Em Mansidão e Temor: Como Defender a Fé sem Perder o Amor

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 Em Mansidão e Temor: Como Defender a Fé sem Perder o Amor

Um guia prático para cristãos que desejam apresentar a verdade com equilíbrio, sabedoria e compaixão

 


A Bíblia nos chama a ser "obreiros aprovados que manejam bem a palavra da verdade" (II Timóteo 2:15). Esse manejo correto das Escrituras não é apenas um exercício intelectual — é uma necessidade prática para quem deseja dar "respostas seguras, corretas e coerentes aos contrários da sã doutrina".

O apóstolo Pedro vai além: "Antes santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir razão da esperança que há em vós" (I Pedro 3:15).

Mas como conciliar a firmeza na verdade com a mansidão no trato? Quando a defesa da fé cruza a linha da agressividade? E como saber se nossa indignação é genuína ou apenas orgulho mascarado?

O professor e teólogo Anton Bosch apresenta princípios bíblicos que nos ajudam a navegar por essas questões com maturidade espiritual. Vejamos cinco lições essenciais.


1. A Defesa da Verdade Deve Ser Amorosa, Não Agressiva

É comum encontrar cristãos que confundem firmeza com agressividade. Bosch contesta frontalmente a ideia de que podemos ser abrasivos, maliciosos ou ofensivos ao defender a fé. A Bíblia não nos dá essa licença.

Ao contrário, as Escrituras instruem os cristãos a:

·         Amar os inimigos (Mateus 5:44)

·         Abençoar quem os persegue (Romanos 12:14)

·         Fazer o bem a quem os odeia (Romanos 12:17-21)

·         Orar por quem os maltrata (Mateus 5:44)

Paulo, Pedro e Tiago reforçam unanimemente: não devemos retribuir mal com mal, nem ofensa com ofensa. A defesa da fé ganha credibilidade quando é temperada pelo amor, não quando é impulsionada pela ira.

Reflexão prática: Antes de responder a um contrário, pergunte-se: "Estou falando para edificar ou para vencer a discussão?"


2. A "Indignação Justa" Exige Pureza Absoluta

Bosch reconhece que Jesus chamou os fariseus de "raça de víboras" e expulsou os vendilhões do templo com uma corda. No entanto, ele alerta: isso foi indignação justa, um fenômeno raro e perigoso de se imitar.

Os motivos de Jesus eram:

·         100% puros

·         Livres de qualquer vingança pessoal

·         Isentos de orgulho ou malícia

·         Perfeitamente alinhados à vontade do Pai

O autor propõe um teste de fogo antes de confrontarmos alguém que consideramos herético:

"Meus motivos são perfeitamente puros? Minhas ações obedecem exatamente à vontade de Deus?"

Se a resposta for negativa, é melhor calar e orar antes de falar.


3. Duas Responsabilidades do Defensor da Fé

Quem defende a verdade tem duas obrigações bíblicas claras, e não apenas uma:

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Responsabilidade

Base Bíblica

Objetivo

Proteger as ovelhas do erro

Atos 20:28-31

Preservar a igreja da contaminação doutrinária

Tentar ganhar os contradizentes

Tito 1:9; II Timóteo 2:25-26

Restaurar quem errou com mansidão

Bosch observa com tristeza que muitos cristãos não cumprem nenhuma dessas funções. Seu objetivo real é apenas mostrar que estão certos e os outros estão errados — algo para o qual, curiosamente, não existe mandamento bíblico.

A defesa da fé não é um esporte de competição intelectual. É um ministério de amor que protege e restaura.


4. É Necessário Nomear Nomes, Mas com a Atitude Correta

Devemos expor falsos mestres e mencionar nomes? Sim. Jesus, Paulo, Pedro e João o fizeram. Essa exposição é especialmente necessária para proteger os crentes mais fracos e vulneráveis.

O problema, segundo Bosch, nunca é o que é dito, mas como e com que espírito é dito.

A pergunta-chave que devemos fazer é:

"Fazemos isso com alegria e orgulho por não sermos como aqueles que erram, ou com tristeza e pesar pela necessidade de alertar contra eles?"

