A SABEDORIA DE DEUS E A LIBERDADE DE JONAS

0 comentários

 


 .

 

C. J. Jacinto

 

 

Em Jonas, capítulo 1, versículo 3, encontrei, ao longo de muitos anos, um ponto de reflexão. A meditação não se limitou a este versículo, mas se estendeu a todo o livro, que tem sido para mim uma fonte de profunda análise sobre a vontade divina, os decretos de Deus e a vontade humana. Neste texto, observamos um conflito, um embate de vontades.

 Na passagem mencionada, lemos que Jonas se levantou para fugir da presença do Senhor, dirigindo-se a Társis. Descendo a Jope, encontrou um navio que se destinava a Társis. Pagou a passagem e embarcou, com o intuito de ir com os demais tripulantes para Társis, distante da presença do Senhor.

 O Deus Altíssimo e Soberano convocou Jonas. A este, foi incumbida a pregação do arrependimento em Nínive, por ordem divina, em cumprimento da vontade de Deus. O Senhor, comunicando-se com Jonas, filho de Amitai, proferiu uma ordem expressa, emanada diretamente do trono celestial: "Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela, pois a sua maldade subiu até mim." Contudo, após ouvir a determinação do Deus Todo-Poderoso, soberano sobre todo o universo, Jonas tomou uma decisão contrária. Levantou-se e optou por seguir em direção oposta à vontade divina. A princípio, a inclinação de Jonas pareceu conduzi-lo em sentido diverso. Diante da ordem, ele decidiu, por livre arbítrio, embarcar em um navio com destino a Társis. Observa-se, portanto, a clara oposição da vontade de Jonas à instrução recebida.
Deus permitiu, nesse contexto, a manifestação de Sua vontade permissiva, concedendo a Jonas a liberdade de escolha. Jonas, em uma atitude definida, optou por não atender à vontade divina. Assim, agindo por sua própria decisão, contrariou o desígnio de Deus. Apesar de Sua soberania e autoridade suprema, Deus permitiu essa escolha, e Jonas, por ela, arcou com as conseqüências.
 Essa postura divina, que permite ao homem tomar suas próprias decisões, é uma expressão da liberdade que Deus lhe concede. No livro de Jonas, observamos esse princípio em ação. Jonas, em vez de cumprir a ordem divina, dirigiu-se a Társis. Houve, portanto, um intervalo entre o chamado e a resposta de Jonas, durante o qual Deus permitiu que ele exercesse sua liberdade de escolha. As decisões tomadas por Jonas, que Deus permitiu, o levaram a enfrentar as consequências de seus atos.

 Diante da decisão de Jonas de ir para Társis, em desacordo com a ordem divina, Deus, embora possuísse o poder de intervir imediatamente, optou por permitir que Jonas seguisse sua própria vontade. Mesmo sendo a autoridade suprema e detentor do domínio sobre todas as coisas, inclusive sobre seus profetas, Deus permitiu que Jonas se afastasse, aparentemente, de Sua presença. Essa postura divina, que observa e permite, nos oferece profundas reflexões sobre a relação entre a vontade de Deus e a vontade humana. Compreendemos, então, que Deus, em determinado período, concedeu a Jonas a liberdade de agir, permitindo que suas escolhas direcionassem seu destino. A intervenção divina, nesse contexto, foi adiada, demonstrando o respeito de Deus pela autonomia de Jonas.


 Deus, em sua onipotência, poderia ter ordenado que Jonas se dirigisse a Nínive sem permitir qualquer objeção. Contudo, Deus permitiu que Jonas exercesse sua liberdade de escolha. Observa-se que, na experiência humana, a liberdade, ou a permissão divina para agir livremente, frequentemente leva o homem, em razão de sua natureza pecaminosa, a desviar-se do caminho correto e a opor-se à vontade de Deus. Contudo, na narrativa de Jonas, desde o momento em que ele tenta fugir de seu chamado até a iminência do naufrágio, percebemos a intervenção divina por meio da tempestade, visando conduzir Jonas de volta ao seu propósito original. Durante esse período, Deus permitiu que Jonas agisse de acordo com sua própria vontade.
A narrativa de Jonas nos oferece valiosas lições. Deus, em sua soberania e em conformidade com sua santa vontade, justiça e misericórdia, permite que o homem exerça seu livre-arbítrio. Essa concessão evidencia a incapacidade inerente ao ser humano de, por si só, discernir e escolher o caminho que agrada a Deus. A tendência natural do homem é desviar-se da vontade divina, como ilustrado na história de Jonas.

 Não é necessário que Deus determine as más ações do homem; estas emanam da própria natureza pecaminosa humana. O homem, em sua condição caída, segue esse curso desde que lhe é concedido à liberdade de agir. Mais cedo ou mais tarde, ele se afasta e age em desacordo com a vontade de Deus. Essa é uma lição que devemos continuamente internalizar. Deus concede ao homem certa autonomia, mas este, em sua fragilidade, não consegue, por seus próprios meios, trilhar o caminho da justiça e da vontade divina. Ao conceder a Jonas a liberdade de escolha, este optou por um curso de ação contrário à vontade de Deus, guiado por seus próprios desejos. Além disso, Paulo indica que Deus entrega uma sociedade para que siga livre em suas impiedades, caso o grau de rebelião seja avançado, Deus abandona totalmente a pratica de impiedade(Romanos 1:18 a 32). Não há nessas circunstancias nenhum decreto divino, anunciadas por Paulo em Romanos 1, mas conseqüências que irão resultar de uma depravação que se constitui o âmago de todas as perversões produzidas por uma sociedade que caiu na desgraça do abandono divino.

 Em seu texto notável, desejo repetir de forma didática, em Romanos, capítulo 1, versículos 18 a 32, Paulo aborda essa questão com muita clareza. No versículo 26 do primeiro capítulo de Romanos, Paulo declara que Deus os entregou a paixões infames. No versículo 28, lemos que, porquanto desprezaram o conhecimento de Deus, Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não convém. Percebe-se, portanto, que Deus, de certa forma, entrega o homem às suas próprias inclinações e consequências.

 Ora, todo homem é pecador. A Bíblia afirma que não há nenhum justo, nem um sequer. Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Dessa forma, quando o homem recebe de Deus uma medida de liberdade para fazer suas escolhas, ele frequentemente optará pelas coisas erradas e, por fim, será responsável por essas escolhas.
 A parábola do filho pródigo, narrada em Lucas 15:11-32, ilustra uma verdade fundamental. O filho mais novo, ao exercer sua liberdade, toma uma decisão pessoal e voluntária que ignora a vontade de seu pai. Ele escolhe partir, trilhando um caminho adverso que o conduz a graves consequências, afastando-se progressivamente. Essa jornada culmina em uma situação trágica e de profunda escuridão espiritual.

