C. J. Jacinto
Compreender a revelação divina é essencial para a correta percepção da natureza
das Escrituras e da forma pela qual Deus manifestou aos homens a Sua vontade e
o Seu plano de salvação. Sem essa revelação, a humanidade estaria restrita às
suas próprias conjecturas acerca de Deus, de si mesma, da criação, do futuro,
da verdade, do pecado, da redenção e do destino eterno. Portanto, a revelação
bíblica não constitui uma mera coletânea de reflexões religiosas humanas, mas a
manifestação plena daquilo que esteve na mente de Deus desde toda a eternidade.
O termo "revelação" carrega o significado de descobrir, desvelar ou
tornar manifesto aquilo que, anteriormente, permanecia oculto. Este conceito é
fundamental quando aplicado às verdades espirituais contidas nas Escrituras,
tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. O ser humano, por meio de sua
própria capacidade intelectual, é incapaz de perscrutar a mente de Deus para
compreender Seus planos, Sua vontade e Seus pensamentos. Aquilo que jaz no
mistério da natureza divina precisa ser, necessariamente, revelado pelo próprio
Deus. Devemos nortear nossa leitura bíblica por este princípio, reconhecendo
que é impossível alcançar uma compreensão absoluta da vontade divina apenas
pelos nossos meios; o conhecimento que Deus deseja nos transmitir é,
primordialmente, um ato de Sua manifestação.
Em Colossenses 1:26, o apóstolo Paulo discorre sobre o mistério que, embora
oculto por gerações, foi plenamente manifestado pelo Espírito Santo. Tal
desígnio, contido na soberana vontade divina, somente poderia ser revelado pelo
próprio Deus. As Escrituras evidenciam que essa revelação foi transmitida aos
apóstolos e aos homens santos através da inspiração do Espírito.
Consequentemente, possuímos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, uma
revelação completa, fundamentada na premissa de que o Espírito Santo capacitou
os autores bíblicos para que a vontade de Deus fosse claramente comunicada a
toda a humanidade. Compreender este fato nos conduz a uma verdade fundamental:
a revelação das Escrituras não deriva da especulação, das ideias ou das
perspectivas humanas. A revelação cristã não nasce no coração do homem; ela
procede, única e exclusivamente, de Deus para a humanidade.
Deus é a fonte da revelação. A fonte última da revelação é o próprio Deus.
Devemos entender isso claramente. A Bíblia é a palavra de Deus. A palavra de
Deus escrita aos homens. O fato de que Cristo, embora possuísse autoridade
divina, declarou que não falava independentemente do Pai. Sua mensagem procedia
daquele que enviara. Da mesma forma, vamos encontrar esse princípio também nos
profetas do Antigo Testamento. Moisés recebe a lei a partir do Monte Sinai. E
posteriormente podemos notar que os profetas como e o próprio Daniel tiveram
revelações procedentes do próprio Deus. Deus Pai. Com relação a Cristo, depois
da sua ressurreição, Cristo foi exaltado à direita de Deus Pai e recebeu toda
autoridade. Assim, Deus fala à humanidade, através e por meio do seu único
filho, o nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo.
Ao analisarmos Hebreus 1:1-2, compreendemos que a revelação possui origem
divina e caráter cristológico. Deus é a fonte primária, e Cristo, o agente por
meio do qual tal revelação se manifesta. Sendo o veículo e o mediador da
comunicação de Deus à humanidade, Cristo torna a revelação divina um fenômeno
absolutamente cristocêntrico. Esse processo ocorre mediante a agência, o poder
e a autoridade do Espírito Santo, responsável por administrar a revelação
completa aos homens, conforme se depreende da leitura das Escrituras.
Depreende-se, portanto, a lógica de que, se Deus existe e deseja ser conhecido,
Ele fatalmente se revelará à humanidade. De que modo, então, Ele o faz?
Historicamente, Deus se manifestou por meio dos profetas e, posteriormente, na
plenitude dos tempos — conforme registrado em Gálatas 4:4 —, revelou-se
plenamente por intermédio de Cristo. Jesus é a representação visível do Deus
invisível. Em João 6:63, lemos: "As palavras que eu vos digo são espírito
e vida", e, em João 14:15, o próprio Cristo declara: "Se me amais,
guardai os meus mandamentos". Deus comunica uma mensagem inteligível,
acessível ao entendimento humano; por isso, devemos compreender que a revelação
divina em Cristo é absoluta, permitindo que todos os homens possam acolher a
mensagem do Evangelho e aplicá-la às suas vidas. Conforme registrado em João
12:48, Cristo afirmou que aqueles que rejeitarem as suas palavras serão
julgados por elas no último dia. Esta declaração possui uma profundidade
imensa, visto que não é possível separar Cristo de sua doutrina; a autoridade
de Cristo está intrínseca e inseparavelmente ligada àquilo que Ele revelou.
