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MORTOS ESPIRITUAIS E A CEGUEIRA DO ENTENDIMENTO

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MORTOS ESPIRITUAIS E A CEGUEIRA DO ENTENDIMENTO

Uma análise exegético-teológica acerca da condição do homem adâmico,

do modus operandi de Satanás e do poder vivificante do Evangelho

Clavío J. Jacinto



 

I. Introdução: A Questão Central da Condição Humana

Poucas questões são tão urgentes para a teologia bíblica quanto a compreensão precisa da condição espiritual do homem não-regenerado. Não se trata, convém frisar desde o início, de mero exercício intelectual ou de contenda acadêmica estéril. Trata-se, antes, de compreender com exatidão aquilo que a Escritura Sagrada proclama sobre o estado ontológico do ser humano fora de Cristo — e, consequentemente, sobre a natureza da obra redentora que o Evangelho realiza.

A declaração paulina contida em II Coríntios 4:4 constitui, nesse sentido, um dos textos mais decisivos e luminosos de todo o cânon neotestamentário. Ali, o Apóstolo desvela com precisão cirúrgica tanto a condição trágica do incrédulo quanto o agente responsável por perpetuá-la:

II Coríntios 4:4 — "...nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do glorioso evangelho de Cristo, que é a imagem de Deus."

Nesta sentença densa de conteúdo soteriológico, o Apóstolo nos revela o modus operandi de Satanás — o "deus deste século" — e nos oferece a chave hermenêutica para compreender grande parte da incredulidade que assola o homem adâmico em todas as épocas e culturas.

 

II. O Modus Operandi de Satanás: A Cegueira do Entendimento

O título atribuído ao Diabo em II Coríntios 4:4 — "deus deste século" (gr. ὁ θεὸς τοῦ αἰῶνος τούτου) — não implica soberania ontológica ou equiparação ao Deus Criador, mas antes domínio funcional e temporário sobre o sistema de crenças, valores e percepções do mundo caído. O Diabo opera como arquiteto de uma cegueira cognitivo-espiritual que incapacita o incrédulo de perceber as verdades gloriosas do Evangelho de Cristo Jesus.

Esta cegueira não é meramente intelectual, como se se tratasse de uma deficiência de raciocínio lógico. Ela é, em sua essência, de natureza espiritual — um obscurecimento do coração e um embargo imposto à faculdade do entendimento, de modo que as realidades do Reino de Deus permanecem inteiramente inacessíveis à percepção natural do homem não-regenerado.

O ateu, por exemplo, não rejeita a existência de Deus primariamente em razão de argumentos filosóficos sólidos, mas porque opera sob esta cegueira estrutural: não tem percepção espiritual que lhe permita discernir as evidências da existência divina gravadas na criação e na consciência moral. Da mesma forma, o ocultista, seduzido por manifestações de poder sobrenatural, não percebe que um anjo de luz pode ser, na verdade, um demônio disfarçado — como o próprio Paulo adverte em II Coríntios 11:14:

II Coríntios 11:14 — "E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz."

Eis a perfeição diabólica desta estratégia: o inimigo não apenas cega — ele substitui a luz verdadeira por uma contrafação luminosa, capaz de enganar precisamente aqueles que buscam o sobrenatural fora da revelação cristã.

 

III. A Natureza do Morto Espiritual: Uma Análise Exegética de "Nekros"

Um dos pontos de maior controvérsia na teologia sistemática diz respeito à natureza exata da morte espiritual. Há uma corrente de pensamento — frequentemente fundamentada em silogismos lógicos deduzidos de um único sentido do vocábulo "morte" — que sustenta que o morto espiritual seria absolutamente desprovido de vontade, percepção, volição, imaginação e responsabilidade moral.

Esta posição, embora dotada de aparente coerência silogística, não encontra sustentação quando submetida ao rigoroso exame da semântica bíblica e do uso contextual das Escrituras. O uso de silogismos para se chegar a conclusões doutrinárias nem sempre é um método suficiente no contexto das Escrituras Sagradas — pois a linguagem bíblica é simultaneamente histórica, poética, analógica e pneumática, resistindo frequentemente à redução puramente lógico-formal.