 À medida que se distancia, sua condição se agrava. Contudo, em determinado momento, ele se conscientiza de sua situação, provavelmente sob a influência do Espírito Santo, O Espirito Santo não induz ninguém a apostasia, ele induz a o regresso a ortodoxia, não o contrario! Em sua situação de extrema miséria, o pródigo é movido pela misericórdia divina. Reconhecendo o estado lastimável em que se encontra, decide retornar. Na sua decisão de se apostatar, a luz espiritual se apaga, mas no seu retorno aos princípios, é Deus quem acende a luz espiritual na consciência.

 Essa narrativa espelha a trajetória do homem, que, ao receber a dádiva da liberdade, muitas vezes se afasta do Senhor, trilhando um caminho de trevas e alienação.

Não se pode inferir que Deus esteja impedido de determinar algo sobre indivíduos ou sociedades. Ao contrário, reconheço a capacidade divina de fazê-lo. Meu objetivo, com base nas Escrituras, é ressaltar que Deus também concede ao homem certo grau de liberdade para que ele exerça sua vontade. Observa-se, no entanto, que, em geral, o homem tende a utilizar essa liberdade de maneira contrária à vontade de Deus. Contudo, essa liberdade, outorgada por Deus, será fundamental no julgamento final, quando todos comparecerão perante o trono divino. Deus concede a liberdade, mas a liberdade humana serve como prova no julgamento. Portanto, devemos estar vigilantes e buscar sempre cumprir a vontade de Deus.

Em Colossenses 1:9 Paulo ora para que os cristãos de Colossos sejam cheios do conhecimento da vontade de Deus, o contexto ensina que essa é a via pelo qual se estabelece um relacionamento correto com Deus, unicamente através do exercício da fé cristã. A vida secular e religiosa do homem adâmico será sempre deficiente, é uma liberdade restrita cuja direção induz para “Társis”, para fora da vontade de Deus. Só a luz do Evangelho brilhando sobre este “porão escuro” é capaz de despertar o homem pecador para o resgate que Cristo pode fazer.

 Dado que Deus é total e absolutamente soberano, Ele pode, por sua própria vontade, conceder a quem desejar uma medida de liberdade e capacidade de escolha. Essa capacidade de Deus é evidente, pois Sua soberania absoluta é inegável. A Escritura atesta, de forma inequívoca, essa realidade. Além disso, compreendemos que Deus, em Sua onipotência, tem a capacidade de estabelecer decretos, exercendo domínio sobre o tempo e agindo de acordo com Sua perfeita natureza, não nego isso em hipótese alguma, porém a graça e a misericórdia de um Soberano pode exercer a dádiva da liberdade para quem quer que seja. Por conseguinte, devido à Sua onisciência, onipotência e onipresença, e em Sua benevolência, Deus concede, mesmo aos seres criados, inclusive aqueles que estão em estado de queda, uma certa medida de liberdade para que exerçam suas escolhas dentro dos limites estabelecidos por Ele. Essa verdade é amplamente demonstrada e percebida nas Sagradas Escrituras.

Compreendo plenamente que o homem natural não pode discernir as coisas do Espírito, encontrando-se, portanto, em uma condição precária. Ao referir-se ao homem natural, Paulo alude ao homem adâmico, afetado pela Queda. Em Efésios, capítulo 2, a partir do versículo 2, lemos sobre como, outrora, o homem andava segundo o curso deste mundo, sob o domínio do príncipe da potestade do ar, o espírito que agora atua nos filhos da desobediência. Portanto, o homem adâmico não desfruta de liberdade total, só os filhos de Deus podem desfrutar de uma verdadeira liberdade; todos são enganados pelo príncipe das potestades do ar. Em certo sentido, o homem não possui livre arbítrio para escolher fazer a vontade de Deus, a menos que Deus lhe conceda entendimento dessa verdade. A ação do Espírito Santo na pregação do Evangelho é, portanto, essencial para que o pecador se arrependa e se converta.

 Que o homem recebe certa medida de liberdade e com isso ele usa para responder sua visão de vida e razão, não há duvida! Que Deus pode abandonar e deixar que uma sociedade pecadora siga livremente o curso de suas paixões carnais é um fato bíblico! A maior parte dos homens responderá por seus atos, justamente porque foi lhes mostrado o caminho da vontade de Deus, mas eles resolveram seguir o caminho da própria vontade. O juízo justo de um Deus Santo, Soberano e Perfeito cairá sobre homens pecadores que tomaram escolhas erradas.


 A proclamação do Evangelho frequentemente se apresenta como a ferramenta espiritual essencial para a abertura dos olhos e do entendimento, obscurecidos pela influência do "deus deste século" e pelo condicionamento imposto aos pecadores. Essa abertura é crucial para que o indivíduo responda positivamente ao Evangelho, quando sua mente e coração se tornam receptivos a essa verdade. Assim, a pregação e a proclamação do Evangelho são instrumentos vitais, possibilitando que o homem receba a iluminação necessária para discernir sua condição espiritual. Reforço, com base em passagens bíblicas, que Deus concede ao homem uma medida de liberdade para fazer suas próprias escolhas. Dessa forma, no Juízo Final, o homem será responsabilizado por essa liberdade que lhe foi concedida. Considero essa liberdade, em maior ou menor grau, uma grande dádiva divina, um reflexo da misericórdia de Deus para com o ser humano pecador, sujeito ao engano espiritual, conforme descrito em Efésios 2. Portanto, a liberdade que Deus concede ao homem é, de fato, uma bênção extraordinária, um testemunho da misericórdia divina.

 A narrativa de Jonas nos oferece uma valiosa lição. Deus, em sua infinita sabedoria, concede a Jonas a liberdade de escolha. Reconhecendo a soberania divina, observamos que Deus permite a Jonas tomar suas próprias decisões. Essa liberdade, limitada em sua duração, é, em certo sentido, condicional, pois a intervenção divina é inevitável. Deus age na vida de Jonas, enviando uma tempestade que o leva a reconsiderar suas ações e a buscar a vontade divina. Apesar disso, essa experiência inicial representa uma liberdade concedida por Deus a Jonas. Até certo ponto, Jonas desfruta dessa liberdade, mesmo que suas escolhas e decisões o conduzam por caminhos equivocados. Essa tendência humana a cometer erros, como evidenciado na história de Jonas, é parte da condição humana. Contudo, a intervenção divina tem o propósito de redirecionar a vontade de Jonas. Através dessa experiência, Jonas é levado a compreender a importância da soberania de Deus sobre a vida de todos os seres humanos. Mais incrível ainda é ver como Deus administra essa rebelião do profeta, pois na sua suprema soberania, o texto revela que Deus tem completo controle sobre a criação, enviando a tempestade, o grande peixe e induzindo os acontecimentos num processo tal que ali naquela tragédia de experiência profunda, o profeta engolido pelo grande peixe vai representar a gloriosa ressurreição de Cristo depois de consumar a obra redentora na morte na cruz.

