Mostrando postagens com marcador Testemunho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Testemunho. Mostrar todas as postagens

O SAL E O CRISTÃO

0 comentários

O SAL E O CRISTÃO

Uma Análise Teológica, Histórica e Prática

Autor:  C. J. Jacinto  |  Revisão ampliada

 


 

"Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens." — Mateus 5:13

 

I. A Ontologia do Sal: O Cristão Não É Como Sal — Ele É o Sal

Há uma distinção semântica de consequências teológicas profundas no texto de Mateus 5:13 que, se ignorada, empobrece de modo irremediável toda a compreensão cristã da identidade do crente no mundo. Cristo não formula uma comparação poética, como faria um preceptor retórico ao dizer que o discípulo 'se assemelha ao sal'; Ele enuncia uma sentença ontológica: 'Vós sois o sal da terra'. A forma verbal grega οὐτοί ἐστε — literalmente 'vós sois' — não admite qualquer interpretação metafórica atenuada. Trata-se de uma declaração de identidade, não de similitude.

Esta distinção modifica, de maneira radical e estrutural, a nossa autopercepção como agentes do Reino dos Céus. Toda a responsabilidade que o cristão carrega no mundo passa a ser compreendida não como uma exigência externa e arbitrária, mas como uma decorrência natural de sua própria natureza regenerada. Ser sal não é uma vocação facultativa; é a expressão inevitável do que o Espírito Santo operou na intimidade do ser humano redimido.

O cristão que não exerce influência sobre o mundo não está simplesmente sendo omisso: está contradizendo a sua própria essência regenerada.

 

II. A Polivalência do Sal: Uma Metáfora de Implicações Inesgotáveis

Jesus, sendo o Logos encarnado e, portanto, o Criador por quem todas as coisas foram feitas (João 1:3; Colossenses 1:16), escolheu o sal com perfeita consciência de suas propriedades físicas e químicas. Não se trata de uma escolha aleatória entre os elementos disponíveis na Palestina do século I. O Mestre elegeu, dentre todas as substâncias existentes, aquela dotada de maior polivalência funcional.

Registros científicos e industriais contemporâneos catalogam mais de 14.000 aplicações distintas para o cloreto de sódio — desde a preservação de alimentos até a produção de plásticos de alta tecnologia, passando pelas indústrias farmacêutica, química e têxtil. Nos tempos bíblicos, o sal constituía uma das substâncias mais valiosas do mundo antigo: os legionários romanos recebiam parte de sua remuneração em sal — daí a etimologia latina da palavra 'salário'. Em diversas culturas, o sal era símbolo de aliança, pureza e perpetuidade.

A escolha desta substância por Cristo não é, portanto, casual: ela encerra em si mesma a teologia da multifuncionalidade cristã. O discípulo do Reino é convocado a uma existência radicalmente útil, maleável, pervasiva — capaz de penetrar nos mais distintos contextos sociais, culturais e institucionais sem perder a sua essência.

Perguntas para o Exame de Consciência

A multifuncionalidade do sal lança ao crente um desafio de autoavaliação permanente, que pode ser sistematizado nas seguintes indagações:

▸   Qual é a sua função específica no Corpo de Cristo? Você a exerce com fidelidade e excelência?

▸   Em quais contextos da sociedade você exerce influência salutar e transformadora?

▸   Sua presença no ambiente de trabalho, na família e na comunidade provoca alguma diferença mensurável?

▸   Você tem sido maleável às necessidades do Reino, ou insiste em uma forma restrita e confortável de serviço?

 

A ociosidade espiritual não é simplesmente uma deficiência de caráter — é uma negação prática da própria natureza do sal.

 

III. O Sal e o Fogo: A Fervência do Espírito como Propriedade Natural

Entre as propriedades físicas mais relevantes do cloreto de sódio está a sua capacidade de elevar o ponto de ebulição da água e, subsequentemente, de reter o calor por um período consideravelmente maior após o processo de aquecimento. Esta propriedade termodinâmica, embora elementar para a química moderna, carrega uma carga homilética extraordinária quando cotejada com a exortação paulina de Romanos 12:11: 'Não sejais negligentes no zelo; sede fervorosos no espírito; servi ao Senhor.'

O crente que verdadeiramente é sal possui uma afinidade constitutiva com o fogo divino. Ele não apenas se aquece na presença do Espírito Santo durante os cultos e assembleias; ele retém esse calor e o transporta consigo para além dos muros do templo. Sua vida devocional não se encerra com a bênção final do pastor — ela continua ardendo, como brasas sob as cinzas, nos dias subsequentes, inflamando cada interação humana com a fragância de Cristo.

