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Piedade Profunda

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“Não precisamos de uma nova definição do cristianismo bíblico, precisamos de uma nova demonstração de seu poder transformador”

 

 

Ao longo de mais de 35 anos de trajetória na vida cristã, aprendi uma verdade que sustento com plena convicção: o coração torna-se gradualmente mais espiritual à medida que se dedica às realidades que estão em Cristo. Este é um fato comprovado pela biografia dos grandes homens de Deus do passado, cujos corações, ao se voltarem inteiramente ao Senhor, alcançaram um notável crescimento e discernimento espiritual. Foi por meio dessa entrega que eles compreenderam a profundidade do culto e da devoção, manifestando com zelo e temor a glória de Deus. Notemos o principio da devoção austera de William Law que moldou a espiritualide de John Wesley e o principio da abnegação nos escritos de Andrew Murray que impactou a vida devocional de muitos cristãos, encerra-se nesses exemplos,o fervor intenso e adoração profunda.

Aprendi, em meio às minhas batalhas internas, uma verdade fundamental: a natureza humana tende, por inclinação própria, a satisfazer os desejos da nossa velha essência. Este "velho homem", com suas concupiscências e inclinações mundanas, reside em nós e, por isso, precisa ser mortificado e crucificado. É necessário que o homem espiritual, regenerado pelo novo nascimento, obtenha a força necessária para subjugar toda inclinação carnal, permitindo que os vestígios da natureza antiga desapareçam por completo.

 Tal processo exige disciplina; contudo, esta não deriva apenas do esforço pessoal, mas, primordialmente, da graça de Deus e do poder do Espírito Santo. É Ele quem nos capacita a triunfar nesta luta interior. Somente assim o homem espiritual poderá viver a vida cristã em sua plenitude, experimentando realidades que proporcionam uma satisfação e uma felicidade mais elevadas e perenes, superiores às ilusões passageiras e imediatistas que surgem ao ceder aos desejos da carne.

 Ao refletirmos sobre a devoção e a vida de oração, somos conduzidos às profundezas das realidades espirituais de um culto genuíno. Trata-se de uma entrega plena a Deus, na qual intelecto, coração, alma e todo o nosso ser são voltados ao Senhor com atenção absoluta. Para desempenharmos o papel de verdadeiros adoradores, que O reverenciam em espírito e em verdade, devemos compreender a importância suprema de estarmos reunidos em Seu nome. O culto caracteriza-se pela comunhão, pelo cântico de hinos espirituais e pela nutrição através da Palavra de Deus. Em tal reunião solene, a Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo — torna-se o centro de nossa adoração. O culto cristão é um mergulho no âmbito espiritual, onde buscamos as graças e bênçãos divinas, reafirmando nossa identidade como filhos de Deus, regenerados e redimidos pelo sangue de Jesus.

“Adoração é a alma curvada em santa reverencia diante da glória de Deus: é o reconhecimento de nossa total dependência dEle” (Andrew Murray)

 A partir dessa profunda intensidade, Jesus Cristo, em Mateus 22:37-38 — ao citar o Pentateuco, mais precisamente Deuteronômio 6:5 —, declara: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento". Este é o primeiro e maior mandamento, o qual direciona nossa devoção, afeição, intelecto e todo o nosso ser para um único propósito: amar a Deus de forma absoluta. Trata-se de um amor constante, que transcende o tempo, o lugar e as circunstâncias, consagrando-nos como verdadeiros adoradores em espírito e em verdade. Essa passagem das Escrituras nos conduz, inevitavelmente, ao chamado para sermos adoradores íntegros, zelosos e dedicados, amando ao Senhor com todas as nossas forças. Diante disso, cabe a reflexão: você realmente ama a Deus desta maneira? Como tem sido a sua postura e o seu comportamento diante d’Ele em adoração?

 No clássico “O Livro do Amigo e do Amado”, Raimundo Lúlio introduz a figura de Blanquerna, personagem por meio do qual o autor estrutura sua reflexão espiritual. O relato descreve que Blanquerna despertava à meia-noite e, ao contemplar o firmamento, remetia-se prontamente ao Criador, iniciando suas orações com profunda devoção e tal intensidade de agonia que caia em prantos.  