O termo grego nekros (νεκρός), central para esta discussão, possui um espectro semântico que vai muito além da simples ausência de vida biológica. Uma análise lexicográfica aprofundada revela os seguintes campos de sentido:

 

1. Sentido literal-substantivo: pessoa morta, cadáver — aquele que está totalmente "desligado" deste mundo.

2. Sentido metafórico: morto para uma coisa, não mais devotado a, ou sob a influência de uma coisa — como em Romanos 6:11, onde o crente é chamado a se considerar morto para o pecado.

3. Morto em alienação de Deus: Efésios 2:1 e 5; Colossenses 2:13 — sentido espiritual-relacional, descrevendo a separação do homem em relação à fonte de vida divina.

4. Sujeito à morte, mortal: Romanos 8:10 — o corpo está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça.

5. Que causa morte e miséria, fatal, destrutivo: Hebreus 6:1; 9:14 — obras mortas que não produzem vida ou fruto espiritual.

Esta riqueza semântica é fundamental para evitar o equívoco de reduzir a morte espiritual à total paralisia funcional do ser humano. Em Mateus 8:22, o próprio Senhor Jesus emprega o vocábulo nekros em um duplo registro: "Deixai os mortos sepultarem os seus mortos." A exegese contextual revela que o primeiro "mortos" é empregado metaforicamente — referindo-se a pessoas espiritualmente mortas —, enquanto o segundo designa os mortos literais e biológicos. O fato de que o morto espiritual é chamado a realizar uma ação social concreta (sepultar) demonstra cabalmente que a morte espiritual não implica ausência de volição, atividade, pensamento, escolha ou responsabilidade moral.

Da mesma forma, na parábola do filho pródigo em Lucas 15:24, o pai exclama: "Porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado." Ali, nekros é aplicado a alguém que fez escolhas deliberadas — inclusive a escolha de retornar arrependido ao lar paterno. A morte espiritual, portanto, coexiste com a agência moral, a consciência, a imaginação e a volição humanas.

 

IV. A Consciência do Morto Espiritual: Ativa, Porém Cativa

É teologicamente impreciso e exegeticamente insustentável afirmar que a consciência do morto espiritual está inativa. O que a Escritura nos ensina é algo mais sutil e, ao mesmo tempo, mais dramático: a consciência do morto espiritual está funcionando, mas operando sob uma maldita e profunda cegueira. Sua percepção não está inativa — está afetada pela cegueira do entendimento e pelo obscurecimento do coração.

Como Paulo descreve em Efésios 2:1-2, o morto espiritual está vivo em suas transgressões e pecados, "andando segundo o curso deste século, segundo o príncipe das potestades do ar". Há, portanto, atividade, movimento, direcionamento — mas tudo isso sob o domínio e a influência do inimigo, na escuridão de um espírito separado de Deus.

O espírito do homem não-regenerado está morto no sentido relacional-teológico: separado de Deus, separado de Cristo, desprovido da presença habitante do Espírito Santo. A morte espiritual é, em sua essência, uma morte de comunhão, não uma morte de existência ou de funcionalidade cognitiva.

 

V. O Evangelho como Agente de Vivificação: Da Cegueira à Luz

Se a cegueira do entendimento é obra do inimigo, a iluminação do entendimento é obra de Deus — e o instrumento privilegiado desta obra divina é o Evangelho de Cristo Jesus. Paulo afirma que Deus fez resplandecer nas trevas a luz, a fim de que ela brilhe em nossos corações para a iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo (II Coríntios 4:6).

À medida que alguém recebe a luz espiritual do Evangelho, pode — pela ação soberana do Espírito Santo — ter percepção de sua condição trágica de miserável pecador com um destino catastrófico: o lago de fogo. Esta percepção não é fruto de raciocínio filosófico sofisticado; é o resultado da iluminação pneumática operada pela Palavra de Deus viva e eficaz.

O caráter vivificante do Evangelho é atestado com vigor nas Escrituras. O autor de Hebreus declara:

Hebreus 4:12 — "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir a alma e o espírito, as juntas e os tutanos, e é apta para discernir os pensamentos e as intenções do coração."

O Apóstolo Pedro, por sua vez, estabelece a conexão direta entre a Palavra de Deus e a regeneração do ser humano:

I Pedro 1:23 — "Sendo gerados de novo, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus viva que permanece para sempre."