 A liberdade de Jonas, como desejo enfatizar, embora limitada, foi genuína. Jonas vivenciou essa liberdade. Considero a narrativa de Jonas como um relato autêntico em todos os aspectos. Ela se insere na experiência humana e é registrada no texto sagrado como um paradigma de liberdade, algo que todos nós, em diferentes medidas, experimentamos. Acredito firmemente que, em virtude disso, somos responsáveis por nossas ações e escolhas. Especialmente em nosso tempo, quando as Escrituras Sagradas, com seu cânon completo e fechado, nos oferecem todas as orientações necessárias para viver uma vida orientada pela vontade divina e não pela nossa própria. (Salmo 119:105)




Vamos relembrar os fatos hisóricos, Deus interveio, enviando uma grande tempestade, e o curso dos eventos começou a mudar. Jonas foi lançado ao mar, e então um grande peixe o engoliu. Jonas perdeu completamente sua liberdade, sua capacidade de escolha. Encontrava-se agora no ventre do peixe, e ali, pela primeira vez, vemos Jonas orando. Quando oramos em nossa escuridão provocada pela desobediência, uma luz espiritual se acende em nosso espírito. Nos primeiros versículos do livro de Jonas, ao receber o chamado divino para pregar em Nínive, talvez em seu íntimo ele pudesse expressar o desejo: "Seja feita a minha vontade e não a vontade de Deus". Deus, porém, concedeu a Jonas a liberdade de prosseguir, abraçando seu destino, sua vida, como se fosse supostamente o senhor de sua própria história. Um equivoco a ser corrigido.  Contudo, agora, confinado no ventre do grande peixe, sua oração poderia ter se transformado em uma lâmpada para a cosnciencia. Ele poderia simplesmente estar dizendo: "Seja feita a tua vontade e não a minha". Essa mudança faria toda a diferença na vida de Jonas. Agora, a vontade de Deus deveria ser cumprida, e Jonas estava decidido a isso. Ao chegar à praia, Jonas tomou o caminho de Nínive, abandonando a ideia de Társis. Não se tratava de perda de liberdade, mas sim de uma experiência da verdadeira liberdade, pois a liberdade humana está atrelada ao propósito para o qual Deus existe. Deus projetou a existência de Jonas para ser um profeta, alguém que caminhasse na vontade de Deus, e não fora dela. Nesse sentido, podemos compreender as profundas escolhas presentes neste pequeno livro, onde a vida de Jonas é retratada dentro e fora da direção divina.


Da mesma forma, Deus age em nossas vidas. Sua permissão em relação às nossas escolhas é um ato de misericórdia, embora a liberdade que nos concede nos responsabilize. Portanto, necessitamos da luz divina, da orientação constante da voz de Deus. Afirmo a cada um de vocês que a Bíblia, como um livro concebido para perpetuar a palavra de Deus, apresenta verdades atemporais e extraordinárias. É uma sabedoria singular, pois Deus consegue comunicar-se com pessoas de todas as culturas e línguas através de um livro sagrado, por meio do qual Sua voz pode ser incessantemente propagada. Desejo que, por intermédio de pregadores que se baseiam nas Escrituras e são fiéis ao chamado, como Jonas, após o processo de aprendizado decorrente de suas escolhas, possamos ouvir essa voz divina e estarmos sempre atentos a Deus, frequentemente sem questionar Sua direção. Deus nos conduzirá, com certeza, ao caminho correto, apesar dos desafios e obstáculos. Ele sempre nos concederá a graça e o auxílio necessários para trilharmos a estrada da vontade divina, na qual nossa existência encontrará significado, respostas e nos encaminhará ao propósito para o qual fomos criados.




Embora Deus permita que muitos se desviem por meio de suas ações e decisões, é imprescindível reiterar minha inabalável crença na soberania e majestade do Senhor, Deus Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, e na de nosso Senhor Jesus Cristo, bem como na supremacia do Espírito Santo sobre nossas vidas.



Deus, em sua infinita sabedoria, concede a cada indivíduo a capacidade de fazer escolhas que moldam sua existência. Ele não interfere nessas escolhas, a menos que estejam alinhadas com Seus propósitos. Entretanto, como ensina a epístola aos Romanos, por vezes Deus permite que sigamos nossos próprios caminhos. Aqueles que, em sua obstinação, persistem em seus desejos e se tornam escravos de suas próprias inclinações, podem ser entregues a si mesmos.

Quando um indivíduo trilha o caminho da ilusão, guiado por uma visão distorcida da realidade, as conseqüências em longo prazo podem ser severas.

 Que possamos, humildemente, dobrar nossos joelhos e, diariamente, declarar: "Senhor, eis-me aqui, peregrino nesta Terra. Desejo caminhar sob Tua luz, ilumine meus passos e me conceda a sabedoria para escolher a Tua vontade, e não a minha. Amém."

 

 

Os Fundamentos do Dispensacionalismo: Uma Análise Doutrinária do Livro de Romanos

0 comentários


 


 

A compreensão adequada das dispensações divinas constitui um dos pilares fundamentais para a correta interpretação das Sagradas Escrituras. O apóstolo Paulo, em sua carta aos Romanos, apresenta-nos uma estrutura doutrinária magistral que revela os propósitos eternos de Deus para com a humanidade. Este estudo propõe-se a examinar, com reverência e diligência acadêmica, as quatro fundações essenciais contidas nesta epístola, demonstrando como elas estabelecem os alicerces do pensamento dispensacionalista.

O livro de Romanos, obra-prima da revelação paulina, divide-se naturalmente em quatro seções principais: Romanos 1-5 trata da justificação pela fé; Romanos 6-8 expõe a vida sob a graça; Romanos 9-11 aborda a questão de Israel no plano divino; e Romanos 12-16 oferece instruções práticas para a vida cristã. Cada uma destas divisões contribui para nossa compreensão do evangelho da graça e da economia divina nesta presente dispensação.