Adicionalmente, o próprio Senhor testifica a perenidade de seus ensinamentos em
Mateus 24:35: "O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de
passar". Diante disso, observa-se a autoridade suprema que Cristo confere
ao Evangelho, exigindo de cada indivíduo a devida atenção, reflexão e
ponderação acerca da revelação transmitida por Deus por meio de seu Filho
unigênito, nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo.
Compreendemos, portanto, que o Espírito Santo atua como o agente transmissor da
verdade. Cristo assegurou aos apóstolos que o Espírito Santo os instruiria e
lhes recordaria todos os Seus ensinamentos. Conforme registrado no Evangelho de
João, capítulo 16, versículo 13, Jesus afirmou que o Espírito os guiaria a toda
a verdade. Anteriormente, em João 14:26, o Senhor também prometeu que o
Espírito os faria lembrar de tudo o que fora dito, garantindo que os apóstolos
e escritores dos Evangelhos redigissem um relato preciso e verídico, com
fidelidade aos detalhes, graças à capacitação divina. Da mesma forma, os
autores dos demais livros do Novo Testamento receberam essa inspiração para que
a revelação de Deus Todo-Poderoso fosse integralmente consumada na Bíblia
Sagrada, composta por seus 66 livros. Assim, percebemos uma dinâmica na qual Deus
se revela por meio de Cristo, Cristo é revelado pelo Espírito Santo e os
apóstolos, inspirados por esse mesmo Espírito, registram as palavras divinas,
dando origem às Sagradas Escrituras.
A Bíblia estabelece alegações extraordinárias a respeito de sua própria origem
e autoridade. Caso tais premissas fossem inverídicas, o texto sagrado
constituiria uma fraude; contudo, sendo verdadeiras, estaríamos diante da
própria Palavra de Deus. A unidade da Bíblia é, por sua vez, inigualável.
Jamais, em qualquer outra obra, reuniram-se tantos tratados distintos —
históricos, biográficos, éticos, proféticos e poéticos — para constituir um
volume coeso. Tal qual as pedras lavradas e as tábuas de madeira que compõem um
edifício, ou, mais precisamente, como os músculos e ligamentos que se integram
em um organismo vivo, assim são as Escrituras. Este fato, além de
incontestável, não possui paralelo na literatura. Sob a perspectiva puramente
humana, as circunstâncias seriam não apenas desfavoráveis, mas francamente
hostis a uma integração dessa magnitude. Considero verídico o que George Eldon
Ladd afirma hoje: a fé judaico-cristã não se originou de especulações
filosóficas nem de experiências subjetivas, sendo, portanto, a palavra de Deus
revelada aos homens. Conforme Paulo declara em 2 Timóteo 3:16: "Toda a
Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a
correção e para a instrução na justiça". Essa função da Palavra de Deus
fundamenta-se no termo grego *theopneustos*, que significa "soprada por
Deus". Assim como, na criação narrada no livro de Gênesis, o Criador
soprou sobre Adão e lhe concedeu vida, o mesmo Deus sopra sobre as Escrituras,
tornando-as, igualmente, portadoras de vida.
Sob uma perspectiva antropológica, observa-se uma limitação intrínseca à capacidade
humana. Embora a inteligência do homem seja capaz de investigar o universo,
desenvolver a ciência, estruturar sistemas filosóficos e religiosos e acumular
vasto conhecimento, tais feitos não conferem ao ser humano a capacidade de
acessar, por mérito próprio, os desígnios da mente divina. O alcance desse
saber é, por natureza, inalcançável às faculdades humanas. Dessa forma, a
revelação torna-se um imperativo. A existência de um Deus Criador pressupõe,
necessariamente, que Ele se manifeste; caso contrário, permaneceria eternamente
desconhecido. Como registrado pelo profeta Isaías, no capítulo 55, versículo 8:
"Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos
caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor". Fica evidente, portanto, que
não é o homem quem, por meio de seu intelecto, alcança a Deus para certificar
Sua existência, mas sim Deus quem se revela em Cristo para tornar Sua presença
manifesta aos homens. É fundamental estabelecer uma distinção clara entre
revelação e inspiração, conceitos que, embora interligados, não são sinônimos.
