A Banalização da Graça

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 A Sutileza da Banalização da Graça: Como Reconhecer o Verdadeiro Valor do Favor Divino

Um guia didático para entender o que é — e o que não é — a graça de Deus


Introdução: O que é Graça, Afinal?

Se você frequenta uma igreja, já ouviu a palavra "graça" incontáveis vezes. Mas será que entendemos realmente o que ela significa? Na Bíblia, graça é favor imerecido. Simples assim. É receber algo bom sem ter direito a isso, sem ter trabalhado para merecê-lo, sem ter sido digno.

A Teologia clássica define graça como um presente divino que nasce exclusivamente no coração de Deus, não nas nossas mãos. Não é resultado de esforço humano, de boas ações ou de rituais religiosos. Ela vem de Deus para o homem, e não o contrário.

Mas aqui está o problema: ao longo dos séculos, a doutrina da graça foi distorcida, barateada e, em muitos casos, banalizada. E essa distorção não acontece apenas em púlpitos — ela pode estar bem no nosso cotidiano espiritual, de forma tão sutil que nem percebemos.


A Origem da Necessidade: Por Que Precisamos de Graça?

Para compreender o valor da graça, precisamos olhar para a origem da nossa condição. A Bíblia conta que Adão e Eva desobedeceram a Deus de forma livre e voluntária (Gênesis 3.17). Esse ato, conhecido como "a queda", não afetou apenas o primeiro casal — estendeu-se a toda a humanidade (Romanos 5.12).

O resultado? O ser humano se encontrou preso em uma condição da qual não conseguia se libertar sozinho. E aqui entra um princípio fundamental: Deus é justo e santo. Ele não deixaria o pecado impune. A justiça divina exigia satisfação.

Foi então que o amor de Deus encontrou um caminho. Ele proviu um meio para salvar o ser humano sem abrir mão da sua justiça. Em Cristo, a justiça de Deus foi plenamente satisfeita, e o maior resultado disso é que, por meio de Jesus, o homem alcança o perdão dos pecados e a reconciliação com Deus (Romanos 5.1, 10).

Em outras palavras: sem a graça de Deus, não haveria salvação. Não há escada humana que alcance o céu. Não há mérito, esforço ou boa intenção que supra essa necessidade.


O Alto Preço de Um Presente Gratuito

Aqui mora uma das maiores confusões sobre a graça. Quando dizemos que a salvação é "de graça", muitos entendem que não houve custo. Mas isso é um engano perigoso.

Para você, a graça custou nada. Mas para alguém, custou caro demais.

A Bíblia deixa claro que fomos comprados por preço (1 Coríntios 7.23; 6.20). A salvação é gratuita na medida em que não podemos pagá-la, mas ela teve um preço inestimável: o sangue de Jesus (1 Pedro 1.18, 19). Somos salvos pela graça, mas não de graça, no sentido de algo sem valor.

Essa distinção é vital. A graça tem valor inestimável. Tratá-la como algo barato é menosprezar o sacrifício de Cristo.


Como a Graça Foi Corrompida ao Longo da História

A Igreja primitiva foi fundamentada na doutrina dos apóstolos e profetas. Mas com o tempo, a mensagem começou a ser desfigurada. A salvação pela fé em Cristo foi aos poucos substituída pela salvação pelas obras (Romanos 1.17). A fé se tornou meritória — algo que o ser humano deveria conquistar.

A situação agravou-se no período medieval, quando a comercialização da fé se intensificou. O papado promovia procissões, peregrinações e indulgências, prometendo aos devotos que essas práticas amenizariam ou até extinguiriam o tempo de penitência no purgatório. A graça deixou de ser um presente de Deus para se tornar um produto que podia ser negociado.

Foi diante desse cenário que Deus levantou Martinho Lutero. Ao estudar as Escrituras, Lutero percebeu que os dogmas da Igreja da época eram antibíblicos. O movimento que ele iniciou — a Reforma Protestante — trouxe de volta a centralidade da Bíblia e restaurou a doutrina da graça.

Dentre os princípios da Reforma, destacaram-se os Cinco Solas, e um deles resume exatamente o que estamos discutindo: Sola Gratia, ou "Somente a Graça". A salvação não é pela minha inteligência, pelo meu dinheiro, pelas minhas obras ou pela minha religiosidade. É somente pela graça de Deus.


A Graça Barateada: O Perigo da Banalização

Hoje, a distorção não vem mais na forma de indulgências, mas de uma ideia ainda mais sutil: a graça barateada.

O que é graça barateada? É aquela que outorgamos a nós mesmos. É a graça que permite amar o mundo, viver sem arrependimento e continuar na prática do pecado sem nenhuma mudança real de vida. É o "Deus já fez tudo, então não preciso fazer mais nada" — aplicado de forma distorcida.

A graça barateada prega perdão sem arrependimento e salvação sem santificação (Hebreus 12.14). Ela transforma a graça de Deus em uma licença para pecar. E isso é exatamente o que o apóstolo Paulo combateu quando escreveu: "Permaneceremos no pecado para que a graça abunde? De maneira nenhuma!" (Romanos 6.1, 2).

A graça de Deus é maravilhosa, mas ela precisa ser entendida e aplicada à luz da verdadeira doutrina. E a régua para isso é, sempre será, a Bíblia.


Universal, Mas Não Universalista

Outro ponto que merece atenção é o alcance da graça. A Bíblia ensina que a graça é oferecida a todos e a favor de todos (Tito 2.11; 1 Timóteo 2.4). Ela tem caráter universal.

Mas cuidado: universal não é universalista.

A graça está à disposição de todos, mas ela só se torna eficaz para a salvação na vida daquele que crê (Marcos 16.16; João 6.47). O ensinamento de que, no final, Deus salvará todos — inclusive aqueles que rejeitaram a Cristo e viveram de forma dissoluta — é falso e perigoso (Atos 16.31; 3.19).

A graça é um convite, não uma imposição. Deus respeita a nossa resposta. Crer e arrepender-se, confessando Jesus como Salvador, são condições que a própria Escritura apresenta (Romanos 10.9; Atos 2.38).


Graça Comum: O Cuidado de Deus com Todos

Antes de encerrar, vale destacar uma dimensão da graça que muitos ignoram: a graça comum.

Ela se refere a todos os elementos que sustentam a vida na terra — o ar que respiramos, a chuva que cai, a comida na mesa, a capacidade de trabalhar, de criar, de amar. Jesus disse que Deus faz o sol nascer sobre bons e maus (Mateus 5.45).

Isso significa que, quer a pessoa aceite Deus ou não, sua vida está nas mãos dEle e é sustentada pela Sua graça. Não há vida humana fora do cuidado divino. Reconhecer isso é desenvolver uma gratidão profunda, mesmo pelas coisas que consideramos "normais".


Conclusão: Como Viver a Graça sem Banalizá-la

A graça não é um conceito teológico distante. Ela é a realidade mais próxima da nossa existência espiritual. Mas para não cairmos na sutileza da sua banalização, precisamos manter três princípios em mente:

Primeiro, lembre-se de onde você veio. Antes de conhecer a graça, a nossa condição se assemelhava à de alguém que deve uma quantia impagável (Lucas 7.42; Efésios 2.4-5). Não havia solução humana. A graça nos alcançou quando estávamos sem recursos.

Segundo, nunca separe a graça da santidade. A graça que salva também transforma. Ela não deixa o pecado impune e não deixa o pecador imóvel. O arrependimento genuíno produz mudança de vida.

Terceiro, meça toda compreensão sobre graça pela Bíblia. Não é pela nossa intuição, pela cultura religiosa ou pelo que soa confortável. A Palavra de Deus é e sempre será a régua.

A graça é divina, imerecida, universal e inestimável. Ela nos alcançou quando não merecíamos nada, pagou um preço que não podíamos pagar e nos ofereceu um destino que não poderíamos alcançar.

