As Teologias Não Escriturais do Amilenismo e do Pós-milenarismo: Uma Análise Crítica
Baseado no artigo de Thomas
D. Ice — Pre-Trib Research Center, Liberty University (2009)
Introdução: Por Que a Escatologia Importa
A escatologia — o estudo das
últimas coisas — não é uma curiosidade teológica reservada a especialistas. Ela
molda visões de mundo, motiva ações históricas e define o que uma civilização
acredita ser possível no futuro. O teólogo Thomas D. Ice, professor da Liberty
University e pesquisador do Pre-Trib Research Center, parte exatamente dessa
premissa: a forma como compreendemos o futuro determina a forma como vivemos o
presente.
Ice observa que o século XX
foi amplamente dominado pelas consequências práticas das escatologias que os
homens abraçaram. Movimentos como o Comunismo e o Islamismo radical podem ser
lidos, em certa medida, como versões distorcidas de um determinismo
pós-milenarista cristão — sistemas que projetam uma utopia futura e justificam
qualquer meio para alcançá-la.
Há ainda um contraste
fundamental que Ice destaca: apenas a cosmovisão bíblica aponta para um futuro
melhor do que o passado. Todas as religiões e culturas pagãs olham para trás
com saudade — para os faraós do Egito, para a glória de Nabucodonosor, para
alguma "era de ouro" já perdida. A Bíblia, porém, declara que o
melhor ainda está por vir. O desenvolvimento histórico vai de um jardim
(Gênesis) a uma cidade (Apocalipse), e essa direção ascendente não é acidental
— ela é o fio condutor da revelação divina.
Os Três Grandes Sistemas Escatológicos
Todo sistema escatológico
sério precisa posicionar-se em relação ao milênio — o reino de mil anos
mencionado em Apocalipse 20. Os três grandes sistemas que organizam esse debate
são:
1. Pré-milenarismo
O pré-milenarismo sustenta
que a Segunda Vinda de Cristo ocorrerá antes do seu reinado literal de
mil anos sobre a Terra. Conforme definido por John F. Walvoord, um dos maiores
expoentes dessa posição, Cristo retornará vitoriosamente, intervirá na história
humana e reinará pessoalmente a partir de Jerusalém, produzindo uma era de paz,
prosperidade e justiça.
Para os pré-milenistas, a
era atual é a Era da Igreja — um período distinto e separado do plano de Deus
para Israel. A obra redentora de Cristo é o único fundamento para a salvação em
qualquer período da história.
2. Amilenismo
O amilenismo, descrito por
Floyd E. Hamilton, defende que o reino milenial de Cristo se estende desde a
Sua Ressurreição até a Sua Segunda Vinda. Cristo não reinará fisicamente sobre
a Terra em Jerusalém em nenhum momento futuro. Seu reino é essencialmente
espiritual, exercido "nos corações de Seu povo". Os "mil
anos" do Apocalipse são interpretados como um número simbólico que
representa o período completo entre as duas vindas de Cristo.
Após a Segunda Vinda,
segundo os amilenistas, todos os crentes de toda a história entrarão
imediatamente no estado eterno após um julgamento final e único de toda a
humanidade.
3. Pós-milenarismo
O pós-milenarismo, definido
por Norman Shepherd, é a visão de que Cristo retornará ao fim de um
período prolongado de justiça e prosperidade — o milênio. Assim como o
amilenismo, o pós-milenarismo identifica a era atual como o reino de Deus. A
diferença está no otimismo: os pós-milenistas acreditam que o reino não opera
apenas nos corações dos crentes, mas que impacta e transforma toda a sociedade.
A lógica pós-milenarista é a
seguinte: o evangelho está sendo pregado com poder crescente, e sua influência
irá converter a vasta maioria da humanidade, criando um clima de paz,
prosperidade material e glória espiritual. Esse período será o milênio, após o
qual Cristo retornará para o julgamento final.
