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Livreto: Como Ser um Cristão Espiritual
A Banalização da Graça
A Sutileza da Banalização da Graça: Como Reconhecer o Verdadeiro Valor do Favor Divino
Um guia didático
para entender o que é — e o que não é — a graça de Deus
Introdução:
O que é Graça, Afinal?
Se você frequenta uma igreja, já ouviu a palavra
"graça" incontáveis vezes. Mas será que entendemos realmente o que
ela significa? Na Bíblia, graça é favor
imerecido. Simples assim. É receber algo bom sem ter direito
a isso, sem ter trabalhado para merecê-lo, sem ter sido digno.
A Teologia clássica define graça como um presente
divino que nasce exclusivamente no coração de Deus, não nas nossas mãos. Não é
resultado de esforço humano, de boas ações ou de rituais religiosos. Ela vem de
Deus para o homem, e não o contrário.
Mas aqui está o problema: ao longo dos séculos, a
doutrina da graça foi distorcida, barateada e, em muitos casos, banalizada. E
essa distorção não acontece apenas em púlpitos — ela pode estar bem no nosso
cotidiano espiritual, de forma tão sutil que nem percebemos.
A Origem
da Necessidade: Por Que Precisamos de Graça?
Para compreender o valor da graça, precisamos olhar
para a origem da nossa condição. A Bíblia conta que Adão e Eva desobedeceram a
Deus de forma livre e voluntária (Gênesis 3.17). Esse ato, conhecido como
"a queda", não afetou apenas o primeiro casal — estendeu-se a toda a
humanidade (Romanos 5.12).
O resultado? O ser humano se encontrou preso em uma
condição da qual não conseguia se libertar sozinho. E aqui entra um princípio
fundamental: Deus é justo e
santo. Ele não deixaria o pecado impune. A justiça
divina exigia satisfação.
Foi então que o amor de Deus encontrou um caminho.
Ele proviu um meio para salvar o ser humano sem abrir mão da sua justiça. Em
Cristo, a justiça de Deus foi plenamente satisfeita, e o maior resultado disso
é que, por meio de Jesus, o homem alcança o perdão dos pecados e a
reconciliação com Deus (Romanos 5.1, 10).
Em outras palavras:
sem a graça de Deus, não haveria salvação. Não há
escada humana que alcance o céu. Não há mérito, esforço ou boa intenção que
supra essa necessidade.
O Alto
Preço de Um Presente Gratuito
Aqui mora uma das maiores confusões
sobre a graça. Quando dizemos que a salvação é "de graça", muitos
entendem que não houve custo. Mas isso é um engano perigoso.
Para você, a graça custou nada. Mas
para alguém, custou caro demais.
A Bíblia deixa claro que fomos
comprados por preço (1 Coríntios 7.23; 6.20). A salvação é gratuita na medida
em que não podemos pagá-la, mas ela teve um preço inestimável: o sangue de
Jesus (1 Pedro 1.18, 19). Somos salvos pela graça, mas não de graça, no sentido
de algo sem valor.
Essa distinção é vital. A graça tem
valor inestimável. Tratá-la como algo barato é menosprezar o sacrifício de
Cristo.
Como a
Graça Foi Corrompida ao Longo da História
A Igreja primitiva foi fundamentada
na doutrina dos apóstolos e profetas. Mas com o tempo, a mensagem começou a ser
desfigurada. A salvação pela fé em Cristo foi aos poucos substituída pela
salvação pelas obras (Romanos 1.17). A fé se tornou meritória — algo que o ser
humano deveria conquistar.
A situação agravou-se no período
medieval, quando a comercialização da fé se intensificou. O papado promovia
procissões, peregrinações e indulgências, prometendo aos devotos que essas
práticas amenizariam ou até extinguiriam o tempo de penitência no purgatório. A
graça deixou de ser um presente de Deus para se tornar um produto que podia ser
negociado.
Foi diante desse cenário que Deus
levantou Martinho Lutero. Ao estudar as Escrituras, Lutero percebeu que os
dogmas da Igreja da época eram antibíblicos. O movimento que ele iniciou — a
Reforma Protestante — trouxe de volta a centralidade da Bíblia e restaurou a
doutrina da graça.
Dentre os princípios da Reforma,
destacaram-se os Cinco Solas, e um deles resume exatamente o que estamos
discutindo: Sola Gratia, ou "Somente a Graça". A salvação não é pela
minha inteligência, pelo meu dinheiro, pelas minhas obras ou pela minha
religiosidade. É somente pela graça de Deus.
A Graça
Barateada: O Perigo da Banalização
Hoje, a distorção não vem mais na
forma de indulgências, mas de uma ideia ainda mais sutil: a graça barateada.
O que é graça barateada? É aquela
que outorgamos a nós mesmos. É a graça que permite amar o mundo, viver sem
arrependimento e continuar na prática do pecado sem nenhuma mudança real de
vida. É o "Deus já fez tudo, então não preciso fazer mais nada" —
aplicado de forma distorcida.
A graça barateada prega perdão sem
arrependimento e salvação sem santificação (Hebreus 12.14). Ela transforma a
graça de Deus em uma licença para pecar. E isso é exatamente o que o apóstolo
Paulo combateu quando escreveu: "Permaneceremos no pecado para que a graça
abunde? De maneira nenhuma!" (Romanos 6.1, 2).
A graça de Deus é maravilhosa, mas
ela precisa ser entendida e aplicada à luz da verdadeira doutrina. E a régua
para isso é, sempre será, a Bíblia.
Universal,
Mas Não Universalista
Outro ponto que merece atenção é o
alcance da graça. A Bíblia ensina que a graça é oferecida a todos e a favor de
todos (Tito 2.11; 1 Timóteo 2.4). Ela tem caráter universal.
Mas cuidado: universal não é
universalista.
A graça está à disposição de todos,
mas ela só se torna eficaz para a salvação na vida daquele que crê (Marcos
16.16; João 6.47). O ensinamento de que, no final, Deus salvará todos —
inclusive aqueles que rejeitaram a Cristo e viveram de forma dissoluta — é
falso e perigoso (Atos 16.31; 3.19).
A graça é um convite, não uma
imposição. Deus respeita a nossa resposta. Crer e arrepender-se, confessando
Jesus como Salvador, são condições que a própria Escritura apresenta (Romanos
10.9; Atos 2.38).
Graça
Comum: O Cuidado de Deus com Todos
Antes de encerrar, vale destacar
uma dimensão da graça que muitos ignoram: a graça comum.
Ela se refere a todos os elementos
que sustentam a vida na terra — o ar que respiramos, a chuva que cai, a comida
na mesa, a capacidade de trabalhar, de criar, de amar. Jesus disse que Deus faz
o sol nascer sobre bons e maus (Mateus 5.45).
Isso significa que, quer a pessoa
aceite Deus ou não, sua vida está nas mãos dEle e é sustentada pela Sua graça.
Não há vida humana fora do cuidado divino. Reconhecer isso é desenvolver uma
gratidão profunda, mesmo pelas coisas que consideramos "normais".
Conclusão:
Como Viver a Graça sem Banalizá-la
A graça não é um conceito teológico
distante. Ela é a realidade mais próxima da nossa existência espiritual. Mas
para não cairmos na sutileza da sua banalização, precisamos manter três
princípios em mente:
Primeiro, lembre-se de onde você
veio. Antes de conhecer a graça, a nossa condição se assemelhava à de alguém
que deve uma quantia impagável (Lucas 7.42; Efésios 2.4-5). Não havia solução
humana. A graça nos alcançou quando estávamos sem recursos.
Segundo, nunca separe a graça da
santidade. A graça que salva também transforma. Ela não deixa o pecado impune e
não deixa o pecador imóvel. O arrependimento genuíno produz mudança de vida.
Terceiro, meça toda compreensão
sobre graça pela Bíblia. Não é pela nossa intuição, pela cultura religiosa ou
pelo que soa confortável. A Palavra de Deus é e sempre será a régua.
A graça é divina, imerecida,
universal e inestimável. Ela nos alcançou quando não merecíamos nada, pagou um
preço que não podíamos pagar e nos ofereceu um destino que não poderíamos
alcançar.