Denunciar o erro com satisfação pessoal é um sinal de que o nosso coração já se corrompeu — mesmo que a nossa doutrina esteja correta.


5. A Verdade Deve Ser Temperada com Lágrimas

Mateus 23 é um capítulo de denúncias duríssimas. Jesus pronuncia oito "ai de vós" contra os fariseus, sem suavizar uma vírgula. No entanto, no versículo 37, o mesmo Jesus chorou e lamentou por Jerusalém:

"Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não quiseste!"

Muitos imitam a agressividade dos profetas públicos sem perceber que, em seus momentos privados, esses homens choravam e sofriam pelo estado do povo. A indignação pública deles era alimentada por um coração partido em secreto.


Conclusão: A Condição do Coração

Segundo Anton Bosch, só temos o direito de falar contra quem se opõe à verdade quando nossas palavras forem temperadas com lágrimas de um coração quebrantado.

A verdade deve ser defendida — sim, com clareza, com firmeza, com base bíblica. Mas sempre com:

·         Amor que deseja o bem do outro

·         Compaixão que lamenta o erro alheio

·         Desejo genuíno de restaurar quem está desviado

E quando alguém insiste no erro, apesar de a verdade ser apresentada biblicamente? Aí a postura muda. Como ensina Paulo: "Ao homem herege, depois de uma ou duas admoestações, evita-o" (Tito 3:10). Mas até esse ponto, nossa postura é sempre a mesma: mansidão e temor.


Que o Senhor nos dê sabedoria para manejar bem a Sua Palavra — e corações quebrantados para que, ao defendermos a verdade, nunca percamos o amor.

 

 

C. J. Jacinto

 

AS SEMENTES RELIGIOSAS DO Ateísmo Anticristão

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Como o ateísmo militante se tornou uma religião substituta

 

C. J. Jacinto

“O assunto sobre a negação da existência de Deus não é causada por racionalismo. Por trás há um ódio — um ódio profundo sobre a possibilidade de que de fato Deus exista, e de fato Ele seja Soberano sobre todas as coisas.” — C. J. Jacinto

 

 

I. A Natureza do Problema

Existe um pressuposto amplamente difundido no pensamento secular contemporâneo: se a religião fosse eliminada do cenário humano, o mundo seria automaticamente mais racional, mais pacífico e mais justo. Esse argumento, repetido com fervor pelos novos ateus e por diversas correntes do secularismo militante, soa convincente à primeira audição. Porém, um exame honesto da história e da filosofia revela não apenas que tal tese é falsa, mas que ela encerra uma ironia profunda e reveladora.

O ateísmo, longe de libertar o homem da estrutura religiosa, frequentemente a reproduz em nova roupagem. O impulso de transcendência, de pertencimento a uma causa maior, de veneração e de sacrifício — traços constitutivos da experiência religiosa — não desaparecem quando Deus é destronado. Eles simplesmente migram para um novo altar.

Este artigo pretende demonstrar, com rigor histórico e fundamento bíblico, que o ateísmo anticristão carrega em si as sementes de uma nova religião, e que todo sistema que rejeita o Deus vivo termina, inevitavelmente, divinizando algo ou alguém em Seu lugar.

II. O Solo Fértil das Falsas Religiões

Toda falsa religião nasce de um terreno específico. Duas condições se revelam historicamente determinantes para o seu surgimento: um estado coletivo de incerteza e desesperança, e uma ausência de sentido para a existência. Quando o horizonte se fecha e o futuro parece opaco, o ser humano não simplesmente para de crer — ele passa a crer em outra coisa.

O fracasso das religiões organizadas desempenha aqui um papel catalisador. Não é que o homem abandone a busca pelo sagrado; é que ele redireciona essa busca para novas estruturas de sentido. Movimentos políticos totalitários, ideologias materialistas e cultos seculares emergem exatamente nos momentos em que as instituições religiosas tradicionais perdem sua autoridade moral e espiritual.

