As Sombras do Anticristo já Repousam Sobre o Mundo

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As Sombras do Anticristo já Repousam Sobre o Mundo

 


A desconstrução da fé cristã o renascimento do espiritualismo e a negação da historicidade do livro de Genesis.

 

Às claras evidências de que vivemos um período escatológico tornam-se cada vez mais perceptíveis à medida que aprofundamos nossa percepção espiritual. Em sua obra "O Anticristo, a Babilônia e o Reino Vindouro", G. H. Pember relata que, nas gerações antediluvianas, a interação com entidades demoníacas era um fato. Atualmente, constata-se um aumento da proeminência do satanismo, com um número crescente de indivíduos, conforme descrito em Efésios 2:1-2, sujeitos à influência do "espírito que agora atua nos filhos da desobediência". Essa tendência se intensificou consideravelmente em nossos dias, corroborando a análise de Pember sobre a semelhança entre os tempos finais e a era pré-diluviana.
Para compreendermos a realidade que caracterizou o período anterior ao dilúvio, observamos nitidamente um espírito de orgulho e rebelião contra o Criador. Consequentemente, a sociedade se inclinou ao ocultismo e ao materialismo, pois a ausência do temor a Deus invariavelmente conduz a humanidade a experiências com entidades espirituais malignas. Levando em conta a incredulidade do fisicalismo cientifico que nega o mundo espiritual caido, algo que dá uma boa vantagem do espirito do erro atuar com liberdade na mente desses incrédulos mais sofisticados.
No Renascimento, diversos teólogos místicos e estudiosos cristãos, a exemplo de Emmanuel Swedenborg, tiveram contato com textos de magia hermética e da Cabala judaica, que eram então ocultos e reservado para uma classe elitista de ocultistas e iniciados. Eles estudaram e traduziram esses textos para a língua vernácula de suas respectivas sociedades. Essa atividade intelectual pode ser considerada como um novo florescimento, um renascimento do conhecimento de técnicas esotericas e ocultistas  e práticas mágicas. O objetivo era alcançar um estado de poder espiritual através de rituais, ou seja, promover uma evolução espiritual e o desenvolvimento de capacidades paranormais . Isso demonstra um despertar espiritual que surgiu globalmente há pelo menos algumas décadas, e que ainda hoje exerce influência na sociedade contemporânea, caracterizada por avanços tecnológicos e materiais. Observa-se que o ocultismo, longe de desaparecer, permanece presente, evidenciado pelo crescente interesse no espiritualismo, na magia, na Nova Era e em outras práticas que oferecem alternativas para a busca de experiências espirituais.

 A magia hermética, a Cabala judaica e outras práticas mágicas promovidas pelo movimento Nova Era derivam de tradições religiosas de mistérios da antiguidade. Estas tradições remontam ao início da história humana, após a narrativa da expulsão do homem do paraíso. O espiritualismo, o ocultismo e o transformismo evolucionista ocultista  seguem essa origem e o pensamento de uma evolução espiritual se  desenvolveu a partir disso . Assim, o ocultismo, em seu sentido mais amplo e genérico – incluindo espiritismo, espiritualismo, Cabala, magia hermética e xamanismo, entre outras práticas – pode ser entendido como manifestações decorrentes dessa condição, suas origens remontam na antiguidade antediluviana. A queda do homem e sua subsequente expulsão do paraíso originaram uma civilização marcada pelo contato com o sobrenatural e pela busca da magia como meio de lidar com um mundo cheio de fenômenos e dificuldades. Atualmente, testemunhamos uma crescente disseminação do espiritualismo, da comunicação com espíritos, da canalização, da astrologia e, principalmente, tecnologias sagradas e praticas ocultistas oriunda das religiões de mistérios, particularmente aquelas que originarias de  correntes esotéricas antigas, sociedades secretas e tradições ocultistas. Essas influências, inclusive, têm permeado a cristandade, afetando ate mesmo sua  prática e a teologia. O hermetismo é uma tradição esotérica ancestral, originária do Egito, fundamentada no Corpus  Hermeticum . Estes escritos são tradicionalmente atribuídos à enigmática figura de Hermes Trismegisto. Hermes Trismegisto teria recebido conhecimento de entidades espirituais, entre elas algumas chamadas "Poimandres". Através dessas entidades, ele teria obtido informações sobre a natureza do cosmos. Sua influência no esoterismo, especialmente no pensamento ocidental, foi significativa, tornando-o uma referência importante no estudo dessas tradições.

