Arrependimento: Entre a Crença e a Ação — Uma Análise da Metanoia Bíblica

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 Arrependimento: Entre a Crença e a Ação — Uma Análise da Metanoia Bíblica

 


Referência: DEBONO-DE-LAURENTIS, M. Repent – what does this mean? MDDL Discernment and Study Ministry, 2011.


A Dicotomia que Divide a Cristandade

Se há um termo que permeia todo o discurso evangélico, mas que raramente recebe o tratamento semântico que merece, esse termo é arrependimento. A pergunta que se impõe é aparentemente simples: o que significa, de fato, "arrepender-se"? Contudo, como demonstra o estudioso M. Debono-De-Laurentis em sua análise exegética, a resposta divide o cristianismo contemporâneo em duas vertentes distintas — e distantes.

A primeira visão, predominante em círculos evangelícos modernos, compreende o arrependimento como um evento cognitivo: uma mudança de mente (change of mind) que concorda com o fato de que Jesus morreu pelos pecados humanos. Nessa perspectiva, salvação torna-se sinônimo de mero assentimento intelectual ao evangelho reduzido: reconhecer-se pecador, crer na morte e ressurreição de Cristo, e "receber" Jesus. É o modelo do "ORAÇÃO DO PECADOR", onde a eficácia soteriológica reside exclusivamente na fé como convicção mental.

A segunda visão — que o autor defende como a compreensão bíblica autêntica — entende o arrependimento como verbo de ação. Não se trata apenas de pensar diferente, mas de andar diferente. O arrependimento bíblico implica uma reversão de direção, uma mudança de trajetória existencial que transcende o âmbito meramente mental e se concretiza em transformação ética e comportamental.

O Problema da Fé Desencarnada

Debono-De-Laurentis identifica um déficit crucial na primeira abordagem: ela produz uma cristologia de consumo, onde o evangelho é apresentado como solução para o problema da condenação eterna, sem exigir transformação presente. O autor cita o apóstolo Tiago para demonstrar a insuficiência da crença pura: "Os demônios creem e estremecem" (Tg 2:19). Se a salvação residisse apenas no domínio do cognitivo, até as potestades infernais estariam salvas.

O texto analisa o plano de salvação simplificado proposto por alguns evangelistas, onde Atos 16:31 ("Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo") é isolado de seu contexto ético. O autor argumenta que tal abordagem "glossa over" (suaviza/oculta) a dimensão ativa do arrependimento, tratando-o como mero preâmbulo para a fé, quando na realidade ele é constitutivo dela.

Aqui emerge uma distinção teológica vital: a aliança (covenant) entre Deus e o homem nunca é unilateral. Embora a graça seja dom gratuito (free gift), sua aceitação pressupõe condições. A salvação não é "trabalhada" pelo homem, mas exige resposta ativa — uma síntese que o autor caracteriza como "contrato condicional".

Metanoia: Etimologia e Ontologia

Do ponto de vista léxico, o autor recorre à definição de repent no Merriam-Webster: "afastar-se do pecado e dedicar-se à emenda da própria vida" (to turn from sin and dedicate oneself to the amendment of one's life). O arrependimento é, por natureza, verbo intransitivo — exige movimento, direcionalidade, êxodo do estado anterior.

Esta compreensão alinha-se com o conceito bíblico hebraico de teshuvá (retorno) e o grego metanoia (mudança de mente que produz mudança de caminho). O autor propõe que o arrependimento é um ato bifásico: primeiro, a cognição (reconhecer a própria condição pecaminosa e a suficiência de Cristo); segundo, a praxis (virar-se do pecado para a obediência). Não se trata de etapas temporais, mas de dimensões simultâneas e inseparáveis da mesma realidade soteriológica.

Torah: O Manual do Arrependimento

Talvez a contribuição mais provocativa do texto seja a reabilitação teológica da Torah (Pentateuco) na vida do crente cristão. O autor observa que a tradução sistemática de "Torah" como "Lei" no vocabulário cristão ocidental criou uma falsa dicotomia entre graça e obrigação ética.