O contexto espiritual de uma nação, portanto, é decisivo. Foi precisamente o vácuo espiritual da Europa moderna — abalada pelo cientificismo, pelo niilismo e pela crítica iluminista à fé — que preparou o terreno para os dois grandes experimentos totalitários do século XX: o nazismo alemão e o comunismo soviético. Ambos são, em sua essência, religiões políticas seculares.

III. O Comunismo Soviético como Religião Ateísta

A Paradoxo do Sistema Antirreligioso

A doutrina marxista-leninista repudia oficialmente toda forma de religião. Marx declarou que a religião era o ópio do povo, um instrumento de alienação a ser destruído na construção da sociedade comunista. E, no entanto, foi justamente esse sistema — tão ostensivamente antirreligioso — que se tornou uma das mais perfeitas religiões substitutivas já conhecidas pela humanidade.

Os paralelos formais e funcionais entre o marxismo-leninismo e a religião organizada são, como reconheceram vários estudiosos, demasiado óbvios para serem ignorados. Mas o que raramente se discute é o quanto tal semelhança não foi mero acidente histórico, mas resultado de uma estratégia deliberada e calculada.

“Lenin era, antes de mais nada, um manipulador extremamente sagaz, com a penetrante compreensão das necessidades da psique. Reconhecia a necessidade de adaptação do seu sistema ao ímpeto religioso do homem, por mais incrédulo que fosse pessoalmente.” — A Herança Messiânica — Baigent, Leigh & Lincoln

Lenin compreendia que o homem não é apenas um ser racional: é um ser de fé. Para que seu sistema pudesse se enraizar nas massas, precisaria satisfazer as necessidades que a religião sempre satisfez — necessidade de sentido, de pertencimento, de esperança e de salvação. Assim nasceu a religião ateísta.

O Culto ao Líder: Ídolos de Carne e Osso

A morte de Lenin em 1924 ofereceu a Stalin uma oportunidade única de consolidar o caráter religioso do movimento bolchevique. Com a frieza calculista de quem havia recebido formação em seminário teológico, Stalin transformou o funeral de Lenin num ritual sagrado de proporções épicas.

“Stalin se empenhou sistematicamente em extrair tanto quanto possível o significado religioso da morte de Lenin. Fez com que ele fosse velado no salão das colunas na Casa dos Sindicatos. Durante quatro dias o corpo foi mantido ali em exposição, enquanto dez mil pessoas faziam fila sob temperaturas abaixo de zero para ter a oportunidade de passar ao lado do caixão. Outros líderes bolcheviques ficaram pasmos com essa descarada fusão de emoção religiosa.” — A Herança Messiânica — Baigent, Leigh & Lincoln

O corpo embalsamado de Lenin, exposto permanentemente na Praça Vermelha como uma relíquia sagrada, é um dos exemplos mais eloquentes da antropolatria — a adoração do homem pelo próprio homem. Quando o Exército Alemão avançou sobre Moscou durante a Segunda Guerra Mundial, Stalin mandou transferir o corpo para os Urais. Um ídolo sagrado não poderia cair nas mãos do inimigo.

Isso é adoração de ícone, inegavelmente. É o culto imperial do imperador romano, é o culto à personalidade, operando dentro de um estado que oficialmente negava Deus. O ateísmo não eliminou o impulso de veneração — apenas trocou o objeto da veneração.

O Lenço Vermelho: Batismo e Iniciação

Nenhum símbolo revela mais claramente a natureza religiosa do comunismo soviético do que o lenço vermelho dos Jovens Pioneiros. Em meio a juramentos e compromissos solenes, cada criança iniciada no Partido recebia esse pedaço de pano como seu talismã mais precioso.

O novo pioneiro era instruído a guardar o lenço, reverenciá-lo, preservá-lo do toque de qualquer outra pessoa. O pano representava o sangue dos mártires revolucionários — a nuvem de testemunhas do novo credo secular. O ritual era explicitamente comparável à primeira comunhão cristã: havia uma substância simbólica, havia um sangue derramado, havia uma iniciação aos mistérios do Partido.