O Evangelho, portanto, não é apenas uma mensagem informativa ou moralmente edificante — ele é agente de transmissão de vida divina. É por meio dele que o Espírito Santo opera a regeneração, desbloqueando a escuridão do entendimento e habitando no espírito do homem que crê.

 

VI. A Regeneração: Vivificação do Espírito e Desobstrução do Entendimento

A regeneração — ou novo nascimento — é precisamente a intervenção divina que reverte a condição descrita em Efésios 2:1-2. Paulo descreve este ato soberano de Deus com a palavra vivificação: "Deus, sendo rico em misericórdia, por seu grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em ofensas, nos deu vida juntamente com Cristo" (Efésios 2:4-5).

A regeneração opera em dois planos simultâneos e indissociáveis: primeiramente, ela desobstrui a escuridão do entendimento — aquela cegueira imposta pelo deus deste século — permitindo que a luz do Evangelho resplandecça com plena clareza; em segundo lugar, ela introduz a presença habitante do Espírito Santo no espírito do homem regenerado, estabelecendo uma comunhão ontológica com o Deus Triúno que a morte espiritual havia rompido.

É nesse sentido que o morto espiritual, ao ser vivificado, não apenas adquire novas informações — ele adquire uma nova natureza, novos afetos, nova percepção e nova capacidade de responder ao Deus que ele antes não podia, nem queria, conhecer. Tiago ilustra esta dinâmica de forma eloquente ao afirmar que a fé sem obras é morta (Tiago 2:17, 20, 26): mesmo que a fé seja funcionalmente intelectual, ela permanece morta — nekros — se não produzir frutos inerentes à sua natureza espiritual. A vida regenerada, ao contrário, manifesta-se necessariamente em frutos visíveis.

 

VII. Conclusão: Pela Graça, da Morte à Vida

A análise teológica e exegética que empreendemos neste artigo nos permite formular as seguintes conclusões com sólido fundamento escriturístico:

Primeira: O modus operandi de Satanás consiste em cegar o entendimento dos incrédulos (II Coríntios 4:4), impedindo que percebam as verdades gloriosas do Evangelho de Cristo Jesus.

Segunda: A morte espiritual — descrita pela palavra grega nekros — não implica ausência de consciência, volição, percepção ou responsabilidade moral, mas sim separação relacional de Deus e catividade sob a cegueira do entendimento.

Terceira: O uso de silogismos, por mais rigoroso que seja em outros domínios do saber, não esgota o significado das Escrituras, que exigem análise contextual, histórica, literária e pneumática.

Quarta: O Evangelho é agente de vivificação espiritual, pois a Palavra de Deus é viva e eficaz (Hebreus 4:12), e opera o novo nascimento (I Pedro 1:23), desbloqueando a escuridão do entendimento e introduzindo o Espírito Santo no espírito do homem regenerado.

Quinta: O morto espiritual que é vivificado não apenas recebe informação nova — recebe vida nova, percepção nova e comunhão restaurada com o Deus Triúno, conforme exemplificado na parábola do filho pródigo (Lucas 15:24).

Que esta reflexão sirva não apenas para esclarecer controvérsias doutrinárias, mas para acender em cada leitor uma renovada reverência diante da graça soberana de Deus — que, em Cristo, desperta os mortos, ilumina os cegos e transforma pecadores miseráveis em filhos adotados do Pai celestial. Soli Deo Gloria.

 

 

Clavío J. Jacinto

www.heresiolandia.blogspot.com

A VIDA ESPIRITUAL DO HOMEM REGENERADO

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A VIDA ESPIRITUAL DO HOMEM REGENERADO

 

C. J. Jacinto

 

 

Em Tiago, capítulo 2, versículo 26, encontramos a verdade fundamental de que "O corpo sem o espírito está morto." De fato, é sabido que fomos criados de tal maneira que o espírito interage intrinsecamente com o corpo, capacitando-o a experimentar e a relacionar-se com o mundo físico. Tal é a concepção divina.
 Considere-se, por exemplo, nossos olhos, que captam e transmitem os estímulos visuais — imagens, luz e cores — ao cérebro. Este, por sua vez, decodifica esses sinais, permitindo a compreensão das realidades físicas. O ser humano, em sua constituição corpórea, vivencia a interação com o mundo exterior precisamente em virtude do espírito que o habita. Afinal, a audição, o olfato, o tato, o paladar e a visão são experiências sensoriais que só se manifestam em seu contexto a experiência do mundo físico pelo corpo enquanto o espírito reside no nele.
 Caso o espírito se separe do corpo, as funções vitais, incluindo as cerebrais e as dos órgãos dos sentidos, cessam. Evidencia-se, assim, que essas capacidades perceptivas e a própria virtude existencial também de alguma forma são atributos inerentes ao espírito, e não meramente ao corpo.(Lucas 16:19 a 31)