Debono-De-Laurentis argumenta que a Torah não é sistema de justificação por obras — nunca foi —, mas manual de santificação. A "Lei" (Torah) é, em essência, "instrução para vida santa" (handbook on righteous living). Quando Paulo afirma em Gálatas 2:16 que o homem não é justificado pelas obras da lei, ele está combatendo a ideia de que a observância perfeita da Torah poderia merecer salvação — algo impossível dada a condição humana pós-queda. No entanto, isso não anula a validade da Torah como norma de conduta para o justificado.

O autor enumera 1.050 mandamentos no Novo Testamento, todos edificados sobre os fundamentos do Antigo Testamento, exceto pelo sistema sacrificial — cumprido e transcendido em Cristo. A Nova Aliança, profetizada em Jeremias 31:33, não abole a Torah, mas a internaliza: "Escreverei a minha lei nos seus corações". A consciência moral que o Espírito Santo ativa no crente (Rm 2:15) é, precisamente, a Torah operando de dentro para fora.

Justificação e Santificação: A Síntese Necessária

O texto propõe uma síntese escatológica que evita tanto o legalismo quanto o antinomianismo. A justificação é obra exclusiva de Deus — dom gratuito mediante a fé em Cristo. A santificação, porém, é a cooperação (synergia) do crente com a graça, manifestada na obediência aos mandamentos de Deus.

Estas duas realidades são "simbióticas e inseparáveis". Não é possível possuir uma sem a outra. A fé que justifica é necessariamente a fé que obedece. O arrependimento genuíno é, portanto, o pivô onde justificação e santificação se encontram: no momento da conversão, o crente simultaneamente aceita a graça salvífica e assume o compromisso de "andar em novidade de vida" (Rm 6:4).

O autor cita as palavras de Jesus em João 14:15 — "Se me amais, guardareis os meus mandamentos" — para demonstrar que o amor cristão não é emoção abstrata, mas obediência concreta. A "mudança de direção" que caracteriza o arrependimento é, especificamente, a transição do caminho da desobediência para o caminho da Torah — não como sistema de mérito, mas como expressão de gratidão e identidade renovada.

Conclusão: O Arrependimento como Exíodo Permanente

O arrependimento, longe de ser mero ritual de iniciação cristã, é estado permanente de êxodo. É a constante orientação da vida para fora do egito do pecado, através do deserto da santificação, em direção à terra prometida da plena comunhão com Deus.

A mensagem do documento é, em última instância, uma chamada à integridade teológica. O evangelho simplificado que promete salvação sem transformação, que oferece "céu" sem exigir "santidade", é "evangelho diferente" (Gl 1:6-9) — psicologicamente reconfortante, mas espiritualmente estéril.

O arrependimento autêntico exige que abandonemos não apenas nossos pecados, mas também nossa autonomia ética. É a admissão de que Deus, não o homem, define o que constitui "vida reta". É a submissão joyfully à Torah do Messias, reconhecendo que os mandamentos de Deus não são fardos opressivos, mas "delícias" (Sl 1:2) que conduzem à vida plena.

Que possamos, portanto, recuperar o arrependimento em sua plenitude bíblica — não como mero sentimento de culpa, nem como mero assentimento doutrinário, mas como revolução existencial que nos faz "virar as costas" para o pecado e "caminhar" na luz de seus estatutos. Pois, como bem conclui o autor: não somos salvos pelas obras, mas somos salvos para as obras — obras que Deus predestinou para que andássemos nelas (Ef 2:10).