É próprio do cristão que é sal sentir com intensidade diferenciada a presença de Deus. Este crente é espiritualmente sensível: chora com facilidade diante da santidade divina, intercede com gemidos inexprimíveis, e é quebrantado pela consciência viva de sua indignidade diante da majestade do Altíssimo. Não se trata de emotivismo superficial ou de performance religiosa — trata-se da resposta natural de quem, sendo sal, absorveu as propriedades do fogo pentecostal.

A frieza espiritual e a mornidão devocionail não são males do ambiente eclesiástico; são sintomas de uma crise de identidade: o sal que esqueceu que é sal.

 

IV. O Sal Contra o Gelo: A Missão de Derreter a Frieza Espiritual

Uma das aplicações mais antigas e universalmente reconhecidas do sal é a sua capacidade de dissolver o gelo. Nas regiões de clima frio, toneladas de sal são distribuídas sobre as rodovias e calçadas cobertas de neve para restaurar a segurança do tráfego humano. O princípio físico é preciso: o sal interrompe a formação de cristais de gelo, dissolvendo o que estava congelado e impedindo que o congelamento avance.

A transposição espiritual deste fenômeno é de uma pertinência desconcertante. Quantas assembleias cristãs estão cobertas pelo gelo da indiferença, da formalidade vazia, do ritualismo estéril? Quantos cultos transcorrem sob uma frieza que incomoda os sensíveis, mas que os entorpecidos nem mais percebem? A resposta teológica para esta realidade não está no aperfeiçoamento das técnicas de louvor, na contratação de pregadores mais eloquentes ou na renovação dos equipamentos de som. Está na presença do sal.

O cristão que é genuinamente sal não aguarda passivamente um ambiente propício para manifestar sua espiritualidade. Ele é, por natureza, um agente ativo de transformação climática — no sentido espiritual. Onde o gelo se acumula, o sal age. Onde a indiferença se instala, a intercessão genuína responde. Onde o formalismo sufoca, a adoração em Espírito e em verdade irrompe.

Há uma pergunta que cada cristão deve fazer a si mesmo com absoluta honestidade: quando eu entro em uma reunião que está espiritualmente fria, minha presença eleva a temperatura espiritual do ambiente, ou simplesmente me adapto ao frio que já existe?

Ser sal é ser intrinsecamente incompatível com o gelo espiritual. Não é uma escolha — é uma consequência.

 

V. O Sal como Agente de Purificação: A Santidade como Função Preservadora

O sal é, por sua própria composição química, um agente de limpeza e preservação. Suas propriedades antissépticas e conservantes são documentadas desde a Antiguidade: egípcios o utilizavam na mumificação, hebreus o empregavam nos sacrifícios do Tabernáculo (Levítico 2:13 — 'Não deixarás que falte o sal da aliança do teu Deus em nenhuma das tuas ofertas'), e culturas diversas o adotaram como símbolo de pureza e incorruptibilidade.

No contexto eclesiológico contemporâneo, esta propriedade do sal adquire uma urgência particular. Há uma tendência crescente e documentável de infiltração de elementos estranhos ao corpus da fé bíblica no interior das igrejas: modismos musicais provenientes de uma cultura espiritualmente avessa ao evangelho, metodologias pastorais importadas das teorias psicanalíticas e psicoemocionais seculares sem qualquer filtragem teológica, e uma estética de culto progressivamente indistinguível do entretenimento mundano.

O crente que é sal age, por sua própria natureza, como um anticorpo espiritual. Ele não se contamina com facilidade pelas impurezas doutrinárias ou comportamentais que circulam ao seu redor; ao contrário, sua presença exerce uma pressão purificadora sobre o ambiente. Ele não é um agente neutro — é um agente conservador, no sentido mais nobre do termo: alguém que preserva a integridade doutrinária, a santidade ética e a pureza litúrgica do Corpo de Cristo.

Diagnóstico Prático

Analise com seriedade o seu papel em sua congregação a partir das seguintes dimensões:

▸   Sua influência tem promovido a fidelidade doutrinária ou tem facilitado concessões ao relativismo teológico?

▸   Você intercede pela pureza da sua igreja ou simplesmente se adapta ao que vai sendo introduzido?

▸   Sua conduta de vida fora do templo é consistente com o que você professa dentro dele?

▸   Você tem sido agente de conservação da santidade ou agente de erosão progressiva dos padrões bíblicos?