 A Cabala representa a chave para as ciências ocultas, apresentando traços gnósticos evidentes. Semelhante à sua contraparte hermética, a Cabala pressupõe um processo de transformação evolutiva. É importante notar que a teoria da evolução, posteriormente divulgada por Charles Darwin e por muitos ateus contemporâneos, não encontra sua origem exclusivamente na ciência. O transformismo evolutivo, conceito defendido e ensinado em diversas interpretações ocultistas, precedeu a teoria darwinista da evolução.

 Consequentemente, notamos que diversas tradições antigas compartilham uma cosmogonia centralizada na ideia de uma evolução progressiva, partindo de uma substância primordial que se metamorfoseia em matéria tangível, culminando em um estado avançado. Este princípio constitui um elemento fundamental em muitas tradições esotéricas. O cientifismo tomou emprestado esse conceito de evolução espiritual e aplica numa filosofia estritamente biologica e materialista.

 Na Antiguidade, a cidade de Alexandria, no Egito, emergiu como um importante centro para a disseminação de tradições e crenças esotéricas da época, incluindo as religiões pagãs. Tornou-se um ponto de convergência entre intelectuais gregos, muitos deles filósofos, e adeptos de religiões de mistérios, como a magia hermética. Ali, observava-se uma notável fusão sincrética de diversas correntes filosóficas e religiosas antigas, com forte influência das religiões de mistérios que floresceram no berço da civilização de Caim e posteriormente de Cam filho de Noé, estabelecendo-se como um foco de propagação dessas doutrinas espiritualistas. Essa efervescência cultural e religiosa exerceu influência, inclusive, sobre certos teólogos cristãos, que se viram impactados por essa corrente mística da Antiguidade, que promovia os mistérios religiosos e refletia, em certa medida, as transformações e desafios espirituais da época. Essa ė uma das raízes espirituais do método alegórico das Escrituras.
Quase todos os estudiosos de vertentes espiritualistas apresentam uma estratégia central. Essa característica é generalizada e facilmente observada por qualquer pesquisador contemporâneo. O objetivo principal consiste em reinterpretar o relato de Gênesis, alegorizando especialmente seus três primeiros capítulos, transformando-o em mito poesia ou fabula. Tal estratégia visa eliminar a existência de um Adão físico e de uma queda histórica, de um diabo como agente pessoal maligno os quais implicam em consequências para toda a humanidade e reduzem a importância e a gravidade do pecado, do inferno e reduz os perigos do demonismo bem como a figura do diabo como o enganador. A abordagem de Helena Petrovna Blavatsky, por exemplo, ilustra essa tendência, pois ela busca, em certa medida, inverter a narrativa de Gênesis, apresentando Satanás como benfeitor, em vez de antagonista da humanidade. Essa reinterpretação pode acarretar implicações significativas em relação ao comportamento da sociedade e ė uma força propulsora para a apostasia.




Uma característica marcante do gnosticismo antigo, que representou um desafio à igreja cristã desde a época dos apóstolos, era a rejeição do Antigo Testamento, incluindo o livro de Gênesis. Os gnósticos, portanto, rejeitavam as narrativas históricas contidas em Gênesis. Ignorando esses relatos, eles construíram sua própria cosmovisão, incorrendo em equívocos que levaram o apóstolo João, em suas epístolas universais, a descrever o gnosticismo como um "espírito do erro" e associá-lo ao "espírito do anticristo". O ressurgimento do gnosticismo na atualidade, portanto, pode ser interpretado como a manifestação do "espírito do anticristo" em nossos dias. O surgimento desse pensamento em nossos dias prepara o surgimento do anticristo pois expressa a força de expressão do espírito do erro
Essa negação da historicidade dos três primeiros capítulos de Gênesis afeta o cerne do Evangelho, atingindo seu fundamento.

O Teosofista Alvin Boyd Kuhn afirmou: “A tese de que as escrituras sagradas do judaísmo e do cristianismo em sua grande parte não retratam verdades históricas, mas sim metáforas simbólicas e místicas, representa a própria pedra fundamental da abordagem da filosofia gnóstica.” Ao interpretar esses capítulos como alegóricos, toda a narrativa bíblica, especialmente nos Evangelhos, é comprometida. A alegorização, assim, constituiu um método adotado por muitos líderes da Igreja Primitiva. Essa prática foi influenciada pela Escola de Alexandria, que, embora heterogênea em suas vertentes, apresentava elementos como o paganismo, as religiões de mistério e o hermetismo como uma força espiritual evidente.