Que possamos recebê-la com gratidão, vivê-la com reverência e nunca, jamais, tratá-la como algo barato.

 

A graça nos ensina que saímos da queda do estado da rebelião para uma vida de desfrute de comunhão restaurada com Ele e uma submissão voluntaria e prazerosa em fazer a Sua vontade pelo caminho da obediência

“Na verdade, esse é o sentido de graça, palavra que Paulo usa 100 vezes, do total de 155 ocorrências no Novo Testamento. Duas de cada três ocorrências dessa importante palavra cristã estão nos textos de Paulo. Para ele, a graça era uma realidade gloriosa, e o apóstolo estava sempre se referindo a ela de  alguma forma. Não é exagero dizer que, para Paulo, tudo o que Deus faz é pela graça; é tudo expressão da graça. E como podemos entender a graça sem o amor divino?” (Leon Morris – Teologia do Novo Testamento – Edições Vida Nova)

A graça nunca foi um meio de conduzir ou induzir um cristão ao erro, mas a via permanente para nos restaurar perante Deus para uma vida de santidade.

 “Pecado é rebelião porque ele é só um elemento secundário. O elemento primário é aquela boa, agradável e perfeita vontade de Deus da qual nos desviamos e para a qual somos restaurados pelo poder assombroso e inspirador da graça divina em Jesus Cristo.” (James Montgmery Boice - Fundamentos da Fé Crista)  

 

 

 

COMO SER UM CRISTÃO ESPIRITUAL

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C. J. Jacinto

 

 

A passagem de Lucas, capítulo 10, versículos 38 a 42, sempre foi objeto de minha profunda reflexão. Nela, encontramos a narrativa sobre Marta e Maria. Podemos ler o trecho relevante nestas palavras: "E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou Jesus numa aldeia; e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa. E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, sentando-se aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Marta, porém, andava distraída em muitos serviços; e, aproximando-se, disse: Senhor, não se importa que minha irmã me deixe servir sozinha? Dize-lhe, pois, que me ajude. E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas; porém, uma só coisa é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada." 

 Extraímos valiosas lições desta passagem, que nos apresenta duas mulheres na presença de Jesus: Marta e Maria. Suas condutas, embora distintas, oferecem um rico panorama de aprendizado. Através do comportamento e das reações de ambas, diante da presença gloriosa de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, podemos discernir princípios importantes para nossa vida. Creio que este trecho nos proporciona inúmeras oportunidades de crescimento espiritual. Marta e Maria eram irmãs. Ambas eram irmãs de Lázaro, a quem o Senhor ressuscitou. A aldeia mencionada no texto é Betânia, situada nas encostas do Monte das Oliveiras, a aproximadamente três quilômetros de Jerusalém. Observamos, nessas duas mulheres, um exemplo do qual podemos extrair ensinamentos sobre a vida espiritual. Maria estava aos pés do Senhor, enquanto Marta estava a serviço. Contudo, algo digno de nota se manifesta: embora ambas seguissem Jesus, havia uma distância entre elas, tanto em comportamento quanto em situação. Marta estava preocupada com as tarefas materiais, enquanto Maria se dedicava às questões espirituais. Maria estava próxima de Jesus, ao passo que Marta permanecia distante, não apenas fisicamente, mas também em espírito. Essa distinção nos oferece importantes lições. O primeiro ponto de contraste evidente entre Marta e Maria reside no fato de que Marta se ocupava com atividades alheias à presença de Jesus. Marta, distraída por suas tarefas, demonstrou uma falta de percepção sobre o que realmente importava, priorizando questões secundárias em detrimento dos fundamentos da vida espiritual, da presença de Deus e de Cristo. Para ela, a companhia de Jesus e seus ensinamentos não eram prioridade, mas sim o afã da preparação. Em contrapartida, Maria escolheu estar aos pés do Senhor, absorvendo seus ensinamentos. Essa distinção nos remete à contemporaneidade, onde, em muitas igrejas, especialmente aquelas influenciadas por tradições pós-modernas e filosofias humanistas, observa-se um afastamento dos ensinamentos de Jesus, talvez até em uma condição pior do que a da igreja de Laodiceia. Nesses casos, o entretenimento, os assuntos mundanos e as preocupações materiais frequentemente se sobrepõem à busca pela presença do Senhor e pela compreensão de seus ensinamentos. A busca pelo que edifica é substituída pelo que emocionam, as atividades religiosas estão no movimento e não na contemplação, tudo se move em torno de ações que evidenciam um verdadeiro show business, a pregação bíblica fiel, temática, textual ou expositiva são substituídas por sermões curtos psicologizados e antropocêntricos, uma injeção de otimismo emocional, psicodélico espiritual para anestesiar a alma ao êxtase religioso. Longe das Palavras de Cristo.

 Com efeito, impõe-se a necessidade de sermos francos conosco, pois reconhecemos que um dos maiores obstáculos a serem superados, um desafio persistente em nossas vidas, reside na capacidade de concentração. Em outras palavras, a habilidade de direcionar o foco para o que realmente importa. Na vida cristã, observa-se frequentemente uma dinâmica semelhante. Notamos o comportamento, a atenção e a concentração dos presentes durante um culto, em especial diante da mensagem que lhes é apresentada. Percebemos que manter o foco e a atenção integralmente voltados para o propósito principal do culto – a adoração, a escuta da Palavra de Deus – é um desafio constante. Isso exige disciplina, não admirável que Paulo em suas cartas compare o cristão como um soldado ou um atleta, funções que no contexto paulino, exigiam extrema disciplina.  Em alguns casos, a experiência do canto pode parecer mais atraente do que a escuta atenta.
 Em certos contextos, a popularidade de igrejas que enfatizam o canto, a dança e o entretenimento tem se destacado. As multidões parecem buscar essa experiência. Essa forma de espiritualidade, similar à atitude de Marta na narrativa bíblica, pode desviar a atenção da essência e do fundamento da fé. O ensino e a escuta da voz do Espírito Santo podem perder sua importância, sendo substituídos, em alguns casos, pelo entretenimento religioso, que caracteriza o culto moderno.  Portanto, depreende-se que a tendência inerente ao ser humano, em sua condição natural, é a de desviar o foco do essencial e do fundamental. Se nossos cultos exigirem atenção e concentração plenas para uma compreensão aprofundada, visando à formação de adoradores genuínos e à absorção completa dos ensinamentos, corremos o risco de cair numa monotonia póstuma ou ficar sob efeito de dependência do show antropocêntrico. A satisfação humana em lugar da obediência a Deus. A rejeição ao culto bíblico, ordenado, a posição de Maria, quieta aos pés do Senhor, ouvindo Cristo e tendo comunhão com Ele, é substituída por essa abordagem motivada pelo anseio por um ambiente que proporcione alegria, entretenimento e muito prazer emocional. No entanto, essa busca por satisfação imediata e emocional se assemelha à perspectiva de Marta, que prioriza a atividade em detrimento da edificação espiritual, da iluminação e do crescimento interior. Em vez de buscar o benefício espiritual, essa abordagem prioriza a satisfação do ego.

 É possível, com efeito, desenvolver uma teologia sólida e uma doutrina saudável, fundamentada em crenças profundas, como a doutrina da onipresença divina. Cremos, de fato, na presença constante do Senhor, atributo inerente à divindade. Deus, em sua natureza trina, manifesta-se no culto. Sua presença é uma realidade inquestionável. Contudo, essa compreensão teológica pode se tornar estéril se negligenciarmos a importância da presença divina no culto. É nesse ambiente sagrado que Deus se manifesta de maneira singular, especialmente quando a adoração é autêntica, o louvor sincero e a pregação fiel, com a exposição dos ensinamentos de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Onde o Evangelho é proclamado, Cristo também está presente. Para Maria, a presença de Cristo estava associada a ouvir tudo o que Ele tinha a dizer, nos cultos modernos, os participantes não conseguem ficar sentados aos pés de Cristo para ouvir, espiritualidade nesse contexto é sinônimo de movimento e não de atenção e reverencia! Um culto que prioriza a exigência de escutar com toda a atenção a pregação expositiva, torna-se extremamente tedioso e monótono para todas “martas” viciadas no movimento do ego que flutua distante da presença de Cristo e da Sua Palavra.