Como observou o próprio material de pesquisa que fundamenta este artigo: postular a presença simbólica do sangue dos mártires naquele pedaço de pano não é significativamente diferente de postular a presença do sangue de Cristo no cálice da Santa Ceia. A premissa é essencialmente religiosa — e a intenção era idêntica: criar um símbolo sagrado, um vínculo transcendente entre o indivíduo e a comunidade de fé.

Havia ainda toda uma mística de recrutamento, discursos inflamados, promessas messiânicas de um Estado perfeito onde a humanidade finalmente alcançaria a felicidade. O Partido era a Igreja. O Estado era Deus. E Stalin era o sumo sacerdote.

IV. O Diagnóstico Bíblico: Romanos 1

O apóstolo Paulo, escrevendo aos Romanos no século I, forneceu o diagnóstico espiritual mais preciso que a história conhece para o fenômeno que estamos descrevendo. Sua análise, registrada no primeiro capítulo da epístola, é de uma acuidade que assombra pela modernidade.

“Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inexcusáveis. Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, em seus discursos, se desvaneceram e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos.” — Romanos 1:20-22

O ateísmo não é, em sua raiz mais profunda, uma posição filosófica racionalmente sustentada. É, antes, uma recusa moral. Paulo diz que os homens conheceram a Deus — a revelação geral da criação é suficientemente clara para isso — mas escolheram não glorificá-lo. O ponto de partida não foi a dúvida intelectual: foi a recusa de reconhecer a soberania divina.

O coração insensato que se obscurece não é o coração de quem não teve acesso à evidência, mas daquele que, diante da evidência, voltou as costas. E a consequência lógica dessa rejeição é a tolice que se veste de sabedoria: tornaram-se loucos, dizendo-se sábios.

A história soviética é a ilustração histórica perfeita desse diagnóstico paulino. Um estado edificado sobre a recusa de Deus, governado por homens que se proclamavam os iluminados da razão, produziu um dos sistemas mais irracionais, mais cruéis e mais mitológicos que o mundo já viu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos.

V. Nietzsche e o Super-Homem: A Autodivinização Filosófica

O que no comunismo soviético ocorreu de forma institucional e política, na filosofia de Friedrich Nietzsche ocorreu de forma intelectual e individual. Nietzsche declarou a morte de Deus — e, ao fazê-lo, abriu caminho para a entronização do homem em Seu lugar.

O conceito nietzschiano do Übermensch, o Super-Homem, é a expressão filosófica da autodivinização. Trata-se do homem que supera a si mesmo, que transcende os limites da condição humana por suas próprias forças, que não espera salvação de nenhuma fonte exterior. Ele é seu próprio senhor, seu próprio redentor, seu próprio Deus.

Negar a Deus é sempre um impulso em direção à autodivinização. Essa dinâmica não é acidente — é lei espiritual. E ela remonta ao princípio de tudo: foi exatamente isso que a antiga serpente prometeu no Jardim do Éden. "Sereis como Deus" (Gênesis 3:5). O ateísmo filosófico, em última análise, é a teologia do diabo revestida de racionalismo moderno.

O Super-Homem de Nietzsche é o homem que acredita poder controlar os aspectos cruciais de seu próprio destino, superar as crises existenciais por força própria e dispensar qualquer referência transcendente. É, em resumo, um semideus secular — um ídolo que caminha sobre dois pés.

VI. A Antropolatria: O Homem como Deus

Feuerbach e a Inversão Teológica

O filósofo Ludwig Feuerbach levou a lógica do ateísmo humanista às suas últimas consequências. Sua tese central é de uma audácia impressionante: Deus não criou o homem à Sua imagem e semelhança — foi o homem que criou Deus à sua própria imagem e semelhança. A religião, para Feuerbach, é simplesmente a projeção exterior das qualidades humanas idealizadas.

Como registra Urbano Zilles em sua Filosofia da Religião: "Feuerbach destrona Deus e diviniza o homem. Segundo ele, os amigos de Deus devem tornar-se amigos do homem neste mundo. Deus é apenas a personificação da espécie humana."