 O objetivo desse gesto era elevar a alma inteiramente a Deus, expressando esse fervor espiritual através do choro conseqüência de um coração quebrantado. Essa intensidade devocional revela que, para o cristão, a contemplação da beleza da criação não conduz à idolatria, como fazem os pagãos, mas à adoração ao Autor de todas as coisas. Portanto, nosso coração deve ser impulsionado por essa mesma busca, visto que a profundidade da nossa fé é medida pela grandeza do amor que devotamos a Deus. Outro aspecto relevante, descrito no *Livro do Amigo e do Amado*, ilustra a profunda intensidade com que a devoção de um homem pode converter-se em uma revolução espiritual, impactando não apenas a si mesmo, mas também aqueles que o rodeiam. O texto narra: "Após o pôr do sol, Blanquerna subia ao terraço de sua cela e permanecia em oração até o primeiro sono, contemplando o céu e as estrelas com os olhos marejados e o coração devoto, meditando sobre a glória de Deus e as falhas dos homens neste mundo. Com tamanha afeição e fervor, Blanquerna entregava-se à total e profunda contemplação, de modo que, ao adormecer, sentia-se na presença de Deus, conforme havia suplicado em suas preces." Observamos, nesta passagem, a profundidade com que Blanquerna penetra nas realidades espirituais, reconhecendo Deus como o Ser Supremo digno de adoração. Por meio de um olhar atento, ele atravessa as dimensões da criação, encontrando na existência de um Criador o fundamento de toda a realidade. Assim, as estrelas, o pôr do sol e os elementos mais sublimes do mundo tornam-se vínculos inegáveis que conduzem à certeza da existência divina e à necessidade do culto. Em sua obra “A Adoração, Prioridade, Princípios e Práticas”, J. C. Ryle discorre com clareza sobre como a verdadeira duração espiritual impacta o coração e a consciência humana. Esse processo intensifica a percepção acerca da malignidade do pecado e da própria corrupção interior, aprofundando a humildade e promovendo maior zelo pela vida espiritual. Compreendemos, portanto, que ao acessarmos as realidades divinas e contemplarmos a santidade do Deus a quem servimos, duas constatações emergem em nosso íntimo. A primeira é a necessidade de oferecermos o nosso melhor — nossa atenção, amor, devoção e tempo — ao Deus que, em Sua infinita misericórdia, revela a gravidade de nossas transgressões ao manifestar Sua glória. É precisamente nesse ponto que a graça e a misericórdia divinas ganham proeminência, pois, ainda que imerecedores, fomos alcançados pelo sacrifício de Cristo, que pagou com o próprio sangue a nossa redenção. Sendo a nossa salvação fruto do triunfo da graça sobre a nossa miséria, germina em nosso coração uma gratidão profunda e constante. Esta gratidão, por sua vez, manifesta-se diariamente ao longo de toda a nossa jornada, sendo a marca indelével de todo cristão verdadeiro, que dirige um louvor contínuo ao seu Criador. Em um tempo marcado por tamanha superficialidade, faz-se urgente o retorno a uma vida de adoração intensa. Devemos compreender que, ao adorarmos, reconhecemos nossas fragilidades humanas e, simultaneamente, fortalecemo-nos ao atrair a soberania de Deus sobre nós. É o próprio Deus quem nos chama e nos designa a essa prática, sem a qual nos tornamos vazios e incompletos. Por ter nos criado à Sua imagem e semelhança, como uma extensão de Sua própria natureza, Deus conhece a nossa inclinação a buscar ídolos caso não O adoremos. Ele não nos destinou a esta terra como morada definitiva, mas sim à eternidade ao Seu lado. Por isso, atrai-nos à Sua presença, permitindo que O conheçamos profundamente e nos assemelhemos a Ele — visto que nos tornamos, inevitavelmente, reflexos daquilo que adoramos. Dessa forma, devemos dedicar a nossa vida e o nosso coração a Ele com total foco. Reconhecendo nossa natureza frágil, é através da adoração que recebemos o poder e a vida espiritual necessários para encontrar a verdadeira felicidade e o sentido da nossa existência. Fomos projetados para adorar; que possamos, portanto, buscar a profundidade de uma vida vivida inteiramente para a glória de Deus, em espírito e em verdade. Vivemos tempos marcados por profundas inquietações; por isso, devemos elevar o nosso espírito acima das aflições mundanas, a fim de mantermos o pensamento voltado a Deus e às coisas que Lhe são concernentes.