 Assim, compete a nós reconhecer a relevância dessa realidade, não apenas em termos teóricos, mas também por meio de nosso comportamento e convicção. As Escrituras Sagradas nos ensinam que nossa comunhão é com o Pai e com Seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. Comunhão implica intimidade, como a de Maria, que se encontrava aos pés do Senhor. A distância observada entre Marta e Jesus, por exemplo, não refletia essa intimidade.
 Diante desta conjuntura, torna-se evidente que a intimidade com o Senhor se estabelece a partir do contato com a comunhão com Ele e com Sua Palavra. É fundamental ressaltar que a associação de Maria com a proximidade de Jesus, conforme narrado nos Evangelhos, exemplifica a importância de receber e internalizar Seus ensinamentos.
É evidente, e desejo enfatizar de forma clara e precisa, que a relação de Maria com Jesus transcende a emoção. Maria não experimenta êxtase ou comoção; sua interação com Ele não se baseia em sentimentos. Ela se entrega a essa intimidade por meio da razão, do intelecto, pela consciência da palavra e dos ensinamentos de Jesus, e não através de uma experiência subjetiva. Trata-se de algo prático, objetivo: a presença real de Deus em nossas vidas por meio da palavra. Maria, atenta à palavra, contrastava com Marta, que se preocupava com atividades externas, desviando sua atenção dos ensinamentos de Cristo. A presença de Deus, portanto, não reside na emoção e nos sentimentos subjetivos, mas em ouvir e nutrir-se espiritualmente através da proclamação fiel da Palavra, que se constitui o caminho para a vivência autêntica da presença divina e que se constituem os alicerces da vida cristã (Mateus 7:24)


Lamentavelmente, observa-se uma considerável confusão acerca da experiência da presença de Deus. Conseqüentemente, muitos buscam percursos espirituais que divergem dos ensinamentos bíblicos, como a busca da presença divina através da música. É inegável que a música possui a capacidade de evocar emoções profundas. Inclusive, mesmo indivíduos céticos podem experimentar emoções intensas ao ouvirem música, seja de amor, seja de natureza melancólica.  Em alguns casos, um descrente, ao ouvir uma canção de outrora, pode rememorar muitas experiências passadas, especialmente todas aquelas relacionadas as paixões da mocidade.  Ao escutar músicas românticas, um indivíduo de idade avançada pode reviver lembranças da juventude e de suas paixões, comover-se e sentir-se profundamente tocado por essas recordações. Isso ocorre porque a música tem o poder de proporcionar tais experiências emocionais profundas e causar alegrias, êxtases ou sentimentos nostalgicos. Grupos carismáticos pós-modernos fazem uso disso para promover uma espiritualidade falsificada, muitas pessoas se emocionam com musica cristã contemporânea e confundem isso com “presença de Deus”.

 Em contraste, Maria não estava cantando, nem dançando, nem se entregando a celebrações. Ela permanecia em silêncio aos pés do Senhor, atenta à Palavra de Cristo, aos Seus ensinamentos, escutando-O. Essa era a essência da intimidade de Maria com Cristo. Aqui temos os fundamentos da verdadeira espiritualidade e o caminho para a experiencia da verdadeira presença de Deus. Quanto mais temos da Sua Palavra, mais aprendemos acerca da Sua Pessoa e de Seus Atributos.

 A Escritura Sagrada nos convida à intimidade com Deus. Essa relação, contudo, possui um propósito definido. Como podemos compreender essa dinâmica? Em Tiago, capítulo 4, versículo 8, o apóstolo declara: "Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós". Mas qual é a finalidade dessa proximidade? Tomemos Maria como exemplo. Ela se encontra aos pés do Senhor. Qual é a sua motivação? Qual o objetivo de sua quietude e presença na intimidade com Ele? Simplesmente ouvir. Ela anseia por aprender. O ensinamento é o alimento da alma, a fonte da percepção espiritual, a luz que ilumina, a edificação que fortalece, a graça que sustenta e a base de um relacionamento correto com Deus. Portanto, a intimidade com o Senhor visa, acima de tudo, o recebimento de Seus ensinamentos. Não se trata de uma experiência mística, mas, conforme o cristianismo ensina, a comunhão com Deus tem como propósito principal a instrução divina.

 Há um Salmo específico que aborda esta questão, o Salmo 119, mas há outro que também é muito especial e que se revela crucial para compreendermos nossa relação com Deus por meio de Sua Palavra. No Salmo 139, somos informados que Deus possui um conhecimento profundo de cada um de nós. De modo análogo, devemos buscar um conhecimento profundo de Deus. A intimidade é construída através do conhecimento; quanto mais nos aproximamos do Senhor, mais compreendemos a respeito de Sua natureza. E isso quando nós somos santificados pela Sua Palavra (João 17:17) um culto não pode ser santificado de forma bíblica se a Palavra de Deus é destituída da sua importância para ser substituída por muitas atividades religiosas e ritualísticas.

  Aprofunde-se nesta análise para alcançar uma compreensão mais rica do relacionamento com Deus e um conhecimento adequado e profundo de Sua pessoa. Onde encontramos a revelação dos atributos, qualidades e atribuições de Deus? Somente na Bíblia, fonte de todas as informações sobre o Deus revelado nas Escrituras. Assim, quanto mais aprendemos sobre Deus e Sua vontade, mais nos assemelhamos a Maria, que se sentou aos pés do Senhor para ouvir, isso é quietude, reverencia e prontidão para ouvir, sem pressa e com toda a atenção ao que Deus deseja falar, concentração e coração aberto para aprender.

 Aqueles que buscam entretenimento, que se dedicam a um interesse meramente religioso, que procuram êxtases ou outros tipos de experiências místicas, almejam uma presença subjetiva, distante e sem o devido entendimento do Senhor. A distância não permite que se compreenda a essência e a natureza de Deus. Marta exemplifica essa postura, com seu foco desviado de Jesus, de Seus ensinamentos e Seus atributos. Maria, por outro lado, adquiriu conhecimento através da intimidade, ao ouvir a Palavra do Senhor porque estava próxima do Senhor da Palavra.
 Atualmente, muitos que professam buscar a presença de Deus se encontram na mesma posição de Marta: distantes, buscando a presença divina através de emoções, entretenimento e atividades humanas, esforçando-se por seus próprios méritos para alcançar a proximidade com Deus. Contudo, a verdadeira proximidade com Deus surge da entrega completa a Ele, o acesso a presença de Deus não um mérito do suor humano, mas pelo sangue de Cristo. “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuario, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hebreus 10:19 e 20) Maria entregou-se totalmente a Cristo, com um único objetivo: ouvi-lo, estar atenta à vontade de Deus, aos Seus ensinamentos.

 A questão central é: em um culto, na leitura da Bíblia ou na oração, qual é a motivação principal? A satisfação emocional ou a busca pela vontade de Deus em sua vida?
Compreendemos, em alguma medida, que o próprio Cristo nos instrui acerca desses princípios espirituais que ora menciono, especialmente no que concerne à intimidade. No capítulo 6, versículo 6, do Evangelho de Mateus, Jesus ensina aos discípulos a recolherem-se ao aposento, fecharem a porta e ali orarem ao Pai, evidenciando a intimidade com Deus. Observamos que o ambiente proposto é simples, representando uma entrega, longe dos olhares alheios, uma busca pela solidão com Deus, com o coração inteiramente direcionado a Ele. O principio espiritual é evidente, a intimidade com o Senhor é algo muito pessoal, num culto, a maioria pode se comportar como Marta, mas você é chamado a ser como Maria.