Minha conclusão pessoal: O verdadeiro arrependimento leva a regeneração, e isso significa transformação, para onde isso nos leva? para uma nova criatura em Cristo (II Coríntios 5:17) na vida de um regenerado a obediência não é uma obrigação, mas uma inclinação natural que age de acordo com a sua natureza. Um peize se sente bem na água e um pássaro no céu e o homem novo criado em verdadeira justiça e santidade se sente bem vivendo uma vida de piedade, sapiência, obediência e consagração. Isso não corresponde em uma vida de imposições legalistas, mas uma tendência natural do homem espiritual. Se a conversão não induz um cristão para a vivencia e progressão nessa direção, ele não nasceu de novo, nunca foi regenerado. O sistema de chamada de altar com a formula “aceitar Jesus” é insuficiente se não levar o pecador para o entendimento correto da natureza da regeneração, ela é uma ação exclusivamente divina, mas ocorre quando o evangelho é pregado e ensinado com fidelidade, inclusive a doutrina do arrependimento. (C. J. Jacinto)

A Extinção da Alma Refutada

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 A Extinção da Alma Refutada: Uma Defesa Bíblica, Lógica e Teológica da Consciência Pós-Morte



Em tempos de crescente confusão doutrinária e relativização da verdade revelada, ressurge com força uma antiga heresia: a doutrina da extinção da alma, também conhecida como aniquilacionismo ou mortalismo. Tal ensino sustenta que o homem não possui existência consciente após a morte, sendo reduzido a um estado de inexistência até a ressurreição — ou, em alguns casos, sendo definitivamente destruído.

Essa posição, defendida por grupos como Testemunhas de Jeová, Cristadelfos e outros movimentos heterodoxos, não apenas carece de fundamento bíblico sólido, como também entra em colisão frontal com a antropologia bíblica, a cristologia e a escatologia ortodoxa.

Este artigo se propõe a refutar, com precisão teológica e rigor lógico, essa doutrina, demonstrando que o homem possui uma existência consciente após a morte, conforme ensinado pelas Escrituras.


1. A Natureza do Homem: Dualidade Evidente nas Escrituras

A Bíblia apresenta o homem não como uma entidade monolítica (monocotômica), mas como um ser composto, no mínimo, de corpo e alma/espírito.

O apóstolo Paulo estabelece essa distinção com clareza:

  • O “homem exterior” (corpo) se corrompe
  • O “homem interior” (alma) é renovado (2 Coríntios 4:16)

Essa dicotomia não é meramente metafórica, mas ontológica. O corpo é descrito como uma habitação temporária:

  • “tabernáculo” (2 Coríntios 5:1)
  • “tenda” (2 Pedro 1:13-14)

Ora, se o corpo é uma habitação, então existe um habitante — a alma.

Negar essa distinção é cair em um reducionismo materialista que, curiosamente, aproxima os extincionistas da cosmovisão ateísta, na qual o homem é apenas matéria organizada.


2. A Consciência Após a Morte: Testemunho Inequívoco de Cristo

O argumento mais contundente contra a extinção da alma encontra-se nas palavras do próprio Cristo, especialmente em Lucas 16:19-31, a narrativa do rico e Lázaro.

Ambos morreram — e ambos continuaram existindo:

  • conscientes
  • com memória
  • com identidade pessoal
  • experimentando realidades distintas

O rico sofre tormento. Lázaro é consolado. Nenhum deles deixou de existir.

Se a morte implicasse inconsciência ou extinção, essa passagem seria completamente incoerente. Não há qualquer indicação de que se trate de mera alegoria desprovida de realidade ontológica; pelo contrário, Jesus a utiliza como descrição fiel da condição pós-morte.


3. A Declaração Cristológica Contra os Negadores da Imortalidade

Em Lucas 20:37-38, Cristo confronta diretamente os saduceus — os “modernistas” de sua época, que negavam a ressurreição e, implicitamente, a continuidade da alma.

Ele declara:

“Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para Ele todos vivem.”

Essa afirmação é devastadora para o aniquilacionismo.

Abraão, Isaque e Jacó — embora fisicamente mortos — continuam vivos diante de Deus. Cristo não está usando figura de linguagem, mas respondendo a uma controvérsia teológica real com precisão absoluta.

Negar isso é, em última instância, contradizer a própria autoridade de Cristo.