A revelação refere-se ao conteúdo que Deus torna conhecido, enquanto a
inspiração diz respeito ao processo pelo qual esse conteúdo é comunicado sob
orientação divina. Esta distinção é essencial, pois é a inspiração que
viabiliza a transmissão da revelação ao ser humano.
A revelação divina é conduzida pelo Espírito Santo, que não apenas inspirou os
hagiógrafos na escrita do Antigo e do Novo Testamento, mas também atua para
iluminar a compreensão e recordar as verdades escriturísticas. Em última
análise, a revelação constitui o conteúdo do que foi manifestado por Deus
através da inspiração. Portanto, ao manusearmos as Escrituras, temos em mãos a
Palavra de Deus, inspirada e revelada, plenamente acessível a cada um de nós. Em
1 Coríntios 2:13, o apóstolo Paulo afirma que a mensagem cristã não é
transmitida por meio de palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas pela
instrução do Espírito Santo, que interpreta as verdades espirituais através de
uma perspectiva também espiritual. Nesse contexto, estabelece-se uma distinção
clara entre o intelecto humano e a fonte de revelação divina. Assim como o
Espírito Santo capacitou os apóstolos a registrar a revelação de Deus, Ele é o
mesmo que nos concede a devida compreensão de tudo o que foi revelado. Reitero,
portanto, que a contribuição dos geógrafos não foi fruto de uma mera influência
do Espírito Santo. Eles atuaram como instrumentos pessoais e agentes
inspirados, por meio dos quais a revelação divina foi transmitida à humanidade.
O Espírito Santo operou na vida desses homens, guiando a redação dos livros do
Antigo e do Novo Testamento, tornando, assim, a vontade de Deus plenamente
acessível e manifesta a todos os povos. O Espírito Santo não criou fatos nem
engendrou uma nova história; Ele é a própria fonte da verdade. A revelação
torna essa verdade manifesta, enquanto a inspiração divina assegura sua
comunicação fidedigna. Consequentemente, possuímos uma revelação completa da
parte de Deus, que expressa Sua vontade e Seus planos salvíficos, oferecendo
respostas às questões existenciais que inquietam o ser humano: Quem sou eu? De
onde vim? Para onde vou? Estas perguntas fundamentais, que emergem naturalmente
na trajetória de qualquer indivíduo, encontram sua plenitude na Bíblia Sagrada,
sob a inspiração do Espírito Santo. Assim, as Escrituras tornam-se o
instrumento pelo qual o próprio Deus responde aos dilemas mais profundos da
humanidade. A inspiração, portanto, confere fidelidade à revelação que Deus
concedeu à humanidade. Encontramos na Bíblia Sagrada um registro fiel e
completo, inteiramente verídico, acerca das verdades que Deus deseja transmitir
aos homens. Outro aspecto que devemos ponderar é a inspiração verbal das
Escrituras. Se a revelação divina foi comunicada mediante palavras, estas não
são irrelevantes; ao contrário, são fundamentais para a compreensão e a
aceitação de que Deus transcendeu Sua glória para se revelar à humanidade. Essa
revelação ocorreu por meio dos profetas, no Antigo Testamento, e culminou em
Seu Filho, no Novo Testamento, conferindo-nos a plenitude da vontade divina.
Deus revelou-se integralmente a nós por intermédio de Cristo; portanto, toda a
Bíblia possui essa inspiração verbal, reflexo da revelação completa que o
Senhor nos concedeu.
Desejo reiterar a relevância da tradução bíblica e a magnitude da
responsabilidade que tal tarefa demanda. A precisão na transposição dos textos
sagrados é um imperativo fundamental em nossos dias. É necessário compreender
que paráfrases imprecisas, traduções defasadas e edições espúrias têm circulado
amplamente, inclusive entre o público cristão. Observa-se, com preocupação, que
mesmo segmentos considerados conservadores demonstram, por vezes, negligência
diante da seriedade deste tema. Atualmente, proliferam versões e bíblias de
estudo que mesclam ideologias humanas ao texto inspirado, exigindo de nós uma
postura de extremo discernimento. Vivemos sob a égide do relativismo, uma
corrente que, lamentavelmente, também tem permeado o âmbito das traduções
bíblicas, resultando em textos que divergem substancialmente entre si. É um
equívoco perigoso sustentar que todas as edições são equivalentes; grande parte
do que é comercializado no mercado editorial contemporâneo responde a
interesses mercadológicos, carecendo de compromisso com a fidelidade e a
seriedade exigidas pelas Escrituras. A defesa de traduções rigorosas é,
portanto, o caminho indispensável para manifestarmos o devido respeito à
Palavra de Deus. Em 1 Coríntios 1:21, o apóstolo Paulo afirma que, pela
sabedoria de Deus, o mundo não alcançou o conhecimento divino através de sua
própria sabedoria, razão pela qual aprouve a Deus salvar os crentes por meio da
"loucura" da pregação. Depreende-se, portanto, que a inteligência
humana não constitui, em hipótese alguma, o meio pelo qual recebemos a
revelação divina. A revelação de Deus distingue-se fundamentalmente da
sabedoria humana: enquanto esta última é limitada, a divina é absoluta.
