O CAMINHO ESCORREGADIO DA
PATRISTICA
C. J. Jacinto
Na obra excelente obra "Doutrinas Centrais da Fé Cristã” J.N.D. Kelly aborda o período patrístico no
primeiro capítulo . Nessa obra, ele é muito claro em dizer que a teologia
dos primeiros séculos apresenta os extremos de imaturidade e de refinamento. Essa
sem duvida deve ser a primeira percepção viva no nosso coraçao quando o assunto
é ler e estudar a patrística.
A patrística, em sua totalidade, não pode ser considerada autoridade
final em assuntos de fé e doutrina. Nenhum escritor patrístico possui a mesma
autoridade das Sagradas Escrituras. Pelo contrário, quaisquer ensinamentos
patrísticos que discordem das Escrituras, que apresentem inovações ou
acréscimos, devem ser rejeitados. Essa é a postura que devemos adotar ao
analisar a patrística. Caso contrário, incorreremos em erros e nossa fé poderá
ser abalada. Alexandria, situada na foz do rio Nilo, desfrutava de uma
localização geográfica estratégica, propícia ao comércio e à disseminação de
ideias entre o Oriente e o Ocidente. Era um centro intelectual de grande
importância, notabilizada por abrigar a maior biblioteca do mundo da época,
além de diversas outras de menor porte e museus. A cidade acolheu numerosos
intelectuais e, de certo modo, tornou-se um dos berços do pensamento gnóstico.
No
contexto de Alexandria, a filosofia grega exerceu notável influência sobre os
intelectuais judeus. Familiarizados com as doutrinas de Platão e Aristóteles
entre outros tantos, eles reconheceram, com surpresa e admiração, semelhanças
entre os ensinamentos filosóficos gregos e os textos sagrados do Antigo
Testamento. Concluíram, então, que os filósofos gregos teriam derivado dos
livros de Moisés as suas mais notáveis ideias. Quando na verdade eles beberam
das fontes poluída ocultistas das religiões egípcios. A noção de que os
filósofos gregos, posteriormente reverenciados em Alexandria, em especial por
judeus influenciados pela cultura local, teriam recebido influência direta de
Moisés, configurou-se como uma estratégia, um atrativo para o sincretismo que
se manifestaria de forma proeminente naquela cidade.
As ideias fundamentais que emanaram dos
ensinamentos de Filo de Alexandria e da filosofia resultante desse sincretismo,
conhecida como escola alexandrina, exerceram notável influência. Essa
influência, perceptível em diversas épocas, moldou profundamente a teologia
da cristandade, inclusive ate nos tempos atuais.
Desse sincretismo religioso emergiram novas
abordagens para a interpretação das escrituras. Entre estas, destaca-se a
interpretação alegórica, que o Dr Aníbal Pereira Reis denominou de
"exegese fantasmagórica", originada na escola judaica de Alexandria.
Essa forma de interpretação exerceu uma influência considerável sobre a
teologia cristã posterior, disseminando-se amplamente.
A Escola de Alexandria caracterizou-se pela tentativa de conciliar as
ideias do Antigo Testamento com as filosofias presentes em Alexandria,
notadamente a filosofia helenística. A busca por essa harmonia, no entanto,
frequentemente implicava na reinterpretação do sentido literal das Escrituras,
especialmente dos livros de Moisés. Para viabilizar essa conciliação,
recorria-se a uma interpretação alegórica, com certa flexibilidade
hermenêutica, visando harmonizar os pensamentos de Platão, Aristóteles e outros
filósofos gregos com os ensinamentos do Pentateuco e outros livros do Antigo
Testamento. Dessa forma, o método de interpretação alegórica das
Escrituras, originado em Alexandria e exemplificado pelas abordagens de
Aristóbulo e Filo, tornou-se a ferramenta hermenêutica empregada por muitos
pais da Igreja. Em consequência, a teologia posterior que se fundamentava
nos escritos de Paulo e outros autores do Novo Testamento, visando harmonizar o
Novo Testamento com o Antigo Testamento, foi gradualmente substituída pela
interpretação alegórica, que promovia a espiritualização das Escrituras. Muitos
desses pais da Igreja utilizaram tais métodos na elaboração de seus sistemas
teológicos. Entre eles, destacam-se figuras influentes na teologia ocidental,
tanto na Igreja Católica Romana quanto em algumas vertentes protestantes.
