Maria e o Modelo de Piedade Bíblica.

0 comentários


 

 


C. J. Jacinto

 

 

O primeiro capítulo do Evangelho de Lucas retrata Maria, mãe de Jesus, como um modelo exemplar de piedade cristã. A análise do perfil de Maria, conforme delineado por ela mesma e pelo evangelista Lucas, revela-se de suma importância para o desenvolvimento espiritual, o discernimento e a compreensão da fé. Ao examinarmos sua vida, somos convidados a refletir sobre a essência da piedade, compreendendo o que significa ser um homem ou mulher marcados por uma piedade que manifesta poder espiritual. Maria, portanto, apresenta-se como um modelo significativo a ser seguido, um exemplo perfeito de quem vive em obediência e submissão à vontade de Deus, o Santo e Todo-Poderoso.
Analisando o perfil de Maria, apresentado no primeiro capítulo de Lucas, podemos observar uma representação fiel do cristão segundo os ensinamentos bíblicos. Ao longo deste estudo, aprofundaremos a análise da figura de Maria, mãe de Jesus, e de seu exemplo de piedade, buscando compreender suas virtudes espirituais e a forma como podemos aplicá-los em nossas vidas. Desejo enfatizar, com convicção, que Maria personifica o perfil de um genuíno cristão bíblico, conforme as normas estabelecidas pelas Escrituras. Ela se destaca como as que estão entre as “santas mulheres que esperavam e Deus” (I Pedro 3:5), prossigamos em esperar em Deus somente, pois aquele que está sentado no Trono deve ser o centro da nossa bendita esperança

 A presente análise visa aprofundar a compreensão da espiritualidade de Maria, tendo como fonte primária o texto conhecido como "O Cântico de Maria". A partir do primeiro capítulo de Lucas 1, versículo 46, encontramos a declaração dela: "A minha alma engrandece ao Senhor". Na análise do termo original grego, o verbo "megaluno" revela um significado de exaltação ao Criador, transcendendo qualquer criatura. Não ela sendo exaltada por homens, mas ela exaltando ao Deus Todo-Poderoso. Isso implica em colocar Deus acima de todas as coisas, reconhecendo a existência de um trono no universo, além do próprio universo, do qual Deus é o soberano sobre todas as criaturas e sobre toda a criação. Maria colocou Deus Santo e Trino além de todas as coisas, exaltando ele acima de tudo, ninguém jamais pode desviar-se desse tão bendito caminho que ela trilhou!

 Em suma, "megaluno" expressa a elevação de Deus à sublimidade e à plenitude, ou seja, acima de tudo. Significa reconhecer a completa submissão ao Senhorio de Deus Pai Todo-Poderoso, colocando-O em seu devido lugar. Ao proferir "A minha alma engrandece ao Senhor", Maria direciona sua contemplação exclusivamente a Deus. Ponto fixo da verdadeira devoção que não pode ser removido por ninguém. (Leia Hebreus 2:18 Salmos 22:19, 46:11, 60:11, 121:1 e 2, 124:8) Que possamos dar o mesmo grito apostólico: “Mas alcançando o socorro de Deus ainda até os dias de hoje, permaneço dando testemunho” (Atos 26:22)


 Para aqueles que buscam seguir esse modelo de espiritualidade, a orientação é semelhante: voltar o olhar para o Senhor em sua soberania, para o Deus Todo-Poderoso. Após a consumação da obra redentora de Jesus Cristo na Cruz do Calvário, em consonância com a epístola aos Hebreus (12:2), somos chamados a contemplar a Cristo, autor e consumador da nossa fé. A contemplação da soberania de Deus e de Seu trono inevitavelmente nos conduz à contemplação de Cristo, que está à direita de Deus. Essa é a direção integral de nossa contemplação. Esse é o caminho da verdadeira espiritualidade bíblica. “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça” (Salmo 17:15)

 Compreendemos aqui a essência da verdadeira espiritualidade cristã, conforme descrita nas Escrituras. O cristão genuíno, aquele que experimentou a regeneração, volta seus olhos para Deus, com um único propósito: glorificá-lo. Este é o cerne da vida cristã, que Deus seja exaltado em cada aspecto de nossa existência - em nossos pensamentos, sentimentos, ações, obras, momentos de reflexão e testemunho. O cristão bíblico busca glorificar a Deus em tudo. Seu lema de vida é: "Deus seja glorificado em nossa vida e em nosso viver".