“Adorar é submeter toda a nossa natureza á Deus. É a purificação da imaginação pela Sua beleza: a abertura do coração ao Seu amor; a submissão da vontade a seu propósito” (William Temple)

Atualmente, não apenas observamos uma superficialidade na adoração, como também percebemos que a liturgia dos cultos, por vezes, não nos conduz à necessária profundidade espiritual. Mesmo reunidos como igreja, o interior da maioria dos presentes distancia-se da verdadeira comunhão. Enquanto os lábios proferem orações mecânicas, as mentes dispersam-se em fantasias e pensamentos que, se manifestados em sonhos ou intenções, seriam considerados indignos e reprováveis diante de Deus. Essa falta de concentração revela uma preocupante contaminação espiritual, que induz muitos a encarar o culto como mero lazer ou entretenimento, tratando a exposição da Palavra com o mesmo desinteresse reservado a um programa de televisão ou uma peça de teatro. Contudo, devemos estar cientes de que o culto é um ambiente solene, um lugar de oração e entrega. Se não sentimos deleite e felicidade genuína na comunhão com Deus — tanto no culto quanto em nossa vida diária —, é um sinal evidente de que a nossa fé requer exame e reparação. Não existe satisfação ou propósito superior à experiência de caminhar permanentemente com o Senhor, adorando-O em verdadeira santidade e devoção, amando-O de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento.
 Os Evangelhos contêm episódios significativos que nos alertam contra a superficialidade na vida cristã. Jesus, ao convidar seus discípulos a acompanhá-lo ao monte para orar, estabeleceu um modelo de dedicação e comunhão com o Pai. Contudo, enquanto Ele buscava o Senhor com intensidade, seus discípulos foram vencidos pelo sono. Esse contraste revela uma condição que se reflete, ainda hoje, na vida de muitos cristãos: uma latente dormência espiritual. Observa-se, com frequência, indivíduos que participam de cultos ou realizam leituras devocionais sem, contudo, permitirem que a Palavra penetre em suas atitudes. A falta de profundidade impede o acesso a uma realidade espiritual genuína, ocultando a necessidade vital da oração, da adoração e da comunhão íntima com Deus e com o Senhor Jesus Cristo. Embora exista o chamado ao despertamento, nota-se que, no momento crucial da entrega, o que prevalece é a inércia física e espiritual. Durante o culto, nosso corpo está presente e nossas vozes entoam louvores, mas questiona-se: onde está o nosso coração? Qual é o grau real de nossa concentração e atenção? Estamos, de fato, regozijando-nos e desfrutando das verdades espirituais, ou permitimos que nossa alma vague por lugares distantes?
 Muitas vezes, nossa presença física não reflete a postura de nossa mente e de nosso espírito. Vivemos em um estado de letargia, distantes da plenitude da comunhão, ocupados com devaneios, em vez de estarmos plenamente despertos para a realidade do Reino de Deus.

 Isto me recorda uma passagem memorável de Thomas More em sua obra “A Agonia de Cristo”, na qual nos é apresentado o seguinte pensamento: devemos elevar nossos corações acima das pesadas inquietações dos assuntos mundanos, a fim de mantermos nossos pensamentos em Deus e em Seus desígnios. É imperativo compreender que a nossa vida espiritual deve ser sopesada à luz da intensidade do sacrifício de Cristo. O coração bendito e eterno do nosso Santíssimo Salvador foi sobrecarregado e transpassado por dores indescritíveis em virtude dos nossos pecados. A cruz não é um elemento supérfluo, tampouco algo superficial; há uma densidade incalculável no evento do Calvário. As dores, os sofrimentos e as humilhações ali contidos atingiram o grau máximo de severidade. Quando Deus enviou Seu Filho para expiar nossas transgressões e satisfazer a justiça divina, Ele o fez para que Jesus suportasse a mais terrível das mortes. Ele atravessou as mais profundas agonias, tormentos que transcendem a capacidade da imaginação humana. Diferente daqueles que morreram como punição por seus próprios crimes, Cristo carregou sobre si o peso de todas as nossas iniquidades. É impossível mensurar a pressão psicológica e espiritual que Ele suportou em nosso favor.
 Diante de uma expressão tão concreta de profundidade, como podemos conceber a vida cristã, o culto e a adoração de maneira leviana? A cruz é o parâmetro absoluto; portanto, qualquer abordagem da sua mensagem desprovida de seriedade beira a blasfêmia. Não há qualquer traço de superficialidade na morte de Jesus Cristo, e, por isso, este deve ser o eixo central que orienta toda a nossa jornada espiritual. Aprecio profundamente uma citação de William Temple, que define o culto a Deus como o estímulo da consciência pelo reconhecimento de Sua santidade. Segundo ele, cultuar é conduzir a mente à contemplação da beleza divina e abrir o coração ao Seu amor, a fim de submeter a própria vontade aos Seus propósitos eternos. Tal definição expressa, com notável profundidade, a atitude essencial de quem ama e adora a Deus.