Que possamos recebê-la com
gratidão, vivê-la com reverência e nunca, jamais, tratá-la como algo barato.
A graça nos ensina que saímos da
queda do estado da rebelião para uma vida de desfrute de comunhão restaurada
com Ele e uma submissão voluntaria e prazerosa em fazer a Sua vontade pelo
caminho da obediência
“Na verdade, esse é o
sentido de graça, palavra que Paulo usa 100 vezes, do total de 155 ocorrências
no Novo Testamento. Duas de cada três ocorrências dessa importante palavra
cristã estão nos textos de Paulo. Para ele, a graça era uma realidade gloriosa,
e o apóstolo estava sempre se referindo a ela de alguma forma. Não é exagero dizer que, para
Paulo, tudo o que Deus faz é pela graça; é tudo expressão da graça. E como
podemos entender a graça sem o amor divino?” (Leon Morris – Teologia do Novo Testamento
– Edições Vida Nova)
A graça nunca foi um meio de
conduzir ou induzir um cristão ao erro, mas a via permanente para nos restaurar
perante Deus para uma vida de santidade.
“Pecado é rebelião
porque ele é só um elemento secundário. O elemento primário é aquela boa,
agradável e perfeita vontade de Deus da qual nos desviamos e para a qual somos
restaurados pelo poder assombroso e inspirador da graça divina em Jesus Cristo.”
(James Montgmery Boice - Fundamentos da Fé Crista)
COMO SER UM CRISTÃO ESPIRITUAL
C. J. Jacinto
A passagem de Lucas, capítulo 10, versículos 38
a 42, sempre foi objeto de minha profunda reflexão. Nela, encontramos a
narrativa sobre Marta e Maria. Podemos ler o trecho relevante nestas palavras:
"E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou Jesus numa aldeia; e certa
mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa. E tinha esta uma irmã chamada
Maria, a qual, sentando-se aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Marta, porém,
andava distraída em muitos serviços; e, aproximando-se, disse: Senhor, não se
importa que minha irmã me deixe servir sozinha? Dize-lhe, pois, que me ajude. E
respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com
muitas coisas; porém, uma só coisa é necessária; e Maria escolheu a boa parte,
a qual não lhe será tirada."
Extraímos
valiosas lições desta passagem, que nos apresenta duas mulheres na presença de
Jesus: Marta e Maria. Suas condutas, embora distintas, oferecem um rico
panorama de aprendizado. Através do comportamento e das reações de ambas,
diante da presença gloriosa de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, podemos
discernir princípios importantes para nossa vida. Creio que este trecho nos
proporciona inúmeras oportunidades de crescimento espiritual. Marta e
Maria eram irmãs. Ambas eram irmãs de Lázaro, a quem o Senhor ressuscitou. A
aldeia mencionada no texto é Betânia, situada nas encostas do Monte das
Oliveiras, a aproximadamente três quilômetros de Jerusalém. Observamos, nessas
duas mulheres, um exemplo do qual podemos extrair ensinamentos sobre a vida
espiritual. Maria estava aos pés do Senhor, enquanto Marta estava a serviço.
Contudo, algo digno de nota se manifesta: embora ambas seguissem Jesus, havia
uma distância entre elas, tanto em comportamento quanto em situação. Marta
estava preocupada com as tarefas materiais, enquanto Maria se dedicava às
questões espirituais. Maria estava próxima de Jesus, ao passo que Marta
permanecia distante, não apenas fisicamente, mas também em espírito. Essa
distinção nos oferece importantes lições. O primeiro ponto de contraste
evidente entre Marta e Maria reside no fato de que Marta se ocupava com
atividades alheias à presença de Jesus. Marta, distraída por suas tarefas,
demonstrou uma falta de percepção sobre o que realmente importava, priorizando
questões secundárias em detrimento dos fundamentos da vida espiritual, da
presença de Deus e de Cristo. Para ela, a companhia de Jesus e seus
ensinamentos não eram prioridade, mas sim o afã da preparação. Em contrapartida,
Maria escolheu estar aos pés do Senhor, absorvendo seus ensinamentos. Essa
distinção nos remete à contemporaneidade, onde, em muitas igrejas,
especialmente aquelas influenciadas por tradições pós-modernas e filosofias
humanistas, observa-se um afastamento dos ensinamentos de Jesus, talvez até em
uma condição pior do que a da igreja de Laodiceia. Nesses casos, o
entretenimento, os assuntos mundanos e as preocupações materiais frequentemente
se sobrepõem à busca pela presença do Senhor e pela compreensão de seus
ensinamentos. A busca pelo que edifica é substituída pelo que emocionam,
as atividades religiosas estão no movimento e não na contemplação, tudo se move
em torno de ações que evidenciam um verdadeiro show business, a pregação bíblica
fiel, temática, textual ou expositiva são substituídas por sermões curtos
psicologizados e antropocêntricos, uma injeção de otimismo emocional, psicodélico
espiritual para anestesiar a alma ao êxtase religioso. Longe das Palavras de
Cristo.
Com efeito, impõe-se a necessidade de sermos francos conosco, pois
reconhecemos que um dos maiores obstáculos a serem superados, um desafio
persistente em nossas vidas, reside na capacidade de concentração. Em outras
palavras, a habilidade de direcionar o foco para o que realmente importa.
Na vida cristã, observa-se frequentemente uma dinâmica semelhante. Notamos o
comportamento, a atenção e a concentração dos presentes durante um culto, em
especial diante da mensagem que lhes é apresentada. Percebemos que manter o
foco e a atenção integralmente voltados para o propósito principal do culto – a
adoração, a escuta da Palavra de Deus – é um desafio constante. Isso exige
disciplina, não admirável que Paulo em suas cartas compare o cristão como um
soldado ou um atleta, funções que no contexto paulino, exigiam extrema
disciplina. Em alguns casos, a
experiência do canto pode parecer mais atraente do que a escuta atenta.
Em certos
contextos, a popularidade de igrejas que enfatizam o canto, a dança e o
entretenimento tem se destacado. As multidões parecem buscar essa experiência.
Essa forma de espiritualidade, similar à atitude de Marta na narrativa bíblica,
pode desviar a atenção da essência e do fundamento da fé. O ensino e a escuta
da voz do Espírito Santo podem perder sua importância, sendo substituídos, em
alguns casos, pelo entretenimento religioso, que caracteriza o culto moderno.
Portanto, depreende-se que a tendência
inerente ao ser humano, em sua condição natural, é a de desviar o foco do
essencial e do fundamental. Se nossos cultos exigirem atenção e concentração
plenas para uma compreensão aprofundada, visando à formação de adoradores
genuínos e à absorção completa dos ensinamentos, corremos o risco de cair numa
monotonia póstuma ou ficar sob efeito de dependência do show antropocêntrico. A
satisfação humana em lugar da obediência a Deus. A rejeição ao culto bíblico,
ordenado, a posição de Maria, quieta aos pés do Senhor, ouvindo Cristo e tendo
comunhão com Ele, é substituída por essa abordagem motivada pelo anseio por um
ambiente que proporcione alegria, entretenimento e muito prazer emocional. No
entanto, essa busca por satisfação imediata e emocional se assemelha à
perspectiva de Marta, que prioriza a atividade em detrimento da edificação
espiritual, da iluminação e do crescimento interior. Em vez de buscar o
benefício espiritual, essa abordagem prioriza a satisfação do ego.
É possível, com efeito, desenvolver uma teologia sólida e uma doutrina
saudável, fundamentada em crenças profundas, como a doutrina da onipresença
divina. Cremos, de fato, na presença constante do Senhor, atributo inerente à
divindade. Deus, em sua natureza trina, manifesta-se no culto. Sua presença é
uma realidade inquestionável. Contudo, essa compreensão teológica pode se
tornar estéril se negligenciarmos a importância da presença divina no culto. É
nesse ambiente sagrado que Deus se manifesta de maneira singular, especialmente
quando a adoração é autêntica, o louvor sincero e a pregação fiel, com a
exposição dos ensinamentos de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Onde o
Evangelho é proclamado, Cristo também está presente. Para Maria, a
presença de Cristo estava associada a ouvir tudo o que Ele tinha a dizer, nos
cultos modernos, os participantes não conseguem ficar sentados aos pés de
Cristo para ouvir, espiritualidade nesse contexto é sinônimo de movimento e não
de atenção e reverencia! Um culto que prioriza a exigência de escutar com toda
a atenção a pregação expositiva, torna-se extremamente tedioso e monótono para
todas “martas” viciadas no movimento do ego que flutua distante da presença de
Cristo e da Sua Palavra.