 

VI. O Sal e o Crescimento: A Função Vitalizante do Cristão na Igreja

A palmeira — tamareira, junco real do mundo bíblico — é uma das imagens mais ricas das Escrituras Sagradas. O Salmo 92:12 declara: 'O justo florescerá como a palmeira.' Esta árvore, símbolo de resistência, longevidade e fecundidade perene, possui uma relação biológica fascinante com o sal: quando seus sistemas radiculares são tratados com sal mineral, a palmeira experimenta um vigor renovado, um crescimento mais robusto e uma produção mais abundante de frutos.

As tamareiras — espécie de palmeira típica das terras bíblicas — são capazes de frutificar continuamente durante mais de duzentos anos. Durante o cataclísmico tsunami que devastou o litoral do Oceano Índico em dezembro de 2004, relatos documentados apontam que inúmeras pessoas sobreviveram justamente ao se agarrarem a palmeiras litorâneas que permaneceram intactas diante da força devastadora das águas. Esta é a imagem da Igreja vitalmente salinizada: inabalável diante das tempestades da história, frutífera em todas as estações, capaz de sustentar a vida nos momentos de maior perigo.

Uma congregação que possui sal em sua constituição — isto é, membros genuinamente comprometidos, ferventes, santos e multifuncionais — é uma congregação que cresce com saúde espiritual. Não apenas cresce em números, mas cresce em profundidade de caráter, em amplitude de impacto social, em fidelidade doutrinária e em poder intercessório. O sal, portanto, não serve apenas ao indivíduo que o é — ele serve a toda a comunidade ao seu redor.

Uma igreja cheia de sal é uma igreja irresistível: ela não apenas sobrevive às tempestades — ela oferece abrigo aos que seriam destruídos por elas.

 

VII. O Risco da Insipidez: A Degeneração do Sal e suas Consequências

A advertência de Cristo em Mateus 5:13 não se limita à afirmação positiva da identidade cristã. Ela encerra também uma solenidade de alarme que não pode ser minimizada: 'se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.' Lucas 14:34-35 reforça a mesma advertência com ligeiras variações terminológicas.

O sal que perde sua salinidade — processo denominado eflorescência, no qual o cloreto de sódio lixivia e restam apenas carbonatos e sulfatos insípidos — não pode ser re-salinizado por nenhum processo conhecido. Ele se torna, literalmente, inútil para qualquer das suas 14.000 funções. Esta é a imagem mais severa que Cristo poderia ter empregado para descrever o cristão que abriu mão de sua identidade espiritual.

Um crente espiritualmente insípido é aquele que, embora mantenha a forma exterior da religiosidade, perdeu a substância que torna essa religiosidade funcionalmente eficaz no mundo. Ele não aquece mais, não dissolve o gelo, não purifica, não fortalece. Sua presença nas assembleias não eleva nem inspira — quando muito, serve de tropeço para os que ainda buscam autenticidade espiritual.

A advertência é, portanto, não apenas pastoral — é escatológica. O sal insípido é descartado e pisado. Não há meio-termo na metáfora de Cristo: ou o cristão é sal em plena salinidade funcional, ou não é sal de modo algum.

 

 

Conclusão: Uma Convocação à Identidade Plena

A meditação sistemática sobre a metáfora do sal, tal como empregada por Nosso Senhor Jesus Cristo, conduz inevitavelmente a uma conclusão que transcende qualquer reflexão meramente intelectual: ser cristão é ser sal. Não ocasionalmente, não em ambiente controlado, não seletivamente — mas de modo constante, pervasivo, multifuncional e irrenunciável.

As propriedades do sal — sua polivalência funcional, sua capacidade de absorver e reter calor, seu poder de dissolver o frio, sua ação purificadora e conservante, e sua função vitalizante sobre a palmeira — não são escolhas que o sal faz a cada manhã. São expressões inevitáveis de sua natureza química. Da mesma forma, o crente genuinamente regenerado pelo Espírito Santo não deveria escolher, a cada situação, se exercerá ou não a sua influência salutar. Ela deveria fluir naturalmente de sua nova natureza em Cristo.

Que esta meditação provoque em cada leitor não apenas uma compreensão intelectual ampliada, mas uma revisão profunda e corajosa de sua própria trajetória cristã. Que cada um se pergunte, com a seriedade que o texto exige: sou genuinamente sal? Minha vida, minha presença, minha influência exercem as funções que Cristo descreveu? Ou tenho sido simplesmente um grão de aparência cristã, mas sem salinidade espiritual?

