Como o ateísmo
militante se tornou uma religião substituta
C. J. Jacinto
“O assunto sobre a negação
da existência de Deus não é causada por racionalismo. Por trás há um ódio — um
ódio profundo sobre a possibilidade de que de fato Deus exista, e de fato Ele
seja Soberano sobre todas as coisas.” — C. J. Jacinto
I. A Natureza do Problema
Existe um pressuposto amplamente difundido no pensamento secular
contemporâneo: se a religião fosse eliminada do cenário humano, o mundo seria
automaticamente mais racional, mais pacífico e mais justo. Esse argumento,
repetido com fervor pelos novos ateus e por diversas correntes do secularismo
militante, soa convincente à primeira audição. Porém, um exame honesto da
história e da filosofia revela não apenas que tal tese é falsa, mas que ela
encerra uma ironia profunda e reveladora.
O ateísmo, longe de libertar o homem da estrutura religiosa,
frequentemente a reproduz em nova roupagem. O impulso de transcendência, de
pertencimento a uma causa maior, de veneração e de sacrifício — traços
constitutivos da experiência religiosa — não desaparecem quando Deus é
destronado. Eles simplesmente migram para um novo altar.
Este artigo pretende demonstrar, com rigor histórico e fundamento
bíblico, que o ateísmo anticristão carrega em si as sementes de uma nova
religião, e que todo sistema que rejeita o Deus vivo termina, inevitavelmente,
divinizando algo ou alguém em Seu lugar.
II. O Solo Fértil das Falsas Religiões
Toda falsa religião nasce de um terreno específico. Duas condições se
revelam historicamente determinantes para o seu surgimento: um estado coletivo
de incerteza e desesperança, e uma ausência de sentido para a existência.
Quando o horizonte se fecha e o futuro parece opaco, o ser humano não
simplesmente para de crer — ele passa a crer em outra coisa.
O fracasso das religiões organizadas desempenha aqui um papel
catalisador. Não é que o homem abandone a busca pelo sagrado; é que ele
redireciona essa busca para novas estruturas de sentido. Movimentos políticos
totalitários, ideologias materialistas e cultos seculares emergem exatamente
nos momentos em que as instituições religiosas tradicionais perdem sua
autoridade moral e espiritual.
O contexto espiritual de uma nação, portanto, é decisivo. Foi
precisamente o vácuo espiritual da Europa moderna — abalada pelo cientificismo,
pelo niilismo e pela crítica iluminista à fé — que preparou o terreno para os
dois grandes experimentos totalitários do século XX: o nazismo alemão e o
comunismo soviético. Ambos são, em sua essência, religiões políticas seculares.
III. O Comunismo Soviético como Religião Ateísta
A Paradoxo do Sistema Antirreligioso
A doutrina marxista-leninista repudia oficialmente toda forma de
religião. Marx declarou que a religião era o ópio do povo, um instrumento de
alienação a ser destruído na construção da sociedade comunista. E, no entanto,
foi justamente esse sistema — tão ostensivamente antirreligioso — que se tornou
uma das mais perfeitas religiões substitutivas já conhecidas pela humanidade.
Os paralelos formais e funcionais entre o marxismo-leninismo e a
religião organizada são, como reconheceram vários estudiosos, demasiado óbvios
para serem ignorados. Mas o que raramente se discute é o quanto tal semelhança
não foi mero acidente histórico, mas resultado de uma estratégia deliberada e
calculada.
“Lenin era, antes de mais
nada, um manipulador extremamente sagaz, com a penetrante compreensão das
necessidades da psique. Reconhecia a necessidade de adaptação do seu sistema ao
ímpeto religioso do homem, por mais incrédulo que fosse pessoalmente.” — A Herança Messiânica — Baigent, Leigh
& Lincoln
Lenin compreendia que o homem não é apenas um ser racional: é um ser de
fé. Para que seu sistema pudesse se enraizar nas massas, precisaria satisfazer
as necessidades que a religião sempre satisfez — necessidade de sentido, de
pertencimento, de esperança e de salvação. Assim nasceu a religião ateísta.