Assim, compete a nós reconhecer a relevância dessa realidade, não apenas
em termos teóricos, mas também por meio de nosso comportamento e convicção. As
Escrituras Sagradas nos ensinam que nossa comunhão é com o Pai e com Seu Filho,
nosso Senhor Jesus Cristo. Comunhão implica intimidade, como a de Maria, que se
encontrava aos pés do Senhor. A distância observada entre Marta e Jesus, por
exemplo, não refletia essa intimidade.
Diante
desta conjuntura, torna-se evidente que a intimidade com o Senhor se estabelece
a partir do contato com a comunhão com Ele e com Sua Palavra. É fundamental
ressaltar que a associação de Maria com a proximidade de Jesus, conforme
narrado nos Evangelhos, exemplifica a importância de receber e internalizar
Seus ensinamentos.
É evidente, e desejo enfatizar de forma clara e
precisa, que a relação de Maria com Jesus transcende a emoção. Maria não
experimenta êxtase ou comoção; sua interação com Ele não se baseia em
sentimentos. Ela se entrega a essa intimidade por meio da razão, do intelecto,
pela consciência da palavra e dos ensinamentos de Jesus, e não através de uma
experiência subjetiva. Trata-se de algo prático, objetivo: a presença real de
Deus em nossas vidas por meio da palavra. Maria, atenta à palavra, contrastava
com Marta, que se preocupava com atividades externas, desviando sua atenção dos
ensinamentos de Cristo. A presença de Deus, portanto, não reside na emoção e nos
sentimentos subjetivos, mas em ouvir e nutrir-se espiritualmente através da
proclamação fiel da Palavra, que se constitui o caminho para a vivência
autêntica da presença divina e que se constituem os alicerces da vida cristã
(Mateus 7:24)
Lamentavelmente, observa-se uma considerável
confusão acerca da experiência da presença de Deus. Conseqüentemente, muitos
buscam percursos espirituais que divergem dos ensinamentos bíblicos, como a
busca da presença divina através da música. É inegável que a música possui a
capacidade de evocar emoções profundas. Inclusive, mesmo indivíduos céticos
podem experimentar emoções intensas ao ouvirem música, seja de amor, seja de
natureza melancólica. Em alguns casos,
um descrente, ao ouvir uma canção de outrora, pode rememorar muitas
experiências passadas, especialmente todas aquelas relacionadas as paixões da
mocidade. Ao escutar músicas românticas,
um indivíduo de idade avançada pode reviver lembranças da juventude e de suas
paixões, comover-se e sentir-se profundamente tocado por essas recordações.
Isso ocorre porque a música tem o poder de proporcionar tais experiências
emocionais profundas e causar alegrias, êxtases ou sentimentos nostalgicos.
Grupos carismáticos pós-modernos fazem uso disso para promover uma espiritualidade
falsificada, muitas pessoas se emocionam com musica cristã contemporânea e
confundem isso com “presença de Deus”.
Em contraste, Maria não estava cantando, nem dançando, nem se entregando
a celebrações. Ela permanecia em silêncio aos pés do Senhor, atenta à Palavra
de Cristo, aos Seus ensinamentos, escutando-O. Essa era a essência da
intimidade de Maria com Cristo. Aqui temos os fundamentos da verdadeira
espiritualidade e o caminho para a experiencia da verdadeira presença de Deus.
Quanto mais temos da Sua Palavra, mais aprendemos acerca da Sua Pessoa e de
Seus Atributos.
A Escritura Sagrada nos convida à intimidade com Deus. Essa relação,
contudo, possui um propósito definido. Como podemos compreender essa dinâmica?
Em Tiago, capítulo 4, versículo 8, o apóstolo declara: "Chegai-vos a Deus,
e ele se chegará a vós". Mas qual é a finalidade dessa proximidade?
Tomemos Maria como exemplo. Ela se encontra aos pés do Senhor. Qual é a sua
motivação? Qual o objetivo de sua quietude e presença na intimidade com Ele?
Simplesmente ouvir. Ela anseia por aprender. O ensinamento é o alimento da
alma, a fonte da percepção espiritual, a luz que ilumina, a edificação que
fortalece, a graça que sustenta e a base de um relacionamento correto com Deus.
Portanto, a intimidade com o Senhor visa, acima de tudo, o recebimento de Seus
ensinamentos. Não se trata de uma experiência mística, mas, conforme o
cristianismo ensina, a comunhão com Deus tem como propósito principal a
instrução divina.
Há um
Salmo específico que aborda esta questão, o Salmo 119, mas há outro que também é
muito especial e que se revela crucial para compreendermos nossa relação com
Deus por meio de Sua Palavra. No Salmo 139, somos informados que Deus possui um
conhecimento profundo de cada um de nós. De modo análogo, devemos buscar um
conhecimento profundo de Deus. A intimidade é construída através do
conhecimento; quanto mais nos aproximamos do Senhor, mais compreendemos a
respeito de Sua natureza. E isso quando nós somos santificados pela Sua
Palavra (João 17:17) um culto não pode ser santificado de forma bíblica se a Palavra
de Deus é destituída da sua importância para ser substituída por muitas
atividades religiosas e ritualísticas.
Aprofunde-se nesta análise para alcançar uma
compreensão mais rica do relacionamento com Deus e um conhecimento adequado e
profundo de Sua pessoa. Onde encontramos a revelação dos atributos, qualidades
e atribuições de Deus? Somente na Bíblia, fonte de todas as informações sobre o
Deus revelado nas Escrituras. Assim, quanto mais aprendemos sobre Deus e Sua
vontade, mais nos assemelhamos a Maria, que se sentou aos pés do Senhor para
ouvir, isso é quietude, reverencia e prontidão para ouvir, sem pressa e com
toda a atenção ao que Deus deseja falar, concentração e coração aberto para
aprender.
Aqueles que buscam entretenimento, que se dedicam a um interesse
meramente religioso, que procuram êxtases ou outros tipos de experiências
místicas, almejam uma presença subjetiva, distante e sem o devido entendimento
do Senhor. A distância não permite que se compreenda a essência e a natureza de
Deus. Marta exemplifica essa postura, com seu foco desviado de Jesus, de Seus
ensinamentos e Seus atributos. Maria, por outro lado, adquiriu conhecimento através
da intimidade, ao ouvir a Palavra do Senhor porque estava próxima do Senhor da
Palavra.
Atualmente,
muitos que professam buscar a presença de Deus se encontram na mesma posição de
Marta: distantes, buscando a presença divina através de emoções, entretenimento
e atividades humanas, esforçando-se por seus próprios méritos para alcançar a
proximidade com Deus. Contudo, a verdadeira proximidade com Deus surge da
entrega completa a Ele, o acesso a presença de Deus não um mérito do suor
humano, mas pelo sangue de Cristo. “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no
santuario, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou
pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hebreus 10:19 e 20) Maria entregou-se
totalmente a Cristo, com um único objetivo: ouvi-lo, estar atenta à vontade de
Deus, aos Seus ensinamentos.
A questão central é: em um culto, na leitura da Bíblia ou na oração,
qual é a motivação principal? A satisfação emocional ou a busca pela vontade de
Deus em sua vida?
Compreendemos, em alguma medida, que o próprio
Cristo nos instrui acerca desses princípios espirituais que ora menciono,
especialmente no que concerne à intimidade. No capítulo 6, versículo 6, do
Evangelho de Mateus, Jesus ensina aos discípulos a recolherem-se ao aposento,
fecharem a porta e ali orarem ao Pai, evidenciando a intimidade com Deus.
Observamos que o ambiente proposto é simples, representando uma entrega, longe
dos olhares alheios, uma busca pela solidão com Deus, com o coração
inteiramente direcionado a Ele. O principio espiritual é evidente, a
intimidade com o Senhor é algo muito pessoal, num culto, a maioria pode se
comportar como Marta, mas você é chamado a ser como Maria.