I. A Primeira Fundação: A Justificação pela Fé (Romanos 1-5)

A doutrina da justificação pela fé representa o fundamento sobre o qual repousa todo o edifício da teologia paulina. O apóstolo Paulo, cuja distinção dos doze apóstolos é claramente estabelecida em Romanos 1:1-7, apresenta-se como portador de um evangelho específico — aquele que ele chama de "meu evangelho" (Romanos 2:16; 2 Timóteo 2:8). Esta revelação única, centrada na ressurreição de Cristo, foi confiada a Paulo de maneira singular, estabelecendo seu apostolado distinto e sua autoridade doutrinária.

A Condenação Universal da Humanidade

O evangelho da graça inicia-se, paradoxalmente, com a revelação da ira de Deus (Romanos 1:18-20). Esta verdade solene estabelece que Deus, em Sua justiça, entrega a humanidade às consequências de sua rebelião. A mentira satânica que permeia a criação caída encontra seu justo juízo divino. Subsequentemente, Paulo demonstra que não apenas o mal evidente é condenado, mas também a chamada "bondade humana" (Romanos 2:1-16). A justiça de Deus opera segundo princípios absolutos, e a perfeição — não a moralidade relativa — constitui o padrão da retidão divina.

Particular atenção deve ser dada à condição do povo judeu (Romanos 2:17-24). A circuncisão e a Lei, outrora sinais de privilégio, revelaram-se insuficientes para produzir justiça genuína. A fé autêntica, como Paulo magistralmente demonstra, procede do interior, não de rituais externos ou conformidade legal. Esta verdade fundamental estabelece que nenhuma vantagem étnica ou religiosa pode substituir a necessidade da fé salvadora.

A Revelação da Justiça Divina

A expressão "Mas agora" (Romanos 3:21) marca uma transição dispensacional de suprema importância. Conforme observado em Efésios 2:11-13, existe uma clara distinção entre os diferentes evangelhos proclamados "no passado" e a revelação plena do propósito redentor de Deus que alcançou seu clímax em Cristo. A justiça de Deus é agora revelada "da fé para a fé" (Romanos 3:22-24), demonstrando que a expiação, embora ilimitada em seu escopo, aplica-se mediante a fé individual.

O conceito de redenção (Romanos 3:24-25) apresenta Cristo como nosso Parente Remidor, estabelecendo a expressão "em Cristo" como termo fundamentalmente redentor. A revelação presente da justiça divina estabelece a "lei da fé", demonstrando que pela fé — através da fé — estabelecemos a Lei em sua verdadeira função: revelar o pecado e apontar para Cristo.

Abraão e a Ilustração da Fé Justificadora

Romanos 4 apresenta Abraão como exemplo paradigmático da fé justificadora. Paulo demonstra meticulosamente que a fé não constitui obra meritória (Romanos 4:1-8). Tanto Abraão quanto Davi, este último vivendo sob a dispensação da Lei, ilustram que a justificação sempre foi pela fé, independentemente da época dispensacional. A paternidade dual de Abraão — pai tanto dos judeus quanto dos gentios crentes (Romanos 4:9-17) — revela o plano divino de incluir os gentios na família de Deus através do mesmo princípio que justificou o patriarca: a fé à parte da Lei.

A análise detalhada da fé salvadora em Romanos 4:18-25, usando Abraão como exemplo supremo, culmina na gloriosa afirmação da segurança eterna do crente (Romanos 4:25-5:2). Nossa justificação está registrada nos céus como recibo eterno da obra consumada de Cristo. As provações que enfrentamos (Romanos 5:3-11) são tratadas positivamente por Deus, que, tendo iniciado Sua obra em nós, é plenamente capaz de completá-la (Filipenses 1:6). A expressão "muito mais pela expiação" (Romanos 5:9-11) ressoa com a confiança expressa em 2 Coríntios 4:14-18.

A seção conclui com a profunda teologia do segundo Adão (Romanos 5:12-21), estabelecendo o contraste entre morte no primeiro Adão e vida no último Adão, Cristo Jesus. Esta verdade fundamental estabelece a base para compreender nossa identidade em Cristo e a natureza da salvação pela graça.

II. A Segunda Fundação: Vivendo sob a Graça (Romanos 6-8)

Tendo estabelecido a doutrina da justificação, Paulo dirige-se agora à questão prática de como viver sob a graça. Esta seção responde às objeções antinomianas que poderiam surgir de um entendimento errôneo da graça divina.

A Graça Não É Licença para Pecar

Romanos 6:1-14 aborda diretamente a primeira objeção: a graça seria licença para pecar? Paulo responde enfaticamente que estamos mortos para o pecado, mas vivos para Deus. A primeira questão é respondida nos versículos 12-14, estabelecendo que o domínio do pecado foi quebrado. A segunda objeção (Romanos 6:15-23) é similarmente refutada: a graça, longe de promover libertinagem, constitui a verdadeira motivação para a santidade. Os versículos 16-23 desenvolvem esta verdade, mostrando que servimos àquele a quem nos entregamos.

Mortos para a Lei, Casados com Cristo

Romanos 7:1-14 apresenta a analogia matrimonial: estamos mortos para a Lei e casados com outro — Cristo. A Lei cumpriu sua função ao expor o pecado na carne. O conflito descrito em Romanos 7:15-25 tem sido objeto de considerável debate teológico. A interpretação dispensacionalista reconhece que Paulo descreve a experiência de um homem salvo que ainda enfrenta o conflito entre a carne e a mente transformada. O problema manifesta-se no "despojar-se" do velho homem; a solução reside no "revestir-se" do novo.

As Cinco Leis Operantes

Romanos 7:23-8:2 apresenta cinco leis em operação: a lei do pecado, a lei da mente, a lei de Deus, a lei do pecado e da morte, e a lei do Espírito da vida em Cristo. Esta última lei — a lei do Espírito da vida — liberta-nos da lei do pecado e da morte. É crucial compreender que Romanos 8:1 refere-se à ausência de condenação, não de danação. O crente não está sob condenação, embora possa experimentar a disciplina divina.

A Vitória através do Espírito

Romanos 8:1-13 estabelece que estamos mortos para a carne, e a vitória sobre o pecado vem através do Espírito de Cristo. O contraste entre a mente carnal e a mente espiritual torna-se o campo de batalha da santificação. Os versículos 14-25 revelam nossa gloriosa vocação: governar, reinar e sofrer com Cristo. Nossa herança futura como filhos de Deus justifica os sofrimentos presentes.

O Espírito Santo, nosso Ajudador divino (Romanos 8:26-27), intercede por nós e ajusta nossas orações conforme a vontade de Deus. O propósito divino em nós (Romanos 8:28-30) é sermos conformados à imagem de Cristo. A corrente áurea da salvação — chamados, conhecidos de antemão, predestinados, justificados e glorificados — demonstra a segurança inabalável do crente.