Tal influência impactou significativamente a teologia cristã, especialmente a daqueles teólogos que residiam nas proximidades de Alexandria. O que de certa forma tambem influenciou certas versões bíblicas que surgiram sob essa influencia do espirito que predominava em Alexandria.  Atualmente, a alegorização persiste como um elemento fundamental no espiritualismo e no ocultismo, com o propósito de contornar, rejeitar e combater o cristianismo histórico.
Na Antiguidade, o escritor cristão Hipólito, em sua obra "Refutação de Todas as Heresias", descreve que Simão Mago, figura associada ao paganismo e ao gnosticismo, teria simulado a fé cristã e interpretado alegoricamente grande parte das Escrituras, especialmente o livro de Gênesis. Hipólito argumenta que essa interpretação servia para sustentar os ensinamentos e defender as heresias panteístas e gnósticas de Simão.
Atualmente, compreendemos que o globalismo e a nova ordem mundial poderão ser um movimento com raízes no pós-cristianismo, fortemente influenciado por correntes ocultistas, originadas do hermetismo, da cabala e das religiões de mistérios. Estas últimas, juntamente com o neognosticismo, tiveram proeminência, especialmente a partir da década de 1970, com o advento do movimento Nova Era. Considera-se que essas vertentes exercerão significativa influência na formação de uma futura nova ordem mundial, visando o controle e o domínio sobre a sociedade, e, possivelmente, a instauração de um poder que se assemelha à figura do anticristo. Observamos atualmente a disseminação e a crescente adesão popular a práticas e tecnologias espirituais que se tornaram proeminentes desde a década de 1980. Dentre elas, destacam-se a indução de estados alterados de consciência, incluindo transe, o uso de substâncias psicoativas, meditação transcendental, visualização, canalização, zen budismo, yoga, kundalini e tantra. Tais práticas, que outrora eram restritas a iniciados em tradições esotéricas e seus rituais, com o objetivo de acessar o mundo espiritual, comunicar-se com entidades e obter revelações, bem como promover a cura, como se observava em comunidades tribais, hoje são realizadas em larga escala. No entanto, é fundamental lembrar que essas práticas podem servir como meios para o contato com entidades espirituais  malignas.
Em obras como "1984", George Orwell descreve um mundo sob o domínio de uma figura onipresente, o Grande Irmão, que exerce controle absoluto sobre a sociedade. Uma das estratégias cruciais desse regime totalitário é a manipulação da percepção da realidade, a fim de suprimir a verdade.

Há um ataque no ocidente, e esse ataque vem do espírito do anticristo usando inclusive tentáculos de viés político/ideológico para destruir os fundamentos da fé cristã. O apostata John Shelby Spong, na sua militância contra a fé cristã histórica declarou: “O teísmo, como forma de definir Deus, está morto. Deus não pode mais ser compreendido de forma crível como um ser com poder sobrenatural, que vive acima dos céus e está pronto para intervir periodicamente na história humana a fim de impor sua vontade divina. Portanto, hoje, a maior parte do que se diz sobre Deus não tem sentido. Precisamos encontrar uma nova maneira de conceber Deus e falar sobre ele.” Como Deus não pode mais ser concebido em termos teístas, não faz sentido tentar entender Jesus como "a encarnação de uma divindade teísta". Os conceitos tradicionais de Cristologia, portanto, estão falidos.

 

Analogamente, a negação de princípios bíblicos, como os descritos em Gênesis, capítulos 1 a 3, pode ter consequências significativas. A interpretação desses textos como meras alegorias, em vez de relatos históricos, pode comprometer a compreensão da verdadeira condição espiritual  humana, a noção correta do pecado e a gravidade da sua natureza, a necessidade de redenção através da obra de Cristo na cruz, a importância da fé crista bíblica  e da conversão e regeneração . Ao negligenciar esses fundamentos, doutrinas essenciais como a encarnação do Verbo e a consumação da obra de Cristo perdem seu significado. A mensagem do evangelho se desmorona e torna-se apenas um conto simbólico completamente destituído de realidade funcional.
 Atualmente, observa-se que, em muitas igrejas contemporâneas, a pregação sobre esses temas centrais, incluindo a importância de Gênesis 1 a 3 como fatos históricos , tem sido minimizada ou frequentemente  omitida. Em vez disso,  prevalecem discursos superficiais cheios de antropocentrismo  desprovidos de conteúdo teológico relevante.