 À luz do contexto geral das Escrituras, compreendemos que o ser humano foi criado em um universo com o qual estabelece uma interação recíproca. Nesse diapasão, entendemos que o homem é dotado da capacidade de perscrutar os astros, decifrar a mecânica celeste e as estruturas cósmicas, bem como de imergir no universo atômico, desvendando seus enigmas e complexos sistemas de funcionamento. Essa aptidão inerente advém do fato de o homem ter sido concebido para interagir com a criação, e a criação, por sua vez, para interagir com ele.

 Contudo, percebemos que a Queda alterou profundamente essa percepção, tornando nossa compreensão atual consideravelmente deficiente.  Adão, era detentor de uma acuidade perceptiva profunda sobre todas as coisas, difere substancialmente do ser humano contemporâneo debaixo das conseqüências da queda. A Queda e o pecado corromperam as estruturas de nosso conhecimento e de nossas capacidades, resultando em uma acentuada dificuldade para apreender a totalidade das coisas, em notável contraste com a clareza que o homem desfrutava antes de ser afetado por tal evento.

 Desejo apresentar dois exemplos de percepções equivocadas ou de dificuldades na compreensão de verdades profundas e essenciais. Inicialmente, a Queda incutiu na humanidade, de certa forma, a inclinação ao ateísmo, levando-a a questionar veementemente a existência de um Criador.

 Adicionalmente, uma segunda dificuldade de percepção reside na completa perda, pós-Queda, da capacidade humana de discernimento no âmbito espiritual, resultando na sua inaptidão intrínseca para distinguir, por si só, entre um espírito das trevas e um espírito de luz. Esclareço que a menção a "espíritos das trevas" e "espíritos de luz" não possui, neste contexto, conotação esotérica. Utilizo tais termos para designar os espíritos que estão em Deus, conforme delineado em 1 João 4:1-6, na admoestação acerca da prova dos espíritos — estes representam os anjos do Senhor —, em contraste com os espíritos malignos e demônios, também apresentados nas Escrituras. (Efesios 6:10 a 18) ou seja, o mundo espiritual caído e o mundo espiritual preservado da queda.

 Consequentemente, o homem comum, isto é, o homem natural, carece da faculdade de discernir tais realidades. Embora reconheça a existência de um plano espiritual, ele ignora a identidade dos agentes atuantes e não tem uma capacidade intrínseca natural a isso. Esta condição configura uma cegueira espiritual que o predispõe tanto ao engano quanto à propagação de equívocos. É por essa razão que a evocação e invocação de espíritos são práticas expressamente vedadas nas Escrituras.

Contrariamente, a condição primordial de Adão distinguia-se. Ele detinha a inabalável convicção da existência divina e uma profunda percepção de comunhão com seu Criador, a qual não foi totalmente obliterada após a Queda. Tal persistência é observável nos capítulos posteriores a Gênesis 3, onde emergiu um remanescente que invocava o nome do Senhor. No âmago do ser humano, remanesceu um impulso intrínseco,(induzido pelo Espirito Santo) um princípio fundamental que instiga à necessidade de cultuar e reverenciar uma divindade. Essa inclinação manifestou-se entre poucos, como Enos, descendente da linhagem de Sete, por intermédio de quem se iniciou a invocação do nome do Senhor. Essa era a compreensão singular de alguns poucos a respeito de um Deus Altíssimo, de uma Suprema Majestade. A vasta maioria da civilização daquela epoca, em contrapartida, sucumbiu à idolatria e ao politeísmo. Conforme a história humana atesta de forma inequívoca, o homem é, por sua essência, um ser intrinsecamente religioso. Esta peculiaridade é exclusivamente humana, sendo inerente apenas a ele dentre todas as criaturas terrestres.