A seção culmina na triunfante declaração de Romanos 8:31-39: somos mais que vencedores. Os sofrimentos presentes fazem parte de nosso programa de vitória. A vitória foi consumada em Cristo, e dela flui o fruto espiritual em nossas vidas.

III. A Terceira Fundação: O Que Aconteceu com Israel? (Romanos 9-11)

Esta seção aborda uma das questões mais prementes da teologia dispensacionalista: qual é o lugar de Israel no plano divino? Paulo, com profunda tristeza pastoral (Romanos 9:1-5), contempla a condição de Israel, a antiga agência da eleição profética.

A Fidelidade de Deus Vindicada

Romanos 9:6-13 defende a eleição divina, demonstrando que a Palavra de Deus não falhou. A justiça de Deus é posta à prova em Romanos 9:14-18, mas Paulo oferece uma resposta dupla: primeiro, considerando a misericórdia de Deus demonstrada a Moisés (versículos 15-16), evidenciando que Deus é longânimo; segundo, examinando o propósito divino revelado no caso de Faraó (versículos 17-18), mostrando que o propósito precede a promessa.

A metáfora do oleiro e do barro (Romanos 9:19-33) ilustra a remodelagem de Israel. A nação tropeçou, mas o pequeno rebanho — o remanescente — recebe a bênção. Romanos 10:1-21 retorna ao tema da justiça da fé, enfatizando que a questão central é a audição e a resposta do coração.

A Restauração Futura de Israel

Romanos 11:1-6 afirma que a restauração futura de Israel é certa; a eleição a obterá. A cegueira nacional (Romanos 11:7-14) é temporária, não permanente. A ilustração hortícola de Romanos 11:15-25 — envolvendo ramos, raízes e oliveiras bravas — demonstra o plano divino de enxertar os gentios e, posteriormente, restaurar Israel.

Romanos 11:24-36, em harmonia com Atos 15:11, estabelece a verdade presente: atualmente, o judeu é salvo da mesma maneira que o gentio — pela graça, mediante a fé. Três verdades cruciais emergem: todos foram incluídos na incredulidade; a salvação nacional de Israel está prometida para o futuro; e presentemente, Israel é salva como os gentios, pela graça através da fé.

IV. A Quarta Fundação: Instruções Práticas (Romanos 12-16)

Tendo estabelecido os fundamentos doutrinários, Paulo volta-se para a aplicação prática. Esta seção demonstra como a sã doutrina deve produzir vida santa e relacionamentos corretos.

Relacionamentos Fundamentados na Graça

Romanos 12:1-3 estabelece nossa relação com Deus na adoração: devemos apresentar nossos corpos como sacrifício vivo. Esta é a vida de transformação — homens mortos vivendo para Deus. A medida da fé torna-se nosso padrão de avaliação.

Nossa relação apropriada uns com os outros (Romanos 12:4-21) é fundamentada na revelação da verdade do Corpo de Cristo, aqui apresentada pela primeira vez. Cada membro possui dons para edificação mútua. É digno de nota que a lista de dons diminui progressivamente em Romanos 12, 1 Coríntios 12 e Efésios 4, refletindo mudanças dispensacionais. Nossa relação com os não-salvos (Romanos 12:17-21) deve ser caracterizada por dons de bondade e não-retaliação.

Autoridade e Sociedade

Romanos 13:1-7 estabelece nossa relação adequada com o governo, apresentando as regras divinas para o estabelecimento e preservação da raça humana. Nossa relação com a sociedade (Romanos 13:8-14) deve ser governada por princípios de amor e santidade.

Romanos 14:1-23 aborda nossa relação com irmãos fracos e fortes na fé. A edificação constitui o padrão. O melhor pessoal de cada um será testado no tribunal de Cristo (o Bema). Devemos ter cuidado com a consciência do irmão mais fraco.

A Perspectiva da Mente Renovada

Romanos 15:1-7 apresenta a perspectiva da mente renovada: a regra da edificação e ter a mente de Cristo. O Antigo Testamento serve para admoestação e instrução através de suas ilustrações.

Uma distinção crucial emerge em Romanos 15:8-12 entre o ministério de Cristo e dos doze apóstolos versus o ministério de Paulo. Jesus Cristo ministrou à circuncisão; Israel era a antiga agência para os gentios (o muro estava erguido, depois foi derrubado). A salvação de Israel permanece futura. Em contraste, o ministério de Paulo (Romanos 15:8-12) estabelece o Corpo de Cristo como a agência presente. A autoridade apostólica de Paulo é verificada; ele é o distribuidor da graça de Deus diretamente aos judeus e gentios. Paulo detalha seus planos e roteiro, incluindo a questão dos santos pobres em Jerusalém.

Separação e Fundamento

Romanos 16:1-20 apresenta a doutrina da separação. As igrejas de Cristo são plurais e locais. Devemos guardar o fundamento, marcando aqueles que tentariam removê-lo. Seguir Paulo nesta era é seguir Cristo.

A epístola conclui com "a obediência da fé" (Romanos 16:21-27). Somos exortados a afundar nossas raízes no fundamento estabelecido, construindo uma casa de doutrina (1 Coríntios 3:9-12) sob a graça (compare com Gálatas). Paulo apresenta seu design de edificação através de três elementos: "meu evangelho", "a pregação de Jesus Cristo conforme o mistério", e "as Escrituras dos profetas".

Conclusão

Os fundamentos do Dispensacionalismo, conforme revelados no livro de Romanos, estabelecem uma compreensão abrangente do plano redentor de Deus. Desde a justificação pela fé até as instruções práticas para a vida cristã, passando pela compreensão do lugar de Israel no propósito divino, estas quatro fundações fornecem um arcabouço teológico sólido para a interpretação das Escrituras e para a vida piedosa.

A revelação progressiva de Deus através das dispensações não indica mudança em Seu caráter ou propósitos, mas sim o desdobramento ordenado de Seu plano eterno. O evangelho da graça de Deus, confiado especialmente ao apóstolo Paulo, representa o ápice desta revelação progressiva, demonstrando a riqueza insondável da sabedoria divina.

Que o Senhor nos conceda graça para compreendermos cada vez mais profundamente estas verdades gloriosas, afundando nossas raízes no fundamento apostólico e edificando sobre ele com materiais que resistirão ao teste do tribunal de Cristo. Que sejamos encontrados fiéis no estudo e na aplicação da Palavra, vivendo sob a graça enquanto aguardamos a manifestação da glória de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo.