 No livro de Jeremias, capítulo 29, versículo 13, encontramos a promessa de que aqueles que buscam a Deus de coração O encontrarão. Jesus, em confronto com os fariseus no capítulo 15, adverte que eles honram o Senhor com os lábios, mas seus corações estão distantes. Essa é a questão central: onde está o foco do nosso coração? Pois Jesus ensina que onde estiver o nosso coração, ali estará o nosso tesouro. (Lucas 12:34) Onde estava o coração de Marta? O coração de Marta estava em suas atividades. Ela queria chamar a atenção para si mesma, queria ser o centro das atenções. Onde estava o coração de Maria? O coração de Maria estava em Cristo, contemplando-O e ouvindo-O. Essa é a questão fundamental. Enquanto nosso coração não estiver concentrado em Cristo, enquanto nossa atenção não estiver voltada para Ele, enquanto não nos dispusermos a ouvi-lo, por meio da escuta atenta aos seus ensinamentos, não compreenderemos verdadeiramente o que é a verdadeira espiritualidade e o que significa ser verdadeiramente espiritual.

 Na atualidade, a espiritualidade é frequentemente associada à intensidade emocional, contudo, ao observarmos Maria aos pés de Jesus, percebemos que a espiritualidade autêntica reside em ouvir atentamente, em vez de priorizar as emoções. A maioria daqueles que se autodenominam cristãos atualmente demonstra uma intimidade superficial e artificial com a fé. Em vez de uma conexão genuína, observa-se uma intensa atividade em atividades religiosas: cantam hinos, cumprem agendas eclesiásticas e participam de múltiplos cultos. Essa intensa atividade, muitas vezes, serve a interesses pessoais e à busca de satisfação própria. Na verdade aqueles que se distanciam da verdade tendem a não suportar a as doutrina.

Contrastando com essa realidade, a atitude de Maria, registrada nos evangelhos, revela uma profunda conexão espiritual. Maria, aos pés de Jesus, demonstrava um genuíno interesse em ouvir e aprender com Ele, buscando compreender a essência do Evangelho e os ensinamentos da Palavra de Deus. Como Paulo enfatizou, a essência do ministério cristão reside em ensinar todos os conselhos de Deus. A atenção de Maria se concentrava em absorver os ensinamentos de Cristo, demonstrando a verdadeira espiritualidade.
Por outro lado, as ações de Marta representam a religiosidade superficial e emocional, caracterizada por uma intimidade frágil e distante da verdadeira fé, apesar da aparente dedicação às atividades religiosas. Embora suas ações fossem visíveis, a profundidade da relação com Cristo não era evidente. A Escritura Sagrada apresenta um diagnóstico, um indicativo da experiência humana em relação a Deus. Maria, ao contrário de Marta, parecia possuir essa sensibilidade. A postura de ambas, portanto, revelava diferenças significativas. Em Salmos, capítulo 42, versículos 1 e 2, encontramos: "Assim como a corça anseia pelas correntes de água, a minha alma anseia por ti, ó Deus. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo."

 Essa passagem revela um anseio profundo, uma sede quase desesperada. No contexto do Oriente Médio, onde a narrativa de Lucas se situa e onde as personagens de Marta e Maria viviam, a sede era uma experiência física intensa, especialmente em um ambiente desértico e árido. A expressão do salmista, portanto, transmite a profundidade desse sentimento, um desejo fervoroso.

 Em Salmos, capítulo 63, versículo 1, o salmista novamente expressa: "Ó Deus, tu és o meu Deus; de madrugada te buscarei; a minha alma tem sede de ti; a minha carne te deseja em terra seca e fatigada, onde não há água." Observamos, mais uma vez, a manifestação de um desespero interior, um desejo veemente pela comunhão e conhecimento de Deus. Era essa busca que Maria demonstrava ao estar aos pés do Senhor, pois ela havia encontrado a fonte, a fonte da vida eterna, saciando sua sede ao ouvir os ensinamentos de Jesus. Consideremos a vida de Cristo como exemplo. Ele representa o ápice da espiritualidade humana. Nenhum outro ser, em toda a história, demonstrou maior profundidade espiritual. Jesus Cristo vivia a palavra; ao enfrentar as tentações e as investidas do diabo na tentação no deserto, recorreu às Escrituras para refutar e combater as estratégias do adversário. A espiritualidade de Jesus derivava de sua profunda intimidade com a palavra de Deus.

 Um livro notável, escrito por Adolf Saphir, um judeu convertido ao cristianismo, aprofunda essa temática. Intitulado "Cristo e as Escrituras", a obra demonstra a profunda conexão de Jesus com a palavra de Deus e como as Escrituras moldaram seu ministério e sua vida. Ele não apenas personificou a palavra, mas a viveu plenamente. Essa vivência da palavra constitui a essência da vida espiritual, conforme ensina o Novo Testamento, e Cristo personifica esse ideal. Dessa forma, Maria, ao contemplar Jesus, estava diante daquele que poderia ensinar tudo sobre a verdadeira vida espiritual.


Ao longo da história da Igreja Cristã, é possível identificar um período em que a espiritualidade era definida por duas características principais. Inicialmente, o homem espiritual era aquele que possuía profundo conhecimento das Escrituras, o que resultava em uma teologia consistente, embasada na doutrina sólida, na erudição e na piedade. Essas qualidades, em conjunto, delineavam a figura do homem espiritual. Contudo, nas últimas décadas, uma distorção do conceito de espiritualidade emergiu no movimento pentecostal. Semelhante ao misticismo medieval e neoplatônico, a espiritualidade passou a ser associada à vivência de experiências místicas, êxtases e à manifestação de dons sobrenaturais. Assim, essa nova perspectiva passou a definir quem seria considerado espiritual. Contudo, biblicamente, o homem espiritual é aquele que vive de acordo com os ensinamentos da Palavra de Deus, demonstrando profundo conhecimento das Escrituras e uma teologia coerente. Essa compreensão se reflete em sua vida prática, influenciando sua conduta piedosa e o conduzindo a uma imersão nas Escrituras, com as Escrituras, por sua vez, habitando nele. O verdadeiro homem espiritual é exemplificado em Maria, que, aos pés de Jesus, absorvia seus ensinamentos, direcionando toda sua atenção ao Mestre. Jesus, por sua vez, personificava essa espiritualidade, sendo o homem da Palavra, vivendo em consonância com ela, o que o constituía um verdadeiro homem espiritual. Você tem essas qualificações?

Razões Biblicas Para não Deixar de Congregar-se

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Preliminarmente à discussão do tema central deste artigo, julgo relevante destacar algumas características essenciais de uma igreja genuína, saudável e fundamentada nos valores e princípios bíblicos do Novo Testamento.

 A igreja, em primeiro lugar, deve preservar os fundamentos da fé cristã, prezar e preservar os absolutos doutrinários conforme estabelecido nos princípios do Novo Testamento. Essa base doutrinária deve ser considerada inegociável. Em segundo lugar, a igreja deve se dedicar à exposição séria das Escrituras. Sem esse compromisso com a verdade revelada, não se pode afirmar que a igreja esteja verdadeiramente engajada com a fé cristã. Essa dedicação se manifesta na pregação, nos estudos bíblicos e na prática dos ensinamentos, utilizando diferentes formatos como sermões textuais, temáticos e expositivos, sempre com reverência, responsabilidade e seriedade. levando em conta a conduta de seus responsáveis, pastores e pregadores, a citação correta das Escrituras, a interpretação correta das Escrituras, a exposição correta das Escrituras e a aplicação correta das Escrituras.

 Uma igreja considerada saudável se distingue, entre outros aspectos, por sua profundidade teológica. Ela deve possuir uma teologia sólida, coerente e fundamentada nas Escrituras Sagradas, refletindo um entendimento bíblico profundo. Além disso, a igreja deve promover a reverência e a ordem nos cultos, incentivando a piedade e o temor a Deus. Desta forma, o caráter doutrinário e teológico saudável manifestado nos cultos, incluindo a escolha das músicas, constitui uma marca distintiva de uma igreja bíblica. Diante disso, abordaremos agora. É pois sinal de regeneração se um cristão busca uma igreja que tenha essas marcas como distintivo no meio de tanta confusão religiosa que há hoje em dia no meio evangélico.