4. A Consciência Fora do Corpo: Testemunho Apostólico

O apóstolo Paulo fornece uma das evidências mais sofisticadas dessa doutrina:

  • Em 2 Coríntios 12:2-4, ele descreve alguém que esteve “fora do corpo” e ainda assim plenamente consciente.
  • Em Filipenses 1:23, ele expressa o desejo de “partir e estar com Cristo”.

Observe a implicação lógica:

Se “partir” significa cessar de existir, então Paulo estaria desejando o nada — o que é absurdamente incoerente com sua teologia.

Mas Paulo entende a morte como transição, não extinção.

Ele reafirma isso em 2 Timóteo 4:6, ao dizer:

“O tempo da minha partida está próximo.”

Partida não é aniquilação — é deslocamento.


5. A Falácia do Reducionismo Animal

Outro erro grave dos extincionistas é equiparar o homem aos animais, argumentando que, assim como estes morrem e deixam de existir, o homem também o faria.

Tal raciocínio ignora um ponto fundamental da teologia bíblica:

O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus.

Isso implica:

  • racionalidade
  • moralidade
  • espiritualidade
  • transcendência

Reduzir o homem a um animal é ecoar, ainda que involuntariamente, o naturalismo evolucionista — uma cosmovisão incompatível com a revelação bíblica.


6. Hades e Geena: Distinção Escatológica Necessária

Uma confusão comum — e explorada por defensores da extinção — é a falta de distinção entre Hades e Inferno (Geena).

Biblicamente:

  • Hades: estado intermediário, lugar temporário dos mortos
  • Geena: destino final, após o juízo

Ninguém entra no estado eterno final antes do julgamento. No entanto, isso não implica inconsciência no estado intermediário — como já demonstrado em Lucas 16.


7. Imortalidade e Ressurreição: Consumação da Existência Humana

A Escritura ensina que:

  • Todos ressuscitarão (João 5:28-29)
  • Todos se tornarão incorruptíveis (1 Coríntios 15:54)

Mas isso não significa que a existência começa na ressurreição — significa que ela é plenificada.

O salvo recebe:

  • corpo glorificado
  • vida eterna em plenitude

O ímpio:

  • existência contínua
  • sob juízo justo

A imortalidade, portanto, não é inexistência evitada, mas existência perpetuada sob diferentes condições.


Conclusão: A Gravidade do Erro Extincionista

A doutrina da extinção da alma não é um erro periférico — ela atinge o cerne da antropologia bíblica e distorce a compreensão da justiça divina, da eternidade e do próprio significado da salvação.

Negar a continuidade da alma é:

  • esvaziar o ensino de Cristo
  • contradizer os apóstolos
  • reduzir o homem a mera matéria
  • enfraquecer a urgência do evangelho

A verdade bíblica permanece firme:

O homem não se apaga como uma lâmpada. Ele atravessa a morte.

Criado à imagem de Deus, portador do fôlego divino, o ser humano está destinado à eternidade — seja na comunhão com Deus, seja sob o peso de Sua justiça.

Portanto, que a Igreja permaneça vigilante, discernindo os ventos de doutrina, e firmemente ancorada na revelação imutável das Escrituras.

Artigo escrito com IA usando um rascunho com informações, textos bíblicos e insights que rascunhei para uso pessoal em pesquisas posteriores.

 

C. J. Jacinto

 

CRISTO A VERDADE CENTRAL DA DINÂMICA DO EVANGELHO.

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CRISTO A VERDADE CENTRAL DA DINÂMICA DO EVANGELHO.

 


C. J. Jacinto

 

 

 

A célebre passagem de Jesus, registrada no Evangelho de João, capítulo 8, versículo 32, exige uma profunda reflexão para que possamos compreender a fundo o ensinamento de Cristo. Em João 8:32, lemos: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará".