 A omissão na defesa e proclamação contínua das verdades  fundamentais que se  erguem sobre a exegese correta dos primeiros capítulos  pode ser vista como uma forma de colaboração com forças contrárias aos princípios cristãos, em um cenário de crescente apostasia. Não proclamar as verdades fundamentais do Evangelho é contribuir com o espírito do erro.

 

C. J. Jacinto

Bibliografia

 

https://www.renewamerica.com/columns/kimball/250108

https://www.espiritualidadpamplona-irunea.org/contenidos/cristianismo-deconstruccion/

Um Renascimento para o Cristianismo – Alvin Boyd Kunh Editora Nova Era.

 

Leitura Recomendada:

O Anticristo a Babilônia e a Vinda do Reino. G. H. Pember Editora Escriba do Reino.

As Eras mais Primitivas da Terra . G. H. Pember. Editora dos Classicos.

 

O Pedro Bíblico e o Papado Antibíblico

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O Pedro Bíblico e o Papado Antibíblico

 


 

A Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios foi escrita a partir de Éfeso, provavelmente entre os anos 54 e 55 d.C. A carta evidencia que a igreja de Corinto enfrentava divisões internas, imoralidade, sincretismo religioso e desordem nas práticas de culto. A questão dos conflitos internos é particularmente notável.

 No capítulo 1, versículos 12 e 13, ouvimos as palavras de Paulo: "Quero dizer com isto que cada um de vós afirma: Eu sou de Paulo; ou, eu sou de Apolo; ou, eu sou de Cefas; ou, eu sou de Cristo." Porventura Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós? Ou fostes batizados em nome de Paulo?

 Através das palavras de Paulo, percebemos que, na igreja de Corinto, em seus primórdios, existia uma tendência ao faccionismo, com grupos aderindo a determinadas lideranças, exaltando-as como figuras centrais da igreja. Paulo, com veemência, ressalta que o único centro da igreja é Cristo, e não os homens.

 Notadamente, Paulo menciona o nome de Cefas, ou seja, Pedro. Isso sugere que, na igreja coríntia, alguns conferiam a Pedro uma posição de primazia, enquanto outros identificavam uma liderança tipo “culto a personalidade” com Paulo, e outros, com Apolo.
Observamos, portanto, que na igreja primitiva já se manifestavam desvios que valorizavam excessivamente a liderança humana, elevando-a a um pedestal, como se a igreja lhes pertencesse ou o fundamento do evangelho estivesse depositado em suas mãos. Paulo, desde o princípio, corrige essa deturpação espiritual.

 Considerando a divisão interna que existia na igreja de Corinto, onde alguns crentes buscavam estabelecer lideranças como fundamentos eclesiásticos distintos de Cristo, podemos analisar a declaração de Paulo no capítulo 3, versículo 11, de 1ª Coríntios. Nesse trecho, Paulo afirma: "Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo."

  Voltemos a ênfase do texto: O contexto dessa passagem revela que membros da igreja de Corinto defendiam diferentes líderes como os pilares da fé. Alguns exaltavam Paulo como o alicerce, argumentando que ele deveria ter a primazia e ser seguido como o principal representante da igreja na Terra. Outros, por sua vez, defendiam Apolo, enquanto outros ainda apoiavam Pedro.

 Diante dessas divergências, Paulo corrige essa visão sectária, afirmando que nem Pedro, nem Paulo, nem Apolo são o fundamento da igreja, nem lideres de primazia universal no sistema eclesiástico, mas sim Jesus Cristo. Ele reitera que nenhum outro alicerce pode ser estabelecido além daquele que já foi posto: Jesus Cristo.

 É fundamental compreender que a igreja de Corinto disseminava essa idéia de reconhecer Pedro ou qualquer outro apóstolo como líder supremo. Paulo, em sua resposta, nega categoricamente a ideia de uma primazia de Pedro. Se sua intenção fosse estabelecer um fato neotestamentário de ser Pedro  o líder universal em evidencia da igreja, ele teria corrigido a igreja de Corinto dizendo: "Não é nem eu nem Apolo, mas somente Pedro." No entanto, Paulo não o fez. Ao contrário, ele refuta a possibilidade de qualquer outro fundamento que não seja Cristo, desmentindo qualquer sugestão de que Pedro detivesse a primazia na igreja naquela época.