Muito bem, ciente desses fatos, o amado leitor deve ler com muita atenção o que prossegue nesse texto:

 A maioria dos indivíduos que se associam a uma igreja, com poucas exceções, especialmente os recém-chegados e novos convertidos, frequentemente cultivam uma visão idealizada, uma expectativa irrealista sobre a igreja, sustentam um mito. Acreditam, ou desejam acreditar, que a igreja é composta por pessoas perfeitas, isentas de problemas e falhas. Essa visão pode se manifestar na crença de que encontraram o "paraíso na Terra", um lugar habitado por indivíduos impecáveis e até mesmo infalíveis. Assim, ao ingressar na igreja, esperam encontrar um povo com padrões espirituais e morais superiores aos do mundo em geral. Essa expectativa, é correta, comum entre os novos convertidos, mas o problema das falsas conversões abundantes, nos convidam a ponderar sobre o assunto com mais cautela, acreditar que na igreja só iremos encontrar pessoas perfeitas e infalíveis, baseia-se em uma perspectiva equivocada da realidade. Quem acredita nisso sustenta uma fabula, e trará para si mesmos problemas sérios! 

 Embora seja legítimo esperar que a igreja exiba os mais elevados padrões morais e espirituais, o que considero evidente e defendo, essa expectativa não implica na perfeição individual de seus membros. Equivoca-se, portanto, quem presume que a mera participação em uma igreja cristã, por mais conservadora e bíblica que seja, garante a ausência de falhas, contendas, conflitos ou até mesmo escândalos. Não se deve idealizar a igreja terrena sob essa ótica, pois, como demonstrarei, mesmo as primeiras comunidades cristãs, lideradas pelos apóstolos, enfrentaram desafios, problemas, contendas, desvios morais etc. Meu propósito é capacitá-lo a compreender e lidar com essas realidades, a fim de fortalecer sua fé e aprimorar sua capacidade de tomar decisões ponderadas em relação a essa temática complexa e relevante que abordarei. “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina, persevera nestas coisas; porque fazendo isto, salvarás, tanto a ti mesmo, como aos que te ouvem” (I Timóteo 4:16)

 Observo que muitos cristãos afastaram-se da igreja, abandonaram a congregação por sofrer uma desilusão ou uma decepção, resultando em experiências negativas que usam como justificativa para abandonarem a fé biblica. Alguns se sentiram decepcionados por situações ocorridas na igreja, acontecimentos consideradas inadequadas por eles. Outros se afastaram devido à percepção de hipocrisia ou a problemas internos, como falhas de liderança ou de membros. Essas questões levaram muitos a deixar a congregação e a não mais participar das atividades congregacionais, reunir-se, participar de escola bíblica, cultos, santa ceia etc.

 Acredito que, em alguns casos, o afastamento pode ser motivado pela expectativa irreal de perfeição dentro da comunidade cristã. Talvez, a ausência de uma formação teológica sólida ou de maturidade espiritual tenha impedido que essas pessoas compreendessem a natureza humana e a falibilidade inerente a qualquer grupo de indivíduos mesmo dentro do contexto do cristianismo bíblico.
 A presente mensagem visa esclarecer que não há base bíblica ou justificativa espiritual para abandonar a igreja em razão de desapontamentos decorrentes de ações ou omissões de membros ou líderes. Tais experiências, por mais dolorosas que sejam, não devem conduzir ao afastamento da comunidade de fé. Erros alheios não devem induzir ao naufrágio de nossa fé.

 Em outras palavras, todo cristão deve compreender que a igreja é constituída por indivíduos que experimentaram a regeneração espiritual mas dentro delas podem existir pessoas que nunca nasceram de novo, somado a isso mesmo o homem mais santo e regenrado, também não é infalível e muito menos perfeito. Contudo, persiste a questão da infiltração. Nem todos os que freqüentam a igreja demonstram, em suas vidas, evidências de salvação ou regeneração e isso por si mesmo já produz uma série de problemas para a congregação, eu chamo isso de “efeito joio”. Alguns podem ter vivenciado uma experiência de conversão superficial, de natureza psicológica ou emocional, em vez de um autêntico novo nascimento. Essas pessoas não passaram por uma genuína transformação espiritual, mas sim por uma mudança de comportamento ou de crenças que não resultou em uma renovação interior. A respeito desta questão, Jesus Cristo, em uma de suas passagens, ensina que nem todos os que o invocam como "Senhor, Senhor" entrarão no Reino dos céus, mas apenas aqueles que cumprem a vontade do Pai celestial. (Por favor, leia Mateus 7:15 a 26)

 Gostaria de provar de forma bíblica e irrefutável de que a igreja do Novo Testamento não era uma igreja cujos os seus membros eram perfeitos e a igreja não era perfeita e nem era isento de erros e de falhas. Quando nós abrimos o Livro de Atos, capítulo 15 e o versículo 39, nós vimos que ali houve uma grande contenda entre os discípulos. Olha só, havia uma grande contenda entre eles, de modo que precisavam ser resolvidos os problemas aderentes a essas contendas. Podemos olhar também 1 Coríntios, no capítulo 1, o versículo 10 ao versículo 13, que havia um partidarismo dentro da igreja de Corínto. Predileção por certos discípulos, de modo que havia um aparente culto à personalidade ou uma predileção a um determinado líder em detrimento de outro, isso causou divisão e partidarismo interno. Isso são defeitos, são falhas que estão dentro da igreja, e essas coisas, dependendo do nível de maturidade dos membros de uma igreja, é inevitável.

 Ao examinarmos o livro de Tiago, capítulo 2, versículos 1 a 7, identificamos um problema presente na comunidade cristã: a parcialidade. A questão não se manifestava externamente, mas internamente, no seio da igreja. Observava-se uma distinção de tratamento durante as reuniões, com privilégios e maior atenção direcionados aos membros ricos, em detrimento dos pobres. Essa postura constituía um problema significativo, caracterizado como discriminação. Tiago, então, primeiramente expõe essa problemática e, em seguida, apresenta uma exortação visando a correção desse comportamento na comunidade a que se dirige. Temos uma igreja cristã com um problema sério, precisava de correção urgente, mas o problema estava  presente, algo muito sério a ser tratado.

A discriminação, portanto, era uma realidade, evidenciada pela preferência aos ricos em comparação aos pobres. Ainda hoje, em maior ou menor escala, podemos constatar essa mesma dinâmica em algumas igrejas hoje em dia. Tiago, diante dessa situação, sentiu a necessidade de intervir para corrigir as práticas inadequadas presentes em certas comunidades. Isso me faz lembrar da acusação que Paulo faz aos Corintios em I Corintios 11:17, estavam se reunindo para piorar ao invés de melhorarem, simplesmente estavam em decadencia. Retomando o livro de Atos dos Apóstolos, no capítulo 15, versículos de 1 a 7, observamos que surgiram divergências entre os discípulos, motivadas pela questão da circuncisão. Alguns judeus convertidos estavam ensinando que a circuncisão era um requisito para a salvação. Essa controvérsia gerou desavenças e a necessidade de solucionar um problema interno na igreja. A questão central envolvia um desvio doutrinário que ameaçava a doutrina da justificação pela fé, com a imposição das obras da lei como condição para a salvação. Isso é fato bíblico, aconteceu dentro de uma igreja do Novo Testamento.

