CRISTO E PAULO
ENSINARAM A DOUTRINA DO PURGATÓRIO?
“O Novo Testamento refere-nos estas
palavras de Jesus Cristo bem claras e precisas: Há pecados que nunca são remetidos,
nem neste mundo nem no outro. (Mat. 12) Haverá, portanto, pecados que serão
perdoados na outra vida. Não são menos frisantes estas outras palavras da parábola
do credor: Há uma prisão donde não se sairá senão quando se tiver pago o ceitil
derradeiro. (Mat, 18). — E estas de São Paulo: Haverá no último dia um fogo que
destruirá as obras de certas almas, que só então salvar-se-ão. (I Cr, 3.)
(Mons. Dr. José Basilio Pereira Mês das
Almas do Purgatório Editora Mensageiros da Fe)
Será que essa
exegese está correta? os textos acima mencionadas por esse líder católico provam
a doutrina do purgatório?
A
narrativa de Mateus e o Ensino de Cristo em Mateus 12
Analisemos, primeiramente, a declaração de Jesus:
Ele não afirma que certos pecados serão perdoados em um futuro distante. Observemos
atentamente: "Por isso, eu digo a vocês: todo pecado e blasfêmia serão
perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será
perdoada." Ele se refere ao presente. No versículo 32, lemos:
"Qualquer pessoa que disser uma palavra contra o Filho do Homem será
perdoada; mas quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem neste
mundo nem no mundo futuro." Jesus não faz distinção temporal para o perdão
dos pecados contra o Filho do Homem. Consequentemente, por que ele faria uma exceção
para o Espírito Santo? A conclusão de Jesus visa ressaltar a gravidade da
blasfêmia contra o Espírito Santo. Em nenhum momento Jesus ensina que há
pecados perdoáveis em um futuro no além. Ao afirmar que o pecado contra o
Espírito Santo não será perdoado "nem neste mundo, nem no mundo
futuro", Jesus demonstra a extrema seriedade da blasfêmia contra o
Espírito Santo. Essa é a super ênfase do texto de Mateus 12
Vamos repetir o cerne da
questão:
Analisemos,
então, o seguinte ponto: Jesus não afirma que certos pecados serão perdoados no
futuro. Observando o contexto, declaro-vos: todo pecado e blasfêmia serão
perdoados aos homens, exceto a blasfêmia contra o Espírito Santo. A referência
é ao tempo presente. No versículo 32, a declaração é clara: "Se alguém
disser alguma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado".
Jesus não indica perdão condicionado ao futuro. Diante disso, por que a
conclusão: "Mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso
perdoado, nem neste mundo, nem no porvir"? Jesus deseja enfatizar a
seriedade da blasfêmia contra o Espírito Santo. Em nenhum momento Jesus ensina
sobre a possibilidade de perdão de pecados no futuro. Ao afirmar que o pecado
contra o Espírito Santo não será perdoado "nem neste mundo, nem no
porvir", Jesus ressalta a gravidade da blasfêmia contra o Espírito Santo.
O cerne da passagem reside na blasfêmia contra o
Espírito Santo, e não no perdão dos pecados em geral. Os fariseus incorreram em
um pecado gravíssimo ao equiparar o poder do Espírito Santo ao poder de
Satanás, atribuindo atividades demoníacas ao Espírito Santo. Dentro desse
contexto, tal ação representava uma ofensa extrema. A intenção de Jesus,
portanto, era clara: não haveria possibilidade de perdão para aqueles que
perpetrassem tal pecado. Essa é a interpretação fundamental da passagem. Jesus
não aborda, em momento algum, a questão do purgatório ou do perdão futuro dos
pecados de impenitentes, até porque ele não estava dirigindo as palavras aos
seus seguidores mas aos judeus não convertidos. O texto não oferece em hipótese
alguma suporte a interpretação de perdão de pecados para cristãos no além. A
passagem não sugere que alguns pecados seriam perdoados no futuro, enquanto
outros não. Tal conclusão, baseada em uma análise textual séria, seria
infundada. Somente mediante a projeção de ideias externas (uma eisegese) ao
texto seria possível chegar a essa conclusão.