 No breve ensaio filosófico de J. A. Medeiros Vieira, intitulado "Filosofia à Verdade como busca da natureza humana", apresenta-se uma definição sobre a natureza do conhecimento da verdade. O autor postula que os critérios para se alcançar a verdade se fundamentam no critério da evidência. Essa evidência pode ser alcançada tanto através do raciocínio discursivo, que envolve uma análise cuidadosa e aprofundada, quanto por meio da intuição, que se manifesta de forma imediata no interior do sujeito. Independentemente do método, a evidência é considerada o caminho essencial para a descoberta da verdade.

 A perspectiva cristã bíblica sustenta que a verdade é imutável, tendo sido revelada. Como expresso na Epístola de Judas, capítulo 1, versículo 3, a fé foi dada de uma vez por todas, sendo, portanto, definitiva. Essa verdade fixa e completa encontra-se contida nos 66 livros da Bíblia.

 Ademais, entende-se que a revelação divina, embora progressiva na economia de Deus, progrediu do Antigo Testamento para o Novo Testamento, ou seja, da Antiga Aliança para a Nova Aliança. Desta forma, o desenvolvimento e a frutificação da verdade ocorreram após sua germinação no Antigo Testamento. A verdade se manifesta plenamente no Novo Testamento, embora suas raízes se encontrem no Antigo Testamento.

 Assim, a verdade é una e se completa por meio da Nova Aliança, de modo que nos 66 livros da Bíblia encontramos uma verdade fixa, revelada por Deus. A Bíblia Sagrada, portanto, é a palavra de Deus.

 Durante seu ministério terreno e ao longo de sua vida, Jesus enfrentou oposição à sua mensagem. Inicialmente, foi rejeitado como a personificação da verdade, como o Messias. Posteriormente, sua divindade foi negada, e ele foi rejeitado como Filho de Deus e como o Verbo. Essa rejeição não se limitou à sua pessoa, mas também se estendeu aos seus ensinamentos, que foram, em grande medida, negligenciados. A verdade, portanto, manifesta-se em um conceito unificado. No Novo Testamento, e particularmente no Evangelho de João, a verdade é apresentada tanto como uma pessoa quanto como um conjunto de ensinamentos. Conseqüentemente, a verdade é personificada em Cristo e está intrinsecamente ligada aos seus ensinamentos.

 A. T. Robertson, no seu magnífico “Comentário do Texto do Novo Testamento Grego” afirmou: “A verdade é uma das marcas de Cristo, Jesus afirmará ante Tomé ser a personificação da verdade, para os discípulos era um aprendizado executando a vontade de Deus, está é uma liberdade que somente Cristo dá”

 A compreensão da experiência e do conceito de verdade exige atenção ao contexto da declaração em João, capítulo 8, versículo 32. No versículo 31, lemos: "Jesus dizia aos judeus que haviam crido nele: ‘Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos.’" Portanto, a verdade que liberta e o conhecimento da verdade estão ligados a um princípio: permanecer na palavra de Cristo. Ao nos aprofundarmos na palavra de Cristo e permitirmos que ela penetre em nós, estabelecemos um relacionamento de obediência e orientação espiritual com aquele que é a Verdade. Jesus é o caminho, a verdade e a luz; quem o segue não caminha nas trevas. Assim, aqueles que cultivam intimidade, relacionamento e comunhão com o Senhor estão aptos a discernir a realidade espiritual e a reconhecer a verdade contida nos ensinamentos de Cristo. A verdade proclamada está intrinsecamente ligada à pessoa que a proferiu.
 Portanto, é imprescindível compreender que a experiência da verdade que proporciona a liberdade reside na constância em Cristo e na fidelidade à sua palavra. Essa é a essência do cristianismo bíblico, que se fundamenta na revelação divina, na encarnação do Verbo. Essa é a plenitude da revelação de Deus, manifestada em seu Filho, que veio ao mundo para transmitir a verdade. Não se trata apenas de um conceito abstrato, mas da verdade personificada, da verdade prática que liberta e transforma, transcendendo a mera filosofia. É uma verdade pessoal, celestial e progressiva nas paginas do livro sagrado.