 Consideramos, portanto, as palavras de Maria no versículo 47, onde se manifesta uma expressão de louvor cuja profundidade transcende a capacidade de quantificação. Ali reside a essência da espiritualidade e da qualidade de vida profunda que Maria possuía, ao declarar: "O meu espírito exulta em Deus, meu Salvador." A palavra "exulta", neste versículo, traduz a palavra grega "agaliao", enquanto "Salvador" provém de "soter". Percebemos, assim, a combinação do substantivo masculino "soter" com o verbo "agaliao", expressando uma profunda espiritualidade que, como mencionado, não pode ser totalmente apreendida em poucas palavras.

 Consideremos a palavra "alegrou-se". Que profunda expressão de gratidão emanava de Maria! Ela tinha um motivo para se alegrar. Qual era sua alegria? A alegria da salvação. A alegria de ter em Deus seu Salvador. Ela necessitava da salvação, assim como cada ser humano necessita. Embora tenha sido um instrumento escolhido por Deus, Maria precisava da misericórdia e da graça divina, como todos nós. Ela reconheceu essa verdade, e essa percepção foi fonte de alegria. A misericórdia de Deus a alcançou, assim como alcança cada um de nós. Essa alegria preencheu sua existência, a consciência de ter sido agraciada pela graça e misericórdia de Deus. Deus a alcançou através da salvação, e a salvação reside na alma que experimentou o perdão divino. Maria recebeu o perdão, a graça e a misericórdia de Deus. Crendo e aceitando essa realidade, Maria declarou que sua alegria residia em Deus, seu Salvador. Regozijamo-nos diariamente pela misericórdia de Deus que nos alcançou. Alegremo-nos pela grandiosa salvação que Deus nos concedeu por meio de Cristo. Estas questões devem permear nossos corações, guiando-nos a uma vida de constante gratidão a Deus. A emoção de Maria ao compreender ser agraciada pela salvação de Nosso Senhor e Salvador era sublime. Uma alegria plena, transbordante, emanava de seu coração, expressando palavras profundas. Seu exemplo de fé e emoções serve como modelo, demonstrando os sinais evidentes de nossa eleição e da promessa de vida eterna que Cristo nos oferece. Ele próprio declarou: "Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância", e também: "Eu lhes dou a vida eterna". A vivência espiritual e o bem-estar só podem ser alcançados através de Deus, o Deus Trino, e Maria tinha plena consciência disso. Ao chegarmos ao versículo 48, Maria declara que Deus considerou a humildade de sua serva. Que momento singular! Ela se identifica com esse papel, estabelecendo um contraste notável. Enquanto reis ocupavam tronos em diversas monarquias ao redor de Israel, Maria se autodenomina serva. Este é o título que encontramos para Maria no livro de Lucas e em todos os evangelhos. Deus contempla a servidão de Maria. A palavra "servidão" é um substantivo feminino, remetendo à palavra grega "doulos", da qual Paulo também se identifica, em Romanos 1:1. Aqui reside a grande maravilha: Maria se considera uma serva, alguém completamente submissa à vontade divina. Não seria este um modelo de espiritualidade autêntica? Não deveríamos buscar imitá-la? Certamente. Pois aqui temos uma mulher que se declara serva, o testemunho dessa submissão pode ser parafraseada nestas palavras: "Senhor, faça de mim o que queres, sou teu instrumento". Assim como o poeta cria a maior poesia através de um simples instrumento, a caneta e o papel, Deus toma Maria em suas mãos e a transforma em um exemplo sublime de servidão, digno de nossa admiração e imitação, um modelo de verdadeira e genuína espiritualidade a ser considerado por todo cristão. É fundamental ponderar a posição de Maria, que, em sua humildade, se apresenta diante do mundo. Maria, a Maria do cristianismo bíblico, a Maria do Novo Testamento, a Maria dos Evangelhos, uma serva do Senhor. Ela não é a senhora de seu destino e missão, Deus é Senhor sobre ela, e o senhorio soberano de Deus é o centro da sua devoção e da sua vida.

 A partir das declarações de Maria, podemos discernir uma verdade fundamental: ela se sentiu contemplada por Deus. Essa experiência me remete ao livro de Jó, capítulo 1, versículo 8, onde Deus atesta a retidão, a piedade e a integridade de Jó. Assim como Jó era objeto da atenção divina, Maria também o era. Deus observava a postura de Maria, mulher de grande piedade, modelo a ser seguido, pois ela irradiava as virtudes que os cristãos devem cultivar. Deus contemplava aquela que seria a mãe do Senhor, em virtude de sua servidão, sua submissão e sua completa dedicação, tornando-se instrumento nas mãos do Senhor para que o Messias viesse ao mundo. Assim Maria é a serva do Deus Bendito, uma vida de disponibilidade em fazer a vontade do Criador.