 Após a Queda, não houve senão a morte. Esta, acima de tudo, detém um significado profundo e, para alguns, até mesmo complexo. No entanto, as Escrituras a elucidam com clareza, apresentando-lhe duas acepções principais. A primeira denota a separação entre o homem e Deus. A segunda, por sua vez, consiste na separação entre o espírito e o corpo.

 Entendemos, portanto, que a Queda ocasionou a ruptura da comunhão íntima com Deus. Consequentemente, a regeneração restaura essa intimidade rompida. Como isso se processa? Quando o cristão se converte ao Senhor e vivencia a genuína experiência da regeneração, o Espírito Santo passa a residir permanentemente na vida do novo nascido.

 Ao lermos a Epístola aos Efésios, no capítulo 2, versículos 1 e 6, compreendemos a condição de morte espiritual do homem, que jazia em suas transgressões e pecados. É fundamental recordar que a encarnação do Verbo, quando Jesus se fez homem, implicou em seu esvaziamento, assumindo a forma de servo para morrer na cruz do Calvário, a fim de realizar a redenção eterna. Essa obra foi efetuada pelo poder e influência do Espírito Santo. Em João, capítulo 14, versículo 16, Jesus prometeu a vinda do Espírito Santo, que permaneceria para sempre com os crentes. A regeneração espiritual é o ponto de partida para essa promessa. A morte de Cristo, sua ressurreição, ascensão e entronização à direita de Deus foram seguidas pela vinda do Espírito Santo. Essa sequência estava nos planos divinos: a descida do Espírito Santo para habitar nos salvos aconteceria após a morte de Cristo pelos nossos pecados, sua ressurreição para nossa justificação e sua ascensão para ser nosso mediador à direita de Deus. Na antiga aliança, a presença divina parece ser algo extrínseco sob a cobertura de um grosso véu e um acesso restrito, embora em certos momentos, a Presença Divina se Deu de forma pessoal como ocorreu na chamada de Abraão ou nas manifestações da sarça ardente e posteriormente no Sinai.


Ao falecer, o indivíduo regenerado experimenta a separação do corpo e do espírito. Contudo, conforme a promessa de Jesus em João 14:16, o Espírito Santo permanece conosco para sempre. Entende-se, portanto, que o espírito do salvo, embora separado do corpo, pertence a Deus. O Espírito Santo, então, toma posse do espírito do crente e o conduz à presença divina, estabelecendo uma interação íntima. Como o apóstolo Paulo escreveu, o Espírito Santo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. (Romanos 8:16)

 Assim, o regenerado é propriedade de Deus, adquirido através da redenção realizada na cruz do Calvário. O preço pago foi o sangue imaculado de Jesus, garantindo ao Espírito Santo a total posse do espírito humano. Por isso somos chamados de templo do Espírito Santo. O Espírito Santo não apenas habita e salva, mas também possui o nosso espírito, de modo que, no momento da morte, o espírito, separado do corpo, permanece sob o domínio e a posse do Espírito Santo, sendo conduzido à presença do Senhor até o dia da ressurreição.

 A Redenção, portanto, engloba a restauração da comunhão e, posteriormente, com a glorificação do corpo, a restauração integral do ser conforme a vontade divina original para o homem. Adicionalmente, implica uma nova expectativa: o homem regenerado e ressuscitado terá a semelhança do Filho de Deus. Devemos, pois, considerar 2 Coríntios, capítulo 5, versículo 17, onde Paulo declara que "se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo". Ao afirmar que tudo se fez novo, Paulo indica que a principal característica do homem regenerado reside em sua renovação mental, em novos anseios e desejos. O desejo primordial é servir a Deus, seguir a Cristo e obedecer a Seus preceitos, encontrando deleite nas coisas espirituais. O homem regenerado não é um homem natural, mas sim um homem espiritual. Sua espiritualidade provém do fato de não estar mais morto em ofensas e pecados, mas vivificado em Cristo Jesus pelo poder e pela obra do Espírito Santo, que nele habita e opera.

 O homem espiritual não está separado do Divino Espirito Santo, mas está unido a Ele, de modo que essa é uma restauração de comunhão divina, a resolução do problema da morte espiritual, a garantia da ressurreição com um corpo glorificado e por fim a vida eterna.