Amilenismo e Pós-milenarismo: Duas Faces da Mesma Moeda
Um dos pontos mais agudos do
argumento de Ice é a constatação de que amilenismo e pós-milenarismo são
essencialmente a mesma posição teológica. Ele cita o próprio teólogo
pós-milenista David Chilton, que declarou abertamente:
"O que estou dizendo é isto: Amilenismo e
Pós-milenarismo são a mesma coisa. A única diferença fundamental é que os
'pós-mils' acreditam que o mundo será convertido, e os 'a-mils' não. Fora isso,
sou um amil."
Em outras palavras, o
pós-milenarismo nada mais é do que um amilenismo otimista. Ambos compartilham a
premissa de que o reino ou milênio é a era atual — o pré-milenarismo os separa
radicalmente ao colocar o reino no futuro. Ice argumenta que esse paradigma
amilenista/pós-milenarista surge invariavelmente quando se ignora o plano de
Deus para a nação de Israel — tema central da profecia bíblica
veterotestamentária.
Uma Breve História dos Sistemas Mileniais
O Quiliasmo: A Posição Original da Igreja
Ice sustenta, com base em
amplo consenso acadêmico, que o pré-milenarismo — chamado de quiliasmo
na Igreja primitiva (do grego chilioi, mil) — foi a visão dominante dos
primeiros séculos cristãos. Isso não é uma reivindicação sectária: é o consenso
tanto de estudiosos liberais quanto conservadores da patrística.
J. N. D. Kelly, reconhecido
internacionalmente como autoridade no pensamento cristão patrístico, afirma que
o milenarismo "encontrou apoio crescente entre os mestres cristãos"
do segundo século, sendo "amplamente popular" nesse período. Os
grandes teólogos que seguiram os Apologistas — Ireneu, Tertuliano e Hipólito —
foram todos expoentes do milenarismo.
É digno de nota: o
pré-milenarismo não foi contradito por nenhum pai da Igreja ortodoxo até o
início do século III. O primeiro a interpretar os mil anos simbolicamente foi
Gaio, que além disso rejeitou a canonicidade do próprio Apocalipse,
atribuindo-o ao herege Cerintus.
O Anti-Milenarismo: Uma Reação, Não uma Exegese
Antes do surgimento formal
do amilenismo, houve o que Ice chama de anti-milenarismo — uma rejeição
emocional e cultural do pré-milenarismo, sem oferecer uma interpretação
alternativa coerente do texto. A primeira reação dos opositores não foi propor
outra leitura de Apocalipse 20 (que claramente ensinava o milenarismo), mas sim
questionar se o Apocalipse deveria sequer fazer parte do cânon do Novo
Testamento.
O ataque ao quiliasmo partiu
sobretudo da Escola de Alexandria, no Egito, a partir do século III.
Clemente de Alexandria e seu discípulo Orígenes popularizaram uma polêmica
anti-quiliastica baseada na interpretação alegórica das Escrituras. O impulso
não era exegético, mas filosófico: a cosmovisão grega desvalorizava o mundo
material, tornando inaceitável a ideia de um reino físico de Deus na Terra.
Norman Cohn observa com
precisão histórica: enquanto os cristãos eram uma minoria perseguida, o
milenarismo floresceu. Quando o Império Romano adotou o Cristianismo como
religião oficial no século IV, "a Igreja se pôs a erradicar as crenças
milenaristas." O contexto político favoreceu uma teologia que legitimava o
status quo imperial.
O Amilenismo de Agostinho
Na tradição latina
ocidental, Jerônimo (347–420) e, sobretudo, Agostinho de Hipona
(354–430) foram decisivos para o estabelecimento do amilenismo. Em A Cidade
de Deus, Agostinho adotou a interpretação alegórica de Apocalipse 20
proposta pelo teólogo donatista Ticônio, transformando os mil anos em símbolo
da era da Igreja. Agostinho foi o primeiro a articular sistematicamente uma
posição amilenista positiva.
A influência agostiniana foi
tão avassaladora que, como registra o historiador Robert Lerner, "uma
proibição contra a aplicação de Apocalipse 20 ao futuro foi estabelecida
durante a era patrística tardia e permaneceu em vigor por séculos."