No livro de Jeremias, capítulo 29, versículo 13, encontramos a promessa
de que aqueles que buscam a Deus de coração O encontrarão. Jesus, em confronto
com os fariseus no capítulo 15, adverte que eles honram o Senhor com os lábios,
mas seus corações estão distantes. Essa é a questão central: onde está o foco
do nosso coração? Pois Jesus ensina que onde estiver o nosso coração, ali
estará o nosso tesouro. (Lucas 12:34) Onde estava o coração de Marta? O
coração de Marta estava em suas atividades. Ela queria chamar a atenção para si
mesma, queria ser o centro das atenções. Onde estava o coração de Maria? O
coração de Maria estava em Cristo, contemplando-O e ouvindo-O. Essa é a questão
fundamental. Enquanto nosso coração não estiver concentrado em Cristo, enquanto
nossa atenção não estiver voltada para Ele, enquanto não nos dispusermos a
ouvi-lo, por meio da escuta atenta aos seus ensinamentos, não compreenderemos
verdadeiramente o que é a verdadeira espiritualidade e o que significa ser
verdadeiramente espiritual.
Na atualidade, a espiritualidade é frequentemente associada à
intensidade emocional, contudo, ao observarmos Maria aos pés de Jesus,
percebemos que a espiritualidade autêntica reside em ouvir atentamente, em vez
de priorizar as emoções. A maioria daqueles que se autodenominam
cristãos atualmente demonstra uma intimidade superficial e artificial com a fé.
Em vez de uma conexão genuína, observa-se uma intensa atividade em atividades
religiosas: cantam hinos, cumprem agendas eclesiásticas e participam de
múltiplos cultos. Essa intensa atividade, muitas vezes, serve a interesses
pessoais e à busca de satisfação própria. Na verdade aqueles que se
distanciam da verdade tendem a não suportar a as doutrina.
Contrastando com essa realidade, a atitude de
Maria, registrada nos evangelhos, revela uma profunda conexão espiritual.
Maria, aos pés de Jesus, demonstrava um genuíno interesse em ouvir e aprender
com Ele, buscando compreender a essência do Evangelho e os ensinamentos da
Palavra de Deus. Como Paulo enfatizou, a essência do ministério cristão reside
em ensinar todos os conselhos de Deus. A atenção de Maria se concentrava em
absorver os ensinamentos de Cristo, demonstrando a verdadeira espiritualidade.
Por outro lado, as ações de Marta representam a
religiosidade superficial e emocional, caracterizada por uma intimidade frágil
e distante da verdadeira fé, apesar da aparente dedicação às atividades
religiosas. Embora suas ações fossem visíveis, a profundidade da relação com
Cristo não era evidente. A Escritura Sagrada apresenta um diagnóstico,
um indicativo da experiência humana em relação a Deus. Maria, ao contrário de
Marta, parecia possuir essa sensibilidade. A postura de ambas, portanto,
revelava diferenças significativas. Em Salmos, capítulo 42, versículos 1 e 2,
encontramos: "Assim como a corça anseia pelas correntes de água, a minha
alma anseia por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo."
Essa
passagem revela um anseio profundo, uma sede quase desesperada. No contexto do
Oriente Médio, onde a narrativa de Lucas se situa e onde as personagens de
Marta e Maria viviam, a sede era uma experiência física intensa, especialmente
em um ambiente desértico e árido. A expressão do salmista, portanto, transmite
a profundidade desse sentimento, um desejo fervoroso.
Em Salmos, capítulo 63, versículo 1, o salmista novamente expressa:
"Ó Deus, tu és o meu Deus; de madrugada te buscarei; a minha alma tem sede
de ti; a minha carne te deseja em terra seca e fatigada, onde não há
água." Observamos, mais uma vez, a manifestação de um desespero interior,
um desejo veemente pela comunhão e conhecimento de Deus. Era essa busca
que Maria demonstrava ao estar aos pés do Senhor, pois ela havia encontrado a
fonte, a fonte da vida eterna, saciando sua sede ao ouvir os ensinamentos de
Jesus. Consideremos a vida de
Cristo como exemplo. Ele representa o ápice da espiritualidade humana. Nenhum
outro ser, em toda a história, demonstrou maior profundidade espiritual. Jesus
Cristo vivia a palavra; ao enfrentar as tentações e as investidas do diabo na
tentação no deserto, recorreu às Escrituras para refutar e combater as
estratégias do adversário. A espiritualidade de Jesus derivava de sua profunda
intimidade com a palavra de Deus.
Um livro notável, escrito por Adolf Saphir, um judeu convertido ao
cristianismo, aprofunda essa temática. Intitulado "Cristo e as
Escrituras", a obra demonstra a profunda conexão de Jesus com a palavra de
Deus e como as Escrituras moldaram seu ministério e sua vida. Ele não apenas
personificou a palavra, mas a viveu plenamente. Essa vivência da palavra
constitui a essência da vida espiritual, conforme ensina o Novo Testamento, e
Cristo personifica esse ideal. Dessa forma, Maria, ao contemplar Jesus, estava
diante daquele que poderia ensinar tudo sobre a verdadeira vida espiritual.
Ao longo da história da Igreja Cristã, é possível
identificar um período em que a espiritualidade era definida por duas
características principais. Inicialmente, o homem espiritual era aquele que
possuía profundo conhecimento das Escrituras, o que resultava em uma teologia
consistente, embasada na doutrina sólida, na erudição e na piedade. Essas
qualidades, em conjunto, delineavam a figura do homem espiritual. Contudo, nas
últimas décadas, uma distorção do conceito de espiritualidade emergiu no
movimento pentecostal. Semelhante ao misticismo medieval e neoplatônico, a
espiritualidade passou a ser associada à vivência de experiências místicas,
êxtases e à manifestação de dons sobrenaturais. Assim, essa nova perspectiva
passou a definir quem seria considerado espiritual. Contudo, biblicamente, o
homem espiritual é aquele que vive de acordo com os ensinamentos da Palavra de
Deus, demonstrando profundo conhecimento das Escrituras e uma teologia
coerente. Essa compreensão se reflete em sua vida prática, influenciando sua
conduta piedosa e o conduzindo a uma imersão nas Escrituras, com as Escrituras,
por sua vez, habitando nele. O verdadeiro homem espiritual é exemplificado em
Maria, que, aos pés de Jesus, absorvia seus ensinamentos, direcionando toda sua
atenção ao Mestre. Jesus, por sua vez, personificava essa espiritualidade,
sendo o homem da Palavra, vivendo em consonância com ela, o que o constituía um
verdadeiro homem espiritual. Você tem essas qualificações?
Razões Biblicas Para não Deixar de Congregar-se
Preliminarmente à discussão do tema central deste artigo, julgo relevante destacar algumas características essenciais de uma igreja genuína, saudável e fundamentada nos valores e princípios bíblicos do Novo Testamento.
A igreja, em primeiro lugar, deve
preservar os fundamentos da fé cristã, prezar e preservar os absolutos doutrinários
conforme estabelecido nos princípios do Novo Testamento. Essa base doutrinária
deve ser considerada inegociável. Em segundo lugar, a igreja deve se dedicar à
exposição séria das Escrituras. Sem esse compromisso com a verdade revelada,
não se pode afirmar que a igreja esteja verdadeiramente engajada com a fé
cristã. Essa dedicação se manifesta na pregação, nos estudos bíblicos e na
prática dos ensinamentos, utilizando diferentes formatos como sermões textuais,
temáticos e expositivos, sempre com reverência, responsabilidade e seriedade.
levando em conta a conduta de seus responsáveis, pastores e pregadores, a citação
correta das Escrituras, a interpretação correta das Escrituras, a exposição
correta das Escrituras e a aplicação correta das Escrituras.
