No livreto "A
Bíblia e os Apócrifos", de Salvador dellutri, publicado pelas Edições
Cristãs, na página 39, o autor afirma que o testemunho de Jerônimo é relevante,
visto que ele foi o tradutor da Bíblia para o latim, conhecida como Vulgata,
que se tornou a versão oficial da Igreja Católica, aceita pelo Concílio de
Trento. Jerônimo inicialmente traduziu as Escrituras para o latim, mas,
considerando que os resultados de sua tradução não eram satisfatórios,
aprimorou seus conhecimentos de hebraico para realizar uma tradução mais
precisa. O professor F.F. Bruce observa que a baixa consideração de Jerônimo
pelos livros apócrifos do Antigo Testamento o levou a quase negligenciá-los,
chegando até mesmo a ignorá-los completamente, como evidenciam suas paráfrases
livres de um texto aramaico de Tobias e Judite. Embora Santo Agostinho de
Hipona seja citado por muitos católicos por ter mencionado os apócrifos entre
os livros canônicos, convém ressaltar que seu pensamento a respeito evoluiu, e
que a exceção apenas confirma a regra. Escrevendo contra Gaudêncio, Agostinho
declara que os judeus não receberam os livros dos Macabeus como receberam os da
lei, dos salmos e dos profetas, livros estes sobre os quais Nosso Senhor
testemunhou. Em "A Cidade de Deus", Agostinho afirma que Judite nunca
foi admitido no cânon judaico. Além disso, Agostinho adverte que não é correto
classificar como profético ou eclesiástico o Livro de Sabedoria, pois sua
autoridade canônica não é reconhecida pelos judeus.
Entre os
lideres antigos da Igreja que elaboraram listas dos livros considerados
inspirados, destacam-se Atanásio, Cirilo, Epifânio, Anfilóquio, Rufino e, em
certa medida, Orígenes, os quais não incluíram os livros apócrifos em seus
cânones. Estes autores também se manifestaram favoráveis aos 39 livros do
Antigo Testamento. Melito de Sardes, Tertuliano e Hilário de Poitiers também
defenderam essa posição. O Sínodo de Laodiceia chegou a proibir a leitura dos
apócrifos nas igrejas.
É importante
ressaltar que os reformadores excluíram os livros apócrifos do cânon bíblico,
mas alguns como Lutero, mantiveram eles á parte ainda dentro da bíblia, os
reformadores fundamentaram a decisão na falta de inspiração desses textos,
conforme reconhecido pelos judeus, por muitos pais da Igreja antiga e por
teólogos antigos, muitos dos quais influenciaram a formação dos próprios reformadores.
Essa distinção visa esclarecer a questão, a fim de dissipar equívocos. A
alegação de apologistas católicos de que esses livros sempre fizeram parte da
Bíblia Católica e nunca foram rejeitados é imprecisa. É manobra de discurso
para enganar desavisados! Da mesma forma, a acusação de que Martinho Lutero
removeu os apócrifos da Bíblia Sagrada é incorreta e os que dizem isso são
mentirosos desinformados. Na verdade, ao traduzir a Bíblia para o alemão, como
já afirmei, Lutero incluiu os apócrifos, mas advertiu sobre sua falta de
inspiração. A desonestidade de certos apologistas católicos pode ser
evidenciada por meio de manobras como essas, apenas para iludir os outros. A
desonestidade é evidente em casos como esses.
Na
realidade, a Reforma Protestante e as doutrinas por ela defendidas provocaram
uma reação por parte da Igreja Católica, materializada, em parte, no Concílio
de Trento. Diante desse cenário, a Igreja sentiu a necessidade de produzir
material e argumentos para sustentar suas posições teológicas. Muitas dessas
doutrinas, consideradas divergentes, foram fundamentadas e defendidas, em
grande medida, com base em textos apócrifos incorporados às Sagradas
Escrituras.
A situação decorreu
de uma manobra estratégica iniciada pelo Concílio de Trento e sua reação à
Reforma. Diante das doutrinas reformistas, os católicos viram-se na necessidade
de obter recursos e argumentos para contestá-las. Consequentemente, muitas de
suas doutrinas, consideradas como falsas, somente puderam ser formuladas e
defendidas através da utilização de textos apócrifos, que foram incorporados às
Escrituras.
Portanto,
observa-se que os livros apócrifos, outrora objeto de controvérsia, rejeição e
até mesmo oposição por teólogos e escritores católicos antes da Reforma, foram
propositalmente integrados como uma defesa e reação às doutrinas defendidas
pelos reformadores protestantes. Essa história deveria ser de amplo
conhecimento entre os católicos, uma vez que a aceitação dos apócrifos pela Igreja
Católica não foi constante ao longo do tempo. Tal fato demonstra que o
magistério e os papas não desfrutavam de infalibilidade e, por conseguinte, de
total confiabilidade, pois, em tempos anteriores, rejeitavam esses livros.
Contudo, após a Reforma Protestante, passaram a aceitá-los e defendê-los, com o
intuito de fundamentar suas doutrinas, desmascaradas pela Reforma, recorrendo
aos livros apócrifos, que passaram a ser integrados à Bíblia.
Os livros
apócrifos, inseridos na Bíblia Católica, visam primordialmente fortalecer seus
dogmas, ritos e crenças. Essa inclusão é fundamental para a sustentação de seu
sistema doutrinário, conforme a perspectiva dos líderes católicos romanos. O
doutor Aníbal Pereira Reis, ex-padre e pastor batista, expôs essa visão em sua
obra "O Vaticano e a Bíblia".
Na página 8,
nosso grande pastor, Aníbal Pereira Reis, que já está com o Senhor, ele
depois de descobrir as inclinações romanistas ao erro assim escreveu
" Hoje, lê fazem pior, conspurcam-na a
mensagem, distorcem-lhe o sentido, intercalam-se-lhe interpretações Esdrúxulas,
atendendo um plano adrede estabelecido para confundir as almas, eivam-na de
fábulas Através de notas de rodapé, títulos e subtítulos, explicações
prefaciais, gravuras e índices doutrinários" eis as motivações dos
acréscimos ao Antigo Testamento
Ademais, a inclusão desses apócrifos na
Bíblia, conferindo-lhes o status de deuterocanônicos ou inspirados, visava como
já disse, primordialmente responder à Reforma Protestante liderada por
Martinho Lutero. Este último, ao pregar algumas verdades fundamentais do Novo
Testamento, expôs as fragilidades do sistema doutrinário católico, que se
apoiava no mariocentrismo, no sacramentalismo e na salvação pelas obras, além
de evidenciar a corrupção moral e espiritual da época. O objetivo principal
era, portanto, sustentar os dogmas e a influência do catolicismo, que se
expandia e defendia na época da Reforma e que ainda hoje mantém.
Consequentemente, a função primordial dos apócrifos era fornecer maior
embasamento e autoridade, embora de forma espúria, aos ensinamentos defendidos
pelo romantismo.
C. J. JACINTO

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