Que possamos, portanto, alcançar uma percepção profunda da realidade espiritual que define a vida cristã, conduzindo nossa existência sob o temor e a reverência devidos a Deus. Que isso não se restrinja apenas aos cultos, os quais não devem ser espaços de entretenimento ou mera animação, mas assembleias solenes dedicadas exclusivamente à adoração, colocando Deus Pai, Filho e Espírito Santo no centro de nossa atenção e de nossa alma.
 Que possamos experimentar uma alegria que transcenda a do homem mundano. Ainda que este se regozije ao encontrar riquezas materiais após um árduo esforço, sua satisfação é efêmera, visto que os tesouros deste mundo são passageiros. Diferentemente, ao vivermos na presença de Deus, desfrutamos do maior de todos os tesouros, que permanece não apenas nesta vida, mas por toda a eternidade. Não há bem mais precioso do que o próprio Deus. Ao compreendermos esta verdade, tornamo-nos cristãos mais espirituais, profundos e zelosos em nossa devoção. Seremos, assim, as pessoas mais felizes do mundo, pois nossa felicidade não emana de elementos superficiais, mas da fonte inesgotável que provém do trono da Suprema Majestade, que vive e reina para todo o sempre.

 

C. J. Jacinto

 

 

Maria e o Modelo de Piedade Bíblica.

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C. J. Jacinto

 

 

O primeiro capítulo do Evangelho de Lucas retrata Maria, mãe de Jesus, como um modelo exemplar de piedade cristã. A análise do perfil de Maria, conforme delineado por ela mesma e pelo evangelista Lucas, revela-se de suma importância para o desenvolvimento espiritual, o discernimento e a compreensão da fé. Ao examinarmos sua vida, somos convidados a refletir sobre a essência da piedade, compreendendo o que significa ser um homem ou mulher marcados por uma piedade que manifesta poder espiritual. Maria, portanto, apresenta-se como um modelo significativo a ser seguido, um exemplo perfeito de quem vive em obediência e submissão à vontade de Deus, o Santo e Todo-Poderoso.
Analisando o perfil de Maria, apresentado no primeiro capítulo de Lucas, podemos observar uma representação fiel do cristão segundo os ensinamentos bíblicos. Ao longo deste estudo, aprofundaremos a análise da figura de Maria, mãe de Jesus, e de seu exemplo de piedade, buscando compreender suas virtudes espirituais e a forma como podemos aplicá-los em nossas vidas. Desejo enfatizar, com convicção, que Maria personifica o perfil de um genuíno cristão bíblico, conforme as normas estabelecidas pelas Escrituras. Ela se destaca como as que estão entre as “santas mulheres que esperavam e Deus” (I Pedro 3:5), prossigamos em esperar em Deus somente, pois aquele que está sentado no Trono deve ser o centro da nossa bendita esperança

 A presente análise visa aprofundar a compreensão da espiritualidade de Maria, tendo como fonte primária o texto conhecido como "O Cântico de Maria". A partir do primeiro capítulo de Lucas 1, versículo 46, encontramos a declaração dela: "A minha alma engrandece ao Senhor". Na análise do termo original grego, o verbo "megaluno" revela um significado de exaltação ao Criador, transcendendo qualquer criatura. Não ela sendo exaltada por homens, mas ela exaltando ao Deus Todo-Poderoso. Isso implica em colocar Deus acima de todas as coisas, reconhecendo a existência de um trono no universo, além do próprio universo, do qual Deus é o soberano sobre todas as criaturas e sobre toda a criação. Maria colocou Deus Santo e Trino além de todas as coisas, exaltando ele acima de tudo, ninguém jamais pode desviar-se desse tão bendito caminho que ela trilhou!