Uma igreja considerada saudável se distingue,
entre outros aspectos, por sua profundidade teológica. Ela deve possuir uma
teologia sólida, coerente e fundamentada nas Escrituras Sagradas, refletindo um
entendimento bíblico profundo. Além disso, a igreja deve promover a reverência
e a ordem nos cultos, incentivando a piedade e o temor a Deus. Desta forma, o
caráter doutrinário e teológico saudável manifestado nos cultos, incluindo a
escolha das músicas, constitui uma marca distintiva de uma igreja bíblica. Diante
disso, abordaremos agora. É pois sinal de regeneração se um cristão busca uma
igreja que tenha essas marcas como distintivo no meio de tanta confusão
religiosa que há hoje em dia no meio evangélico.
Muito bem, ciente desses fatos, o
amado leitor deve ler com muita atenção o que prossegue nesse texto:
A maioria dos indivíduos que se associam a uma
igreja, com poucas exceções, especialmente os recém-chegados e novos
convertidos, frequentemente cultivam uma visão idealizada, uma expectativa
irrealista sobre a igreja, sustentam um mito. Acreditam, ou desejam acreditar,
que a igreja é composta por pessoas perfeitas, isentas de problemas e falhas.
Essa visão pode se manifestar na crença de que encontraram o "paraíso na
Terra", um lugar habitado por indivíduos impecáveis e até mesmo
infalíveis. Assim, ao ingressar na igreja, esperam encontrar um povo com
padrões espirituais e morais superiores aos do mundo em geral. Essa
expectativa, é correta, comum entre os novos convertidos, mas o problema das
falsas conversões abundantes, nos convidam a ponderar sobre o assunto com mais
cautela, acreditar que na igreja só iremos encontrar pessoas perfeitas e infalíveis,
baseia-se em uma perspectiva equivocada da realidade. Quem acredita nisso
sustenta uma fabula, e trará para si mesmos problemas sérios!
Embora seja legítimo esperar que a igreja
exiba os mais elevados padrões morais e espirituais, o que considero evidente e
defendo, essa expectativa não implica na perfeição individual de seus membros.
Equivoca-se, portanto, quem presume que a mera participação em uma igreja
cristã, por mais conservadora e bíblica que seja, garante a ausência de falhas,
contendas, conflitos ou até mesmo escândalos. Não se deve idealizar a igreja
terrena sob essa ótica, pois, como demonstrarei, mesmo as primeiras comunidades
cristãs, lideradas pelos apóstolos, enfrentaram desafios, problemas, contendas,
desvios morais etc. Meu propósito é capacitá-lo a compreender e lidar com essas
realidades, a fim de fortalecer sua fé e aprimorar sua capacidade de tomar
decisões ponderadas em relação a essa temática complexa e relevante que
abordarei. “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina, persevera nestas coisas;
porque fazendo isto, salvarás, tanto a ti mesmo, como aos que te ouvem” (I Timóteo
4:16)
Observo que muitos cristãos afastaram-se da
igreja, abandonaram a congregação por sofrer uma desilusão ou uma decepção,
resultando em experiências negativas que usam como justificativa para
abandonarem a fé biblica. Alguns se sentiram decepcionados por situações ocorridas
na igreja, acontecimentos consideradas inadequadas por eles. Outros se
afastaram devido à percepção de hipocrisia ou a problemas internos, como falhas
de liderança ou de membros. Essas questões levaram muitos a deixar a
congregação e a não mais participar das atividades congregacionais, reunir-se,
participar de escola bíblica, cultos, santa ceia etc.
Acredito que, em alguns casos, o afastamento
pode ser motivado pela expectativa irreal de perfeição dentro da comunidade
cristã. Talvez, a ausência de uma formação teológica sólida ou de maturidade
espiritual tenha impedido que essas pessoas compreendessem a natureza humana e
a falibilidade inerente a qualquer grupo de indivíduos mesmo dentro do contexto
do cristianismo bíblico.
A presente mensagem visa esclarecer que
não há base bíblica ou justificativa espiritual para abandonar a igreja em
razão de desapontamentos decorrentes de ações ou omissões de membros ou
líderes. Tais experiências, por mais dolorosas que sejam, não devem conduzir ao
afastamento da comunidade de fé. Erros alheios não devem induzir ao naufrágio de
nossa fé.
Em outras palavras, todo cristão deve
compreender que a igreja é constituída por indivíduos que experimentaram a
regeneração espiritual mas dentro delas podem existir pessoas que nunca nasceram
de novo, somado a isso mesmo o homem mais santo e regenrado, também não é infalível
e muito menos perfeito. Contudo, persiste a questão da infiltração. Nem todos
os que freqüentam a igreja demonstram, em suas vidas, evidências de salvação ou
regeneração e isso por si mesmo já produz uma série de problemas para a
congregação, eu chamo isso de “efeito joio”. Alguns podem ter vivenciado uma
experiência de conversão superficial, de natureza psicológica ou emocional, em
vez de um autêntico novo nascimento. Essas pessoas não passaram por uma genuína
transformação espiritual, mas sim por uma mudança de comportamento ou de
crenças que não resultou em uma renovação interior. A respeito desta questão,
Jesus Cristo, em uma de suas passagens, ensina que nem todos os que o invocam
como "Senhor, Senhor" entrarão no Reino dos céus, mas apenas aqueles
que cumprem a vontade do Pai celestial. (Por favor, leia Mateus 7:15 a 26)
Gostaria de provar de forma bíblica e
irrefutável de que a igreja do Novo Testamento não era uma igreja cujos os seus
membros eram perfeitos e a igreja não era perfeita e nem era isento de erros e
de falhas. Quando nós abrimos o Livro de Atos, capítulo 15 e o versículo 39,
nós vimos que ali houve uma grande contenda entre os discípulos. Olha só, havia
uma grande contenda entre eles, de modo que precisavam ser resolvidos os
problemas aderentes a essas contendas. Podemos olhar também 1 Coríntios, no
capítulo 1, o versículo 10 ao versículo 13, que havia um partidarismo dentro da
igreja de Corínto. Predileção por certos discípulos, de modo que havia um
aparente culto à personalidade ou uma predileção a um determinado líder em
detrimento de outro, isso causou divisão e partidarismo interno. Isso são
defeitos, são falhas que estão dentro da igreja, e essas coisas, dependendo do nível
de maturidade dos membros de uma igreja, é inevitável.
Ao examinarmos o livro de Tiago, capítulo 2,
versículos 1 a 7, identificamos um problema presente na comunidade cristã: a
parcialidade. A questão não se manifestava externamente, mas internamente, no
seio da igreja. Observava-se uma distinção de tratamento durante as reuniões,
com privilégios e maior atenção direcionados aos membros ricos, em detrimento
dos pobres. Essa postura constituía um problema significativo, caracterizado
como discriminação. Tiago, então, primeiramente expõe essa problemática e, em
seguida, apresenta uma exortação visando a correção desse comportamento na
comunidade a que se dirige. Temos uma igreja cristã com um problema sério,
precisava de correção urgente, mas o problema estava presente, algo muito sério a ser tratado.
A discriminação, portanto, era uma
realidade, evidenciada pela preferência aos ricos em comparação aos pobres. Ainda
hoje, em maior ou menor escala, podemos constatar essa mesma dinâmica em
algumas igrejas hoje em dia. Tiago, diante dessa situação, sentiu a necessidade
de intervir para corrigir as práticas inadequadas presentes em certas
comunidades. Isso me faz lembrar da acusação que Paulo faz aos Corintios em I
Corintios 11:17, estavam se reunindo para piorar ao invés de melhorarem,
simplesmente estavam em decadencia. Retomando o livro de Atos dos Apóstolos, no
capítulo 15, versículos de 1 a 7, observamos que surgiram divergências entre os
discípulos, motivadas pela questão da circuncisão. Alguns judeus convertidos
estavam ensinando que a circuncisão era um requisito para a salvação. Essa controvérsia
gerou desavenças e a necessidade de solucionar um problema interno na igreja. A
questão central envolvia um desvio doutrinário que ameaçava a doutrina da
justificação pela fé, com a imposição das obras da lei como condição para a
salvação. Isso é fato bíblico, aconteceu dentro de uma igreja do Novo
Testamento.