Exemplo disso são Agostinho, bispo de Hipona, influenciado pelo neoplatonismo,
e Tomás de Aquino, que incorporou o pensamento aristotélico em sua teologia.
Figuras religiosas proeminentes do passado enalteceram o filho de
Alexandria, considerando-o um dos maiores escritores eclesiásticos da
Antiguidade. Dentre aqueles que o louvaram, destaca-se o renomado Jerônimo.
Outro expoente, oriundo de Alexandria, foi o célebre Eusébio. Observa-se,
assim, a influência da patrística em Alexandria e a escola de interpretação
alegórica que floresceu naquela região da Antiguidade, onde diversos
intelectuais se dedicaram a construir um sincretismo religioso de grande
impacto, unindo filosofias e conceitos religiosos do Antigo Testamento para
formar uma nova escola teológica que influenciaria profundamente o pensamento
da Antiguidade. Portanto, o Doutor Aníbal Pereira Reis se expressa com
grande rigor. A noção de Filo sobre a dependência dos filósofos gregos no
estudo de Moisés foi acolhida por Justino, Taciano, Clemente de Alexandria,
Teodoreto e pela maioria dos Padres da Igreja dos cinco primeiros séculos. Em
seus escritos, Ambrósio demonstra significativa influência das ideias de Filo.
O Dr
Anibal Pereira Reis sustenta que figuras como Atanásio Sinaiítico,
datada do século VII, reconhece que a patrística está substancialmente
influenciada por uma orientação filosófica considerada prejudicial. Diante
disso, a confiabilidade da patrística como base para a elaboração de doutrinas
torna-se questionável. Considera-se a patrística um terreno complexo, onde,
embora se encontrem valiosas contribuições, também se detectam erros e uma
inclinação significativa a abandonar o pensamento hebraico em favor de um
pensamento sincretista e helenista, desenvolvido em Alexandria para a
elaboração teológica posterior . Essa tendência, segundo a perspectiva apresentada,
influenciou o desenvolvimento do tomismo a teologia de Tomás de Aquino, bem
como a obra de Agostinho, que se baseou em parte no pensamento neoplatonico.
Consequentemente, o pensamento desses teólogos é visto como impregnado por essa
influência. Apesar disso, tanto Agostinho quanto Tomás de Aquino têm sido
amplamente reverenciados como grandes pensadores e figuras influentes no
cristianismo. Lamentavelmente entre evangélicos que sustentam o "Sola
Scriptura"
Atualmente, contam-se entre nós líderes que foram
influenciados pelo pensamento desenvolvido em Alexandria, no Egito. Essa
corrente filosófica alexandrina exerceu influência significativa nos desvios
doutrinários da época. A chamada Escola Gnóstica Cristã, que se manifestou no
contexto da Patrística Católica, desenvolveu-se de maneira marcante, abrindo
espaço para o surgimento de novas doutrinas. Estas representavam, em grande
medida, uma fusão entre o neoplatonismo e o cristianismo, podendo ter exercido
considerável influência, especialmente na mística católica.
Desde os pensadores da antiguidade, como Mestre Eckhart, até outros
estudiosos posteriores, incluindo Pseudo-Dionísio, o Areopagita, que introduziu
na tradição cristã, especialmente na católica, o conceito neoplatônico de
mística, essa influência se fez presente em diversos místicos, tanto anteriores
quanto posteriores à Reforma. Portanto, é possível observar que esses
líderes alexandrinos foram mentores da escola, cujo primeiro diretor foi
Panteno, sucedido por Clemente. Nessa escola e nesse pensamento,
caracterizou-se um cristianismo profundamente influenciado pela filosofia
helenista alexandrina, que se nutria e dependia da tradição helenista,
prolífica na criação de valores intelectuais, teóricos, especulativos e
metafísicos. Por meio de um dos líderes da Igreja Primitiva, chamado Orígenes,
essa escola e esse pensamento geraram o primeiro sistema orgânico da teologia
católica, que atualmente se encontra em grande medida dissociada das Sagradas
Escrituras.