 Em suma, "megaluno" expressa a elevação de Deus à sublimidade e à plenitude, ou seja, acima de tudo. Significa reconhecer a completa submissão ao Senhorio de Deus Pai Todo-Poderoso, colocando-O em seu devido lugar. Ao proferir "A minha alma engrandece ao Senhor", Maria direciona sua contemplação exclusivamente a Deus. Ponto fixo da verdadeira devoção que não pode ser removido por ninguém. (Leia Hebreus 2:18 Salmos 22:19, 46:11, 60:11, 121:1 e 2, 124:8) Que possamos dar o mesmo grito apostólico: “Mas alcançando o socorro de Deus ainda até os dias de hoje, permaneço dando testemunho” (Atos 26:22)


 Para aqueles que buscam seguir esse modelo de espiritualidade, a orientação é semelhante: voltar o olhar para o Senhor em sua soberania, para o Deus Todo-Poderoso. Após a consumação da obra redentora de Jesus Cristo na Cruz do Calvário, em consonância com a epístola aos Hebreus (12:2), somos chamados a contemplar a Cristo, autor e consumador da nossa fé. A contemplação da soberania de Deus e de Seu trono inevitavelmente nos conduz à contemplação de Cristo, que está à direita de Deus. Essa é a direção integral de nossa contemplação. Esse é o caminho da verdadeira espiritualidade bíblica. “Quanto a mim, contemplarei a tua face na justiça” (Salmo 17:15)

 Compreendemos aqui a essência da verdadeira espiritualidade cristã, conforme descrita nas Escrituras. O cristão genuíno, aquele que experimentou a regeneração, volta seus olhos para Deus, com um único propósito: glorificá-lo. Este é o cerne da vida cristã, que Deus seja exaltado em cada aspecto de nossa existência - em nossos pensamentos, sentimentos, ações, obras, momentos de reflexão e testemunho. O cristão bíblico busca glorificar a Deus em tudo. Seu lema de vida é: "Deus seja glorificado em nossa vida e em nosso viver".

 Consideramos, portanto, as palavras de Maria no versículo 47, onde se manifesta uma expressão de louvor cuja profundidade transcende a capacidade de quantificação. Ali reside a essência da espiritualidade e da qualidade de vida profunda que Maria possuía, ao declarar: "O meu espírito exulta em Deus, meu Salvador." A palavra "exulta", neste versículo, traduz a palavra grega "agaliao", enquanto "Salvador" provém de "soter". Percebemos, assim, a combinação do substantivo masculino "soter" com o verbo "agaliao", expressando uma profunda espiritualidade que, como mencionado, não pode ser totalmente apreendida em poucas palavras.

 Consideremos a palavra "alegrou-se". Que profunda expressão de gratidão emanava de Maria! Ela tinha um motivo para se alegrar. Qual era sua alegria? A alegria da salvação. A alegria de ter em Deus seu Salvador. Ela necessitava da salvação, assim como cada ser humano necessita. Embora tenha sido um instrumento escolhido por Deus, Maria precisava da misericórdia e da graça divina, como todos nós. Ela reconheceu essa verdade, e essa percepção foi fonte de alegria. A misericórdia de Deus a alcançou, assim como alcança cada um de nós. Essa alegria preencheu sua existência, a consciência de ter sido agraciada pela graça e misericórdia de Deus. Deus a alcançou através da salvação, e a salvação reside na alma que experimentou o perdão divino. Maria recebeu o perdão, a graça e a misericórdia de Deus. Crendo e aceitando essa realidade, Maria declarou que sua alegria residia em Deus, seu Salvador. Regozijamo-nos diariamente pela misericórdia de Deus que nos alcançou. Alegremo-nos pela grandiosa salvação que Deus nos concedeu por meio de Cristo. Estas questões devem permear nossos corações, guiando-nos a uma vida de constante gratidão a Deus. A emoção de Maria ao compreender ser agraciada pela salvação de Nosso Senhor e Salvador era sublime. Uma alegria plena, transbordante, emanava de seu coração, expressando palavras profundas. Seu exemplo de fé e emoções serve como modelo, demonstrando os sinais evidentes de nossa eleição e da promessa de vida eterna que Cristo nos oferece. Ele próprio declarou: "Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância", e também: "Eu lhes dou a vida eterna". A vivência espiritual e o bem-estar só podem ser alcançados através de Deus, o Deus Trino, e Maria tinha plena consciência disso. Ao chegarmos ao versículo 48, Maria declara que Deus considerou a humildade de sua serva. Que momento singular! Ela se identifica com esse papel, estabelecendo um contraste notável. Enquanto reis ocupavam tronos em diversas monarquias ao redor de Israel, Maria se autodenomina serva. Este é o título que encontramos para Maria no livro de Lucas e em todos os evangelhos. Deus contempla a servidão de Maria. A palavra "servidão" é um substantivo feminino, remetendo à palavra grega "doulos", da qual Paulo também se identifica, em Romanos 1:1. Aqui reside a grande maravilha: Maria se considera uma serva, alguém completamente submissa à vontade divina. Não seria este um modelo de espiritualidade autêntica? Não deveríamos buscar imitá-la? Certamente. Pois aqui temos uma mulher que se declara serva, o testemunho dessa submissão pode ser parafraseada nestas palavras: "Senhor, faça de mim o que queres, sou teu instrumento". Assim como o poeta cria a maior poesia através de um simples instrumento, a caneta e o papel, Deus toma Maria em suas mãos e a transforma em um exemplo sublime de servidão, digno de nossa admiração e imitação, um modelo de verdadeira e genuína espiritualidade a ser considerado por todo cristão. É fundamental ponderar a posição de Maria, que, em sua humildade, se apresenta diante do mundo. Maria, a Maria do cristianismo bíblico, a Maria do Novo Testamento, a Maria dos Evangelhos, uma serva do Senhor. Ela não é a senhora de seu destino e missão, Deus é Senhor sobre ela, e o senhorio soberano de Deus é o centro da sua devoção e da sua vida.