À Ele seja a glória, agora e para sempre. Amém.

 

O artigo foi desenvolvido usando IA tendo como estrutura teológica um artigo salvo no meu PC, não tenho certeza acerca do autor. Esse esboço original foi organizado para um estudo bíblico pessoal e foi a base para esse artigo.

 

C. J. Jacinto

TEM CUIDADO DE TI MESMO

0 comentários



TEM CUIDADO DE TI MESMO

O duplo imperativo do Apóstolo Paulo em I Timóteo 4:16

As verdades que melhor conheço, aprendi de joelhos. Nunca sei nada bem até que seja gravado em meu coração pela oração. (John Bunyan)

 

O primeiro versículo das epístolas de Paulo a Timóteo que memorizei foi de grande importância para minha vida espiritual, talvez sendo um dos principais motivos de meu aprofundamento em teologia e apologética. Considero a mensagem desse versículo o ponto culminante da exortação pastoral de Paulo a Timóteo. Refiro-me ao capítulo 4, versículo 16, de 1 Timóteo: "Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas coisas; pois, fazendo isto, salvarás tanto a ti mesmo como aos que te ouvem." O texto grego revela uma estrutura notável, um imperativo duplo. Inicialmente, exorta o indivíduo a ter cuidado de si mesmo, seguido pela doutrina. A intenção de Paulo pode ser resumida de maneira clara: mantenha a atenção constante. Esteja diligentemente atento em todos os momentos. Dedique-se àquilo que você crê, sem interrupção. Considere a importância de examinar continuamente os seus princípios de fé. Essa abordagem apresenta, de fato, um aspecto significativo.
 Observamos que Paulo emprega uma linguagem enfática, e, por meio desse imperativo, depreendemos a necessidade de uma ação constante e vigilante por parte do cristão em relação a essa questão de grande importância. Não se trata de um cuidado esporádico, mas da prática de uma disciplina contínua. Inicialmente, notamos que essa orientação de grande valor foi dirigida por Paulo a Timóteo, mas o registro dessa passagem no cânon do Novo Testamento nos leva a crer, indubitavelmente, que o Espírito Santo também a dirige a todos os cristãos de todas as gerações.

A doutrina é o fundamento necessário do dever; se a teoria não estiver correta, a prática não poderá estar certa. Diga-me no que um homem acredita, e eu lhe direi o que ele fará. (Tryon Edwards)

 

 Consideremos o contexto da carta. Paulo escreve a Timóteo, que se encontra em Éfeso. Timóteo ministrava naquela cidade, uma metrópole com características que merecem atenção para compreendermos a necessidade dos conselhos de Paulo. Primeiramente, havia um significativo sincretismo religioso. O centro religioso de Éfeso era um templo grandioso, dedicado à deusa Diana, também conhecida como Ártemis. Ali, pessoas de diversas regiões do Império Romano vinham para cultuá-la, configurando-se como um centro sagrado de grande devoção e peregrinação. Essa realidade contrastava com a mensagem do Evangelho e o monoteísmo do cristianismo primitivo, que via em Cristo o único caminho para a salvação. Além da proeminência do culto a Diana, a história revela a presença do gnosticismo, que influenciou a igreja em Éfeso. Se o culto a Ártemis representava uma ameaça externa, o gnosticismo constituía um perigo interno de corrupção espiritual. Adicionalmente, o judaísmo era praticado na cidade. A prosperidade comercial, evidenciada pelo materialismo, caracterizava a economia de Éfeso. Diante desse cenário complexo, Paulo escreveu a Timóteo, exortando-o: "Cuida de ti mesmo e da doutrina". Essa advertência não seria igualmente pertinente para nós hoje, em que a igreja e os cristãos estão inseridos em uma cultura relativista, pragmática e permeada por movimentos heréticos e um neognosticismo em ascensão através de diversas correntes espiritualistas? Não nos encontramos, porventura, em uma situação tão desafiadora quanto a enfrentada por Timóteo naquele tempo? Observamos que o desafio enfrentado por Timóteo em sua época ressoa na atualidade, afetando não apenas pregadores, teólogos e pastores, mas todos os cristãos que se dedicam aos princípios fundamentais da fé cristã. Naquele contexto, Timóteo se deparava com problemas específicos, conforme evidenciado na epístola de Paulo a ele. Havia falsos mestres que propagavam ensinamentos equivocados, como se pode constatar em 1 Timóteo 1:3-7 e 4:1-3. Adicionalmente, genealogias e especulações, muitas vezes promovidas por judeus helenizados, desviavam a atenção da sã doutrina. Um ascetismo extremado, com a proibição do casamento e de certos alimentos, caracterizava uma tendência herética que se infiltrava na igreja. Por fim, a juventude de Timóteo também representava um desafio em relação à sua autoridade pastoral. Diante dessas circunstâncias, Paulo exorta Timóteo a um constante zelo: "Cuida de ti mesmo e da doutrina" (1 Timóteo 4:16). Da mesma forma, nos dias atuais, somos chamados a manter um cuidado contínuo, a fim de preservar os pilares da fé cristã e a nossa integridade espiritual.
 Portanto, ao analisarmos teologicamente a dupla exortação de Paulo, percebemos que ele orienta e aconselha Timóteo a atentar para si mesmo e para a doutrina. Paulo o exorta a manter uma vigilância espiritual constante e intensa, a fim de não ser desviado por ensinamentos enganosos, mas permanecer firme diante dos desafios. Da mesma forma, nos dias atuais, observamos a proliferação de falsos mestres que propagam doutrinas equivocadas e defendem ideias que divergem dos ensinamentos de Paulo e Jesus Cristo. Vivemos tempos desafiadores, nos quais a advertência dada a Timóteo – "Cuida de ti mesmo e da doutrina" – permanece relevante. Somos chamados a uma vigilância atenta e a firmar nossa fé na solidez da verdadeira doutrina sagrada. Somente assim seremos cristãos bíblicos e demonstraremos, através de nossas vidas, os frutos da regeneração pelo Espírito Santo.