A consequência prática dessa posição é devastadora: se Deus é apenas o reflexo idealizado do homem, então o homem é o verdadeiro absoluto. A Bíblia deve ser reescrita: não "no princípio Deus criou o homem", mas "no princípio o homem criou Deus". A transcendência é abolida, e o horizonte humano se fecha sobre si mesmo.

O Cientificismo e os Limites da Razão

O cientificismo — a crença de que a razão científica e empírica é o único instrumento legítimo de acesso à realidade — padece de uma limitação constitutiva: ele é incapaz de ir além dos limites que ele mesmo impôs. Fecha a janela para o transcendente e depois se espanta por não conseguir ver o céu.

A razão natural, quando absolutizada, não ilumina — obscurece. Ela é aquela que, nas palavras que iluminam o início desta análise, crê no acaso cego como criador de todas as coisas. Mas atribuir ao acaso cego a capacidade de criar, organizar e sustentar o universo não é racionalismo — é fé. É fé em uma força irracional e impessoal, exercida com fervor absolutamente religioso.

Jesus Cristo descreveu com precisão cirúrgica o resultado final desse sistema: quando um cego guia outro cego, ambos caem na vala (Mateus 15:14). A razão natural que rejeita a luz de Deus não se torna mais esclarecida — torna-se mais cega. E essa cegueira coletiva, quando organizada em sistema político, produz regimes como o soviético, cujas valas foram repletas de milhões de cadáveres.

VII. O Ateísmo Militante como Fenômeno Religioso

O secularismo moderno não é a ausência de religião. É uma religião concorrente. Observe-se o comportamento do ateísmo militante contemporâneo — os chamados novos ateus — e encontrar-se-á exatamente a estrutura que define qualquer sistema religioso: dogmas intocáveis, profetas reverenciados, ritos de iniciação, militância fervorosa e intolerância com os hereges.

Os profetas do ateísmo moderno têm nome e sobrenome: Friedrich Nietzsche, Voltaire, Bertrand Russell, Karl Marx. São reverenciados como iluminados, citados como escrituras, defendidos com o mesmo fervor com que um crente defende sua fé. A ironia é irresistível: os homens que proclamam a morte de Deus constroem, em seguida, um panteão de novos deuses.

Praticamente, no mundo concreto, não existe ateísmo. A partir do momento em que o homem deixa de crer em Deus, ele passa a crer em si mesmo, em seu grupo, em sua ideologia, em seu líder. O vácuo espiritual não permanece vácuo — ele é preenchido, sempre. E o que o preenche raramente é mais racional ou mais humano do que o que foi expulso.

O homem que abandona o conceito de um Deus que está acima dele acaba por divinizar a si próprio. Ele passa a adorar sua própria razão como uma luz que ilumina todas as questões existenciais. Torna-se incrédulo por orgulho intelectual — e esse orgulho, que se apresenta como libertação, é a mais antiga das prisões.

VIII. Conclusão: O Altar Inevitável

A tese deste artigo pode ser resumida em uma proposição: o coração humano é, por constituição, um fabricante de deuses. Calvino já o havia observado — o coração humano é uma fábrica perpétua de ídolos. Quando o Deus verdadeiro é rejeitado, outro deus ocupa imediatamente seu lugar: o Estado, o Partido, o Líder, a Raça, a Razão, o Homem.

O experimento soviético demonstrou isso com uma clareza histórica brutal: um sistema edificado sobre a negação de Deus produziu um dos mais elaborados sistemas de culto que o mundo moderno conheceu. Os ídolos tinham rosto humano, os templos eram mausoléus, os sacramentos eram lenços vermelhos, e os mártires eram os heróis da revolução.

A mensagem do apóstolo Paulo permanece atual e desafiadora: os que recusam glorificar a Deus não se tornam ateus — tornam-se idólatras. E a idolatria do homem moderno, revestida de ciência e filosofia, é mais perigosa do que a dos antigos, precisamente porque não se reconhece como tal.