 A partir das declarações de Maria, podemos discernir uma verdade fundamental: ela se sentiu contemplada por Deus. Essa experiência me remete ao livro de Jó, capítulo 1, versículo 8, onde Deus atesta a retidão, a piedade e a integridade de Jó. Assim como Jó era objeto da atenção divina, Maria também o era. Deus observava a postura de Maria, mulher de grande piedade, modelo a ser seguido, pois ela irradiava as virtudes que os cristãos devem cultivar. Deus contemplava aquela que seria a mãe do Senhor, em virtude de sua servidão, sua submissão e sua completa dedicação, tornando-se instrumento nas mãos do Senhor para que o Messias viesse ao mundo. Assim Maria é a serva do Deus Bendito, uma vida de disponibilidade em fazer a vontade do Criador.

 Da mesma forma, nós, cristãos, podemos proclamar o Evangelho e levar Cristo ao mundo, sendo testemunhas de sua ressurreição. Podemos apresentar Cristo ao mundo, demonstrando que Ele está vivo e reina no trono celestial. Assim como Maria trouxe Jesus ao mundo, podemos trazer Jesus ao coração dos outros através da proclamação do Evangelho e do testemunho de nossa própria vida. E Deus, certamente, contempla aqueles que trilham esse caminho, o caminho do testemunho. A dignidade humana reside na contemplação divina, independentemente da opinião alheia. O olhar de Deus sobre nós, e não a avaliação de outros, é o que verdadeiramente importa. A mais alta honra é ser objeto da atenção do Senhor, e em nossos dias, a escassez de homens piedosos e virtuosos é evidente. Para merecer a contemplação divina, é preciso servir com humildade, submetendo-se à vontade de Deus, mesmo que isso implique em riscos e sacrifícios. É a entrega absoluta, o instrumento da vontade divina que nos eleva. Ainda mais notável é a afirmação de Maria de que todas as gerações a proclamariam bem-aventurada. A razão para essa bem-aventurança reside em sua condição de serva. A humildade e a disposição para servir ao Senhor são qualidades de grande valor aos olhos divinos. Os anjos testemunham a importância da humildade na vida de uma pessoa. Quanto maior a nossa dependência do Senhor, mais Ele nos utiliza. A própria resposta divina a Paulo, de que o poder de Deus se manifesta na fraqueza, ilustra essa verdade. Ao reconhecer em Maria um exemplo de humildade, submissão e serviço, Deus a elegeu como instrumento apropriado para a vinda do Messias.

A escolha divina é seletiva: Ele escolhe os simples, os humildes, os servos e aqueles que se submetem à Sua vontade. Ele escolhe aqueles que cultivam a virtude da humildade em seus corações e a manifestam em suas vidas. Deus não busca aqueles que se exibem em público, mas sim aqueles que buscam a Sua presença em particular. Ele não procura aqueles que dependem da fama religiosa para se autopromoverem, mas sim aqueles que, em submissão e serviço, buscam realizar a vontade divina, desconsiderando a própria reputação. O que realmente importa é agradar a Deus por meio de uma vida dedicada à concretização de Seus propósitos.