 Da mesma forma, nós, cristãos, podemos proclamar o Evangelho e levar Cristo ao mundo, sendo testemunhas de sua ressurreição. Podemos apresentar Cristo ao mundo, demonstrando que Ele está vivo e reina no trono celestial. Assim como Maria trouxe Jesus ao mundo, podemos trazer Jesus ao coração dos outros através da proclamação do Evangelho e do testemunho de nossa própria vida. E Deus, certamente, contempla aqueles que trilham esse caminho, o caminho do testemunho. A dignidade humana reside na contemplação divina, independentemente da opinião alheia. O olhar de Deus sobre nós, e não a avaliação de outros, é o que verdadeiramente importa. A mais alta honra é ser objeto da atenção do Senhor, e em nossos dias, a escassez de homens piedosos e virtuosos é evidente. Para merecer a contemplação divina, é preciso servir com humildade, submetendo-se à vontade de Deus, mesmo que isso implique em riscos e sacrifícios. É a entrega absoluta, o instrumento da vontade divina que nos eleva. Ainda mais notável é a afirmação de Maria de que todas as gerações a proclamariam bem-aventurada. A razão para essa bem-aventurança reside em sua condição de serva. A humildade e a disposição para servir ao Senhor são qualidades de grande valor aos olhos divinos. Os anjos testemunham a importância da humildade na vida de uma pessoa. Quanto maior a nossa dependência do Senhor, mais Ele nos utiliza. A própria resposta divina a Paulo, de que o poder de Deus se manifesta na fraqueza, ilustra essa verdade. Ao reconhecer em Maria um exemplo de humildade, submissão e serviço, Deus a elegeu como instrumento apropriado para a vinda do Messias.

A escolha divina é seletiva: Ele escolhe os simples, os humildes, os servos e aqueles que se submetem à Sua vontade. Ele escolhe aqueles que cultivam a virtude da humildade em seus corações e a manifestam em suas vidas. Deus não busca aqueles que se exibem em público, mas sim aqueles que buscam a Sua presença em particular. Ele não procura aqueles que dependem da fama religiosa para se autopromoverem, mas sim aqueles que, em submissão e serviço, buscam realizar a vontade divina, desconsiderando a própria reputação. O que realmente importa é agradar a Deus por meio de uma vida dedicada à concretização de Seus propósitos.

 Ser um instrumento de Deus é não ter vontade própria, não ser autossuficiente. Maria personificou essa condição. Ela não era autossuficiente nem onipotente. Por isso, o Deus Todo-Poderoso utilizou sua humildade e fraqueza para realizar obras extraordinárias. Deus opera dessa maneira, realizando feitos notáveis por meio daqueles que se mostram simples e disponíveis.
 Todos os cristãos, aqueles que genuinamente abraçam a fé, reconhecem sua própria humildade diante da grandeza divina. Sabem que, embora suas palavras possam parecer limitadas, a mensagem do Evangelho que carregam e proclamam é de uma grandiosidade incomensurável. Compreendem que, por si sós, são incapazes de realizar qualquer obra de valor duradouro.
 Jesus, no Evangelho de João, capítulo 15, ao falar sobre a videira verdadeira, afirmou: "Sem mim, nada podeis fazer". Essa verdade se estende a todos. Sem Deus, nada podemos alcançar. Sem Deus, Maria, Paulo e Pedro não teriam cumprido seus propósitos.

Reconhecemos, portanto, nossa total dependência do Criador, em quem respiramos, nos movemos e existimos. (Atos 17:28) É por meio Dele e da dependência de Sua misericórdia que podemos atingir a plenitude espiritual e viver uma vida piedosa. A vida piedosa, em sua essência, é a consequência natural de uma vida guiada, controlada e repleta do Espírito Santo. Observamos, igualmente, a humildade e a sinceridade de Maria. Notemos sua declaração: "Todas as gerações me considerarão bem-aventurada". Qual a razão para essa ênfase numa atenção universal? Ela mesma responde: "Porque o Todo-Poderoso fez em mim grandes coisas". A iniciativa não partiu dela, mas da vontade divina. Deus agiu por intermédio de Maria, que se tornou o instrumento para a realização de seus grandiosos desígnios. Ela colocou em Deus o ponto nevrálgico central de todo o milagre, não foi Maria quem fez o milagre, mas Deus quem fez grandes milagres através de Maria. O grande Senhor trabalhando através de uma humilde serva

 Maria não atribuiu a si mesma a capacidade de realizar grandes feitos para Deus. Ao contrário, ela reconheceu não possuir forças próprias para tal. As grandes obras foram realizadas por Deus através de Maria, pois, em sua humildade e entrega absoluta, ela se tornou o instrumento escolhido por Ele. Assim, é fundamental compreendermos essa verdade, mantendo a perspectiva correta, conforme revelada no texto em análise. A exegese cuidadosa das declarações contidas no texto nos revela essa realidade. A minha alegria e o regozijo do meu coração provêm da certeza de que Deus opera de maneira extraordinária quando nos entregamos completamente a Ele, permitindo que sejamos instrumentos de Sua graça para abençoar outras pessoas.