 Em Romanos, no capítulo 14, versículos de 1 a 10, Paulo aborda a questão dos irmãos de fé menos maduros (fracos na fé), cuja fé era, por assim dizer, "frágil". Estes apresentavam divergências em relação a práticas alimentares, alguns defendendo uma dieta vegetariana, enquanto outros se mostravam irredutíveis quanto à observância de dias festivos. Paulo enfatiza a importância da liberdade individual em questões não essenciais, nas quais as Escrituras, o Novo Testamento quanto e a Nova Aliança, não estabelecem como regras específicas para todos. Ele se dedica a tratar essas disputas de opinião que existiam na igreja em Roma, especialmente no que concerne à alimentação e à observância de dias, conforme podemos observar nesse trecho de Romanos.
Na segunda epístola de Paulo aos Tessalonicenses, no capítulo 3, versículo 11, percebe-se, no contexto geral, que a carta apresenta um caráter corretivo. Paulo aborda especificamente aqueles que se comportam de maneira desordenada e evitam o trabalho. Essa conduta pode ter sido influenciada pela expectativa da iminente volta de Cristo, tema que Paulo havia tratado em sua primeira carta à igreja de Tessalônica. Contudo, Paulo expõe abertamente a questão desses irmãos que agem sem ordem e se recusam a trabalhar, evidenciando um problema de ociosidade, possivelmente decorrente de uma compreensão inadequada da escatologia e da volta de Cristo, assuntos que Paulo discute em ambas as epístolas dirigidas a essa igreja.

 Ao escrever sua primeira carta à Igreja de Corinto, Paulo aborda questões graves que afligem a comunidade. Esses problemas, de natureza profunda e séria, manifestam-se internamente. Em 1 Coríntios, capítulo 5, é exposta a imoralidade sexual. Já em 2 Coríntios, capítulo 6, são abordados litígios, demonstrando que a Igreja de Corinto enfrentava uma série de dificuldades e escândalos. Até mesmo problemas de embriagues havia na igreja de Corinto (I Coríntios 11:21) Uma igreja pode, infelizmente, atingir esse estado. Contudo, é importante ressaltar que Paulo, mesmo diante dessa situação, oferece suas exortações visando a correção e o reajuste, sempre em consonância com a doutrina do Senhor. A necessidade de afastar-se da apostasia exige a aplicação de um "remédio", encontrado nas características da igreja que apresentei no início deste texto.

Uma igreja, sua liderança e seus membros, comprometidos com os princípios ali descritos, promoverão uma atuação diligente e fiel na fé. É crucial, contudo, reconhecer com esperança que os membros de uma congregação, não são perfeitos e nem infalíveis. A igreja que atua neste mundo está sujeita a falhas, como pudemos constatar neste breve estudo, o que não justifica o abandono da congregação. Sendo seus membros falíveis e imperfeitos, pode ocorrer problemas de conduta entre eles, e nisso consta a exortação de Paulo de que devemos suportar uns aos outros (Efésios 4:2  e Colossenses 3:12) Essas exortações estão ali para serem observadas, deve o leitor atentar para isso com cautela e temor e ainda mais, em casos mais sérios, envolvendo ofensas pessoais, “perdoai-vos uns aos outros” (Efésios 4:32) Esses mandamentos estão nas Escrituras para serem observados

 Gostaria ainda de abordar a grave questão que a igreja na Galácia enfrentou, a qual motivou a escrita da epístola de Paulo aos Gálatas. Contudo, meu foco principal reside nas igrejas locais, especificamente nas sete igrejas da Ásia, onde algumas foram objeto de repreensão. Em relação a essas igrejas, o Senhor censura certos comportamentos e desvios doutrinários. A igreja em Pérgamo, por exemplo, foi advertida quanto à doutrina de Balaão. Em Sardes, o Senhor declara que as suas obras não são perfeitas diante de Deus. Diante disso, é importante notar que, com exceção das igrejas de Éfeso e Filadélfia, as demais igrejas apresentavam sérias dificuldades espirituais. Reafirmo meu desejo de revisitar o Livro de Atos, onde a história da igreja é narrada. No capítulo 5, encontramos o relato de Ananias e Safira. O cerne da questão residiu na mentira que proferiram ao Espírito Santo. No contexto, observamos que Ananias e Safira faltaram com a verdade. Inicialmente, mentiram aos apóstolos e então ao Espirito Santo. Simplificando, agiram com desonestidade. Venderam uma propriedade por um valor, mas declararam outro, retendo parte do dinheiro. Devido a essa ação, houve um tratamento específico em relação aos seus pecados. Ananias e Safira cometeram não somente um erro, eles pecaram,  agiram de forma desleal, contudo, eram cristãos, membros da igreja, parte da congregação de Jerusalém. Diante de seus pecados, o Senhor agiu, demonstrando que Deus, e também as autoridades eclesiásticas, tratam com disciplina e estabelecem consequências para as ações graves cometidas pelos filhos de Deus. Assim fica provado de forma irrefutável de que os membros das igrejas do Novo Testamento não eram perfeitos e nem mesmo infalíveis, você não deve se decepcionar quando algo errado acontecer na sua congregação, envolvendo os seus membros, pois eles também não perfeitos e infalíveis.

 Um exemplo semelhante encontra-se em 1 Coríntios, capítulo 5, onde Paulo aborda o caso de um homem pecador que se envolveu com a esposa de seu pai, provavelmente não sua mãe biológica, mas a mulher com quem seu pai estava casado. Após a morte do pai, ele se uniu a ela, o que foi considerado um pecado gravíssimo. Paulo recomendou que fosse entregue a Satanás para destruição para que sua alma fosse salva no dia final. Observamos, portanto, a gravidade da situação. Reconhecendo que os cristãos não são infalíveis nem perfeitos, podem incorrer em pecados específicos, mas as consequências podem ser severas. Desejo salientar que não estou defendendo erros e nem pessoas erradas, onde elas estiverem, sofrerão as conseqüências por seus erros e pecados, a questão é que o erro dos outros não deve ser a justificativa para você abandonar a congregação, quem faz isso, tropeça no erro alheio, isso é tão devastador quanto o impenitente, mais uma vez, perceba as conseqüências que sofreram Ananias e Safira em Atos 5.

 Através dos exemplos mencionados, torna-se evidente que a crença de que a Igreja militante, a comunidade cristã na Terra, seja composta apenas por pessoas perfeitas e infalíveis é um equívoco. A realidade demonstra que a Igreja é formada por indivíduos sujeitos a falhas, como tem ocorrido desde os primórdios, conforme ilustrado pelos exemplos apresentados.
 Portanto, é importante ressaltar que a decepção resultante de atos de desrespeito, injustiça ou condutas inadequadas por parte de membros da Igreja não constitui motivo para o abandono da fé. A saída da Igreja motivada por tais experiências revela uma expectativa irreal, que não encontra respaldo na doutrina cristã. Trata-se de uma falta de maturidade e discernimento justificar a saída da Igreja por causa de ofensas, escândalos ou falhas, sejam elas cometidas por líderes ou membros.

A Bíblia e o Novo Testamento deixam claro que a Igreja é composta por pessoas salvas, mas também por outras que ainda não alcançaram a plenitude da fé. Nela, encontram-se indivíduos com diferentes níveis de maturidade e discernimento, com os quais se pode ou não confiar. Há pessoas com fé forte e pessoas com fé fragilizada, e até mesmo aquelas que ainda não experimentaram a conversão. É fundamental compreender e discernir essa realidade.