Em Romanos, no capítulo 14, versículos de 1 a
10, Paulo aborda a questão dos irmãos de fé menos maduros (fracos na fé), cuja
fé era, por assim dizer, "frágil". Estes apresentavam divergências em
relação a práticas alimentares, alguns defendendo uma dieta vegetariana, enquanto
outros se mostravam irredutíveis quanto à observância de dias festivos. Paulo
enfatiza a importância da liberdade individual em questões não essenciais, nas quais
as Escrituras, o Novo Testamento quanto e a Nova Aliança, não estabelecem como
regras específicas para todos. Ele se dedica a tratar essas disputas de opinião
que existiam na igreja em Roma, especialmente no que concerne à alimentação e à
observância de dias, conforme podemos observar nesse trecho de Romanos.
Na segunda epístola de Paulo aos Tessalonicenses, no capítulo 3, versículo 11,
percebe-se, no contexto geral, que a carta apresenta um caráter corretivo.
Paulo aborda especificamente aqueles que se comportam de maneira desordenada e
evitam o trabalho. Essa conduta pode ter sido influenciada pela expectativa da
iminente volta de Cristo, tema que Paulo havia tratado em sua primeira carta à
igreja de Tessalônica. Contudo, Paulo expõe abertamente a questão desses irmãos
que agem sem ordem e se recusam a trabalhar, evidenciando um problema de ociosidade,
possivelmente decorrente de uma compreensão inadequada da escatologia e da
volta de Cristo, assuntos que Paulo discute em ambas as epístolas dirigidas a
essa igreja.
Ao escrever sua primeira carta à Igreja de
Corinto, Paulo aborda questões graves que afligem a comunidade. Esses
problemas, de natureza profunda e séria, manifestam-se internamente. Em 1
Coríntios, capítulo 5, é exposta a imoralidade sexual. Já em 2 Coríntios,
capítulo 6, são abordados litígios, demonstrando que a Igreja de Corinto
enfrentava uma série de dificuldades e escândalos. Até mesmo problemas de
embriagues havia na igreja de Corinto (I Coríntios 11:21) Uma igreja pode,
infelizmente, atingir esse estado. Contudo, é importante ressaltar que Paulo,
mesmo diante dessa situação, oferece suas exortações visando a correção e o
reajuste, sempre em consonância com a doutrina do Senhor. A necessidade de
afastar-se da apostasia exige a aplicação de um "remédio", encontrado
nas características da igreja que apresentei no início deste texto.
Uma igreja, sua liderança e seus
membros, comprometidos com os princípios ali descritos, promoverão uma atuação
diligente e fiel na fé. É crucial, contudo, reconhecer com esperança que os
membros de uma congregação, não são perfeitos e nem infalíveis. A igreja que
atua neste mundo está sujeita a falhas, como pudemos constatar neste breve
estudo, o que não justifica o abandono da congregação. Sendo seus membros falíveis
e imperfeitos, pode ocorrer problemas de conduta entre eles, e nisso consta a
exortação de Paulo de que devemos suportar uns aos outros (Efésios 4:2 e Colossenses 3:12) Essas exortações estão ali
para serem observadas, deve o leitor atentar para isso com cautela e temor e
ainda mais, em casos mais sérios, envolvendo ofensas pessoais, “perdoai-vos uns
aos outros” (Efésios 4:32) Esses mandamentos estão nas Escrituras para serem
observados
Gostaria ainda de abordar a grave questão que
a igreja na Galácia enfrentou, a qual motivou a escrita da epístola de Paulo
aos Gálatas. Contudo, meu foco principal reside nas igrejas locais,
especificamente nas sete igrejas da Ásia, onde algumas foram objeto de
repreensão. Em relação a essas igrejas, o Senhor censura certos comportamentos
e desvios doutrinários. A igreja em Pérgamo, por exemplo, foi advertida quanto
à doutrina de Balaão. Em Sardes, o Senhor declara que as suas obras não são
perfeitas diante de Deus. Diante disso, é importante notar que, com exceção das
igrejas de Éfeso e Filadélfia, as demais igrejas apresentavam sérias dificuldades
espirituais. Reafirmo meu desejo de revisitar o Livro de Atos, onde a história
da igreja é narrada. No capítulo 5, encontramos o relato de Ananias e Safira. O
cerne da questão residiu na mentira que proferiram ao Espírito Santo. No
contexto, observamos que Ananias e Safira faltaram com a verdade. Inicialmente,
mentiram aos apóstolos e então ao Espirito Santo. Simplificando, agiram com
desonestidade. Venderam uma propriedade por um valor, mas declararam outro,
retendo parte do dinheiro. Devido a essa ação, houve um tratamento específico
em relação aos seus pecados. Ananias e Safira cometeram não somente um erro,
eles pecaram, agiram de forma desleal,
contudo, eram cristãos, membros da igreja, parte da congregação de Jerusalém.
Diante de seus pecados, o Senhor agiu, demonstrando que Deus, e também as
autoridades eclesiásticas, tratam com disciplina e estabelecem consequências
para as ações graves cometidas pelos filhos de Deus. Assim fica provado de
forma irrefutável de que os membros das igrejas do Novo Testamento não eram
perfeitos e nem mesmo infalíveis, você não deve se decepcionar quando algo
errado acontecer na sua congregação, envolvendo os seus membros, pois eles também
não perfeitos e infalíveis.
Um exemplo semelhante encontra-se em 1
Coríntios, capítulo 5, onde Paulo aborda o caso de um homem pecador que se
envolveu com a esposa de seu pai, provavelmente não sua mãe biológica, mas a
mulher com quem seu pai estava casado. Após a morte do pai, ele se uniu a ela,
o que foi considerado um pecado gravíssimo. Paulo recomendou que fosse entregue
a Satanás para destruição para que sua alma fosse salva no dia final.
Observamos, portanto, a gravidade da situação. Reconhecendo que os cristãos não
são infalíveis nem perfeitos, podem incorrer em pecados específicos, mas as
consequências podem ser severas. Desejo salientar que não estou defendendo
erros e nem pessoas erradas, onde elas estiverem, sofrerão as conseqüências por
seus erros e pecados, a questão é que o erro dos outros não deve ser a
justificativa para você abandonar a congregação, quem faz isso, tropeça no erro
alheio, isso é tão devastador quanto o impenitente, mais uma vez, perceba as conseqüências
que sofreram Ananias e Safira em Atos 5.
Através dos exemplos mencionados, torna-se
evidente que a crença de que a Igreja militante, a comunidade cristã na Terra,
seja composta apenas por pessoas perfeitas e infalíveis é um equívoco. A
realidade demonstra que a Igreja é formada por indivíduos sujeitos a falhas,
como tem ocorrido desde os primórdios, conforme ilustrado pelos exemplos
apresentados.
Portanto, é importante ressaltar que a
decepção resultante de atos de desrespeito, injustiça ou condutas inadequadas
por parte de membros da Igreja não constitui motivo para o abandono da fé. A
saída da Igreja motivada por tais experiências revela uma expectativa irreal,
que não encontra respaldo na doutrina cristã. Trata-se de uma falta de
maturidade e discernimento justificar a saída da Igreja por causa de ofensas,
escândalos ou falhas, sejam elas cometidas por líderes ou membros.
A Bíblia e o Novo Testamento deixam claro que a Igreja é composta por pessoas
salvas, mas também por outras que ainda não alcançaram a plenitude da fé. Nela,
encontram-se indivíduos com diferentes níveis de maturidade e discernimento,
com os quais se pode ou não confiar. Há pessoas com fé forte e pessoas com fé
fragilizada, e até mesmo aquelas que ainda não experimentaram a conversão. É
fundamental compreender e discernir essa realidade.
Compreendo que você deve obsrevar a importância
dessa questão que estou abordando . Desejo que você perceba que, para aqueles
que cultivam uma vida espiritual e um certo nível de maturidade, a presença de
indivíduos que incorrem em erros ou praticam ações que divergem dos princípios
cristãos na igreja deve servir como um alerta. Essas situações não justificam o
afastamento da comunidade, pois a perfeição não é um atributo de um cristão
terreno. Ao invés das coisas erradas serem motivos de apostasia, a sua postura
diante desses casos deve ser a de aprendizado, observando as consequências de
tais ações erradas, quando existirem e viver de tal modo, a torna-se irrepreensível
,buscando não replicá-las. Em contrapartida, as pessoas que se esforçam por uma
vida virtuosa devem ser tomadas como exemplo a ser seguido. A ocorrência de
falhas alheias deve ser vista como um lembrete, não para abandonar a igreja,
mas para fortalecer o compromisso individual com os valores cristãos.