“Podemos revigorar nossa fé e renovar nossa coragem ao refletirmos que o poder divino sempre acompanhou a pregação da doutrina, quando feita com o verdadeiro espírito de pregação. Grandes avivamentos acompanharam a pregação heroica das doutrinas da graça, da predestinação, da eleição e de toda aquela elevada cordilheira de doutrinas sobre a qual Jeová se assenta entronizado, soberano em graça como em todas as coisas. Deus honra a pregação que O honra. Há muita pregação fraca hoje em dia, tentando persuadir os pecadores a fazerem uma trégua com seu Criador, a deixarem de pecar e a se juntarem à igreja. A situação não exige uma trégua, mas uma rendição. Tragam a artilharia pesada do céu e trovejem contra esta era arrogante como fizeram Whitefield, Edwards, Spurgeon e Paulo, e muitos serão mortos pelo Senhor, ressuscitados para andar em novidade de vida.” (James Grambell)

 

 Em sua segunda epístola aos Coríntios, capítulo 3, versículo 5, Paulo exorta os coríntios a se examinarem para verificar se permanecem na fé. Em outras palavras, Paulo constantemente instrui e aconselha os cristãos a zelar por sua vida espiritual e pelas crenças que professam. Você ainda sustenta as doutrinas fundamentais do Evangelho? Está disposto a defendê-las publicamente? Atualmente, a simples adesão e defesa pública das doutrinas essenciais da fé cristã pode resultar na aplicação de rótulos como "fundamentalista", ser visto como ultrapassado ou acusado de fanatismo, separatismo ou intolerância. Isso ocorre em um tempo de significativo relativismo espiritual, no qual muitos evangélicos demonstram abertura ao sincretismo religioso, priorizando o consenso em detrimento da verdade.
 Na exortação de Paulo a Timóteo, "Atenta para ti mesmo e para a doutrina", observamos que, no original grego, a palavra empregada é "didascalia", referindo-se ao depósito apostólico da fé, um padrão estabelecido pelo Novo Testamento. Este padrão serve como fundamento para o sistema doutrinário da Igreja, que é, portanto, estruturada de acordo com a revelação contida no Novo Testamento. A totalidade dos elementos essenciais para caracterizar uma verdadeira igreja encontra-se nesse cânone. Por essa razão, o conjunto doutrinário é denominado "o bom depósito". Dentro desse depósito, reside uma cristologia ortodoxa e a proclamação do Evangelho da graça divina. O texto estabelece um contraste com as doutrinas falsas. Paulo emprega uma analogia médica, ao falar de "sã doutrina", que se traduz em ensinamento saudável, em oposição às "doutrinas de demônios", "fábulas profanas" e "vãs contendas de palavras", que prejudicam a saúde espiritual da Igreja e dos cristãos.

Da mesma forma que precisamos zelar pela saúde do corpo físico, a fim de preservar nosso bem-estar biológico, também é crucial ter cuidado na vida espiritual, evitando a ingestão de doutrinas falsas. Assim como um veneno afeta o corpo físico, o veneno espiritual corrompe a nossa vida espiritual.  No contexto de 1 Timóteo 4:16, a análise do versículo 13 revela que Paulo instrui Timóteo a dedicar-se à leitura, à exortação e ao ensino. A intenção de Paulo era que a Escritura fosse utilizada para instruir, repreender e corrigir, a fim de que o homem de Deus estivesse apto a conhecer e a permanecer na sã doutrina, na ortodoxia, na verdade bíblica. Portanto, a exortação de Paulo serve como um padrão para todos nós: perseverar na leitura das Sagradas Escrituras e em bons livros teológicos, na exortação e no ensino, especialmente para os líderes. Líderes verdadeiramente piedosos, que demonstram temor a Deus e zelo, devem pregar com base na sã doutrina, demonstrando cuidado e diligência, levando seus ouvintes a firmarem-se nas verdades do Evangelho. Essa é uma questão essencial que nunca deve ser negligenciada em uma igreja fundamentalmente bíblica.
 Qual a razão para que ele seja exortado a perseverar nessas questões? O verbo, em sua forma original, implica em uma constância, uma firmeza e uma perseverança inabalável em relação aos temas que abordamos. Dessa forma, não somente o cristão deve manter-se firme no Evangelho e dedicado às verdadeiras doutrinas, mas também o líder deve estar comprometido em conduzir seus ouvintes a essa mesma postura. Apresenta-se aqui uma questão central que não podemos ignorar. De certa forma, atualmente, as igrejas, de modo geral, tendem a estruturar suas ações de forma a priorizar a quantidade de membros presentes em um culto, em detrimento da importância da doutrina. Muitas vezes, a doutrina é vista como relevante apenas para aqueles que genuinamente buscam a santidade, desejam manifestar uma vida piedosa, praticar a piedade e fundamentar-se na verdade. Hoje, observamos uma igreja que age como uma empresa, onde a quantidade é vista como prioridade em vez da qualidade daqueles que a frequentam. Por isso, frequentemente encontramos grandes igrejas que não se caracterizam pela sã doutrina. Nos dias atuais, são poucos os cristãos que realmente desejam alicerçar-se na fé e aprender os fundamentos da mesma. São poucos os que verdadeiramente buscam viver a integridade do Evangelho e dar suma importância ao ensino das Sagradas Escrituras.
 Com certeza, Paulo não seria o líder desses cristãos, o apóstolo seria considerado como um extremista fanático se liderasse e aconselhasse essa classe de cristãos que vimos hoje.
 É imperativo compreender claramente que Paulo, ao abordar a vida espiritual sob a ótica da doutrina e da ortodoxia, emprega o conceito de combate. Em 1 Timóteo, capítulo 6, versículo 12, ele declara: "Combate o bom combate da fé", dirigindo-se a Timóteo. Igualmente, em 2 Timóteo, capítulo 2, versículo 3, ele adverte: "Sofre comigo as aflições como bom soldado de Cristo Jesus". E em 2 Timóteo, capítulo 3, versículo 14, recomenda: "Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste". Percebe-se nessas palavras a ênfase paulina na intensidade da batalha espiritual. Analogamente às guerras, domínios e confrontos existentes no âmbito político da sociedade da época, Paulo transpõe essa realidade para a esfera espiritual. O "bom combate da fé" é uma batalha. O cristão é, portanto, um soldado, um combatente que deve assumir uma posição, seja de defesa, seja de ataque. Acima de tudo, é preciso reconhecer que, em um campo de batalha, o soldado deve zelar por si mesmo. Essa é uma questão primordial, fundamental: a sobrevivência. Portanto, o soldado deve cuidar de si, demonstrando um senso de militância para preservar sua própria vida. Essa analogia possui uma profunda aplicação espiritual.

A doutrina é a estrutura da vida – o esqueleto da verdade, a ser revestido e completado pela graça viva de uma vida santa. (Adoniram Gordon)


 A perseverança, em especial no cuidado e no combate espiritual, evidencia a autenticidade da fé cristã. O cristão, conforme as Escrituras, é alguém que experimentou a salvação e a regeneração, e compreende que está envolvido em uma batalha espiritual constante. Essa consciência o impulsiona a dedicar atenção e zelo à sua fé, tornando-se um modelo genuíno de cristão bíblico. Inserido nesse cenário, ele enfrenta a proliferação de falsos profetas, o relativismo moral, o pragmatismo, novas pretensas revelações e doutrinas distorcidas que ameaçam a pureza da fé.

