sua obra consumada.
Essa teologia, que se afastou completamente das raízes apostólicas do Novo
Testamento, propaga, atualmente, um evangelho falso, por causa da sua natureza
apostata, que se afastou da doutrina dos apóstolos do Novo Testamento.
Analisemos, por paradoxo irônico,
um livreto de José Comblin, publicado pela Paulus, editora católica, intitulado
"O Que é a Verdade". Nesta obra, o autor, em sua tentativa de
elaborar uma composição teológica e definir a verdade, expõe de forma clara o
cerne da questão que busco abordar. Observa-se que Comblin, na página 74 do
livreto, afirma que a Verdade se manifesta essencialmente na celebração dos sacramentos.
Conseqüentemente, a função primordial da Igreja Católica é celebrar os
sacramentos, levando alguns católicos a considerar os sacramentos como
elementos essenciais para a salvação. O
Concilio de Trento determinou a salvação pelos sacramentos, e isso coloca nas
mãos de uma instituição a dinâmica da operação salvifica, a justificação pela
fé que é o resultado da crença de que Cristo foi o responsável pela salvação
através de uma obra consumada, perfeita, aceitável perante Deus para cumprir e
satisfazer a justiça divina deveria ser considerada como anátema, e assim fez
aquele concilio antibíblico!
Percebe-se
nessas palavras um desvio do foco da pessoa de Cristo, de Sua obra redentora
consumada e da justificação pela fé, em favor da crença nos sacramentos, como o
batismo, como meio de salvação. A salvação, assim, é deslocada da pessoa divina
para rituais, contrastando com o sacrifício de Cristo. Essa abordagem minimiza
a obra perfeita que Jesus Cristo realizou na cruz do Calvário. Não importa o
que as cerimônias litúrgicas façam com o nome de cristo e com trechos dos
evangelhos. O que se faz nesse deslocamento de foco, nada mais é do que
profanar o sangue da aliança (Hebreus 10:29)
Derivado desse
sacramentalismo, que deturpa o Evangelho, surge uma confiança que não se
fundamenta na obra redentora de Cristo na Cruz do Calvário. No entanto, em
todas as Escrituras, e especialmente no Novo Testamento, a mensagem apostólica
enfatiza a fé em Cristo. A crença em Cristo é o ponto central. Essa ênfase é
perceptível em diversas passagens bíblicas. Os apóstolos, como registrado no
livro de Atos, afirmaram: "Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo, tu e
a tua casa". Essa foi a resposta dada àquele que buscava a salvação.
Contudo, o sacramentalismo desvia o foco da salvação da pessoa de Jesus Cristo,
nosso Senhor e Salvador, para obras, rituais, cerimônias e sacramentos,
considerados necessários ou mesmo essenciais para a salvação. Essa é uma
deturpação do Evangelho.
Será que minha
interpretação está correta, ou minhas palavras carecem de solidez? Meus
argumentos são frágeis e desprovidos de embasamento? Para elucidar essa
questão, retomarei o livro de José Comblin, na página 75, onde ele apresenta a
seguinte afirmação: "A principal preocupação dos missionários (católicos)
era, acima de tudo, o batismo. Os doze franciscanos que evangelizaram a Nova
Espanha conseguiram batizar quatro milhões de indígenas em vinte anos."
José Comblin,
ressaltou que os missionários consideravam a evangelização secundária, pois o
batismo era prioritário, assegurando aos indígenas batizados a salvação eterna.
Prosseguindo, o
autor também menciona em outros trechos que os missionários, diante da
dificuldade em converter os adultos, voltavam seus esforços para o batismo de
crianças que faleciam precocemente. Acreditavam, dessa forma, garantir a
salvação das almas infantis, uma vez que os adultos resistiam à conversão.
Observamos,
através dessas descrições, que o foco principal da atividade missionária
católica residia na administração do batismo, em detrimento da conversão
através da pregação do Evangelho. A ênfase, portanto, recaía menos sobre a
promoção da fé em Cristo Jesus, como Senhor e Salvador, e mais sobre a
participação nos sacramentos. Essa abordagem, que negligenciava a necessidade
de arrependimento, crença e profissão de fé, sugeria que o batismo, por si só,
garantiria a salvação, independentemente da vivência dos ensinamentos cristãos.
Consideramos essa prática uma lamentável distorção da mensagem evangélica.
Observamos,
portanto, que uma instituição propõe a salvação através de ritos próprios,
dogmas e sacramentos, alegando possuir o poder de redimir as pessoas,
utilizando, por exemplo, a água batismal como instrumento salvífico para
aqueles que são batizados por missionários ou sacerdotes católicos. Essa
prática diverge dos ensinamentos do Evangelho, especialmente do Novo
Testamento. A pregação de Paulo e os ensinamentos de Cristo enfatizaram a fé em
Jesus como Senhor e Salvador. Logo, esta prática representa um desvio do
Evangelho original, no qual a figura de Cristo é secundarizada, levando os
fiéis a acreditar que o cerimonialismo, o ritualismo e o sacramentalismo são os
meios para alcançar a salvação, mediante a adesão a esses ritos. Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e
no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, saber: Se com a tua boca
confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou
dentre os mortos, serás salvo. Visto que
com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a
salvação (Romanos 10:8 a 10 veja também João 17:20)
O clamor do Novo Testamento foi
desviado, ignorado e praticamente substituído por um sacramento exteriorizado
com poder mágico.
Como, pois invocarão aqueles que
não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão se não há
quem pregue?(Romanos 10:14) A resposta para esse clamor foi ignorada, pois não
importou mais a pregação do Cristo crucificado, nem na realidade da sua pessoa,
pois agora o sacramento do batismo resolve o problema do ímpio, sem precisar
crer em Cristo, “batize-a” em serie, num processo de cálculos numéricos infinito;
milhões, mesmo sem crer, confessar, se arrepender e crer, o ritual professado
no Concilio de Trento faz isso de forma mágica, e aos que procedem assim são
chamados de “missionários”. Um absurdo!
E quanto à ordem de Cristo:
Portanto ide, fazei discípulos ( Primeiro o
discipulado e a formação espiritual solida) de todas as nações, batizando-os em
nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ensinando-os a guardar todas as
coisas que eu vos tenho mandado; (A ênfase de Cristo nos seus ensinamentos
práticos e obvio)e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação
dos séculos. Amém. (Mateus 28:19 e 20).

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