  Analisando o assunto, concluímos que o Novo Testamento não apresenta indícios da presença de Pedro em Roma nem como um líder revestido de pompas tendo primazia sobre outros lideres. A ausência de documentos antigos e o silencio do Novo Testamento seguido da correção de Paulo quando um grupo na igreja de Corinto queria dar primazia a Pedro, é uma denuncia contra essa falsa doutrina de que Pedro exercia primazia sobre todos,  além disso, o Novo Testamento também não apóia o estabelecimento de Pedro em roma, não passagens biblicas que atestem sua estadia na cidade, e isso contrasta com as tradições posteriores e inferências pouco sólidas acerca disso. Em meio a um notável silêncio documental, onde seria esperado encontrar evidências no Novo Testamento e em escritos da época de João, o apóstolo, a questão permanece sem comprovação histórica definitiva.

 Da mesma forma, não há proeminência exagerada da primazia de Pedro, nem a ideia de que ele deveria ocupar uma posição especial, com toda a igreja reunida ao seu redor como figura central para o estabelecimento de todo o sistema cristão subsequente. Não há evidências disso no Novo Testamento. A noção de que a igreja deveria gravitar em torno de um líder terreno como representante universal de Cristo é completamente infundada.
 Analisemos o livro de Atos dos Apóstolos. O relato de Atos acompanha a trajetória de Pedro até o capítulo 12. Posteriormente, ele deixa de ser o foco da narrativa, sumindo de cena. Atos dedica oito capítulos inteiros à história de Paulo em Roma, dos capítulos 21 ao 28. No capítulo 28, Paulo chega a Roma. Pedro não está presente, não é mencionado, nem lembrado, nem saudado. Essa ausência constitui um forte argumento contra a tese da presença de Pedro em Roma. A posição do livro de Atos dos Apóstolos, enquanto registro histórico, é clara: não há evidências de que Pedro estivesse em Roma na época da chegada de Paulo. Nem mesmo Paulo faz qualquer referência a Pedro, como se este devesse estar em Roma, estabelecendo ali sua sede e presidindo toda a igreja a partir daquela cidade. Há, nesse sentido, um silêncio eloquente.

  Analisemos a epístola de Paulo aos Romanos, escrita por volta do ano 57 d.C. Nela, o apóstolo se dirige aos cristãos residentes em Roma, onde já existia uma comunidade estabelecida. Paulo dedica esta carta à igreja romana. Um ponto interessante reside no capítulo 16, onde Paulo nomina mais de vinte  pessoas, incluindo Priscila, Áquila, Andrônico, Júnia, Urbano, Apeles, Rufo, Flegonte, Trífena, Trifosa e Nereu. Notavelmente, Pedro não é mencionado. Se Pedro fosse o líder proeminente ou o bispo de Roma nà época, a ausência de seu nome seria um erro colossal, especialmente considerando as saudações finais do livro. Do ponto de vista teológico e diplomático, essa omissão seria absolutamente improvável. Seria inconcebível que Paulo negligenciasse a menção de Pedro, caso este detivesse a posição de liderança na comunidade romana.

 O exercício da liderança, conforme mencionado por Paulo em suas epístolas, é digno de atenção. Em 2 Timóteo, capítulo 4, versículos 16 e 17, ele declara: "Na minha primeira defesa, ninguém me assistiu; antes, todos me abandonaram". A ausência de Pedro em sua defesa suscita questionamentos. Além disso, Paulo lista alguns colaboradores e Roma. Lucas, Marcos, Tí(c)co e Demas são citados, mas Pedro não.

 Portanto, observa-se que o ofício de liderança religiosa de Pedro não é demonstrado. Paulo nunca o menciona. Paulo não o cita, não o reconhece nem faz referência a seu nome, embora tenha abordado frequentemente a liderança espiritual na Igreja Primitiva, em muitas de suas epístolas presentes no Novo Testamento.

 Vamos examinar as palavras do Apóstolo Pedro. Em sua primeira epístola, capítulo 5, versículo 13, Pedro declara: "Aquela que está em Babilônia, eleita como vós, vos saúda." A interpretação de que "Babilônia" seria um código secreto para Roma apresenta dificuldades. Nenhum documento do século I ou do Novo Testamento confirma essa equivalência. Babilônia era uma localização geográfica real, situada na Mesopotâmia. A história registra uma significativa comunidade judaica ali. Pedro escrevia aos judeus dispersos, e Babilônia se encaixa perfeitamente no contexto geográfico, cultural e histórico do Novo Testamento. Concluímos, portanto, que o exercício da liderança de Pedro não se situava em Roma, nem se dirigia a Roma, e que ele não residia em Roma.