 Ser um instrumento de Deus é não ter vontade própria, não ser autossuficiente. Maria personificou essa condição. Ela não era autossuficiente nem onipotente. Por isso, o Deus Todo-Poderoso utilizou sua humildade e fraqueza para realizar obras extraordinárias. Deus opera dessa maneira, realizando feitos notáveis por meio daqueles que se mostram simples e disponíveis.
 Todos os cristãos, aqueles que genuinamente abraçam a fé, reconhecem sua própria humildade diante da grandeza divina. Sabem que, embora suas palavras possam parecer limitadas, a mensagem do Evangelho que carregam e proclamam é de uma grandiosidade incomensurável. Compreendem que, por si sós, são incapazes de realizar qualquer obra de valor duradouro.
 Jesus, no Evangelho de João, capítulo 15, ao falar sobre a videira verdadeira, afirmou: "Sem mim, nada podeis fazer". Essa verdade se estende a todos. Sem Deus, nada podemos alcançar. Sem Deus, Maria, Paulo e Pedro não teriam cumprido seus propósitos.

Reconhecemos, portanto, nossa total dependência do Criador, em quem respiramos, nos movemos e existimos. (Atos 17:28) É por meio Dele e da dependência de Sua misericórdia que podemos atingir a plenitude espiritual e viver uma vida piedosa. A vida piedosa, em sua essência, é a consequência natural de uma vida guiada, controlada e repleta do Espírito Santo. Observamos, igualmente, a humildade e a sinceridade de Maria. Notemos sua declaração: "Todas as gerações me considerarão bem-aventurada". Qual a razão para essa ênfase numa atenção universal? Ela mesma responde: "Porque o Todo-Poderoso fez em mim grandes coisas". A iniciativa não partiu dela, mas da vontade divina. Deus agiu por intermédio de Maria, que se tornou o instrumento para a realização de seus grandiosos desígnios. Ela colocou em Deus o ponto nevrálgico central de todo o milagre, não foi Maria quem fez o milagre, mas Deus quem fez grandes milagres através de Maria. O grande Senhor trabalhando através de uma humilde serva

 Maria não atribuiu a si mesma a capacidade de realizar grandes feitos para Deus. Ao contrário, ela reconheceu não possuir forças próprias para tal. As grandes obras foram realizadas por Deus através de Maria, pois, em sua humildade e entrega absoluta, ela se tornou o instrumento escolhido por Ele. Assim, é fundamental compreendermos essa verdade, mantendo a perspectiva correta, conforme revelada no texto em análise. A exegese cuidadosa das declarações contidas no texto nos revela essa realidade. A minha alegria e o regozijo do meu coração provêm da certeza de que Deus opera de maneira extraordinária quando nos entregamos completamente a Ele, permitindo que sejamos instrumentos de Sua graça para abençoar outras pessoas.

 A manifestação da grandeza divina se revela através da humildade, pois esta é o terreno fértil onde as sementes do poder divino florescem. É na humildade que o amor resplandece com maior intensidade, razão pela qual Cristo, o Redentor, veio como o Cordeiro de Deus que expia os pecados do mundo. Na ocasião em que o homem buscou eleger um rei para Israel, a escolha recaiu sobre Saul, homem de porte físico imponente e de grande atrativo. Contudo, quando Deus selecionou um rei , a escolha foi recair sobre um jovem desprezado aos olhos dos homens, um homem humilde que, na solidão dos campos, pastoreava ovelhas. Seu nome era Davi. Aquele que se humilha para que Deus seja exaltado experimentará as maiores e mais sublimes expectativas. Todo instrumento que se entrega à ação divina tem a oportunidade de deixar um legado espiritual significativo para o mundo.
Toda geração espiritualmente equilibrada terá como foco central a devoção a Deus e a vivência diária da fé. A compreensão de que Deus é a fonte de tudo em todos é fundamental. O sentimento mais nobre surge, desenvolve-se e prospera no coração que acolhe essas verdades essenciais, pois este coração adentrou o caminho da mais sincera devoção espiritual. Isso significa, acima de tudo, amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente.

“Porque está escrito: Como eu vivo, diz o Senhor, que todo o joelho se dobrará a mim, e toda a língua confessará a Deus” (Romanos 14:11  veja também Isaias 45:23 e Filipenses 2:9 a 11)


 É evidente, e qualquer pessoa atenta perceberá, que Maria não busca protagonismo. Ela não almeja, nem exige, nem procura desviar o foco para si mesma; antes, direciona toda a atenção ao Senhor. Ele, Deus, é o centro de sua vida. Diante disso, podemos considerar esta, sobre a pessoa de Maria, uma das declarações mais teocêntricas das Escrituras Sagradas. Isso me remete a Colossenses, capítulo 1, versículo 18, onde se afirma que em tudo Ele, Cristo, deve ter a preeminência. Maria, de fato, conferiu a Deus a primazia em todas as suas ações. Ela abriu mão de qualquer destaque pessoal, dedicando a Deus toda a sua vida, atenção e devoção. Esse é, portanto, o caminho seguro para a prática da piedade cristã. É dessa maneira que o cristão bíblico deve ser e permanecer.