Portanto, toda a estrutura da tradição, as revelações extrabíblicas e a
formulação de novas doutrinas foram incorporadas no cristianismo primitivo
devido a essa influência espiritual. Consequentemente, parte do que se denomina
patrística é atualmente considerada tradição na Igreja Católica Romana e é
utilizada como autoridade na definição de novas doutrinas e o
estabelecimento de heresias. Este desvio significativo tem comprometido a
integridade do cristianismo neotestamentário, de modo que, em diversos
aspectos, observa-se um cristianismo alterado, que, paradoxalmente, ainda
almeja se autoproclamar como a igreja original. Quanta ilusão!
A partir
do Concílio de Niceia, observa-se um distanciamento gradual da Bíblia em
relação à Igreja Primitiva. No Concílio de Éfeso, realizado em 431, em vez de
promover a sã doutrina e um cristianismo centrado em Cristo, conforme exposto
no Novo Testamento, foi inaugurada a Mariolatria, doutrina que conferiu
proeminência excessiva à figura de Maria. A elevação de Maria à posição de
divindade, central nos cultos marianos, é defendida por seus prelados e
apoiadores sob o pretexto de piedade e veneração. Contudo, por meio dessas
elaborações doutrinárias, o que se observa é a prática da adoração a Maria,
como se fosse uma deusa. Mesmo que alguns desavisados neguem isso, uma simples
analise de escritos de "doutores" da igreja romana como Afonso de
Ligorio e outros se pode chegar a essa conclusão com muita
facilidade.
A
separação do cristianismo bíblico persistiu. Já na Alta Idade Média, o
catolicismo romano mostrava-se consideravelmente distante das Escrituras
Sagradas, e ascendeu uma figura de grande relevância e centralidade na teologia
católica o ja citado: Tomás de Aquino. Este, reconhecido como um dos maiores
teólogos da Igreja Romana, reformulou e reinterpretou a teologia, o Novo
Testamento e o cristianismo, valendo-se da filosofia e dos princípios de
Aristóteles, um pensador pagão que não professava a fé no Deus biblico. Dessa
forma, estabeleceu-se uma ponte que gradualmente se afastava a teologia do
pensamento hebraico e do cristianismo bíblico.
Portanto, teólogos apologéticos que buscam
defender a tradição, implicitamente sugerem que a revelação do Espírito Santo é
insuficiente. Ao alegar que as Escrituras, redigidas sob a inspiração divina
dos apóstolos e outros autores bíblicos, são incompletas, eles postulam a
necessidade de complementá-las. Argumentam que homens, não mais inspirados, mas
utilizando conceitos derivados do paganismo, devam formular novas ideias para
fundamentar doutrinas inéditas dentro da Igreja. Essa postura, a meu ver, é
incoerente, embora seja defendida por muitos que se consideram intelectuais.
Autores como Manley P. Hall, em sua obra "O Segredo Revelado em
Todas as Eras", argumentam, com base em extensa pesquisa, que os filósofos
gregos antigos derivaram suas ideias da rica tradição (Diga: ocultista)
egípcia, incluindo seus sistemas de crenças, cosmologia e cosmovisão.O
que Hall sugere ė que o Egito, com seu profundo conhecimento de
ocultismo, esoterismo, gnosticismo e diversas práticas religiosas obscuras,
influenciou significativamente o pensamento e a filosofia grega. Diante
disso, os resultados observados contemporaneamente não causam estranheza.
Não pretendo negar o valor da patrística. Longe
disso, minha intenção é ressaltar que, quando os autores cristãos antigos, dos
primeiros séculos, expressam ou ensinam algo fundamentado exclusivamente nas
Escrituras Sagradas, sem influências pagãs, gnósticas ou da filosofia grega,
isso pode ser considerado positivo, útil e até mesmo edificante. Contudo, a
patrística não deve ser equiparada às Escrituras em termos de autoridade, como
se fossem textos inspirados, pois não o são. São obras sujeitas à falibilidade
e contêm erros, devendo, portanto, ser lidas com cautela e não consideradas
como provas definitivas para sustentar uma doutrina.
Reconheço
que diversas obras da patrística podem contribuir para a compreensão de certos
aspectos e fenômenos religiosos dos primeiros séculos. Por exemplo, a obra
"Contra as Heresias" de Irineu de Lyon oferece um valioso
entendimento sobre a fenomenologia do gnosticismo do primeiro século. Contudo,
é importante ressaltar que Irineu de Lyon não foi inspirado pelo Espírito Santo
e sua autoridade não se equipara à das Escrituras.