Simplesmente não deseje seguir os passos de um péssimo exemplo, Cristo deve ser
sempre nosso foco e direção, exemplo digno de ser seguido (Hebreus 12:2)
Considerando o exposto, a questão central que
se coloca é: existem razões justificáveis para o afastamento de uma congregação
e a busca por outra? Conforme estabelecido em Hebreus, capítulo 10, versículo
25, "não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns, mas
encorajando-nos uns aos outros, e tanto mais quanto vedes que o Dia se
aproxima". Diante disso, a reflexão pertinente é: há motivos plausíveis para
a saída de uma congregação? Embora a resposta possa ser afirmativa em determinadas
circunstâncias, é crucial ponderar que a mudança de igreja, quando justificada,
deve-se principalmente à gravidade da apostasia e à disseminação de doutrinas
divergentes por parte da liderança ou da própria congregação. Nesse contexto, a
saída de uma comunidade em declínio espiritual e aderência a ensinamentos
equivocados pode ser justificada pela busca de uma igreja espiritualmente
saudavel que ainda preserva a solidez doutrinária e a ortodoxia, uma igreja
alinhada aos princípios espirituais autênticos e que se mantenha fiel aos
ensinamentos bíblicos.
Ademais, no livro do Apocalipse, no capítulo
18, versículos 3 e 4, encontra-se um contexto relevante. A Babilônia,
simbolizando a religião dos mistérios, representa um sistema religioso
sincrético. Este sistema combina elementos de capitalismo predatório, práticas
religiosas, feitiçaria, ocultismo e crenças consideradas heréticas,
configurando-se como uma religião ecumênica, sincretista, decadente, apóstata
e, por conseguinte, sujeita à condenação.
Neste contexto, é possível identificar a advertência e o chamado do Espírito
Santo, conforme a palavra de Jesus: "Sai dela, povo meu, para que não
sejais participantes dos seus pecados e para que não incorrais nas suas
pragas".
A exortação ao "sair" não implica em conformar-se com tal ambiente
espiritual, mas sim em afastar-se da contaminação espiritual, buscando a pureza
doutrinaria.
Trata-se de deixar um ambiente poluído em
estado de enfermidade espiritual e buscar uma igreja saudável.
Abandonar uma igreja que adota o modernismo em
favor de uma igreja que preserve os valores tradicionais; deixar uma igreja
apóstata e aderir a uma igreja ortodoxa; e, por fim, abandonar uma igreja que
promove a confusão em busca de uma igreja que ofereça discernimento espiritual,
de fato é algo louvável, pois um cristão espiritualmente saudável não se adéqua
a um púlpito espiritualmente enfermo.
Dessa forma, a exortação bíblica serve
como um fundamento para justificar a mudança de uma igreja apóstata para uma
igreja que se mantenha firme em pregar e defender os fundamentos da fé cristã.
Além disso, é importante ponderar que, ao
apresentar exortações e advertências para corrigir igrejas ou indivíduos, Paulo
visava concretizar e efetivar a correção, a fim de restaurar a normalidade
espiritual da comunidade. Caso contrário, se uma igreja não for corrigida, e
elementos nocivos como heresias de perdição, comportamentos inadequados e
imoralidade não forem tratados por meio da disciplina, por exemplo, ela tenderá
à corrupção e se transformará em uma igreja apóstata. Diante disso, não é
admissível que um cristão genuíno permaneça exposto a ensinamentos que
contradizem a sã doutrina. Em situações como a mencionada por Paulo em relação
a Himeneu e Fileto, que propagavam a ideia de que a ressurreição já havia
ocorrido, Paulo se manifesta com veemência, descrevendo tais ensinamentos como
corrompidos e comparando-os a uma gangrena que devora a carne até os ossos, o
que demonstra a gravidade da situação.(II Timóteo 2:17)
Portanto, diante de tais circunstâncias, a
postura mais adequada para o cristão autêntico é buscar uma congregação que
reforce os princípios espirituais mencionados anteriormente, no inicio desse
artigo e que caracterizam uma igreja espiritualmente saudável. Um cristão
espiritualmente sadio deve congregar-se em um ambiente saudável, jamais
negligenciando a freqüência fiel a uma igreja local, quando a possibilidade é
real.
C. J. Jacinto
Amilenismo e do Pós-milenarismo: Uma Análise Crítica
As Teologias Não Escriturais do Amilenismo e do Pós-milenarismo: Uma Análise Crítica
Baseado no artigo de Thomas
D. Ice — Pre-Trib Research Center, Liberty University (2009)
Introdução: Por Que a Escatologia Importa
A escatologia — o estudo das
últimas coisas — não é uma curiosidade teológica reservada a especialistas. Ela
molda visões de mundo, motiva ações históricas e define o que uma civilização
acredita ser possível no futuro. O teólogo Thomas D. Ice, professor da Liberty
University e pesquisador do Pre-Trib Research Center, parte exatamente dessa
premissa: a forma como compreendemos o futuro determina a forma como vivemos o
presente.
Ice observa que o século XX
foi amplamente dominado pelas consequências práticas das escatologias que os
homens abraçaram. Movimentos como o Comunismo e o Islamismo radical podem ser
lidos, em certa medida, como versões distorcidas de um determinismo
pós-milenarista cristão — sistemas que projetam uma utopia futura e justificam
qualquer meio para alcançá-la.
Há ainda um contraste
fundamental que Ice destaca: apenas a cosmovisão bíblica aponta para um futuro
melhor do que o passado. Todas as religiões e culturas pagãs olham para trás
com saudade — para os faraós do Egito, para a glória de Nabucodonosor, para
alguma "era de ouro" já perdida. A Bíblia, porém, declara que o
melhor ainda está por vir. O desenvolvimento histórico vai de um jardim
(Gênesis) a uma cidade (Apocalipse), e essa direção ascendente não é acidental
— ela é o fio condutor da revelação divina.
Os Três Grandes Sistemas Escatológicos
Todo sistema escatológico
sério precisa posicionar-se em relação ao milênio — o reino de mil anos
mencionado em Apocalipse 20. Os três grandes sistemas que organizam esse debate
são:
1. Pré-milenarismo
O pré-milenarismo sustenta
que a Segunda Vinda de Cristo ocorrerá antes do seu reinado literal de
mil anos sobre a Terra. Conforme definido por John F. Walvoord, um dos maiores
expoentes dessa posição, Cristo retornará vitoriosamente, intervirá na história
humana e reinará pessoalmente a partir de Jerusalém, produzindo uma era de paz,
prosperidade e justiça.
Para os pré-milenistas, a
era atual é a Era da Igreja — um período distinto e separado do plano de Deus
para Israel. A obra redentora de Cristo é o único fundamento para a salvação em
qualquer período da história.
2. Amilenismo
O amilenismo, descrito por
Floyd E. Hamilton, defende que o reino milenial de Cristo se estende desde a
Sua Ressurreição até a Sua Segunda Vinda. Cristo não reinará fisicamente sobre
a Terra em Jerusalém em nenhum momento futuro. Seu reino é essencialmente
espiritual, exercido "nos corações de Seu povo". Os "mil
anos" do Apocalipse são interpretados como um número simbólico que
representa o período completo entre as duas vindas de Cristo.
Após a Segunda Vinda,
segundo os amilenistas, todos os crentes de toda a história entrarão
imediatamente no estado eterno após um julgamento final e único de toda a
humanidade.
3. Pós-milenarismo
O pós-milenarismo, definido
por Norman Shepherd, é a visão de que Cristo retornará ao fim de um
período prolongado de justiça e prosperidade — o milênio. Assim como o
amilenismo, o pós-milenarismo identifica a era atual como o reino de Deus. A
diferença está no otimismo: os pós-milenistas acreditam que o reino não opera
apenas nos corações dos crentes, mas que impacta e transforma toda a sociedade.
A lógica pós-milenarista é a
seguinte: o evangelho está sendo pregado com poder crescente, e sua influência
irá converter a vasta maioria da humanidade, criando um clima de paz,
prosperidade material e glória espiritual. Esse período será o milênio, após o
qual Cristo retornará para o julgamento final.