A hora é de sermos sal. Não de falarmos sobre o sal, não de admirarmos o sal, não de estudarmos teorias a respeito do sal — mas de sermos, com toda a plenitude e fidelidade, o sal que Cristo declarou que somos.

 

 

Referências Bíblicas

▸   Mateus 5:13 — Vós sois o sal da terra.

▸   Lucas 14:34-35 — O sal é bom; mas se o sal se tornar insípido...

▸   Romanos 12:11 — Sede fervorosos no espírito; servi ao Senhor.

▸   João 1:3 — Todas as coisas foram feitas por Ele.

▸   Levítico 2:13 — O sal da aliança do teu Deus.

▸   Salmo 92:12 — O justo florescerá como a palmeira.

▸   Colossenses 1:16 — Tudo foi criado por Ele e para Ele.

 

Autor original: Pr. Clávio Juvenal Jacinto  |  Revisão e ampliação erudita

UM CHAMADO A VIVER SEM FAZER CONCESSÕES COM O MUNDO

0 comentários

 

UM CHAMADO A VIVER SEM FAZER CONCESSÕES COM O MUNDO

 


C. J. Jacinto

 

 

Um dos principais desafios do cristão na pós-modernidade reside em manter fidelidade aos princípios bíblicos em um contexto de crescente afastamento da fé, marcado pela adoção do pragmatismo e do relativismo moral, características proeminentes da nossa época.

Essa realidade, descrita nas Escrituras como "este século perverso", contrasta com a postura de muitos que, embora se declarem cristãos, encontram no mundo e em seus valores o centro de seus prazeres e a razão de sua existência. Demonstram, assim, apego ao mundo e suas inclinações, mantendo, contudo, a designação de cristãos.

 Em um período de crise espiritual e generalizada confusão, no qual conceitos contrários aos princípios cristãos e valores bíblicos parecem prevalecer, tanto no âmbito eclesiástico quanto externo, urge a necessidade de que surjam indivíduos de coragem e ousadia, imbuídos do Espírito Santo. Estes devem se dispor a confrontar a corrente de ideias perniciosas que busca infiltrar-se na igreja. É preciso que se levantem homens e mulheres determinados, verdadeiros soldados espirituais, que tenham a ousadia de se opor frontalmente a essas tendências, a fim de promover a mudança e deixar um legado duradouro para a história da fé cristã.

 Em Romanos, capítulo 12, versículos 1 e 2, Paulo escreveu: “exorto-vos, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto espiritual. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

Contudo, para preservar nossa posição social, salvaguardar nossa segurança pessoal, satisfazer nosso ego ou evitar o confronto com o mundo, frequentemente protelamos nossas ações ou nos omitimos de nossas responsabilidades, permanecendo inertes diante das tendências malignas do presente século.

 Digo mais, a fim de manter o nosso status, a fim de manter a nossa própria segurança, a fim de satisfazer o nosso próprio ego, a fim de não sermos incomodados pelo mundo, simplesmente procrastinamos, ou então, nós omitimos de nossa responsabilidade e ficamos quietos diante de tantas desvios que ocorrem sobre a nossa sociedade.


 Valorizamos a falsa paz, a serenidade que o mundo propõe para que mantenhamos o silêncio e evitemos perturbações. Essa é a condição estabelecida. A negociação que estabelecemos com o mundo. O mundo nos diz: "Deixem-nos em paz e concederemos paz à igreja e aos fiéis." Consequentemente, nessa transação com o mundo, a prioridade a Deus é secundarizada. Tememos mais a opinião alheia do que a Deus, e assim nos conformamos.

  Essa é uma característica marcante do cristão contemporâneo. Infelizmente, essa é a realidade que vivenciamos atualmente. Observa-se, portanto, um grande número de indivíduos que se autodenominam cristãos, que professam a fé evangélica, mas que não exercem influência no mundo nem causam incômodo. O mundo demonstra grande satisfação com o (falso) testemunho que os cristãos modernos oferecem sobre Cristo. A recompensa que o mundo oferece aos cristãos é a paz. No entanto, essa situação pode indicar que o cristianismo da maioria dessas pessoas se limita a uma prática religiosa superficial, distante do Evangelho pregado por Jesus Cristo.

 Compreendo que esta mensagem possa causar desconforto, pois parece abordar temas que são sensíveis. Observo que, mesmo entre aqueles que se identificam como cristãos, pode haver resistência em ouvir certas colocações. A prioridade, muitas vezes, parece residir na busca por segurança e conforto pessoal, numa espécie de religião utilitarista, que visa satisfazer os anseios individuais e os desejos da natureza humana.