Interpretar
este texto fora de seu contexto original, a fim de sustentar uma doutrina sobre
o purgatório ou a possibilidade de perdão de pecados após a morte, contradiz
inteiramente os ensinamentos do Novo Testamento. Conforme Hebreus, capítulo 9,
versículo 27, onde está estabelecido que aos homens é determinado morrer uma
vez, e depois disso, o juízo.
A Narrativa De Jesus e o seu
ensino em Mateus 18
Uma outra passagem frequentemente citada por
defensores do purgatório e da possibilidade de perdão de pecados após a morte,
a fim de sustentar essa doutrina, é o capítulo 18 do Evangelho de Mateus.
Especificamente, a partir do versículo 15, Jesus aborda o tema da disciplina e
do perdão. É um contexto relevante, pois é ali que Cristo fala sobre o perdão,
sempre o relacionando à vida presente, e não à vida futura. É nessa passagem
que, no versículo 22, Jesus instrui que se perdoe "até setenta vezes
sete". Jesus, portanto, ensina sobre a necessidade de estarmos sempre
dispostos a perdoar, mas o foco está na experiência presente, nesta vida, e não
em uma futura.
A partir do
versículo 23, Jesus narra uma parábola. Ele diz: "Por isso, o reino dos
céus pode ser comparado a um rei que decidiu ajustar contas com seus servos. Ao
iniciar esse processo, foi-lhe apresentado um servo que lhe devia dez mil
talentos. Como este não tinha condições de pagar, seu senhor ordenou que ele,
sua mulher e seus filhos fossem vendidos, juntamente com tudo o que possuía,
para que a dívida fosse saldada."
Na parábola, o
servo endividado implora por misericórdia e a recebe. Posteriormente, o mesmo
servo, que fora perdoado, encontra um certo servo seu que lhe devia. Ele exige
o pagamento da dívida e não lhes concede perdão, lançando-os na prisão até que
quitassem suas dívidas. O senhor que o perdoou, ao tomar conhecimento do
ocorrido, repreende o servo implacável, dizendo: "Não devias tu, da mesma
forma, ter compaixão do teu conservo, assim como eu tive misericórdia de ti?"
Nos versículos 34 e 35, lemos: "Indignado, o senhor o entregou aos
carrascos e fosse preso, até que pagasse toda a dívida. Assim também (Jesus
ensina) meu Pai celestial fará a vocês, se cada um não perdoar de coração a seu
irmão." Observa-se que seria totalmente descabido interpretar esta
passagem com o intuito de fundamentar uma doutrina sobre o perdão dos pecados
na vida pós-morte, pois Jesus não aborda essa temática. O foco principal reside
na esfera terrena. Mesmo na parábola, o homem que se recusou a perdoar seu
semelhante, após ter sido perdoado e recusado a perdoar os outros, foi aprisionado
num momento posterior, a parábola nem sequer divide os eventos em antes e
depois da morte daquele servo impenitente, ou seja, o curso do evento se deu
totalmente nesta vida e não em um além. A parábola, nesse contexto, trata de
questões pertinentes a esta vida, ao agora, e não ao futuro. Em nenhum momento
a narrativa sugere que o homem precisaria morrer e ser aprisionado em um além
para quitar sua dívida e, subseqüentemente, ser libertado. A prisão mencionada
situa-se neste mundo. Portanto, a parábola de Jesus aborda questões do
presente; tentar extrair dela algo que não está nem no texto e nem no contexto
é torcer a Escritura. Na oração do Pai nosso, ele ensinou que devemos
pedir perdão em vida, agora e não no além “Perdoa as nossas ofensas, assim como
nós perdoamos a quem nos tem ofendido” A
parábola em questão e todo o assunto do perdão desenvolvido em Mateus 18 aborda
eventos terrenos, e não a vida após a morte. O homem que se recusou a perdoar
seu semelhante, após ter sua própria dívida perdoada, foi aprisionado neste
mundo. A parábola não menciona a morte, nem o aprisionamento no além, até que
sua dívida fosse totalmente saldada. O texto afirma isso claramente. Uma
interpretação atenta revela essa mensagem. É surpreendente que certas
autoridades religiosas ou apologistas distorçam o texto para defender
interpretações que não se sustentam em uma leitura simples e cuidadosa.