 Ademais, podemos situar temporalmente os eventos. O Pentecostes ocorreu no ano 30 d.C. A primeira epístola de Pedro, por sua vez, foi escrita entre os anos 62 e 64 d.C., ou seja, mais de trinta anos após o Pentecostes. Pedro não exercia liderança em Roma nessa epoca, não ocupava posição de comando na cidade e não governava a Igreja a partir de Roma. O Novo Testamento não oferece qualquer menção a respeito disso, nem sustenta a interpretação de que Pedro tenha sido o líder de toda a Igreja Cristã. Essa afirmação assemelha-se mais a um mito ou a uma narrativa fictícia.

 Porém, investigaremos os primeiros séculos da era cristã, focando nos escritos dos primeiros pais da Igreja. Estes documentos antigos, considerados fontes confiáveis por sua proximidade com os apóstolos, não fazem qualquer menção a Pedro como Papa ou líder supremo da Igreja.

 Tomemos, por exemplo, Clemente de Roma, que viveu por volta do ano 96. Em seus escritos, ele não relata Pedro como bispo de Roma. Embora mencione o martírio de Pedro e Paulo, não o apresenta como bispo em Roma, líder ou figura de maior proeminência na Igreja Cristã, cuja sede estivesse em Roma. Ele não afirma que Pedro governou a Igreja na capital italiana e do Império Romano

. Da mesma forma, Inácio de Antioquia, por volta de 110, escreveu uma carta à Igreja de Roma, mas não menciona Pedro, nem qualquer sucessão petrina.

 Papias, no ano 120, também aborda Marcos e Pedro, mas não associa Pedro a Roma, nem o designa bispo de Roma ou Papa. Para Papias, não há evidência de que Pedro tenha sido o líder máximo da Igreja primitiva. Se Pedro tivesse exercido essa função, sua figura seria centralizada no Novo Testamento e nos escritos dos primeiros pais da Igreja, e não marginalizada.

 A proeminência de Pedro como figura central no cristianismo, superior aos demais apóstolos e primeiro bispo de Roma, consolida-se a partir dos escritos de Irineu de Lyon. Irineu atribui a Pedro e Paulo a fundação da igreja em Roma, embora sua obra seja posterior em 150 anos aos eventos descritos. Dado que ele não foi testemunha ocular dos acontecimentos, suas afirmações baseiam-se inteiramente na tradição oral.
 Similarmente, no século IV, Eusébio de Cesareia compilou tradições, mas não apresentou documentos originais. Ele reiterou fontes posteriores e baseou sua narrativa sobre a proeminência de Pedro como bispo de Roma inteiramente na tradição, desconsiderando a documentação histórica dos séculos I e II. Dessa forma, ignorou completamente o contexto do Novo Testamento, que permanece silente sobre o assunto.

 É notável que Agostinho, renomado teólogo católico romano e figura proeminente no pensamento cristão, em sua obra “Retractationes”, 1.21, apresenta uma interpretação ambígua de Mateus 16:18. Ele sustenta que a interpretação de que Cristo é a pedra, bem como a de que Pedro também o é, são ambas válidas. Essa ambiguidade, segundo se infere, visa sustentar a excessiva atribuição de liderança e autoridade ao apóstolo Pedro. Contudo, a inspiração do Espírito Santo nos autores do Novo Testamento, documentos basilares para a doutrina cristã do primeiro século, permanece omissa sobre essa questão.
 Analisemos o texto de Mateus, capítulo 16, versículo 18, onde Jesus aborda o fundamento da Igreja. "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja." A referência imediata é a Cristo.

 O livro de Mateus, direcionado a um público judeu, apresenta paralelos no Antigo Testamento. Em Daniel, capítulo 2, versículos 34, 35, 44 e 45, é mencionada uma pedra não lavrada por mãos humanas, que simboliza Cristo.

A interpretação bíblica concorda que a pedra fundamental é Cristo. O apóstolo Pedro, em 1ª Pedro, capítulo 2, versículos 4 a 8, confirma essa interpretação. Paulo, em Efésios, capítulo 2, versículo 20, também endossa essa visão. As profecias do Antigo Testamento, o testemunho do Novo Testamento e a inspiração do Espírito Santo convergem para identificar Cristo como a pedra angular, conforme também é declarado em 1ª Coríntios, capítulo 10, versículo 4.