Embora o intelecto possua valor em
sua esfera de atuação, ele não pode substituir a verdade revelada por Deus.
Filósofos e acadêmicos podem atingir níveis extraordinários de erudição
científica e intelectual, permanecendo, contudo, ignorantes acerca das questões
existenciais fundamentais — como a origem, o propósito da vida e o destino após
a morte —, temas que as Escrituras elucidam de forma clara, sucinta e veraz.
Conclui-se, portanto, que o saber humano não é sinônimo de conhecimento de
Deus. A própria ciência secular atesta que o avanço intelectual, por si só, não
garante a compreensão das realidades espirituais. O domínio profundo dos
fenômenos físicos é perfeitamente compatível com uma cegueira espiritual,
evidenciando que a intelectualidade humana não é capaz de substituir a
iluminação divina. Atualmente, observa-se com preocupação a crescente influência
de correntes filosóficas e psicológicas sobre a teologia, resultando em uma
interpretação bíblica frequentemente comprometida. Tradições humanas, que por
vezes invalidam as Escrituras, têm sido incorporadas à hermenêutica, gerando
uma síntese deletéria e distorcida da Palavra de Deus. Conforme adverte a
epístola de Tiago, tal sabedoria, caracterizada como terrena, animal e
diabólica, penetra no meio eclesiástico criando um amálgama estranho à fé.
Contudo, a verdadeira sabedoria provém do alto, visto que, conforme registra o
Salmo 111:10, o temor do Senhor é o seu princípio. Tiago estabelece uma
distinção clara entre a sabedoria terrena — descrita como sensual e maligna — e
a sabedoria celestial, que se manifesta pura, pacífica, moderada, misericordiosa
e frutífera.
Portanto, é imperativo que nos aproximemos das Escrituras sob a dependência da
sabedoria divina, e não sob a ótica dos valores mundanos, cujos efeitos são
invariavelmente corruptores. A verdadeira sabedoria não reside na substituição
da revelação divina pela lógica humana, mas na submissão da inteligência ao
conjunto das verdades reveladas por Deus em Sua Palavra.
Concluímos, portanto, que a natureza da revelação divina está intrinsecamente
vinculada à autoridade das Escrituras. Deus é a fonte primária dessa revelação;
Cristo é o Filho por intermédio de quem o Pai falou e continua a falar; e o
Espírito Santo capacitou os apóstolos na transmissão da verdade. Tal verdade
foi comunicada por meio de palavras e preservada nas Escrituras, razão pela
qual a Bíblia não deve ser compreendida meramente como uma coletânea de
reflexões religiosas humanas.
O maior desafio da Igreja contemporânea não consiste em descobrir uma nova
verdade que substitua a revelação bíblica, mas em permanecer fiel à verdade já
revelada. Tal compromisso demanda convicção pessoal de todo cristão que aspira
a uma fé genuinamente bíblica. A sabedoria, a ciência, a filosofia e a
experiência humana possuem limitações inerentes; contudo, a Palavra de Deus
subsiste como a revelação pela qual o homem alcança conhecimentos que, por si
só, jamais poderia descobrir. Conforme registrado em Isaías 55:8: "Porque
os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os
meus caminhos, diz o Senhor". É precisamente por esse motivo que
necessitamos da revelação: não para validar as cogitações humanas, mas para
conhecer aquilo que Deus, em Sua soberania, decidiu revelar.
Bibliografia
The Nature of the revelation of God - Searching The Scriptures
-Volume XXVI March 1985 pag 35-38
Teologia Elementar - Doutrinaria e
Conservadora. E H Bancroft. Editora Batista Regular