 Compreendo que você deve obsrevar a importância dessa questão que estou abordando . Desejo que você perceba que, para aqueles que cultivam uma vida espiritual e um certo nível de maturidade, a presença de indivíduos que incorrem em erros ou praticam ações que divergem dos princípios cristãos na igreja deve servir como um alerta. Essas situações não justificam o afastamento da comunidade, pois a perfeição não é um atributo de um cristão terreno. Ao invés das coisas erradas serem motivos de apostasia, a sua postura diante desses casos deve ser a de aprendizado, observando as consequências de tais ações erradas, quando existirem e viver de tal modo, a torna-se irrepreensível ,buscando não replicá-las. Em contrapartida, as pessoas que se esforçam por uma vida virtuosa devem ser tomadas como exemplo a ser seguido. A ocorrência de falhas alheias deve ser vista como um lembrete, não para abandonar a igreja, mas para fortalecer o compromisso individual com os valores cristãos. Simplesmente não deseje seguir os passos de um péssimo exemplo, Cristo deve ser sempre nosso foco e direção, exemplo digno de ser seguido (Hebreus 12:2)

 Considerando o exposto, a questão central que se coloca é: existem razões justificáveis para o afastamento de uma congregação e a busca por outra? Conforme estabelecido em Hebreus, capítulo 10, versículo 25, "não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns, mas encorajando-nos uns aos outros, e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima". Diante disso, a reflexão pertinente é: há motivos plausíveis para a saída de uma congregação? Embora a resposta possa ser afirmativa em determinadas circunstâncias, é crucial ponderar que a mudança de igreja, quando justificada, deve-se principalmente à gravidade da apostasia e à disseminação de doutrinas divergentes por parte da liderança ou da própria congregação. Nesse contexto, a saída de uma comunidade em declínio espiritual e aderência a ensinamentos equivocados pode ser justificada pela busca de uma igreja espiritualmente saudavel que ainda preserva a solidez doutrinária e a ortodoxia, uma igreja alinhada aos princípios espirituais autênticos e que se mantenha fiel aos ensinamentos bíblicos.

 Ademais, no livro do Apocalipse, no capítulo 18, versículos 3 e 4, encontra-se um contexto relevante. A Babilônia, simbolizando a religião dos mistérios, representa um sistema religioso sincrético. Este sistema combina elementos de capitalismo predatório, práticas religiosas, feitiçaria, ocultismo e crenças consideradas heréticas, configurando-se como uma religião ecumênica, sincretista, decadente, apóstata e, por conseguinte, sujeita à condenação.



Neste contexto, é possível identificar a advertência e o chamado do Espírito Santo, conforme a palavra de Jesus: "Sai dela, povo meu, para que não sejais participantes dos seus pecados e para que não incorrais nas suas pragas".

A exortação ao "sair" não implica em conformar-se com tal ambiente espiritual, mas sim em afastar-se da contaminação espiritual, buscando a pureza doutrinaria.

 Trata-se de deixar um ambiente poluído em estado de enfermidade espiritual e buscar uma igreja saudável.

 Abandonar uma igreja que adota o modernismo em favor de uma igreja que preserve os valores tradicionais; deixar uma igreja apóstata e aderir a uma igreja ortodoxa; e, por fim, abandonar uma igreja que promove a confusão em busca de uma igreja que ofereça discernimento espiritual, de fato é algo louvável, pois um cristão espiritualmente saudável não se adéqua a um púlpito espiritualmente enfermo.
 Dessa forma, a exortação bíblica serve como um fundamento para justificar a mudança de uma igreja apóstata para uma igreja que se mantenha firme em pregar e defender os fundamentos da fé cristã.

 Além disso, é importante ponderar que, ao apresentar exortações e advertências para corrigir igrejas ou indivíduos, Paulo visava concretizar e efetivar a correção, a fim de restaurar a normalidade espiritual da comunidade. Caso contrário, se uma igreja não for corrigida, e elementos nocivos como heresias de perdição, comportamentos inadequados e imoralidade não forem tratados por meio da disciplina, por exemplo, ela tenderá à corrupção e se transformará em uma igreja apóstata. Diante disso, não é admissível que um cristão genuíno permaneça exposto a ensinamentos que contradizem a sã doutrina. Em situações como a mencionada por Paulo em relação a Himeneu e Fileto, que propagavam a ideia de que a ressurreição já havia ocorrido, Paulo se manifesta com veemência, descrevendo tais ensinamentos como corrompidos e comparando-os a uma gangrena que devora a carne até os ossos, o que demonstra a gravidade da situação.(II Timóteo 2:17)

 Portanto, diante de tais circunstâncias, a postura mais adequada para o cristão autêntico é buscar uma congregação que reforce os princípios espirituais mencionados anteriormente, no inicio desse artigo e que caracterizam uma igreja espiritualmente saudável. Um cristão espiritualmente sadio deve congregar-se em um ambiente saudável, jamais negligenciando a freqüência fiel a uma igreja local, quando a possibilidade é real.


  C. J. Jacinto

Amilenismo e do Pós-milenarismo: Uma Análise Crítica

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 As Teologias Não Escriturais do Amilenismo e do Pós-milenarismo: Uma Análise Crítica

Baseado no artigo de Thomas D. Ice — Pre-Trib Research Center, Liberty University (2009)

 

Introdução: Por Que a Escatologia Importa

A escatologia — o estudo das últimas coisas — não é uma curiosidade teológica reservada a especialistas. Ela molda visões de mundo, motiva ações históricas e define o que uma civilização acredita ser possível no futuro. O teólogo Thomas D. Ice, professor da Liberty University e pesquisador do Pre-Trib Research Center, parte exatamente dessa premissa: a forma como compreendemos o futuro determina a forma como vivemos o presente.

Ice observa que o século XX foi amplamente dominado pelas consequências práticas das escatologias que os homens abraçaram. Movimentos como o Comunismo e o Islamismo radical podem ser lidos, em certa medida, como versões distorcidas de um determinismo pós-milenarista cristão — sistemas que projetam uma utopia futura e justificam qualquer meio para alcançá-la.

Há ainda um contraste fundamental que Ice destaca: apenas a cosmovisão bíblica aponta para um futuro melhor do que o passado. Todas as religiões e culturas pagãs olham para trás com saudade — para os faraós do Egito, para a glória de Nabucodonosor, para alguma "era de ouro" já perdida. A Bíblia, porém, declara que o melhor ainda está por vir. O desenvolvimento histórico vai de um jardim (Gênesis) a uma cidade (Apocalipse), e essa direção ascendente não é acidental — ela é o fio condutor da revelação divina.

Os Três Grandes Sistemas Escatológicos

Todo sistema escatológico sério precisa posicionar-se em relação ao milênio — o reino de mil anos mencionado em Apocalipse 20. Os três grandes sistemas que organizam esse debate são:

1. Pré-milenarismo

O pré-milenarismo sustenta que a Segunda Vinda de Cristo ocorrerá antes do seu reinado literal de mil anos sobre a Terra. Conforme definido por John F. Walvoord, um dos maiores expoentes dessa posição, Cristo retornará vitoriosamente, intervirá na história humana e reinará pessoalmente a partir de Jerusalém, produzindo uma era de paz, prosperidade e justiça.

Para os pré-milenistas, a era atual é a Era da Igreja — um período distinto e separado do plano de Deus para Israel. A obra redentora de Cristo é o único fundamento para a salvação em qualquer período da história.

2. Amilenismo

O amilenismo, descrito por Floyd E. Hamilton, defende que o reino milenial de Cristo se estende desde a Sua Ressurreição até a Sua Segunda Vinda. Cristo não reinará fisicamente sobre a Terra em Jerusalém em nenhum momento futuro. Seu reino é essencialmente espiritual, exercido "nos corações de Seu povo". Os "mil anos" do Apocalipse são interpretados como um número simbólico que representa o período completo entre as duas vindas de Cristo.

Após a Segunda Vinda, segundo os amilenistas, todos os crentes de toda a história entrarão imediatamente no estado eterno após um julgamento final e único de toda a humanidade.

3. Pós-milenarismo

O pós-milenarismo, definido por Norman Shepherd, é a visão de que Cristo retornará ao fim de um período prolongado de justiça e prosperidade — o milênio. Assim como o amilenismo, o pós-milenarismo identifica a era atual como o reino de Deus. A diferença está no otimismo: os pós-milenistas acreditam que o reino não opera apenas nos corações dos crentes, mas que impacta e transforma toda a sociedade.

A lógica pós-milenarista é a seguinte: o evangelho está sendo pregado com poder crescente, e sua influência irá converter a vasta maioria da humanidade, criando um clima de paz, prosperidade material e glória espiritual. Esse período será o milênio, após o qual Cristo retornará para o julgamento final.