Adicionalmente, em Mateus, capítulo 21, versículos 42 a 44, o próprio Cristo cita o Salmo 118, referindo-se a si mesmo como a pedra rejeitada pelos construtores.
 Diante disso, a interpretação bíblica, em ambos os testamentos, aponta consistentemente para Cristo como a pedra angular e fundamental onde a igreja é erguida e sustentada, em vez de um apóstolo. Observa-se que essa compreensão encontra respaldo tanto no Novo Testamento quanto nos primeiros séculos da era cristã.
Este é o testemunho do Antigo Testamento, o testemunho do Novo Testamento, o testemunho dos apóstolos e o testemunho do Espírito Santo, que inspirou os autores do Antigo e do Novo Testamento. Amém.

 

C. J. Jacinto

 

A Interpretação Literal das Escrituras: Fundamento Hermenêutico Inegociável

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A Interpretação Literal das Escrituras: Fundamento Hermenêutico Inegociável

I. A Suficiência e Clareza das Escrituras como Pressuposto Teológico

A questão hermenêutica não é periférica na teologia bíblica — ela é, antes, o eixo sobre o qual giram todas as demais construções doutrinárias. Pergunte-se ao intérprete qual é o seu método e você saberá, com considerável precisão, aonde ele chegará em suas conclusões teológicas. É por isso que a defesa intransigente do método literal-gramatical-histórico não é mero preciosismo acadêmico, mas uma necessidade doutrinária de primeira ordem.

Deus não é um Deus de confusão. Essa verdade, tão simples quanto profunda, projeta consequências diretas sobre a natureza da revelação escrita. Se o Criador do universo determinou comunicar Sua vontade à humanidade por meio de um documento escrito — as Sagradas Escrituras — seria absolutamente incongruente com Sua natureza que esse documento fosse deliberadamente obscuro, hermético ou reservado apenas a uma elite interpretativa. As Escrituras, em seus fundamentos essenciais, são um livro claro, acessível e suficiente. Não porque o homem seja capaz, por suas próprias faculdades naturais, de apreender plenamente as verdades espirituais nelas contidas, mas porque Deus, em Sua providência soberana, estabeleceu o Espírito Santo como o agente eficiente da iluminação e da compreensão.

Essa distinção é crucial e deve ser firmemente mantida: a clareza das Escrituras — a chamada perspicuitas da teologia reformada — não é uma afirmação de que qualquer homem natural, sem regeneração, compreenderá espiritualmente o texto sagrado. É antes a afirmação de que o texto em si não impõe barreiras artificiais à compreensão. A obscuridade não está no texto; está no intérprete não iluminado. O Espírito Santo, que inspirou as Escrituras, é o mesmo que capacita a Igreja a compreendê-las. Portanto, a interpretação das Escrituras não é privilégio de nenhuma instituição humana — seja ela qual for — tampouco é prerrogativa exclusiva de qualquer magistério eclesiástico. Ela é, por definição, universal: acessível a todo crente iluminado pelo Espírito, que se submeta com humildade e rigor ao texto.

II. A Linguagem como Criação Divina e suas Implicações Hermenêuticas

Charles Ryrie, com a clareza que caracteriza os grandes sistematizadores da tradição dispensacionalista, articula de maneira lapidar o fundamento teológico do literalismo:

"Se Deus é o criador da linguagem e se o principal propósito de criá-la foi transmitir Sua mensagem à humanidade, então, por consequência, Ele, sendo onisciente e onipresente, criou uma linguagem suficiente para transmitir tudo o que estava em Seu coração para dizer à humanidade. Além disso, também se segue que Ele usaria a linguagem e esperaria que as pessoas a entendessem em seu sentido literal, normal e simples."

O argumento de Ryrie parte de premissas teístas incontestáveis para chegar a uma conclusão hermenêutica inevitável. Se Deus criou a linguagem com o propósito específico de comunicação, então a linguagem é, por definição, suficiente para esse fim. Um Deus onisciente não criaria um instrumento inadequado para o propósito que Ele mesmo estabeleceu. Isso significa que as Escrituras não são uma ilustração de algum uso esotérico ou especial da linguagem, que demandaria do intérprete a busca por significados ocultos por trás das palavras. As palavras significam o que significam. O sentido normal, comum e historicamente determinado das palavras é o sentido que Deus pretendia transmitir.