O foco principal, nesse contexto, parece ser a satisfação pessoal, o bem-estar e a segurança, relegando a fé, as crenças e o próprio Evangelho a um plano secundário. A vida da alma é valorizada acima de tudo, e o medo da morte, do martírio e do testemunho se manifesta como algo absolutamente descartado de possibilidade. Deseja-se viver em paz em um mundo que foi, e ainda é, hostil a Jesus Cristo. Essa é a igreja ocidental e seus componentes, rara as exceções.

 Essa aparente contradição entre a rejeição do mundo por Cristo e o amor que nutrimos por ele levanta questões sobre o tipo de espiritualidade e de Evangelho que, possivelmente, estamos seguindo.

 Diante disso, urge a necessidade de adotarmos uma postura de flexibilidade em relação às normas estabelecidas pelo politicamente correto. É imperativo que consideremos concessões, abrindo exceções, em consonância com nossas próprias experiências e convicções. Devemos, portanto, ajustar-nos às demandas do mundo e às suas influências e exigências.  

 Assim, as características do maquiavelismo, do pragmatismo e do relativismo – traços que se contrapõem aos valores cristãos e que predominam no contexto pós-moderno e pós-religioso – não devem mais representar uma ameaça. Podemos, portanto, manter a serenidade diante desse cenário. Afinal de contas, essas coisas até mesmo podem ser usadas para promover a causa da religião cristã, a essas alturas, digo eu; uma influência demoníaca e abominável.

 Contudo, observamos que, diante da crise moral e das ameaças que o povo de Deus enfrentava na época de Moisés, quando o faraó decretou a morte de todos os recém-nascidos do sexo masculino, as parteiras egípcias pouparam Moisés. Elas desobedeceram às ordens do faraó, movidas pelo temor a Deus, mesmo correndo riscos e contrariando os decretos e a vontade do faraó. Em face dos eventos que visavam à destruição do povo de Deus, as parteiras tomaram a corajosa decisão de violar a ordem do faraó e protegeram Moisés, a fim de que não fosse morto. Fizeram isso correndo o risco de serem condenadas por tais ações.


 Na narrativa bíblica, somos apresentados ao profeta Elias, o tisbita, homem que se manteve inabalável diante das ameaças e perseguições promovidas pela rainha Jezabel, conhecida por sua iniquidade e por seu intento de exterminar os profetas do Senhor. Diante desse contexto de apostasia religiosa e cultural, no qual a fé verdadeira rareava, Elias chegou a questionar a Deus sobre sua solidão. O Senhor, porém, revelou a existência de sete mil pessoas que não se curvaram diante da divindade pagã chamada de Baal.

 Elias, mesmo em sua aparente solidão, recusou qualquer forma de compromisso com a fé corrupta, não cedeu às tentações oferecidas pela corte de Jezabel e não trocou sua fidelidade pelo conforto ou segurança. Manteve-se firme em sua fé, resistindo a toda oposição, fiel aos princípios que regem a verdadeira devoção ao Deus Altíssimo.

 Elias personifica um exemplo notável de perseverança e coragem, enfrentando os falsos profetas e as tendências de apostasia da época. Não se intimidou, mas ousou confrontar a decadência, mesmo que sua posição, em sua perspectiva, parecesse pequena. Essa postura, contudo, fez uma grande diferença, marcando profundamente a história do Antigo Testamento e consagrando-o como um dos maiores profetas de Israel.
 Examinemos outro exemplo notável: os três companheiros de Daniel. O monarca babilônico havia ordenado que todos se prostrassem diante da estátua erguida no vale de Dura. Ao som dos instrumentos musicais, todos os presentes naquele vale deveriam curvar-se, sem distinção de nacionalidade ou religião perante uma divindade representada por uma estátua gigante erguida no vale da região de Dura. Aqueles que desobedecessem ao decreto real e se recusassem a prestar reverência seriam sentenciados à morte. Diante da execução da música, a vasta maioria se prostrou, mas não todos. Três judeus permaneceram de pé. Esses hebreus se recusaram a curvar-se perante as ordens de Nabucodonosor, apesar das ameaças, mesmo sabendo que sua fé os colocava em risco de vida, pois seriam lançados em uma fornalha ardente. Contudo, permaneceram firmes e não se prostraram diante da estátua. Essa narrativa merece profunda reflexão, pois, diante das pressões do mundo contemporâneo que possam desafiar nossa fé e destino, devemos manter nossa lealdade ao Senhor, mesmo que isso implique em riscos. Assim como aqueles três jovens, eles foram firmes e convictos de que agir de acordo com a vontade de Deus era mais importante do que agradar aos homens. Permaneceram inabaláveis diante de circunstâncias ameaçadoras, sem ceder a concessões em prol da própria segurança ou conforto.