 Após a partida dos apóstolos, o conceito bíblico de verdade original gradualmente esvaziou-se de seu sentido. Ela se fundiu com idéias e conceitos filosóficos gregos, notadamente de Aristóteles e, em especial, de Platão entre outros, além da influencia pagã. Desse modo, a verdade foi convertida em um sistema ritualístico, um conjunto de cerimônias adotadas como se fosse parte integrante do cristianismo genuíno, embora representasse um desvio. Reduzir o cristianismo a uma filosofia ou a mais uma religião é, em essência, um equívoco. O cristianismo é a verdade por essência, natureza e fundamento. Contudo, Cristo  não é uma verdade abstrata ou subjetiva, mas uma verdade concreta e objetiva. Ela se centraliza em uma pessoa, em uma figura histórica que faleceu e ressuscitou literalmente, que está assentada à direita de Deus literalmente e que retornará literalmente. Esta é a essência da história. Portanto, o cristianismo se inicia a partir deste ponto, pois não é possível compreender o cristianismo sem considerar Cristo como uma pessoa histórica, divina e  Salvadora. A compreensão da verdade fundamental do cristianismo bíblico reside nesse cerne.

 Quando a verdade, conforme revelada na Bíblia e nos ensinamentos de Cristo, que expressam Sua própria pessoa, é deturpada e passa a ser propriedade de uma organização humana ou instituição, observa-se, em certa medida, um sinal claro de apostasia. Este processo ocorreu na história do cristianismo, e a própria Reforma Protestante não conseguiu se libertar completamente dessa visão equivocada. O cristianismo, de acordo com o Novo Testamento, está fundamentado em uma pessoa, e não em uma instituição.

 Portanto, evidencia-se que a verdade não se constitui em uma instituição, nem em um conjunto de cerimônias ou sistemas ritualísticos e sacramentais. A verdade persiste como uma pessoa, cujos ensinamentos se encontram intrinsecamente relacionados a essa figura divina. Essa é a base da verdadeira libertação espiritual, o libertador é uma pessoa não uma instituição ou um conjunto de idéias religiosas.

 No mesmo capítulo, no versículo 44, Jesus apresenta outra perspectiva. Ele acusa os judeus, como se observa: "Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque a verdade não está nele. Quando profere mentiras, fala do que lhe é próprio, pois é mentiroso e pai da mentira."
 Dessa forma, enquanto Cristo é apresentado como a personificação da verdade, o diabo é retratado como a própria personificação da mentira. Ele não é apenas o mentiroso, mas também a origem e a fonte de toda a mentira.
 O contraste estabelecido é fundamental para a compreensão da declaração de Cristo sobre a libertação. Entendemos que Jesus fala da libertação do poder e do domínio do pecado, pois todo pecado teve início com uma mentira. O diabo desenvolveu essa mentira, utilizando a Palavra de Deus de forma indevida, interpretando-a de maneira equivocada, em desacordo com os princípios dados a Adão. Assim, o diabo distorceu a palavra de Deus, iniciando sua ação de mentiroso e pai da mentira desde o princípio.

 A afirmação de Jesus em João 8:32, sobre a verdade, ressoará por todo o Novo Testamento, estabelecendo o princípio de que Cristo é a Verdade. Essa perspectiva se manifesta em passagens como Efésios 4:21, onde Paulo declara: "a verdade está em Jesus". Essa posição é consistente em todo o Novo Testamento. A verdade, não reside em uma instituição, em um conjunto de dogmas, doutrinas humanas, cerimônias, rituais, sacramentos ou qualquer organização religiosa. A verdade, acima de tudo, é uma pessoa, e isso é reiterado por Paulo: "a verdade está em Jesus". Paulo direciona a verdade para uma pessoa, não para uma instituição. A base sobre o qual repousa a libertação do pecado para a salvação eterna é crer em Cristo e na sua obra consumada, “Quem crer nele não é condenado, mas quem não crê já está condenado” (João 3:18) A ordem, o imperativo fundamental é crer para não ser condenado, crer numa pessoa, não é obras cerimonialistas institucionalizados para oferecer como produto religioso de caráter salvifíco. “Crê no Senhor Jesus e será salvo tu e a tua casa” (Atos 16:31)