Aqui reside uma das mais sérias objeções ao alegorismo e ao espiritualismo hermenêutico em todas as suas formas: ao postular um "significado mais profundo" por trás do sentido literal do texto, o intérprete alegórico não está, como supõe, elevando as Escrituras a um nível superior de compreensão. Está, na verdade, substituindo a Palavra de Deus pela palavra do intérprete. E Ryrie aponta com precisão cirúrgica o problema epistemológico fundamental dessa abordagem: sem o princípio literal como padrão objetivo, toda objetividade interpretativa se perde. Quem ou o quê controlará a imaginação do intérprete? Com que autoridade uma alegoria será preferida a outra? O resultado inevitável é a proliferação de interpretações tantas quantas forem as mentes que se debruçam sobre o texto — um caos hermenêutico que contradiz frontalmente a natureza de um Deus de ordem e de revelação clara.

III. O Desdobramento Canônico e a Universalidade da Mensagem

A história da revelação progressiva confirma e amplifica esse pressuposto hermenêutico. O Antigo Testamento, confiado aos judeus como depositários privilegiados da Palavra de Deus, cumpriu seu papel providencial de preparação e antecipação. Toda a economia mosaica, toda a tipologia do sistema sacrificial, todo o arcabouço profético convergia para um único e glorioso ponto de consumação: a vinda do Messias. Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus encarnado realizou, pelos méritos infinitos de Seu sacrifício expiatório na cruz, uma salvação eterna, consumada e irrevogável. O Antigo Testamento encerra sua revelação nesse clímax redentor.

Mas a revelação não cessa com os evangelhos. À medida que a nova aliança avança em seu desdobramento histórico e escatológico, a Igreja primitiva testemunha um fenômeno de magnitude teológica extraordinária: o alargamento do cânon por meio das epístolas. E é aqui que a universalidade da mensagem divina se manifesta com toda a sua força. As chamadas epístolas universais ou católicas — dirigidas não a uma congregação local específica, mas à Igreja em sua totalidade — são a expressão canônica mais explícita de que o Evangelho não conhece fronteiras étnicas, geográficas ou culturais. A mensagem das boas novas, que por séculos havia sido custodiada no seio do povo hebreu, transborda agora sobre todas as nações. Os gentios, antes "estranhos às alianças da promessa" (Ef 2.12), tornam-se coherdeiros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus.

Esse desdobramento canônico magnifico impõe ao intérprete uma responsabilidade ainda maior. Se Deus, em Sua sabedoria soberana, ampliou progressivamente o escopo de Sua revelação até abranger toda a humanidade, então qualquer método interpretativo que restrinja, obscureça ou distorça essa mensagem é não apenas um erro acadêmico, mas uma falha de consequências eternais.

IV. O Literalismo como Imperativo Lógico e Teológico

O princípio da interpretação literal — entendido não como um legalismo mecânico que ignora figuras de linguagem, gêneros literários ou contexto histórico, mas como o compromisso de extrair do texto o seu sentido normal, natural e contextualmente determinado — é, ao mesmo tempo, uma necessidade lógica e uma exigência teológica.

É uma necessidade lógica porque, como demonstrou Ryrie, abandoná-lo significa abrir as portas para uma subjetividade interpretativa ilimitada. É uma exigência teológica porque a fidelidade ao texto é, em última análise, fidelidade ao Deus que o inspirou. O intérprete que se permite substituir o sentido normal das palavras por construções alegóricas ou espiritualistas coloca-se, conscientemente ou não, acima do texto — e, portanto, acima do próprio Deus que falou por meio dele.

A Igreja, iluminada pelo Espírito Santo, chamada a custodiar e proclamar o depósito sagrado das Escrituras, deve resistir com toda a firmeza às correntes hermenêuticas que, sob o pretexto de aprofundar a compreensão do texto, na prática o dissolvem. O literalismo não é um empobrecimento da leitura bíblica. É, ao contrário, o único método que preserva a integridade, a objetividade e a autoridade absoluta da Palavra de Deus.


"Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça." — 2 Timóteo 3.16.

 

O artigo acima foi escrito a partir de anotações e esboços guardados nos meus arquivos, fruto de minhas pesquisas e reflexões, a organização do texto foi feita a partir de IA, os insights centrais do texto são meus, exceto as idéias de Charles Ryrie que compartilhei junto as minhas anotações sobre o tema.

 

C. J. Jacinto