 A manifestação da grandeza divina se revela através da humildade, pois esta é o terreno fértil onde as sementes do poder divino florescem. É na humildade que o amor resplandece com maior intensidade, razão pela qual Cristo, o Redentor, veio como o Cordeiro de Deus que expia os pecados do mundo. Na ocasião em que o homem buscou eleger um rei para Israel, a escolha recaiu sobre Saul, homem de porte físico imponente e de grande atrativo. Contudo, quando Deus selecionou um rei , a escolha foi recair sobre um jovem desprezado aos olhos dos homens, um homem humilde que, na solidão dos campos, pastoreava ovelhas. Seu nome era Davi. Aquele que se humilha para que Deus seja exaltado experimentará as maiores e mais sublimes expectativas. Todo instrumento que se entrega à ação divina tem a oportunidade de deixar um legado espiritual significativo para o mundo.
Toda geração espiritualmente equilibrada terá como foco central a devoção a Deus e a vivência diária da fé. A compreensão de que Deus é a fonte de tudo em todos é fundamental. O sentimento mais nobre surge, desenvolve-se e prospera no coração que acolhe essas verdades essenciais, pois este coração adentrou o caminho da mais sincera devoção espiritual. Isso significa, acima de tudo, amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente.

“Porque está escrito: Como eu vivo, diz o Senhor, que todo o joelho se dobrará a mim, e toda a língua confessará a Deus” (Romanos 14:11  veja também Isaias 45:23 e Filipenses 2:9 a 11)


 É evidente, e qualquer pessoa atenta perceberá, que Maria não busca protagonismo. Ela não almeja, nem exige, nem procura desviar o foco para si mesma; antes, direciona toda a atenção ao Senhor. Ele, Deus, é o centro de sua vida. Diante disso, podemos considerar esta, sobre a pessoa de Maria, uma das declarações mais teocêntricas das Escrituras Sagradas. Isso me remete a Colossenses, capítulo 1, versículo 18, onde se afirma que em tudo Ele, Cristo, deve ter a preeminência. Maria, de fato, conferiu a Deus a primazia em todas as suas ações. Ela abriu mão de qualquer destaque pessoal, dedicando a Deus toda a sua vida, atenção e devoção. Esse é, portanto, o caminho seguro para a prática da piedade cristã. É dessa maneira que o cristão bíblico deve ser e permanecer.


 É imprescindível que compreendamos essa questão de forma definitiva. Maria, reconhecendo sua posição como criatura, coloca-se humildemente perante Deus, o Criador. Ela é, portanto, o instrumento, e Deus, Aquele que a utiliza. Essa reflexão evoca o Salmo 100, versículo 3, onde o salmista declara: "Sabei que o Senhor é Deus; foi ele que nos fez, e dele somos; somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio". Assim, podemos entender Maria como instrumento de Deus, por ser sua criatura, sua serva. Diante dessa realidade, Maria reconhece que a devoção não lhe é direcionada, mas sim a Deus. Consequentemente, a vida de Maria é integralmente teocêntrica. Do versículo 48 ao 54 do capítulo 1 de Lucas, fica evidente, de maneira clara e concisa, a centralidade de Deus na vida de Maria. As evidências que se seguirão demonstrarão que Maria dirige seu olhar inteiramente  a Deus, ao Senhor, Suprema e Bendita Majestade, de modo que a primazia e a preeminência pertencem única e exclusivamente ao Deus Triúno.