 Permitir-me-ei realçar um ponto. Quando uma denominação ou igreja enfatiza a divindade de Jesus Cristo, reconhecendo-o como o único e suficiente Salvador, aquele que, mediante sua obra consumada, aceitável e perfeita, cumpriu integralmente a justiça divina, e que no seu caráter doutrinário mais puro, coloca a salvação como uma ação puramente divina e não humana, e quando essa instituição centraliza sua teologia em Cristo, renunciando à pretensão de ser a própria verdade, mas reconhecendo Cristo como a verdade absoluta e a instituição como um meio de apresentar Cristo como o caminho e a verdade da vida, tal instituição, sem sombra de dúvida, demonstra sua fidelidade à autoridade de Cristo como a verdade.

 A verdadeira Igreja de Cristo se distingue por sua representação fiel de Cristo. Ela O manifesta, O proclama e O apresenta em sua pessoa, por meio de suas ações e testemunho. A Igreja encarna o corpo místico de Cristo, expressando sua vida e presença. Ela é, portanto, a representante confiável da pessoa histórica, divina, ressurreta, gloriosa e salvífica de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Como expressão do corpo de Cristo, a Igreja é a manifestação da verdade, sendo, nas palavras de Paulo, coluna e sustentáculo da verdade, através de sua teologia, confissão de fé e testemunho e defesa dos fundamentos da fé cristã.

 Permito-me apresentar o que não corresponde à verdade. A verdade, como já expus e reafirmo, transformou-se, desde a morte dos apóstolos, em um construto filosófico, um conjunto de dogmas, rituais, cerimônias e sacramentos que excluem a suficiência salvífica de Cristo e a perfeição de Sua obra consumada. Essa teologia, que se afastou completamente das raízes apostólicas do Novo Testamento, propaga, atualmente, um evangelho falso, por causa da sua natureza apostata, que se afastou da doutrina dos apóstolos do Novo Testamento.

 Analisemos, por paradoxo irônico, um livreto de José Comblin, publicado pela Paulus, editora católica, intitulado "O Que é a Verdade". Nesta obra, o autor, em sua tentativa de elaborar uma composição teológica e definir a verdade, expõe de forma clara o cerne da questão que busco abordar. Observa-se que Comblin, na página 74 do livreto, afirma que a Verdade se manifesta essencialmente na celebração dos sacramentos. Conseqüentemente, a função primordial da Igreja Católica é celebrar os sacramentos, levando alguns católicos a considerar os sacramentos como elementos essenciais para a salvação.  O Concilio de Trento determinou a salvação pelos sacramentos, e isso coloca nas mãos de uma instituição a dinâmica da operação salvifica, a justificação pela fé que é o resultado da crença de que Cristo foi o responsável pela salvação através de uma obra consumada, perfeita, aceitável perante Deus para cumprir e satisfazer a justiça divina deveria ser considerada como anátema, e assim fez aquele concilio antibíblico!

 Percebe-se nessas palavras um desvio do foco da pessoa de Cristo, de Sua obra redentora consumada e da justificação pela fé, em favor da crença nos sacramentos, como o batismo, como meio de salvação. A salvação, assim, é deslocada da pessoa divina para rituais, contrastando com o sacrifício de Cristo. Essa abordagem minimiza a obra perfeita que Jesus Cristo realizou na cruz do Calvário. Não importa o que as cerimônias litúrgicas façam com o nome de cristo e com trechos dos evangelhos. O que se faz nesse deslocamento de foco, nada mais é do que profanar o sangue da aliança (Hebreus 10:29)