 A pergunta pertinente é essa: Você já creu em Cristo como seu salvador para passar pela experiência da regeneração?

 

 

SOBRE O SIGNIFICADO BÍBLICO DA MORTE ESPIRITUAL

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Por Ícaro Alencar de Oliveira

 

 

"Porque ESTE MEU FILHO ESTAVA MORTO, E REVIVEU, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se. Mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e achou-se." (Lc. 15:24,32)

Não podemos permitir que o ensino claro das Escrituras Sagradas acerca do que significa a Morte Espiritual, seja turvado, de modo a admitir, erroneamente, que o homem morto em seus delitos e pecados seja comparável a um defunto humano, totalmente incapaz.

O significado primário da Morte Espiritual é separação de Deus, não aniquilação em relação a Deus; isso significa que o estado de morte espiritual do homem não necessita implicar na sua INCAPACIDADE TOTAL de cooperar voluntariamente com a graça salvadora, operada no pecador pelo Espírito Santo. A separação em relação a Deus não anula a liberdade liberária do ser humano, nem precisa significar que o homem não pode querer a Deus, uma vez que a graça o tenha atraído (Jo. 12.31).

Qual é, então, o grande problema de se assumir a "morte espiritual" como "aniquilação espiritual", comparável a um "defunto"?

Primeiramente, a própria figura comparativa da morte espiritual como um defunto, não alcança o sentido bíblico da doutrina exposta nas Escrituras; ora, um cadáver humano é incapaz de fazer qualquer coisa, INCLUSIVE PECAR! Mas vemos que a morte espiritual mencionada nas Escrituras inclui a prática contínua de pecados e decisões morais pecaminosas:

"Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência; entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também." (Ef. 2:2-3)

Observe os verbos nessa passagem: "andastes", "andávamos", "fazendo [a vontade da carne]", "éramos". Consegue imaginar um defunto fazendo quaisquer uma destas coisas? Certamente não.

Quando pecou contra Deus, Adão e Eva foram capazes de responder ao Criador (Gn 3.8ss.). A questão em torno da Morte Espiritual não diz respeito à possibilidade de o homem começar e dar o primeiro passo do processo da salvação por si e de si mesmo, a parte da graça de Deus; aqui, todos concordam com o sentido lato de "separação". Insistimos, porém que Cristo mesmo atrairia a todos (observe que atrair não é coagir).

O problema é quando a Depravação total, que significa a corrupção de cada aspecto do ser humano, passa a significar incapacidade total e pressupõe que Deus é quem causa a vontade de crer ao conceder a fé apenas aos eleitos, o que afeta completamente a teologia do arrependimento e torna a salvação um teatro determinista divino.

Ora, neste sentido, a teologia do arrependimento é completamente esvaziada de seu sentido de uma oferta genuína de Deus para todos os pecadores, e implica numa exigência que necessita ser irresistivelmente imposta sobre o homem eleito para que possa ser satisfeita; a situação se torna ainda mais vexatória quando observamos que, se a incapacidade total é verdadeira, e Deus capacita apenas os eleitos a satisfazer aquela exigência divina de arrependimento e fé, logicamente, ao exigir dos não-eleitos que façam aquilo que Deus sabe que são totalmente incapazes de fazer, se de fato a morte espiritual significa a aniquilação total, concluímos que não houve nada que o homem pudesse rejeitar, pois nada lhe fora verdadeiramente oferecido, pois, supostamente, apenas o seleto grupo dos eleitos podem apropriar-se dessa capacidade, e, como insistem os deterministas, um defunto morto não pode fazer nada; mas um ser humano separado de Deus, sob influência, iluminação e influência antecedente da graça, é capaz de vir a fé e então nascer de novo, nessa ordem.

Finalmente, as imagens que ilustram estas poucas palavras, representam o sentido bíblico de um filho que estava morto e reviveu, e o sentido imposto às Escrituras para que coadunassem com sínodos, confissões e tradições humanas, nascidas com Agostinho de Hipona, no séc. V, que em sua velhice retornou às suas raízes gnóstico-maniqueístas, após duas décadas ensinando a doutrina tradicional da cristandade dos primeiros quatro séculos, que afirmava a soberania divina e o livre-arbítrio humano.