 Portanto, podemos discernir que Maria busca orientar-nos a uma vida centrada em Deus. Ela o apresenta como a fonte primordial, o agente principal e o soberano absoluto de todas as coisas. Seu desejo é que adotemos essa centralidade divina, vivendo uma vida teocêntrica. Observamos, assim, de maneira clara, que sua conduta visa direcionar nosso olhar ao Senhor, reconhecendo-O como a fonte de tudo. Maria atribui a Ele toda a honra e, em sua humildade, se coloca a serviço. Ela exalta a Deus como a causa, o supremo, o onipotente, o administrador e o responsável por todas as ações. Refletindo o versículo 48, ela declara que Deus contemplou sua humildade. No versículo 49, atribui ao Poderoso as grandes coisas realizadas em sua vida. No versículo 50, proclama a misericórdia divina que se estende por gerações. No versículo 51, testemunha a ação de Deus com o braço forte. Ainda no versículo 51, descreve Deus agindo na dispersão dos soberbos. No versículo 52, relata a queda dos poderosos de seus tronos. No versículo 53, narra a exaltação dos humildes e a partida dos ricos de mãos vazias. E, no versículo 54, declara o amparo de Deus a Israel, seu servo. Evidencia-se, de forma concisa, que Maria é totalmente teocêntrica, reconhecendo a constante atuação, o amparo e a escolha de Deus. Maria é um exemplo de vida teocêntrica, e todo cristão bíblico deve ter a Trindade Divina como o centro de sua vida, sua atenção e sua teologia. Essa é a doutrina, a essência do ser um homem espiritualmente piedoso e estritamente bíblico, tal como Maria foi.  Antecipadamente, faço a suma, apresento Maria como exemplo autêntico de piedade. O Novo Testamento oferece um retrato detalhado de sua vida, revelando uma espiritualidade profunda. A verdadeira espiritualidade cristã, aquela que emana da fé bíblica e da regeneração espiritual, se manifesta em uma vida dedicada a Deus, como foi a vida de Maria. Ela demonstrou submissão e serviço a Deus, qualidades que nos oferecem ricas e valiosas lições. Essas características refletem a essência de uma espiritualidade genuinamente bíblica e guiada pelo Espírito Santo, que inspirou Lucas a registrar ensinamentos preciosos sobre a mãe de Jesus. Podemos aplicar essas lições em nossas vidas, aprendendo que devemos direcionar nossa existência completamente a Deus, que, em sua graça e misericórdia, nos utiliza como instrumentos para a realização de seus propósitos, a fim de que a causa do Evangelho seja promovida e a vontade divina se cumpra através de nós. 

“Deus sempre e totalmente engrandecido através de vasos frágeis que não desejam glórias ou grandeza para si mesmas, mas desejam que todos olhem para as grandezas, majestade e poder de Deus, que sejam todos os olhos fixos na soberania eterna e infinita do Deus Triúno”

A Dialética do Tempo e a Presença da Eternidade

0 comentários

 A Dialética do Tempo e a Presença da Eternidade


“De eternidade a eternidade, Tu és Deus.” (Salmos 90:2)

O tempo manifesta-se como a força primordial que atua como criador, conservador e destruidor de tudo o que é contingente. Ele inaugura a existência pelo nascimento, sustenta-a pela duração e encerra o ciclo vital ao recolher o indivíduo ao seio do passado através da morte. Contudo, para o cristão, o tempo não é um fim em si mesmo, mas uma dimensão das operações do Senhor. Deus, em Sua soberania, criou o tempo e nele inseriu a criatura; entretanto, Ele próprio habita a eternidade.

1. A Criação Continuada e a Tensão do Ser

O tempo cria destruindo, e cada destruição é, paradoxalmente, o prelúdio de uma realização plena. Ele é o palco de todas as gêneses e aniquilações. A cada instante, o tempo nos retira o ser e nos devolve o ser, suspendendo-nos entre a plenitude e o nada. Este fenômeno remete ao conceito de Criação Continuada em René Descartes: a ideia de que a preservação do mundo exige a mesma força que sua criação inicial. Como bem expressou o poeta Pierre de Ronsard: "O Tempo nos prepara, o tempo nos devora".

Historicamente, a incompreensão desse mistério levou homens a adorarem o tempo como uma divindade. Ao adorarem o sol, buscavam o princípio que insere vida no tempo e rege o ritmo das estações. Todavia, o Evangelho nos revela que o tempo não é Deus, mas um meio concedido pelo Criador para que vivamos com responsabilidade, cumprindo nossa missão existencial rumo a um destino eterno.

2. O Presente como Ponto de Contato com o Divino

A eternidade é a fonte perene do tempo. É através do presente que estabelecemos contato com o Eterno. Jesus afirmou categoricamente: “Quem ouve as minhas palavras e crê naquele que me enviou TEM a vida eterna” (João 5:24). Note-se o uso do tempo presente: a posse da eternidade começa agora. Watchman Nee, em sua obra O Plano de Deus e os Vencedores, reforça que Cristo é o Homem Universal, não restrito ao espaço-tempo, sendo o Ungido antes da fundação do mundo e Aquele que completa o universo.