O Culto ao Líder: Ídolos de Carne e Osso
A morte de Lenin em 1924 ofereceu a Stalin uma oportunidade única de
consolidar o caráter religioso do movimento bolchevique. Com a frieza
calculista de quem havia recebido formação em seminário teológico, Stalin
transformou o funeral de Lenin num ritual sagrado de proporções épicas.
“Stalin se empenhou
sistematicamente em extrair tanto quanto possível o significado religioso da
morte de Lenin. Fez com que ele fosse velado no salão das colunas na Casa dos
Sindicatos. Durante quatro dias o corpo foi mantido ali em exposição, enquanto
dez mil pessoas faziam fila sob temperaturas abaixo de zero para ter a
oportunidade de passar ao lado do caixão. Outros líderes bolcheviques ficaram
pasmos com essa descarada fusão de emoção religiosa.” — A Herança Messiânica — Baigent, Leigh
& Lincoln
O corpo embalsamado de Lenin, exposto permanentemente na Praça Vermelha
como uma relíquia sagrada, é um dos exemplos mais eloquentes da antropolatria —
a adoração do homem pelo próprio homem. Quando o Exército Alemão avançou sobre
Moscou durante a Segunda Guerra Mundial, Stalin mandou transferir o corpo para
os Urais. Um ídolo sagrado não poderia cair nas mãos do inimigo.
Isso é adoração de ícone, inegavelmente. É o culto imperial do
imperador romano, é o culto à personalidade, operando dentro de um estado que
oficialmente negava Deus. O ateísmo não eliminou o impulso de veneração —
apenas trocou o objeto da veneração.
O Lenço Vermelho: Batismo e Iniciação
Nenhum símbolo revela mais claramente a natureza religiosa do comunismo
soviético do que o lenço vermelho dos Jovens Pioneiros. Em meio a juramentos e
compromissos solenes, cada criança iniciada no Partido recebia esse pedaço de
pano como seu talismã mais precioso.
O novo pioneiro era instruído a guardar o lenço, reverenciá-lo,
preservá-lo do toque de qualquer outra pessoa. O pano representava o sangue dos
mártires revolucionários — a nuvem de testemunhas do novo credo secular. O
ritual era explicitamente comparável à primeira comunhão cristã: havia uma
substância simbólica, havia um sangue derramado, havia uma iniciação aos
mistérios do Partido.
Como observou o próprio material de pesquisa que fundamenta este
artigo: postular a presença simbólica do sangue dos mártires naquele pedaço de
pano não é significativamente diferente de postular a presença do sangue de
Cristo no cálice da Santa Ceia. A premissa é essencialmente religiosa — e a
intenção era idêntica: criar um símbolo sagrado, um vínculo transcendente entre
o indivíduo e a comunidade de fé.
Havia ainda toda uma mística de recrutamento, discursos inflamados,
promessas messiânicas de um Estado perfeito onde a humanidade finalmente
alcançaria a felicidade. O Partido era a Igreja. O Estado era Deus. E Stalin
era o sumo sacerdote.
IV. O Diagnóstico Bíblico: Romanos 1
O apóstolo Paulo, escrevendo aos Romanos no século I, forneceu o
diagnóstico espiritual mais preciso que a história conhece para o fenômeno que
estamos descrevendo. Sua análise, registrada no primeiro capítulo da epístola,
é de uma acuidade que assombra pela modernidade.
“Porque as suas coisas
invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua
divindade, se entendem e claramente se veem pelas coisas que estão criadas,
para que eles fiquem inexcusáveis. Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o
glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, em seus discursos, se
desvaneceram e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios,
tornaram-se loucos.” —
Romanos 1:20-22
O ateísmo não é, em sua raiz mais profunda, uma posição filosófica
racionalmente sustentada. É, antes, uma recusa moral. Paulo diz que os homens
conheceram a Deus — a revelação geral da criação é suficientemente clara para
isso — mas escolheram não glorificá-lo. O ponto de partida não foi a dúvida
intelectual: foi a recusa de reconhecer a soberania divina.