Amilenismo e Pós-milenarismo: Duas Faces da Mesma Moeda
Um dos pontos mais agudos do
argumento de Ice é a constatação de que amilenismo e pós-milenarismo são
essencialmente a mesma posição teológica. Ele cita o próprio teólogo
pós-milenista David Chilton, que declarou abertamente:
"O que estou dizendo é isto: Amilenismo e
Pós-milenarismo são a mesma coisa. A única diferença fundamental é que os
'pós-mils' acreditam que o mundo será convertido, e os 'a-mils' não. Fora isso,
sou um amil."
Em outras palavras, o
pós-milenarismo nada mais é do que um amilenismo otimista. Ambos compartilham a
premissa de que o reino ou milênio é a era atual — o pré-milenarismo os separa
radicalmente ao colocar o reino no futuro. Ice argumenta que esse paradigma
amilenista/pós-milenarista surge invariavelmente quando se ignora o plano de
Deus para a nação de Israel — tema central da profecia bíblica
veterotestamentária.
Uma Breve História dos Sistemas Mileniais
O Quiliasmo: A Posição Original da Igreja
Ice sustenta, com base em
amplo consenso acadêmico, que o pré-milenarismo — chamado de quiliasmo
na Igreja primitiva (do grego chilioi, mil) — foi a visão dominante dos
primeiros séculos cristãos. Isso não é uma reivindicação sectária: é o consenso
tanto de estudiosos liberais quanto conservadores da patrística.
J. N. D. Kelly, reconhecido
internacionalmente como autoridade no pensamento cristão patrístico, afirma que
o milenarismo "encontrou apoio crescente entre os mestres cristãos"
do segundo século, sendo "amplamente popular" nesse período. Os
grandes teólogos que seguiram os Apologistas — Ireneu, Tertuliano e Hipólito —
foram todos expoentes do milenarismo.
É digno de nota: o
pré-milenarismo não foi contradito por nenhum pai da Igreja ortodoxo até o
início do século III. O primeiro a interpretar os mil anos simbolicamente foi
Gaio, que além disso rejeitou a canonicidade do próprio Apocalipse,
atribuindo-o ao herege Cerintus.
O Anti-Milenarismo: Uma Reação, Não uma Exegese
Antes do surgimento formal
do amilenismo, houve o que Ice chama de anti-milenarismo — uma rejeição
emocional e cultural do pré-milenarismo, sem oferecer uma interpretação
alternativa coerente do texto. A primeira reação dos opositores não foi propor
outra leitura de Apocalipse 20 (que claramente ensinava o milenarismo), mas sim
questionar se o Apocalipse deveria sequer fazer parte do cânon do Novo
Testamento.
O ataque ao quiliasmo partiu
sobretudo da Escola de Alexandria, no Egito, a partir do século III.
Clemente de Alexandria e seu discípulo Orígenes popularizaram uma polêmica
anti-quiliastica baseada na interpretação alegórica das Escrituras. O impulso
não era exegético, mas filosófico: a cosmovisão grega desvalorizava o mundo
material, tornando inaceitável a ideia de um reino físico de Deus na Terra.
Norman Cohn observa com
precisão histórica: enquanto os cristãos eram uma minoria perseguida, o
milenarismo floresceu. Quando o Império Romano adotou o Cristianismo como
religião oficial no século IV, "a Igreja se pôs a erradicar as crenças
milenaristas." O contexto político favoreceu uma teologia que legitimava o
status quo imperial.
O Amilenismo de Agostinho
Na tradição latina
ocidental, Jerônimo (347–420) e, sobretudo, Agostinho de Hipona
(354–430) foram decisivos para o estabelecimento do amilenismo. Em A Cidade
de Deus, Agostinho adotou a interpretação alegórica de Apocalipse 20
proposta pelo teólogo donatista Ticônio, transformando os mil anos em símbolo
da era da Igreja. Agostinho foi o primeiro a articular sistematicamente uma
posição amilenista positiva.
A influência agostiniana foi
tão avassaladora que, como registra o historiador Robert Lerner, "uma
proibição contra a aplicação de Apocalipse 20 ao futuro foi estabelecida
durante a era patrística tardia e permaneceu em vigor por séculos."
O Pós-milenarismo: Um Amilenismo com Otimismo
O pós-milenarismo foi o
último dos três sistemas a se desenvolver, o que é logicamente previsível: ele
pressupõe a base amilenista (reino presente), acrescentando a ela um otimismo
quanto ao progresso da era da Igreja.
Ice observa que o
pós-milenarismo quase desapareceu após as duas Guerras Mundiais, que devastaram
qualquer otimismo ingênuo sobre o progresso humano. No entanto, os últimos 30 a
40 anos testemunharam um renascimento da posição, especialmente por meio do
movimento da Reconstrução Cristã (ou Teonomia), que floresceu sobretudo
em ambientes reformados norte-americanos.
O Problema Hermenêutico: A Chave de Tudo
Para Ice, a raiz do problema
não é histórica — é hermenêutica. O verdadeiro motivo pelo qual amilenistas e
pós-milenistas chegam às suas conclusões é a recusa de interpretar toda a
Bíblia, especialmente a profecia, de forma literal.
Paradoxalmente, alguns dos
principais críticos da interpretação literal admitem, em momentos de candura,
que ela conduz inevitavelmente ao pré-milenarismo. Floyd Hamilton reconheceu:
"Devemos admitir francamente que uma
interpretação literal das profecias do Antigo Testamento nos dá exatamente tal
quadro de um reinado terreno do Messias, como os pré-milenistas
descrevem."
E Oswald Allis confessou:
"As profecias do Antigo Testamento, se
interpretadas literalmente, não podem ser consideradas como já cumpridas nem
como capazes de se cumprir na presente era."
Essas confissões são
extraordinariamente reveladoras. Elas demonstram que a questão não é exegética
em sua origem — é filosófica e hermenêutica. O intérprete que não quer o que o
texto diz precisa trazer de fora um método que permita dizer outra coisa.
A Força do Pré-milenarismo: O Próprio Texto das Escrituras
Ice encerra seu argumento no
lugar mais sólido possível: o texto bíblico. Ele resume, a partir do trabalho
do Dr. Gerald Stanton, os pilares que sustentam o pré-milenarismo:
• Interpretação literal
consistente de toda a Escritura
• A natureza incondicional das
Alianças — especialmente a Aliança Abraâmica
• O Antigo Testamento ensina
um reino literal e terreno
• O reino é levado inalterado
para o Novo Testamento
• Cristo confirma um reino
terreno
• As múltiplas ressurreições
nas Escrituras (incompatíveis com o amilenismo)
• Apocalipse 20 ensina
explicitamente o pré-milenarismo
• A Igreja primitiva era
pré-milenarista
• Somente o pré-milenarismo
harmoniza toda a Bíblia
• Somente o pré-milenarismo
oferece uma conclusão satisfatória para a história
Conclusão: A Questão é o Texto
O argumento central de
Thomas Ice é ao mesmo tempo simples e poderoso: mostre-me um único texto que
exija uma interpretação amilenista ou pós-milenarista e que não possa ser
entendido de forma pré-milenarista. Após décadas de estudo e debate, nenhum
oponente apresentou tal texto de forma convincente.
O amilenismo e o
pós-milenarismo não surgiram do estudo honesto e consistente das Escrituras.
Surgiram como reações — primeiro ao quiliasmo primitivo, depois influenciados
pela filosofia grega que desvalorizava o mundo material, e finalmente
consolidados pela autoridade cultural de Agostinho no Ocidente. São teologias
construídas muito mais sobre pressões externas ao texto do que sobre o próprio
texto.
O pré-milenarismo, por outro
lado, pode ser apresentado positivamente a partir da Bíblia — de Gênesis ao
Apocalipse — sem precisar desconstruir as outras posições. Essa assimetria é,
em si mesma, um argumento poderoso.
Para o crente comprometido
com a autoridade e suficiência das Escrituras, a conclusão de Ice é um convite:
estude o texto. Ensine-o. Proclame-o. E espere nele. Maranatha!
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