Diferente da visão grega clássica, que via o tempo como Chronos (abstrato e linear), a cosmovisão hebraica bíblica compreende o tempo como algo concreto e qualitativo. Viver o "agora" é unir-se à natureza divina (II Pedro 1:4). Quando Deus se identifica a Moisés como “Eu Sou” (Êxodo 3:14), Ele convida o homem a participar de Sua dimensão. Ser participante da natureza divina é, em essência, habitar a mesma dimensão de presença constante em que Deus reside.

3. A Transcendência sobre a Linearidade

O presente é frequentemente definido como o ponto de intersecção entre o passado que foge e o futuro que se abre como uma ressurreição constante de momentos. Para que o indivíduo mantenha a percepção de sua responsabilidade, o presente jamais deve cessar de se "fazer". A vida espiritual não se curva às limitações do tempo criado; ela as transcende, penetrando o infinito onde Deus se encontra.

Embora o passado deixe marcas, devemos reconhecer que Deus sempre esteve lá. Nossa existência no passado é confirmada pelo registro de nossos nomes no Livro da Vida desde a fundação do mundo (Apocalipse 13:8). Isso prova que Deus possui a totalidade do tempo simultaneamente. Enquanto navegamos no "rio do tempo", Deus é o oceano completo que já contém todas as águas.

4. Convocação à Responsabilidade Existencial

O livro de Eclesiastes (Capítulo 3) oferece a mais profunda evidência da natureza do tempo e seu poder sobre os mortais. Há um tempo para cada propósito debaixo do céu. Deus nos concede a vida e o tempo como um talento a ser investido. Viver com responsabilidade dentro desta cronologia é uma convocação suprema.

A eloquência da existência reside na percepção de que o tempo nos pertence para ser desfrutado e consagrado à glória de Deus. Não sejamos como a maioria, que desperdiça o tempo e, consequentemente, perde a visão da eternidade. Sejamos a minoria que utiliza o tempo finito para pavimentar o caminho para o infinito.


Considerações Finais


Este texto é uma reflexão fundamentada na ontologia da presença de Louis Lavelle, cujas ideias sobre a participação do ser e o ato presente impactaram profundamente minha visão teológica, unindo a filosofia existencial à revelação das Escrituras Sagradas.

C. J. Jacinto

 

Eden, Paraiso e a Civilização Adamica (Livreto Grátis)

0 comentários

 


https://drive.google.com/file/d/1Ye9bi_OQY_getRQqFdZoBHmm78JGBbf8/view?usp=sharing