Paulo
e a passagem de I Coríntios 3
A outra passagem comumente é mencionada para
tentar provar a doutrina do purgatório ou de perdão de pecados no além, após
essa vida, é 1 Coríntios, capítulo 3. No versículo 13, 14, 15 diz assim: A obra
de cada um se manifestará. Na verdade o dia declarará porque pelo fogo será descoberta
e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificar
nessa carne permanecer ele se receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar
sofrerá detrimento mas o tal será salvo todavia como pelo fogo. Inicialmente,
é fundamental compreender que o texto em questão não aborda a questão dos
pecados, mas sim as ações ou obras individuais dos cristãos. Essa distinção é
crucial, pois tentar obscurecer essa diferença, manipulando a terminologia para
justificar interpretações inadequadas, é uma prática freqüente entre heréticos.
No capítulo 3 e versículo 13, de I Corintios encontramos a afirmação de que
"a obra de cada um se manifestará". Portanto, não se trata de pecado,
mas sim das obras pelas quais, na perspectiva da mordomia cristã, prestaremos
contas a Deus. A distinção entre pecado e obra é essencial para a correta
compreensão do texto. Caso contrário, corre-se o risco de distorcê-lo,
incorrendo em interpretações heréticas para sustentar outro evangelho.”De
maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus” (Romanos 14:12)
Percebemos com
clareza que Paulo discorre sobre as obras dos cristãos. A Primeira Epístola aos
Coríntios é uma carta endereçada aos cristãos, destinada à leitura nas
assembleias cristãs. Portanto, a mensagem é direcionada aos cristãos, tratando
de suas obras. A obra de cada um se revelará. Não se trata, em absoluto, de
pecado. Interpretar de outra forma é distorcer o texto. A obra de cada um se
manifestará. Se o assunto estivesse relacionado à nossa salvação, Paulo estaria
implicitamente ensinando que somos salvos pelas nossas ações, e não pela obra
de Jesus Cristo. Contudo, o texto não aborda essa questão. Ele foca naquilo que
realizamos com nosso corpo, em relação à nossa responsabilidade e prestação de
contas a Deus. Por conseguinte, a ênfase é nas obras e seus resultados, como recompensas
e galardões, não se refere à salvação, mas a um assunto pertinente àqueles que
já foram salvos.
É crucial compreender que o texto em questão não apresenta qualquer sugestão de que o fogo mencionado por Paulo purifique pecados. Essa interpretação seria completamente infundada e própria de quem adota uma visão equivocada e até mesmo herética das Escrituras. Devemos, ainda, entender o sentido preciso do "fogo" ao qual Paulo se refere. De forma alguma se trata de um fogo literal. A ideia de que Deus é como um fogo consumidor, conforme descrito em Hebreus 12:29, nos auxilia a entender o significado. Ao comparecer diante de Deus para prestar contas de nossas ações e obras, Ele se revelará como esse fogo consumidor, e apenas o que for genuíno e autêntico poderá subsistir em Sua presença.
No texto de Paulo, não se trata de fogo de
purificação de pecados, mas de teste de obras. Essa mesma
ideia se manifesta em Apocalipse 1, onde Jesus é descrito com olhos como chama
de fogo, simbolizando sua capacidade de discernir e avaliar todas as nossas
intenções e ações. Seja em busca de glória pessoal, reconhecimento ou,
primordialmente, para glorificar a Deus, cada um de nós comparecerá perante o
tribunal de Cristo para prestar contas. É nesse contexto que a questão
do perdão é relevante. Paulo não aborda o tema do perdão de pecados, mas sim o
das obras. Sua discussão não se centra na salvação, mas na recompensa, nos
prêmios que cada um receberá. Compreender essa distinção é fundamental para uma
interpretação correta do texto.
É lamentável que
alguém responsável por conduzir pessoas para a eternidade não tema torcer as Escrituras
para enganá-las com uma falsa esperança, mais lamentável ainda que pessoas sinceras
se deixem iludir por quem torce as Escrituras, deixando que a sedução do engano
feche os olhos do entendimento. Minha oração, é que muitos possam receber luz
espiritual verdadeira para entender a verdade tal como ela é.
C. J. Jacinto
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