Amilenismo e Pós-milenarismo: Duas Faces da Mesma Moeda

Um dos pontos mais agudos do argumento de Ice é a constatação de que amilenismo e pós-milenarismo são essencialmente a mesma posição teológica. Ele cita o próprio teólogo pós-milenista David Chilton, que declarou abertamente:

"O que estou dizendo é isto: Amilenismo e Pós-milenarismo são a mesma coisa. A única diferença fundamental é que os 'pós-mils' acreditam que o mundo será convertido, e os 'a-mils' não. Fora isso, sou um amil."

Em outras palavras, o pós-milenarismo nada mais é do que um amilenismo otimista. Ambos compartilham a premissa de que o reino ou milênio é a era atual — o pré-milenarismo os separa radicalmente ao colocar o reino no futuro. Ice argumenta que esse paradigma amilenista/pós-milenarista surge invariavelmente quando se ignora o plano de Deus para a nação de Israel — tema central da profecia bíblica veterotestamentária.

Uma Breve História dos Sistemas Mileniais

O Quiliasmo: A Posição Original da Igreja

Ice sustenta, com base em amplo consenso acadêmico, que o pré-milenarismo — chamado de quiliasmo na Igreja primitiva (do grego chilioi, mil) — foi a visão dominante dos primeiros séculos cristãos. Isso não é uma reivindicação sectária: é o consenso tanto de estudiosos liberais quanto conservadores da patrística.

J. N. D. Kelly, reconhecido internacionalmente como autoridade no pensamento cristão patrístico, afirma que o milenarismo "encontrou apoio crescente entre os mestres cristãos" do segundo século, sendo "amplamente popular" nesse período. Os grandes teólogos que seguiram os Apologistas — Ireneu, Tertuliano e Hipólito — foram todos expoentes do milenarismo.

É digno de nota: o pré-milenarismo não foi contradito por nenhum pai da Igreja ortodoxo até o início do século III. O primeiro a interpretar os mil anos simbolicamente foi Gaio, que além disso rejeitou a canonicidade do próprio Apocalipse, atribuindo-o ao herege Cerintus.

O Anti-Milenarismo: Uma Reação, Não uma Exegese

Antes do surgimento formal do amilenismo, houve o que Ice chama de anti-milenarismo — uma rejeição emocional e cultural do pré-milenarismo, sem oferecer uma interpretação alternativa coerente do texto. A primeira reação dos opositores não foi propor outra leitura de Apocalipse 20 (que claramente ensinava o milenarismo), mas sim questionar se o Apocalipse deveria sequer fazer parte do cânon do Novo Testamento.

O ataque ao quiliasmo partiu sobretudo da Escola de Alexandria, no Egito, a partir do século III. Clemente de Alexandria e seu discípulo Orígenes popularizaram uma polêmica anti-quiliastica baseada na interpretação alegórica das Escrituras. O impulso não era exegético, mas filosófico: a cosmovisão grega desvalorizava o mundo material, tornando inaceitável a ideia de um reino físico de Deus na Terra.

Norman Cohn observa com precisão histórica: enquanto os cristãos eram uma minoria perseguida, o milenarismo floresceu. Quando o Império Romano adotou o Cristianismo como religião oficial no século IV, "a Igreja se pôs a erradicar as crenças milenaristas." O contexto político favoreceu uma teologia que legitimava o status quo imperial.

O Amilenismo de Agostinho

Na tradição latina ocidental, Jerônimo (347–420) e, sobretudo, Agostinho de Hipona (354–430) foram decisivos para o estabelecimento do amilenismo. Em A Cidade de Deus, Agostinho adotou a interpretação alegórica de Apocalipse 20 proposta pelo teólogo donatista Ticônio, transformando os mil anos em símbolo da era da Igreja. Agostinho foi o primeiro a articular sistematicamente uma posição amilenista positiva.

A influência agostiniana foi tão avassaladora que, como registra o historiador Robert Lerner, "uma proibição contra a aplicação de Apocalipse 20 ao futuro foi estabelecida durante a era patrística tardia e permaneceu em vigor por séculos."

O Pós-milenarismo: Um Amilenismo com Otimismo

O pós-milenarismo foi o último dos três sistemas a se desenvolver, o que é logicamente previsível: ele pressupõe a base amilenista (reino presente), acrescentando a ela um otimismo quanto ao progresso da era da Igreja.

Ice observa que o pós-milenarismo quase desapareceu após as duas Guerras Mundiais, que devastaram qualquer otimismo ingênuo sobre o progresso humano. No entanto, os últimos 30 a 40 anos testemunharam um renascimento da posição, especialmente por meio do movimento da Reconstrução Cristã (ou Teonomia), que floresceu sobretudo em ambientes reformados norte-americanos.

O Problema Hermenêutico: A Chave de Tudo

Para Ice, a raiz do problema não é histórica — é hermenêutica. O verdadeiro motivo pelo qual amilenistas e pós-milenistas chegam às suas conclusões é a recusa de interpretar toda a Bíblia, especialmente a profecia, de forma literal.

Paradoxalmente, alguns dos principais críticos da interpretação literal admitem, em momentos de candura, que ela conduz inevitavelmente ao pré-milenarismo. Floyd Hamilton reconheceu:

"Devemos admitir francamente que uma interpretação literal das profecias do Antigo Testamento nos dá exatamente tal quadro de um reinado terreno do Messias, como os pré-milenistas descrevem."

E Oswald Allis confessou:

"As profecias do Antigo Testamento, se interpretadas literalmente, não podem ser consideradas como já cumpridas nem como capazes de se cumprir na presente era."

Essas confissões são extraordinariamente reveladoras. Elas demonstram que a questão não é exegética em sua origem — é filosófica e hermenêutica. O intérprete que não quer o que o texto diz precisa trazer de fora um método que permita dizer outra coisa.

A Força do Pré-milenarismo: O Próprio Texto das Escrituras

Ice encerra seu argumento no lugar mais sólido possível: o texto bíblico. Ele resume, a partir do trabalho do Dr. Gerald Stanton, os pilares que sustentam o pré-milenarismo:

      Interpretação literal consistente de toda a Escritura

      A natureza incondicional das Alianças — especialmente a Aliança Abraâmica

      O Antigo Testamento ensina um reino literal e terreno

      O reino é levado inalterado para o Novo Testamento

      Cristo confirma um reino terreno

      As múltiplas ressurreições nas Escrituras (incompatíveis com o amilenismo)

      Apocalipse 20 ensina explicitamente o pré-milenarismo

      A Igreja primitiva era pré-milenarista

      Somente o pré-milenarismo harmoniza toda a Bíblia

      Somente o pré-milenarismo oferece uma conclusão satisfatória para a história

 

Conclusão: A Questão é o Texto

O argumento central de Thomas Ice é ao mesmo tempo simples e poderoso: mostre-me um único texto que exija uma interpretação amilenista ou pós-milenarista e que não possa ser entendido de forma pré-milenarista. Após décadas de estudo e debate, nenhum oponente apresentou tal texto de forma convincente.

O amilenismo e o pós-milenarismo não surgiram do estudo honesto e consistente das Escrituras. Surgiram como reações — primeiro ao quiliasmo primitivo, depois influenciados pela filosofia grega que desvalorizava o mundo material, e finalmente consolidados pela autoridade cultural de Agostinho no Ocidente. São teologias construídas muito mais sobre pressões externas ao texto do que sobre o próprio texto.

O pré-milenarismo, por outro lado, pode ser apresentado positivamente a partir da Bíblia — de Gênesis ao Apocalipse — sem precisar desconstruir as outras posições. Essa assimetria é, em si mesma, um argumento poderoso.

Para o crente comprometido com a autoridade e suficiência das Escrituras, a conclusão de Ice é um convite: estude o texto. Ensine-o. Proclame-o. E espere nele. Maranatha!

 

Referências Bibliográficas

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