O coração insensato que se obscurece não é o coração de quem não teve
acesso à evidência, mas daquele que, diante da evidência, voltou as costas. E a
consequência lógica dessa rejeição é a tolice que se veste de sabedoria:
tornaram-se loucos, dizendo-se sábios.
A história soviética é a ilustração histórica perfeita desse
diagnóstico paulino. Um estado edificado sobre a recusa de Deus, governado por
homens que se proclamavam os iluminados da razão, produziu um dos sistemas mais
irracionais, mais cruéis e mais mitológicos que o mundo já viu. Dizendo-se
sábios, tornaram-se loucos.
V. Nietzsche e o Super-Homem: A Autodivinização Filosófica
O que no comunismo soviético ocorreu de forma institucional e política,
na filosofia de Friedrich Nietzsche ocorreu de forma intelectual e individual.
Nietzsche declarou a morte de Deus — e, ao fazê-lo, abriu caminho para a
entronização do homem em Seu lugar.
O conceito nietzschiano do Übermensch, o Super-Homem, é a expressão
filosófica da autodivinização. Trata-se do homem que supera a si mesmo, que
transcende os limites da condição humana por suas próprias forças, que não
espera salvação de nenhuma fonte exterior. Ele é seu próprio senhor, seu
próprio redentor, seu próprio Deus.
Negar a Deus é sempre um impulso em direção à autodivinização. Essa
dinâmica não é acidente — é lei espiritual. E ela remonta ao princípio de tudo:
foi exatamente isso que a antiga serpente prometeu no Jardim do Éden.
"Sereis como Deus" (Gênesis 3:5). O ateísmo filosófico, em última
análise, é a teologia do diabo revestida de racionalismo moderno.
O Super-Homem de Nietzsche é o homem que acredita poder controlar os
aspectos cruciais de seu próprio destino, superar as crises existenciais por
força própria e dispensar qualquer referência transcendente. É, em resumo, um
semideus secular — um ídolo que caminha sobre dois pés.
VI. A Antropolatria: O Homem como Deus
Feuerbach e a Inversão Teológica
O filósofo Ludwig Feuerbach levou a lógica do ateísmo humanista às suas
últimas consequências. Sua tese central é de uma audácia impressionante: Deus
não criou o homem à Sua imagem e semelhança — foi o homem que criou Deus à sua
própria imagem e semelhança. A religião, para Feuerbach, é simplesmente a
projeção exterior das qualidades humanas idealizadas.
Como registra Urbano Zilles em sua Filosofia da Religião: "Feuerbach
destrona Deus e diviniza o homem. Segundo ele, os amigos de Deus devem
tornar-se amigos do homem neste mundo. Deus é apenas a personificação da
espécie humana."
A consequência prática dessa posição é devastadora: se Deus é apenas o
reflexo idealizado do homem, então o homem é o verdadeiro absoluto. A Bíblia
deve ser reescrita: não "no princípio Deus criou o homem", mas
"no princípio o homem criou Deus". A transcendência é abolida, e o
horizonte humano se fecha sobre si mesmo.
O Cientificismo e os Limites da Razão
O cientificismo — a crença de que a razão científica e empírica é o
único instrumento legítimo de acesso à realidade — padece de uma limitação
constitutiva: ele é incapaz de ir além dos limites que ele mesmo impôs. Fecha a
janela para o transcendente e depois se espanta por não conseguir ver o céu.
A razão natural, quando absolutizada, não ilumina — obscurece. Ela é
aquela que, nas palavras que iluminam o início desta análise, crê no acaso cego
como criador de todas as coisas. Mas atribuir ao acaso cego a capacidade de
criar, organizar e sustentar o universo não é racionalismo — é fé. É fé em uma
força irracional e impessoal, exercida com fervor absolutamente religioso.