Diante desse panorama, a apologética cristã não pode limitar-se a rebater argumentos filosóficos. Ela precisa expor a estrutura religiosa oculta do ateísmo militante, revelar os ídolos que se escondem por trás da linguagem da razão, e proclamar — com a mesma clareza e o mesmo amor do apóstolo — que só há um altar que não decepciona, só há um Nome ao qual toda joelho se dobra, e só há um Senhor perante quem o coração humano finalmente encontra o repouso que sempre buscou.

 

 

Referências Bibliográficas

BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard; LINCOLN, Henry. A Herança Messiânica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. p. 142-146.

ZILLES, Urbano. Filosofia da Religião. São Paulo: Paulus.

Bíblia Sagrada. Romanos 1:20-22; Mateus 15:14; Gênesis 3:5.

Um Chamado a Sobriedade

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 Um Chamado a Sobriedade

 

 

C. J. Jacinto

 

 

A grande exortação do apóstolo Pedro nunca pode ser ignorada nos tempos em que vivemos. Ele escreveu em 1 Pedro 4:7: "Ora, já está próximo o fim de todas as coisas; portanto, sede sóbrios e vigiai em oração."

Com essa exortação, o apóstolo Pedro nos convida a uma vida espiritual em que o discernimento, as faculdades intelectuais e as nossas percepções estejam sempre ativas. Isso nos permite viver em vigilância constante, de modo que estejamos verdadeiramente preparados para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.

O que Pedro nos ensina é que devemos cultivar uma atitude mental esclarecida, orientada pela luz das Escrituras, para perceber corretamente os acontecimentos ao nosso redor. Além disso, isso não basta: é necessário manter uma vida devocional ativa. Como João afirma em 1 João 1:3, precisamos de comunhão com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo, vivida por meio do Espírito Santo e de um coração inteiro dedicado à Palavra.

Essa dedicação implica uma análise diária das Escrituras — como faziam os bereanos, que examinavam cuidadosamente a Escritura todos os dias, após ouvir um sermão, para verificar se aquilo que ouviam estava de fato conforme o que está escrito.

Acho que é uma grande negligência não tratar desse tema nos dias atuais. Muitos dos que se declaram cristãos não têm ideia do que significa viver em sobriedade; nem sabem defini-la. Porém, encontramos várias exortações no Novo Testamento que exigem dos cristãos vigilância diante dos problemas, das dificuldades e dos enganos próprios dos últimos dias. Por isso é essencial que prestemos atenção a esses avisos divinos: o Senhor nos chama à sobriedade, ao discernimento espiritual e a uma atenção plena — para perceber o que acontece ao nosso redor e reconhecer os sinais de que vivemos tempos difíceis, como o próprio Novo Testamento nos atesta em diversas passagens.

O homem sóbrio — aquele que possui discernimento e orienta a vida à luz das Escrituras — é um conselheiro valioso. Ele pode apontar caminhos seguros para quem busca orientação. Hoje mais do que nunca precisamos desse homem espiritual.

A Bíblia descreve o sóbrio como vigilante, capaz de interpretar os sinais dos tempos. Ele identifica onde atua o falso profeta e onde se espalha um evangelho enganoso; por isso, reage com firmeza. O homem espiritual é zeloso pela sã doutrina e pela verdade, percebe a ação do espírito do erro e se coloca em oposição a manifestações anticristãs e demoníacas que por vezes se infiltram na igreja.

Muitos se dizem cristãos, mas carecem de discernimento espiritual e acabam seduzidos por falsos mestres. Assim se cumpre a advertência de Jesus em Mateus 15:19 quando o cego guia outro cego, ambos caem no abismo. Não ter discernimento hoje é ser espiritualmente cego.

Pedro proferiu essa exortação há cerca de dois mil anos. Mesmo então já existia a expectativa pela volta iminente de Cristo — a grande esperança da Igreja e dos apóstolos. Pedro chama essa esperança de bendita, porque ele aguardava o retorno triunfante de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, evento que transformará por completo a trajetória da história.

