Um Chamado a Sobriedade


 Um Chamado a Sobriedade

 

 

C. J. Jacinto

 

 

A grande exortação do apóstolo Pedro nunca pode ser ignorada nos tempos em que vivemos. Ele escreveu em 1 Pedro 4:7: "Ora, já está próximo o fim de todas as coisas; portanto, sede sóbrios e vigiai em oração."

Com essa exortação, o apóstolo Pedro nos convida a uma vida espiritual em que o discernimento, as faculdades intelectuais e as nossas percepções estejam sempre ativas. Isso nos permite viver em vigilância constante, de modo que estejamos verdadeiramente preparados para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.

O que Pedro nos ensina é que devemos cultivar uma atitude mental esclarecida, orientada pela luz das Escrituras, para perceber corretamente os acontecimentos ao nosso redor. Além disso, isso não basta: é necessário manter uma vida devocional ativa. Como João afirma em 1 João 1:3, precisamos de comunhão com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo, vivida por meio do Espírito Santo e de um coração inteiro dedicado à Palavra.

Essa dedicação implica uma análise diária das Escrituras — como faziam os bereanos, que examinavam cuidadosamente a Escritura todos os dias, após ouvir um sermão, para verificar se aquilo que ouviam estava de fato conforme o que está escrito.

Acho que é uma grande negligência não tratar desse tema nos dias atuais. Muitos dos que se declaram cristãos não têm ideia do que significa viver em sobriedade; nem sabem defini-la. Porém, encontramos várias exortações no Novo Testamento que exigem dos cristãos vigilância diante dos problemas, das dificuldades e dos enganos próprios dos últimos dias. Por isso é essencial que prestemos atenção a esses avisos divinos: o Senhor nos chama à sobriedade, ao discernimento espiritual e a uma atenção plena — para perceber o que acontece ao nosso redor e reconhecer os sinais de que vivemos tempos difíceis, como o próprio Novo Testamento nos atesta em diversas passagens.

O homem sóbrio — aquele que possui discernimento e orienta a vida à luz das Escrituras — é um conselheiro valioso. Ele pode apontar caminhos seguros para quem busca orientação. Hoje mais do que nunca precisamos desse homem espiritual.

A Bíblia descreve o sóbrio como vigilante, capaz de interpretar os sinais dos tempos. Ele identifica onde atua o falso profeta e onde se espalha um evangelho enganoso; por isso, reage com firmeza. O homem espiritual é zeloso pela sã doutrina e pela verdade, percebe a ação do espírito do erro e se coloca em oposição a manifestações anticristãs e demoníacas que por vezes se infiltram na igreja.

Muitos se dizem cristãos, mas carecem de discernimento espiritual e acabam seduzidos por falsos mestres. Assim se cumpre a advertência de Jesus em Mateus 15:19 quando o cego guia outro cego, ambos caem no abismo. Não ter discernimento hoje é ser espiritualmente cego.

Pedro proferiu essa exortação há cerca de dois mil anos. Mesmo então já existia a expectativa pela volta iminente de Cristo — a grande esperança da Igreja e dos apóstolos. Pedro chama essa esperança de bendita, porque ele aguardava o retorno triunfante de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, evento que transformará por completo a trajetória da história.

Entretanto, essa promessa não é apenas uma boa notícia no sentido sentimental. O Evangelho traz novidades de salvação, de libertação e também a promessa da segunda vinda de Cristo. Na época de Pedro, a comunidade cristã vivia nessa expectativa sublime. Ao longo dos séculos, muitas gerações cultivaram essa mesma esperança gloriosa.

Quando Pedro fala de proximidade, ele o faz segundo a perspectiva divina, não a humana. O tempo é contado à luz de Deus, e não pelo nosso calendário. Talvez aí resida o grande desafio de compreensão: para Deus mil anos são como um dia, enquanto para nós mil anos equivalem a mais de dez gerações. A cronologia divina difere radicalmente da nossa. Por isso, em todo tempo devemos permanecer vigilantes.

A sobriedade é sempre uma virtude do homem santo. Todo homem verdadeiramente santo manifesta sobriedade; essa é uma das marcas da piedade. A vida piedosa conduz-nos a esse traço fundamental.

O homem espiritual possui discernimento bíblico profundo. Podemos reconhecer isso assim: a pessoa redimida, que vive em íntima comunhão com as Escrituras e em oração, aproxima‑se da verdadeira luz espiritual, que ilumina o seu entendimento. Assim, todo o seu conhecimento é clarificado pela verdade da Palavra de Deus e pela própria verdade divina, pois Deus se revela como verdade.

Jesus afirmou: “Eu sou o caminho, a verdade” e também orou “Santifica-os na verdade”; e declarou que “a tua palavra é a verdade”. A verdade está, portanto, intimamente ligada à nossa comunhão com a Palavra e com o próprio Deus que se revela por ela. Dessa comunhão decorre uma luz espiritual que capacita o crente a compreender as coisas espirituais.

Isso, de fato, são os últimos dias difíceis para os ignorantes, os desatentos e para todos os que são espiritualmente cegos, que vivem uma vida morna e não têm compromisso com a verdade. Não são apaixonados pelo Evangelho nem se angustiam por uma sã doutrina; por isso têm convicções fracas e não conseguem perceber as ameaças e os infortúnios que acompanham os últimos dias. A grande quantidade de falsos profetas que se levantam pregando outro evangelho não lhes causa inquietação; tomam como agentes de Deus todos aqueles que portam a Bíblia ou têm uma plataforma de pregação. Não conseguem discernir porque lhes falta firmeza e compreensão dos ensinamentos do Novo Testamento sobre a igreja nos últimos dias, e por isso ignoram totalmente as advertências — especialmente a de Pedro, quando nos exorta a estarmos sóbrios e vigilantes em oração.

Quando lemos a primeira carta de Paulo aos Tessalonicenses, encontramos em 1 Tessalonicenses 5:6 o exortativo: “Não durmamos como os demais, mas sejamos sóbrios e vigilantes.” Paulo aí faz uma distinção clara entre dois tipos de cristãos: os sóbrios, despertos e vigilantes, e os que dormem — aqueles em dormência espiritual, sonolentos, amortecidos, quase anestesiados.

Permita-me dizer, irmão amado: não vivemos tempos de anestesia espiritual? Em vez de sermões e leituras que nos despertem para a realidade espiritual, muitas vezes somos alvo de mensagens que nos entorpecem e nos fazem adormecer. São dias difíceis. Paulo, porém, enfatiza com firmeza essa divisão em 1 Tessalonicenses 5:6. A que grupo você pertence? Está entre os despertos, que cultivam a sobriedade espiritual, ou entre a maioria que vive anestesiada e adormecida?

Tenho tratado este tema na esperança de que o amado irmão desperte para a realidade dos dias difíceis em que vivemos. São tempos que representam um grande desafio para o cristão verdadeiro que deseja permanecer firme nos caminhos do Senhor e cultivar, na sua vida espiritual, a marca da fidelidade: fidelidade a Deus, ao Evangelho e à Sã Doutrina. Sabemos que essa característica será distintiva de poucos nestes dias de apostasia. Você está preparado para trilhar esse caminho? Este artigo tem por objetivo despertar a sua consciência e incentivá‑lo a perseverar.

 

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