 Derivado desse sacramentalismo, que deturpa o Evangelho, surge uma confiança que não se fundamenta na obra redentora de Cristo na Cruz do Calvário. No entanto, em todas as Escrituras, e especialmente no Novo Testamento, a mensagem apostólica enfatiza a fé em Cristo. A crença em Cristo é o ponto central. Essa ênfase é perceptível em diversas passagens bíblicas. Os apóstolos, como registrado no livro de Atos, afirmaram: "Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo, tu e a tua casa". Essa foi a resposta dada àquele que buscava a salvação. Contudo, o sacramentalismo desvia o foco da salvação da pessoa de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, para obras, rituais, cerimônias e sacramentos, considerados necessários ou mesmo essenciais para a salvação. Essa é uma deturpação do Evangelho.

 

 Será que minha interpretação está correta, ou minhas palavras carecem de solidez? Meus argumentos são frágeis e desprovidos de embasamento? Para elucidar essa questão, retomarei o livro de José Comblin, na página 75, onde ele apresenta a seguinte afirmação: "A principal preocupação dos missionários (católicos) era, acima de tudo, o batismo. Os doze franciscanos que evangelizaram a Nova Espanha conseguiram batizar quatro milhões de indígenas em vinte anos."

 José Comblin, ressaltou que os missionários consideravam a evangelização secundária, pois o batismo era prioritário, assegurando aos indígenas batizados a salvação eterna.

 Prosseguindo, o autor também menciona em outros trechos que os missionários, diante da dificuldade em converter os adultos, voltavam seus esforços para o batismo de crianças que faleciam precocemente. Acreditavam, dessa forma, garantir a salvação das almas infantis, uma vez que os adultos resistiam à conversão.

 Observamos, através dessas descrições, que o foco principal da atividade missionária católica residia na administração do batismo, em detrimento da conversão através da pregação do Evangelho. A ênfase, portanto, recaía menos sobre a promoção da fé em Cristo Jesus, como Senhor e Salvador, e mais sobre a participação nos sacramentos. Essa abordagem, que negligenciava a necessidade de arrependimento, crença e profissão de fé, sugeria que o batismo, por si só, garantiria a salvação, independentemente da vivência dos ensinamentos cristãos. Consideramos essa prática uma lamentável distorção da mensagem evangélica.

 Observamos, portanto, que uma instituição propõe a salvação através de ritos próprios, dogmas e sacramentos, alegando possuir o poder de redimir as pessoas, utilizando, por exemplo, a água batismal como instrumento salvífico para aqueles que são batizados por missionários ou sacerdotes católicos. Essa prática diverge dos ensinamentos do Evangelho, especialmente do Novo Testamento. A pregação de Paulo e os ensinamentos de Cristo enfatizaram a fé em Jesus como Senhor e Salvador. Logo, esta prática representa um desvio do Evangelho original, no qual a figura de Cristo é secundarizada, levando os fiéis a acreditar que o cerimonialismo, o ritualismo e o sacramentalismo são os meios para alcançar a salvação, mediante a adesão a esses ritos. Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação (Romanos 10:8 a 10 veja também João 17:20)

 O clamor do Novo Testamento foi desviado, ignorado e praticamente substituído por um sacramento exteriorizado com poder mágico.

 Como, pois invocarão aqueles que não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão se não há quem pregue?(Romanos 10:14) A resposta para esse clamor foi ignorada, pois não importou mais a pregação do Cristo crucificado, nem na realidade da sua pessoa, pois agora o sacramento do batismo resolve o problema do ímpio, sem precisar crer em Cristo, “batize-a” em serie, num processo de cálculos numéricos infinito; milhões, mesmo sem crer, confessar, se arrepender e crer, o ritual professado no Concilio de Trento faz isso de forma mágica, e aos que procedem assim são chamados de “missionários”. Um absurdo!

 

E quanto à ordem de Cristo:


Portanto ide, fazei discípulos ( Primeiro o discipulado e a formação espiritual solida) de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; (A ênfase de Cristo nos seus ensinamentos práticos e obvio)e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém. (Mateus 28:19 e 20).