 A lembrança dos três amigos de Daniel evoca a memória do próprio Daniel e, por analogia, dos primeiros cristãos, que enfrentaram perseguições severas. Sob o domínio de imperadores romanos, todo o império se voltou contra a Igreja de Cristo, assim como Israel e muitos judeus que não haviam aceitado a fé cristã se opuseram a ela. Em meio a essa adversidade extrema, os cristãos eram levados a julgamento, mortos, assassinados e entregues às feras, servindo de espetáculo para o mundo. Um mundo que se deleitava com a morte dos primeiros cristãos e que por mais estranho que pareça, a igreja ocidental na sua maioria se deleita com ele.

 Essa realidade contrasta com a atitude de muitos cristãos pós-modernos, que parecem oferecer um pacto de silêncio. Ao fazer concessões, buscam refúgio em suas zonas de conforto e segurança, hesitando em testemunhar abertamente. Esse comportamento leva o mundo, outrora inimigo e destruidor da Igreja Primitiva, a ver a Igreja Pós-Moderna como omissa em relação à vivência do verdadeiro Evangelho.





Por fim, gostaria de mencionar Jônatas, amigo de Davi. Diante das adversidades, das ameaças de Saul e ciente do perigo que corria ao proteger Davi, alvo do ódio de Saul, Jônatas, arriscando a própria vida, defendeu e protegeu Davi em meio à perseguição. Jônatas abriu mão de conforto, segurança e vantagens pessoais, demonstrando coragem e altruísmo. Sua atitude revelou virtude e compromisso com o que era correto.

 Assim como as parteiras no tempo de Moisés, os três amigos de Daniel, o próprio Daniel e o profeta Elias, Jônatas não se omitiu nem cedeu a concessões em benefício próprio ou em busca de segurança pessoal. A verdade era inegociável, e, guiados pela sensatez, optaram por ela, mesmo diante do perigo iminente, mantendo-se firmes e buscando a vontade de Deus.

Que em nossos dias sigamos esse exemplo, adotando uma postura firme e corajosa. Caso contrário, nosso testemunho se tornará motivo de vergonha e nossa religião evidencia de um fracasso.

IDENTIDADE OU CONTRADIÇÃO?

0 comentários

 


 

“Porque os que falam desse modo, manifestam estar procurando uma pátria (Hebreus 11:4)

Tornai-vos, pois praticantes da palavra e não somente ouvintes (Tiago 1:22)

A proclamação publica de minha fé determina a conduta que devo manter diante de todos os que me ouvem ou me conhecem. Qualquer desarmonia entre as minhas palavras e as minhas ações desonram ao Senhor.

Por exemplo, afirmo que Deus é todo-poderoso, que Ele é para mim um Pai cheio de amor, cujos cuidados nunca me faltam... e se me vêem inquieto, perturbado e agitado: é uma contradição.

declaro que o crente não é do mundo, que ele não é mais que um estrangeiro aqui na terra...  e me agarro aos bens terrenos e busco com todo afã a minha comodidade e o meu bem-estar; é uma contradição.

Digo que estou esperando o Senhor que pode  voltar a qualquer momento para levar os Seus...e faço mil projetos sem levá-lo em conta; é uma contradição.

Dou graças pela comida servida na mesa e logo depois queixo-me do que foi servido; é uma contradição.

Falo da felicidade dos crentes... e estou triste. Vejo ao redor de mim homens e mulheres que não conhecem a Cristo... e não lhe mostro o caminho da salvação; é uma contradição. Para nossa vergonha, esta lista poderia ser ampliada. Não basta reconhecer essas inconseqüências. Devemos remedia-las.

Despertemo-nos, cristãos. Proclamemos nossa fé sem vacilar. Não devemos ter vergonha do Evangelho. Não esqueçamos que a promessa da felicidade está ligada, não ao conhecimento, mas sim à pratica “Ora se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes” (João 13:17)

 

O maior bem de um homem não é material, mas espiritual, consolidado por fatos estabelecidos por verdades atemporais: O Evangelho.

 

Texto adaptado por C. J. Jacinto