CORPO ASTRAL- O EQUÍVOCO ESOTÉRICO

0 comentários

CORPO ASTRAL- O EQUÍVOCO ESOTÉRICO

 C. J. Jacinto

Um dos fenômenos paranormais mais intrigantes conhecidos são os relatos de experiências extracorpóreas.  A teoria postula que o ser humano pode separar-se de seu corpo físico e explorar outras dimensões. Embora semelhante às experiências de quase-morte, o fenômeno extracorpóreo (Projeção astral) apresenta características distintas, como será abordado a seguir. No âmbito do espiritualismo, a experiência de projeção astral ou experiência extracorpórea envolve a vivência de desvincular-se do corpo físico, explorando outras dimensões, interagindo com entidades espirituais ou, inclusive, observando o próprio corpo inerte. Essa prática é relativamente comum nas diversas vertentes espiritualistas, com destaque especifico em cada grupo. O movimento Nova Era, nas décadas de 1980 ano 200, contribuiu para a popularização das experiências de viagem astral. No Brasil, essa prática também é frequentemente referida como projeciologia. Nas tradições teosóficas, hinduístas e espíritas, a crença na existência de um corpo astral é proeminente. Este corpo é concebido como uma entidade semimaterial e imperecível, funcionando como um envoltório sutil. O corpo astral é considerado o veículo da projeção astral, sendo também conhecido como duplo etérico. No espiritismo, o corpo astral está relacionado ao perispírito. As Escrituras Sagradas não indicam a existência de duas entidades corporais na constituição do ser humano. Deve-se ter em mente o relato da criação, no qual o Senhor formou Adão do pó da terra, nos primeiros capítulos de Gênesis. Inicialmente, foi criado um corpo físico, ao qual foi soprado o fôlego da vida, tornando-o uma alma vivente. Esta é a visão tradicionalmente aceita na teologia ortodoxa. Aqueles que professam a sã doutrina compreendem o homem como composto por um corpo físico e um espírito. Tal compreensão pode ser inferida em passagens como Hebreus 4:12 e Gênesis 5:23. Outras passagens das Escrituras apresentam o homem como possuindo um corpo físico, alma e espírito, sendo estes últimos de natureza essencialmente espiritual. A noção de um corpo astral, um corpo sutil ou qualquer outra forma de corpo semimaterial não encontra respaldo nas Escrituras, sendo desconhecida tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Com base nas Escrituras, compreendemos que o ser humano é composto por uma dimensão física, o corpo, e uma dimensão espiritual, a alma e o espírito. Essa compreensão nos conduz à firmeza nas verdades essenciais reveladas pelo Espírito Santo aos que professam a sã doutrina. Portanto, concluímos que não há existência de um segundo corpo (ou supostamente um numero maior de corpos “etericos”). O ser humano não é constituído por dois corpos, um físico e outro imaterial, um biológico e outro astral. Essa noção não encontra respaldo nas Escrituras Sagradas. Nenhum apóstolo, nem o próprio Jesus, transmitiu tal ensinamento. Importa ressaltar que essa crença está intrinsecamente ligada ao espiritualismo, ao ocultismo e ao esoterismo, e, por conseguinte, associada a outras doutrinas consideradas equivocadas, como a da reencarnação. Devemos compreender que a Bíblia não apresenta o ensino da reencarnação. Consequentemente, todos os seres humanos, conforme descrito no livro de Daniel, capítulo 12, versículo 2, receberão, após a morte, um corpo ressurreto. Este é um ensinamento claro das Escrituras, como Paulo aborda em profundidade no capítulo 15 da Primeira Epístola aos Coríntios, um dos mais extensos e importantes capítulos bíblicos, tratando da doutrina da ressurreição. Adicionalmente, em passagens como a Primeira Epístola aos Tessalonicenses, capítulo 4, versículo 16, a ressurreição dos mortos é associada à vinda gloriosa de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Para os que creem, esta é uma doutrina sublime, gloriosa e repleta de esperança: embora nosso corpo terreno se desgaste, ele será transformado na ressurreição em um corpo incorruptível. Paulo expressou essa verdade com precisão em 1ª Coríntios, capítulo 15, passagem que não aprofundaremos aqui, pois este é um artigo conciso, destinado a elucidar que a Bíblia não ensina a existência de dois corpos – um físico e outro astral em cada ser humano. A doutrina do corpo astral é, de fato, alheia às Escrituras. Contudo, a ressurreição e o corpo glorificado são mencionados. Este pode ser considerado um segundo corpo, mas ele se manifesta unicamente e posteriormente por meio da ressurreição constituindo um ser integral e parece fortalecer a minha idéia de que um homem terá sua existência em plenitude no mundo vindouro com alma e espírito unido ao corpo glorificado para viver no novos céus e a na nova terra, o corpo glorificado não coexiste com nosso corpo presente, frágil e corruptivel. Encontramos exemplos disso em Filipenses, capítulo 3, versículos 20 e 21, onde Paulo afirma: "Mas a nossa pátria está nos céus, donde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar a si todas as coisas."



O CAMINHO DO CRESCIMENTO ESPIRITUAL

0 comentários

O CAMINHO DO CRESCIMENTO ESPIRITUAL

 


C. J. Jacinto

 

 

Através da regeneração, vivenciamos a vida espiritual, transcendendo nossa condição natural para nos tornarmos  espirituais. Essa experiência deve ser constante, pois a regeneração nos proporciona justificação, santificação e consagração. É imperativo nutrir e fortalecer essa transformação interior, permitindo que ela cresça e se manifeste com intensidade. A vida espiritual, em sua plenitude, vai além do mero conhecimento intelectual; ela envolve força, vigor, amor, progresso, alegria, satisfação e felicidade, abrangendo também nossas vontades e desejos. Jesus veio para oferecer vida em abundância, a vida eterna, uma existência superior que podemos desfrutar a partir do momento em que o aceitamos como nosso Salvador. Essa vida espiritual, a verdadeira vida que Cristo oferece, é a única que perdura na eternidade, impactando não apenas nossa própria vida, mas também a vida daqueles que nos cercam. Essa vida espiritual resplandece, guiando-nos a viver em conformidade com a vontade de Deus. Contudo, é fundamental compreender que a vida espiritual exige ação e consciência. Ela necessita de cultivo, pois o desenvolvimento espiritual depende de determinadas condições para prosperar. O crescimento em graça e em conhecimento são elementos desse progresso. Similarmente ao cuidado do corpo físico, a vida espiritual também demanda atenção. É preciso utilizar os meios necessários para atender aos requisitos que impulsionam o progresso espiritual. Essa prática não deve ser esporádica, mas constante, tornando-se um hábito diário. Os principais instrumentos ou métodos para esse fim serão abordados. Adotando uma analogia com o corpo, percebemos que para a manutenção e o avanço da vida espiritual, são necessários uma nutrição adequada e uma boa respiração. Precisamos de exercício espiritual, como ensinou Paulo: "Exercita-te na piedade". Devemos estar atentos a isso, pois ao falar sobre boa alimentação, três aspectos principais merecem consideração. A palavra de Deus, essencialmente, é o alimento primordial, pois edifica a estrutura para que estejamos espiritualmente saudáveis. A palavra de Deus é, portanto, o alimento da alma.
 A oração é de suma importância para a vida espiritual. Alguém já afirmou que a oração é como a respiração da alma. De fato, a oração constitui o elemento vital para o desenvolvimento espiritual. Por isso, a prática da oração e a busca pela comunhão com Deus devem ser constantes em nossa vida, e não esporádicas. Diariamente, em todo lugar, devemos não apenas dedicar tempo à oração em particular, mas também manter nossa mente e coração voltados para uma vida de oração contínua. Deus conhece nossos pensamentos; portanto, podemos nos comunicar com Ele por meio deles. Meditar em Cristo, refletir sobre Deus, dialogar com Ele em pensamento, torna a oração uma atividade interna e constante, consolidando uma comunhão duradoura.