Entretanto, essa promessa não é apenas uma boa notícia no sentido sentimental. O Evangelho traz novidades de salvação, de libertação e também a promessa da segunda vinda de Cristo. Na época de Pedro, a comunidade cristã vivia nessa expectativa sublime. Ao longo dos séculos, muitas gerações cultivaram essa mesma esperança gloriosa.

Quando Pedro fala de proximidade, ele o faz segundo a perspectiva divina, não a humana. O tempo é contado à luz de Deus, e não pelo nosso calendário. Talvez aí resida o grande desafio de compreensão: para Deus mil anos são como um dia, enquanto para nós mil anos equivalem a mais de dez gerações. A cronologia divina difere radicalmente da nossa. Por isso, em todo tempo devemos permanecer vigilantes.

A sobriedade é sempre uma virtude do homem santo. Todo homem verdadeiramente santo manifesta sobriedade; essa é uma das marcas da piedade. A vida piedosa conduz-nos a esse traço fundamental.

O homem espiritual possui discernimento bíblico profundo. Podemos reconhecer isso assim: a pessoa redimida, que vive em íntima comunhão com as Escrituras e em oração, aproxima‑se da verdadeira luz espiritual, que ilumina o seu entendimento. Assim, todo o seu conhecimento é clarificado pela verdade da Palavra de Deus e pela própria verdade divina, pois Deus se revela como verdade.

Jesus afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade” e também orou “Santifica-os na verdade”; e declarou que “a tua palavra é a verdade”. A verdade está, portanto, intimamente ligada à nossa comunhão com a Palavra e com o próprio Deus que se revela por ela. Dessa comunhão decorre uma luz espiritual que capacita o crente a compreender as coisas espirituais.

Isso, de fato, são os últimos dias difíceis para os ignorantes, os desatentos e para todos os que são espiritualmente cegos, que vivem uma vida morna e não têm compromisso com a verdade. Não são apaixonados pelo Evangelho nem se angustiam por uma sã doutrina; por isso têm convicções fracas e não conseguem perceber as ameaças e os infortúnios que acompanham os últimos dias. A grande quantidade de falsos profetas que se levantam pregando outro evangelho não lhes causa inquietação; tomam como agentes de Deus todos aqueles que portam a Bíblia ou têm uma plataforma de pregação. Não conseguem discernir porque lhes falta firmeza e compreensão dos ensinamentos do Novo Testamento sobre a igreja nos últimos dias, e por isso ignoram totalmente as advertências — especialmente a de Pedro, quando nos exorta a estarmos sóbrios e vigilantes em oração.

Quando lemos a primeira carta de Paulo aos Tessalonicenses, encontramos em 1 Tessalonicenses 5:6 o exortativo: “Não durmamos como os demais, mas sejamos sóbrios e vigilantes.” Paulo aí faz uma distinção clara entre dois tipos de cristãos: os sóbrios, despertos e vigilantes, e os que dormem — aqueles em dormência espiritual, sonolentos, amortecidos, quase anestesiados.

Permita-me dizer, irmão amado: não vivemos tempos de anestesia espiritual? Em vez de sermões e leituras que nos despertem para a realidade espiritual, muitas vezes somos alvo de mensagens que nos entorpecem e nos fazem adormecer. São dias difíceis. Paulo, porém, enfatiza com firmeza essa divisão em 1 Tessalonicenses 5:6. A que grupo você pertence? Está entre os despertos, que cultivam a sobriedade espiritual, ou entre a maioria que vive anestesiada e adormecida?

Tenho tratado este tema na esperança de que o amado irmão desperte para a realidade dos dias difíceis em que vivemos. São tempos que representam um grande desafio para o cristão verdadeiro que deseja permanecer firme nos caminhos do Senhor e cultivar, na sua vida espiritual, a marca da fidelidade: fidelidade a Deus, ao Evangelho e à Sã Doutrina. Sabemos que essa característica será distintiva de poucos nestes dias de apostasia. Você está preparado para trilhar esse caminho? Este artigo tem por objetivo despertar a sua consciência e incentivá‑lo a perseverar.