 Diante da crise espiritual que permeia grande parte da cristandade contemporânea, torna-se imprescindível zelar tanto por nossa própria vida espiritual quanto pela ortodoxia da doutrina. A ausência dessa característica indica a falta da marca distintiva do cristão neotestamentário. A epístola de Paulo a Timóteo, assim como grande parte de suas cartas, oferece exemplos de exortações e incentivos à firmeza na fé, demonstrando a importância vital da perseverança.

 Consideremos alguns exemplos. Em 2 Tessalonicenses, capítulo 2, versículo 15, Paulo exorta: "Portanto, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por carta nossa." Em 1 Coríntios, capítulo 16, versículo 13, ele instrui: "Vigiai, permanecei firmes na fé; portai-vos varonilmente, e fortalecei-vos." Efésios, capítulo 6, versículo 13, assevera: "Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes." Diante disso, Paulo convoca o cristão à firmeza, a qual se alcança mediante a diligência em relação a si mesmo e à doutrina.

“Se existe alguma religião no mundo que exalta o ofício de ensinar, pode-se afirmar com segurança que é a religião de Jesus Cristo. Tem sido frequentemente observado que, nas religiões pagãs, o elemento doutrinário é mínimo — o principal ali é a realização de um ritual. Mas é precisamente aí que o cristianismo se distingue das outras religiões: ele contém doutrina. Apresenta-se aos homens com ensinamentos definidos e positivos; reivindica ser a verdade; fundamenta a religião no conhecimento, embora um conhecimento que só seja alcançável sob condições morais. ... Uma religião divorciada do pensamento sério e elevado sempre tendeu, ao longo de toda a história da Igreja, a se tornar fraca, pueril e nociva; enquanto o intelecto, privado de seus direitos dentro da religião, buscou sua satisfação fora dela e se desenvolveu em racionalismo ímpio.” (James Orr)

 Em 1 Timóteo 4:16, o resultado do cuidado recomendado por Paulo é evidenciado: "Cuida de ti mesmo e da doutrina". Deus emprega meios estabelecidos, como a pregação fiel, o exemplo piedoso e a sã doutrina, para manifestar Sua graça salvadora aos homens. Portanto, o foco principal do cuidado de Timóteo, conforme a instrução de Paulo residia na doutrina da justificação pela fé. É imperativo compreender essa passagem dentro de seu contexto adequado, pois a segurança do crente reside na posse, vivência, defesa e crença na doutrina correta, a saber, a justificação pela fé. Esta é concedida pela graça, um dom gratuito de Deus aos homens, através da obra perfeita e consumada de Jesus Cristo na cruz do Calvário. O cristão, então, deve manter-se firme nessa doutrina fundamental, pois nela reside o fundamento de sua salvação. Toda a soteriologia do Novo Testamento se fundamenta nessa doutrina, que Paulo expõe com veemência e vigor em seus escritos, ensinamentos e exortações às igrejas que fundou e aos companheiros a quem envia cartas e conselhos.

 Observe que existem princípios exegéticos pelos quais podemos compreender esta exortação paulina. Inicialmente, a inseparabilidade enfatizada por Paulo, pois ele nunca dissocia a ortodoxia da ortopraxia. Assim, cuidar de si mesmo corresponde à ortopraxia, e a doutrina, à ortodoxia. Ambas as coisas estão interligadas. Devemos atentar a isso. Aquilo que professamos deve transformar nossa vida.

“Nenhuma doutrina da religião cristã merece ser preservada se não puder ser verificada na vida diária” (John Watson).

 A fé cristã, além de transformar a vida individual, também influencia profundamente o comportamento, impactando positivamente a sociedade. O cristianismo bíblico possui esse potencial transformador. Conforme Paulo afirma em 1 Timóteo 6:13, a sã doutrina é essencial para a piedade. A doutrina, sendo salutar, promove a verdadeira santidade. Somente aquele que professa a sã doutrina, que vive de acordo com os ensinamentos do Novo Testamento e que zela por esse conjunto doutrinário, pode exercer a função de um verdadeiro servo de Deus, pois a doutrina conduz à piedade. Adicionalmente, em Tito 1:9 e 7, Paulo ressalta a importância da irrepreensibilidade. A santidade e a irrepreensibilidade, portanto, operam em conjunto, sendo elementos essenciais para a vida espiritual e santa. Todo aquele que se dedica à santidade demonstra, em sua conduta, a busca pela irrepreensibilidade. Quais são as implicações para nós, hoje, decorrentes da mensagem de Paulo a Timóteo? Em primeiro lugar, a necessidade de vigilância espiritual constante, disciplina espiritual regular, prestar contas a Deus e dedicar-se ao estudo diligente e contínuo da Palavra de Deus, buscando uma vida piedosa em conformidade com as Escrituras. Em segundo lugar, a importância da fidelidade doutrinária, do estudo aprofundado das doutrinas fundamentais do Evangelho, da resistência a novas teologias que contradizem a revelação bíblica, da exposição sistemática da Palavra de Deus e da busca por uma comunidade eclesiástica que nos instrua e nos ensine a viver de acordo com os princípios bíblicos. Em terceiro lugar, a necessidade de perseverança resiliente em face das pressões culturais, do desânimo ministerial e das dificuldades da fé que enfrentamos diariamente. É crucial estarmos preparados para esses desafios.
 Em resumo, todo cristão deve dedicar-se a este cuidado. Zele por si mesmo e pela doutrina. Cada cristão deve cultivar sua vida espiritual, conhecer e defender os fundamentos da fé cristã, e todos são chamados à perseverança. Ao considerarmos e aplicarmos estes princípios em nossa vida, certamente nos tornaremos cristãos segundo a vontade e o coração de Deus, vivendo uma fé bíblica e piedosa.

“Só existe uma proteção contra o erro, e essa é estar firmado na fé; e para isso, é preciso oração, estudo diligente e receber com mansidão a Palavra de Deus que nos foi ensinada.” (A. W. Pink)

“No tribunal de Cristo, ficaremos felizes por termos permanecido firmes na Palavra de Deus e somente na Palavra de Deus, independentemente do opróbrio que possamos sofrer nesta breve vida presente. Se for necessário estar em extrema minoria em nome da verdade, como Jeremias, não nos envergonharemos.” (David Cloud.)

 

 

Autor: C. J. Jacinto