 Além do estudo, dedicamo-nos à meditação na Palavra de Deus. Não apenas o estudo, mas também a meditação, como evidenciado em passagens como o Salmo 119 e o Salmo 1. Nestes trechos, lemos que o homem espiritual medita na lei do Senhor dia e noite. Essa prática envolve guardar, ponderar e internalizar a Palavra de Deus em nossos corações, refletindo sobre os mandamentos, as declarações, as promessas e os ensinamentos de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Meditar na Palavra de Deus é, portanto, ouvir constantemente a voz do Espírito Santo, o que é de suma importância para a vida espiritual. A meditação e a nutrição com as verdades espirituais são o alimento de nossa alma, e, ao nutrirmos nossa fé com elas, tornamo-nos mais espirituais. Quanto mais nos dedicamos à Palavra de Deus e à meditação, maior será nossa nutrição espiritual, o que nos proporcionará vigor. Essa nutrição sólida, como afirma o autor aos Hebreus, nos permite experimentar crescimento espiritual e força para enfrentar os desafios diários. Em Hebreus 5:13-14, lemos que aquele que se alimenta de leite ainda é inexperiente na palavra da justiça, sendo como uma criança. O alimento sólido, porém, é para os maduros, que, pela prática, têm os sentidos exercitados para discernir o bem e o mal.

 O discernimento espiritual, portanto, é uma capacidade concedida àqueles que se nutrem do alimento sólido. Estes são aperfeiçoados pela obra consumada e perfeita de Cristo na cruz, e sua perfeição não reside na ausência de erros ou falhas, mas na vivência em completa dependência da misericórdia e graça de Deus. Graças ao hábito de consumir alimento sólido, seus sentidos são exercitados para distinguir o bem do mal. Assim, apenas o homem maduro, aquele que alcançou um certo grau de maturidade, graça e conhecimento, possui a capacidade de discernir espiritualmente. Esta é a característica de um homem espiritual.
 Desejo ainda ressaltar que a igreja é um corpo do qual o cristão é membro. Portanto, apresento outro princípio espiritual a ser considerado: a importância da comunhão com os irmãos na fé, aqueles que foram regenerados. Devemos cultivar essa comunhão, participando ativamente de um grupo de pessoas com as quais compartilhamos laços fraternais, quer estejam próximas ou distantes. A manutenção dessa comunhão nos integra ao corpo de Cristo, impedindo o isolamento. Este é um princípio vital, pois, assim como um membro físico recebe nutrição de outras partes do corpo, na vida espiritual, ao mantermos comunhão com pessoas santas, aprendemos com sua santidade. Ao convivermos com pessoas eruditas e piedosas, adquirimos conhecimento e sabedoria. A conexão com o corpo de Cristo nos possibilita conhecer e receber os benefícios provenientes de outras partes. Este princípio espiritual jamais deve ser negligenciado. Não existe um cristão que, como membro amputado, esteja desconectado do corpo de Cristo. Todos nós necessitamos de um grupo de pessoas com quem possamos manter uma comunhão constante, a fim de receber os benefícios espirituais que Cristo concede através delas. Este princípio também não pode ser negligenciado.



Livreto Grátis: Sabedoria e Prudencia

0 comentários


Download de Sabedoria Prudência:

https://drive.google.com/file/d/1haQs7XnCftpCTMKslaaSdC94LOyDu81j/view?usp=sharing

Livreto Grátis: A Origem Pagã e Demoniaca do Uso de Drogas

0 comentários

  


https://drive.google.com/file/d/17FvrZnqsWyRQSHkWsYvPvL7hKhbr1b6y/view?usp=sharing