O Pós-milenarismo: Um Amilenismo com Otimismo
O pós-milenarismo foi o
último dos três sistemas a se desenvolver, o que é logicamente previsível: ele
pressupõe a base amilenista (reino presente), acrescentando a ela um otimismo
quanto ao progresso da era da Igreja.
Ice observa que o
pós-milenarismo quase desapareceu após as duas Guerras Mundiais, que devastaram
qualquer otimismo ingênuo sobre o progresso humano. No entanto, os últimos 30 a
40 anos testemunharam um renascimento da posição, especialmente por meio do
movimento da Reconstrução Cristã (ou Teonomia), que floresceu sobretudo
em ambientes reformados norte-americanos.
O Problema Hermenêutico: A Chave de Tudo
Para Ice, a raiz do problema
não é histórica — é hermenêutica. O verdadeiro motivo pelo qual amilenistas e
pós-milenistas chegam às suas conclusões é a recusa de interpretar toda a
Bíblia, especialmente a profecia, de forma literal.
Paradoxalmente, alguns dos
principais críticos da interpretação literal admitem, em momentos de candura,
que ela conduz inevitavelmente ao pré-milenarismo. Floyd Hamilton reconheceu:
"Devemos admitir francamente que uma
interpretação literal das profecias do Antigo Testamento nos dá exatamente tal
quadro de um reinado terreno do Messias, como os pré-milenistas
descrevem."
E Oswald Allis confessou:
"As profecias do Antigo Testamento, se
interpretadas literalmente, não podem ser consideradas como já cumpridas nem
como capazes de se cumprir na presente era."
Essas confissões são
extraordinariamente reveladoras. Elas demonstram que a questão não é exegética
em sua origem — é filosófica e hermenêutica. O intérprete que não quer o que o
texto diz precisa trazer de fora um método que permita dizer outra coisa.
A Força do Pré-milenarismo: O Próprio Texto das Escrituras
Ice encerra seu argumento no
lugar mais sólido possível: o texto bíblico. Ele resume, a partir do trabalho
do Dr. Gerald Stanton, os pilares que sustentam o pré-milenarismo:
• Interpretação literal
consistente de toda a Escritura
• A natureza incondicional das
Alianças — especialmente a Aliança Abraâmica
• O Antigo Testamento ensina
um reino literal e terreno
• O reino é levado inalterado
para o Novo Testamento
• Cristo confirma um reino
terreno
• As múltiplas ressurreições
nas Escrituras (incompatíveis com o amilenismo)
• Apocalipse 20 ensina
explicitamente o pré-milenarismo
• A Igreja primitiva era
pré-milenarista
• Somente o pré-milenarismo
harmoniza toda a Bíblia
• Somente o pré-milenarismo
oferece uma conclusão satisfatória para a história
Conclusão: A Questão é o Texto
O argumento central de
Thomas Ice é ao mesmo tempo simples e poderoso: mostre-me um único texto que
exija uma interpretação amilenista ou pós-milenarista e que não possa ser
entendido de forma pré-milenarista. Após décadas de estudo e debate, nenhum
oponente apresentou tal texto de forma convincente.
O amilenismo e o
pós-milenarismo não surgiram do estudo honesto e consistente das Escrituras.
Surgiram como reações — primeiro ao quiliasmo primitivo, depois influenciados
pela filosofia grega que desvalorizava o mundo material, e finalmente
consolidados pela autoridade cultural de Agostinho no Ocidente. São teologias
construídas muito mais sobre pressões externas ao texto do que sobre o próprio
texto.
O pré-milenarismo, por outro
lado, pode ser apresentado positivamente a partir da Bíblia — de Gênesis ao
Apocalipse — sem precisar desconstruir as outras posições. Essa assimetria é,
em si mesma, um argumento poderoso.
Para o crente comprometido
com a autoridade e suficiência das Escrituras, a conclusão de Ice é um convite:
estude o texto. Ensine-o. Proclame-o. E espere nele. Maranatha!
Referências Bibliográficas
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