Jesus Cristo descreveu com precisão cirúrgica o resultado final desse
sistema: quando um cego guia outro cego, ambos caem na vala (Mateus 15:14). A
razão natural que rejeita a luz de Deus não se torna mais esclarecida —
torna-se mais cega. E essa cegueira coletiva, quando organizada em sistema
político, produz regimes como o soviético, cujas valas foram repletas de
milhões de cadáveres.
VII. O Ateísmo Militante como Fenômeno Religioso
O secularismo moderno não é a ausência de religião. É uma religião
concorrente. Observe-se o comportamento do ateísmo militante contemporâneo — os
chamados novos ateus — e encontrar-se-á exatamente a estrutura que define
qualquer sistema religioso: dogmas intocáveis, profetas reverenciados, ritos de
iniciação, militância fervorosa e intolerância com os hereges.
Os profetas do ateísmo moderno têm nome e sobrenome: Friedrich
Nietzsche, Voltaire, Bertrand Russell, Karl Marx. São reverenciados como
iluminados, citados como escrituras, defendidos com o mesmo fervor com que um
crente defende sua fé. A ironia é irresistível: os homens que proclamam a morte
de Deus constroem, em seguida, um panteão de novos deuses.
Praticamente, no mundo concreto, não existe ateísmo. A partir do
momento em que o homem deixa de crer em Deus, ele passa a crer em si mesmo, em
seu grupo, em sua ideologia, em seu líder. O vácuo espiritual não permanece
vácuo — ele é preenchido, sempre. E o que o preenche raramente é mais racional
ou mais humano do que o que foi expulso.
O homem que abandona o conceito de um Deus que está acima dele acaba
por divinizar a si próprio. Ele passa a adorar sua própria razão como uma luz
que ilumina todas as questões existenciais. Torna-se incrédulo por orgulho
intelectual — e esse orgulho, que se apresenta como libertação, é a mais antiga
das prisões.
VIII. Conclusão: O Altar Inevitável
A tese deste artigo pode ser resumida em uma proposição: o coração
humano é, por constituição, um fabricante de deuses. Calvino já o havia
observado — o coração humano é uma fábrica perpétua de ídolos. Quando o Deus
verdadeiro é rejeitado, outro deus ocupa imediatamente seu lugar: o Estado, o
Partido, o Líder, a Raça, a Razão, o Homem.
O experimento soviético demonstrou isso com uma clareza histórica
brutal: um sistema edificado sobre a negação de Deus produziu um dos mais
elaborados sistemas de culto que o mundo moderno conheceu. Os ídolos tinham
rosto humano, os templos eram mausoléus, os sacramentos eram lenços vermelhos,
e os mártires eram os heróis da revolução.
A mensagem do apóstolo Paulo permanece atual e desafiadora: os que
recusam glorificar a Deus não se tornam ateus — tornam-se idólatras. E a
idolatria do homem moderno, revestida de ciência e filosofia, é mais perigosa
do que a dos antigos, precisamente porque não se reconhece como tal.
Diante desse panorama, a apologética cristã não pode limitar-se a
rebater argumentos filosóficos. Ela precisa expor a estrutura religiosa oculta
do ateísmo militante, revelar os ídolos que se escondem por trás da linguagem
da razão, e proclamar — com a mesma clareza e o mesmo amor do apóstolo — que só
há um altar que não decepciona, só há um Nome ao qual toda joelho se dobra, e
só há um Senhor perante quem o coração humano finalmente encontra o repouso que
sempre buscou.
Referências Bibliográficas
BAIGENT,
Michael; LEIGH, Richard; LINCOLN, Henry. A Herança Messiânica. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira. p. 142-146.
ZILLES,
Urbano. Filosofia da Religião. São Paulo: Paulus.
Bíblia
Sagrada. Romanos 1:20-22; Mateus 15:14; Gênesis 3:5.