 É imprescindível que compreendamos essa questão de forma definitiva. Maria, reconhecendo sua posição como criatura, coloca-se humildemente perante Deus, o Criador. Ela é, portanto, o instrumento, e Deus, Aquele que a utiliza. Essa reflexão evoca o Salmo 100, versículo 3, onde o salmista declara: "Sabei que o Senhor é Deus; foi ele que nos fez, e dele somos; somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio". Assim, podemos entender Maria como instrumento de Deus, por ser sua criatura, sua serva. Diante dessa realidade, Maria reconhece que a devoção não lhe é direcionada, mas sim a Deus. Consequentemente, a vida de Maria é integralmente teocêntrica. Do versículo 48 ao 54 do capítulo 1 de Lucas, fica evidente, de maneira clara e concisa, a centralidade de Deus na vida de Maria. As evidências que se seguirão demonstrarão que Maria dirige seu olhar inteiramente  a Deus, ao Senhor, Suprema e Bendita Majestade, de modo que a primazia e a preeminência pertencem única e exclusivamente ao Deus Triúno.

 Portanto, podemos discernir que Maria busca orientar-nos a uma vida centrada em Deus. Ela o apresenta como a fonte primordial, o agente principal e o soberano absoluto de todas as coisas. Seu desejo é que adotemos essa centralidade divina, vivendo uma vida teocêntrica. Observamos, assim, de maneira clara, que sua conduta visa direcionar nosso olhar ao Senhor, reconhecendo-O como a fonte de tudo. Maria atribui a Ele toda a honra e, em sua humildade, se coloca a serviço. Ela exalta a Deus como a causa, o supremo, o onipotente, o administrador e o responsável por todas as ações. Refletindo o versículo 48, ela declara que Deus contemplou sua humildade. No versículo 49, atribui ao Poderoso as grandes coisas realizadas em sua vida. No versículo 50, proclama a misericórdia divina que se estende por gerações. No versículo 51, testemunha a ação de Deus com o braço forte. Ainda no versículo 51, descreve Deus agindo na dispersão dos soberbos. No versículo 52, relata a queda dos poderosos de seus tronos. No versículo 53, narra a exaltação dos humildes e a partida dos ricos de mãos vazias. E, no versículo 54, declara o amparo de Deus a Israel, seu servo. Evidencia-se, de forma concisa, que Maria é totalmente teocêntrica, reconhecendo a constante atuação, o amparo e a escolha de Deus. Maria é um exemplo de vida teocêntrica, e todo cristão bíblico deve ter a Trindade Divina como o centro de sua vida, sua atenção e sua teologia. Essa é a doutrina, a essência do ser um homem espiritualmente piedoso e estritamente bíblico, tal como Maria foi.  Antecipadamente, faço a suma, apresento Maria como exemplo autêntico de piedade. O Novo Testamento oferece um retrato detalhado de sua vida, revelando uma espiritualidade profunda. A verdadeira espiritualidade cristã, aquela que emana da fé bíblica e da regeneração espiritual, se manifesta em uma vida dedicada a Deus, como foi a vida de Maria. Ela demonstrou submissão e serviço a Deus, qualidades que nos oferecem ricas e valiosas lições. Essas características refletem a essência de uma espiritualidade genuinamente bíblica e guiada pelo Espírito Santo, que inspirou Lucas a registrar ensinamentos preciosos sobre a mãe de Jesus. Podemos aplicar essas lições em nossas vidas, aprendendo que devemos direcionar nossa existência completamente a Deus, que, em sua graça e misericórdia, nos utiliza como instrumentos para a realização de seus propósitos, a fim de que a causa do Evangelho seja promovida e a vontade divina se cumpra através de nós. 

“Deus sempre e totalmente engrandecido através de vasos frágeis que não desejam glórias ou grandeza para si mesmas, mas desejam que todos olhem para as grandezas, majestade e poder de Deus, que sejam todos os olhos fixos na soberania eterna e infinita do Deus Triúno”