Ao analisarmos a religião egípcia, percebemos um
embrião do espiritismo e do ocultismo inserido em sua cosmovisão. Adentrando a
obra "O Cuidado Devido aos Mortos", de Santo Agostinho, publicada
pelas Edições Paulinas, notamos na página 43 uma descrição das aparições de
espíritos desencarnados, que se manifestam aos vivos, impedindo o sepultamento
adequado de seus restos mortais. Para termos uma idéia de como essas coisas
estranhas influenciaram e ganharam forma dentro do cristianismo, a autora e pesquisadora
Mary Del Priore, no bem documentado livro “Do Outro Lado – A Historia do
Sobrenatural no Espiritismo” faz o
seguinte comentário citando o celebre Agostinho de Hipona:
“As duas formas de encarar a relação entre vivos
e mortos, subsistiram. Segundo um modelo herdado da antiguidade, os vivos
deveriam cuidar de seus mortos e vice-versa. Segundo um modelo eclesiástico,
definido por Santo Agostinho, o conjunto de comunidade cristã deveria rezar por
seus fieis defuntos. No primeiro caso, o culto consolidava tradições velhíssimas.
No segundo modelava a crença na qual apenas os santos podiam cuidar dos vivos”
(Pagina 30) Del Priore foi corretíssima na analise, Agostinho apenas readaptou
a crença ocultista-espiritualista pagã para se ajustar ao cristianismo,
semeando assim a tradição de cultos aos mortos e posteriormente dando apoio teológico
para as narrativas de espectros espirituais sob a identidade de almas de
falecidos padecendo no purgatório, pedindo ajuda aos místicos católicos para se
libertarem de lá.
Essa
manifestação, própria do espiritismo em sua forma inicial, é, portanto,
observada e defendida na obra de um dos mais influentes pensadores do
catolicismo romano. Após investigação sobre o fenômeno da aparição
de falecidos aos vivos, sob a perspectiva espiritualista e ocultista, observei pessoalmente
em minhas pesquisas que relatos de aparições e manifestações de espíritos,
incluindo almas vinda supostamente do purgatório em busca de auxílio, são
comuns entre místicos católicos antigos e modernos. Fenômeno paranormal que não
tem qualquer respaldo bíblico, embora tenha muitas advertências nas Sagradas
Escrituras acerca dessas praticas ocultistas.Essa comunicação entre os vivos e
os mortos é descrita tanto no espiritismo quanto no espiritualismo, e
representa uma manifestação ocultista presente no catolicismo romano,
decorrente das doutrinas que o fundamentam. As concepções sobre o purgatório,
em particular, apresentam raízes pagãs, vinda de teólogos apóstatas e não das
Escrituras.
A Patrística não detém autoridade para a imposição de doutrinas,
especialmente aquelas que não encontram respaldo no Novo Testamento, em seus
ensinamentos e definições. Inovações e novidades doutrinárias representam
desvios e, embora existam autores e escritos patrísticos que possam ser úteis
para a compreensão do contexto pós-apostólico, estes não possuem autoridade
doutrinária, nem como tradição, nem como fonte escriturística. Se não falaram
conforme os ditames do que estava escrito, nunca viram a alva da verdade, mas
se envolveram com as sombras do engano. Eles não podem, portanto, definir
doutrinas mas somente reforçar as que ja foram definidas pela Biblia, pois não
foram inspirados pelo Espírito Santo; são apenas escritores e teologos. Muitos
deles, ademais, foram influenciados pelo gnosticismo, pelo ocultismo egípcio e
pela Escola de Alexandria, resultando na contaminação de muitos desses textos.
Assim, o Novo Testamento e o Antigo Testamento permanecem como as únicas fontes
de verdade, alicerces fundamentais que sustentam o cristianismo bíblico.
(Galatas 1:8 e 9)
Fontes Consultadas:
O Vaticano e a Biblia – Anibal Pereira Reis –Edições
Cristãs
Do Outro Lado – A Historia do Sobrenatural no
Espiritismo – Mary Del Priore
O Cuidado Devido aos Mortos – Santo Agostinho –
Edições Paulinas
A Fé dos Eleitos – John F. Parkinson – Editora Sã
Doutrina
Doutrinas Centrais da Fé Cristã – J. N. D.
Kelly – Edições Vida Nova
Link com um artigo interessante acerca da patrística:
https://www.wayoflife.org/database/church_fathers_a_door_to_rome.html



