“Não precisamos de uma nova
definição do cristianismo bíblico, precisamos de uma nova demonstração de seu
poder transformador”
Ao longo de mais de 35 anos de trajetória na vida
cristã, aprendi uma verdade que sustento com plena convicção: o coração
torna-se gradualmente mais espiritual à medida que se dedica às realidades que
estão em Cristo. Este é um fato comprovado pela biografia dos grandes homens de
Deus do passado, cujos corações, ao se voltarem inteiramente ao Senhor,
alcançaram um notável crescimento e discernimento espiritual. Foi por meio
dessa entrega que eles compreenderam a profundidade do culto e da devoção,
manifestando com zelo e temor a glória de Deus. Notemos o principio da devoção
austera de William Law que moldou a espiritualide de John Wesley e o principio
da abnegação nos escritos de Andrew Murray que impactou a vida devocional de
muitos cristãos, encerra-se nesses exemplos,o fervor intenso e adoração
profunda.
Aprendi, em meio às minhas batalhas internas, uma
verdade fundamental: a natureza humana tende, por inclinação própria, a
satisfazer os desejos da nossa velha essência. Este "velho homem",
com suas concupiscências e inclinações mundanas, reside em nós e, por isso,
precisa ser mortificado e crucificado. É necessário que o homem espiritual,
regenerado pelo novo nascimento, obtenha a força necessária para subjugar toda
inclinação carnal, permitindo que os vestígios da natureza antiga desapareçam
por completo.
Tal
processo exige disciplina; contudo, esta não deriva apenas do esforço pessoal,
mas, primordialmente, da graça de Deus e do poder do Espírito Santo. É Ele quem
nos capacita a triunfar nesta luta interior. Somente assim o homem espiritual
poderá viver a vida cristã em sua plenitude, experimentando realidades que
proporcionam uma satisfação e uma felicidade mais elevadas e perenes,
superiores às ilusões passageiras e imediatistas que surgem ao ceder aos
desejos da carne.
Ao
refletirmos sobre a devoção e a vida de oração, somos conduzidos às profundezas
das realidades espirituais de um culto genuíno. Trata-se de uma entrega plena a
Deus, na qual intelecto, coração, alma e todo o nosso ser são voltados ao
Senhor com atenção absoluta. Para desempenharmos o papel de verdadeiros
adoradores, que O reverenciam em espírito e em verdade, devemos compreender a
importância suprema de estarmos reunidos em Seu nome. O culto caracteriza-se pela comunhão, pelo cântico de
hinos espirituais e pela nutrição através da Palavra de Deus. Em tal reunião
solene, a Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo — torna-se o centro de nossa
adoração. O culto cristão é um mergulho no âmbito espiritual, onde buscamos as
graças e bênçãos divinas, reafirmando nossa identidade como filhos de Deus, regenerados
e redimidos pelo sangue de Jesus.
“Adoração é a alma
curvada em santa reverencia diante da glória de Deus: é o reconhecimento de nossa
total dependência dEle” (Andrew Murray)
A partir
dessa profunda intensidade, Jesus Cristo, em Mateus 22:37-38 — ao citar o
Pentateuco, mais precisamente Deuteronômio 6:5 —, declara: "Amarás o
Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu
entendimento". Este é o primeiro e maior mandamento, o qual direciona
nossa devoção, afeição, intelecto e todo o nosso ser para um único propósito:
amar a Deus de forma absoluta. Trata-se de um amor constante, que transcende o
tempo, o lugar e as circunstâncias, consagrando-nos como verdadeiros adoradores
em espírito e em verdade. Essa passagem das Escrituras nos conduz,
inevitavelmente, ao chamado para sermos adoradores íntegros, zelosos e
dedicados, amando ao Senhor com todas as nossas forças. Diante disso, cabe a
reflexão: você realmente ama a Deus desta maneira? Como tem sido a sua postura
e o seu comportamento diante d’Ele em adoração?
No
clássico “O Livro do Amigo e do Amado”, Raimundo Lúlio introduz a figura de
Blanquerna, personagem por meio do qual o autor estrutura sua reflexão
espiritual. O relato descreve que Blanquerna despertava à meia-noite e, ao
contemplar o firmamento, remetia-se prontamente ao Criador, iniciando suas
orações com profunda devoção e tal intensidade de agonia que caia em prantos.
O objetivo
desse gesto era elevar a alma inteiramente a Deus, expressando esse fervor
espiritual através do choro conseqüência de um coração quebrantado. Essa
intensidade devocional revela que, para o cristão, a contemplação da beleza da
criação não conduz à idolatria, como fazem os pagãos, mas à adoração ao Autor
de todas as coisas. Portanto, nosso coração deve ser impulsionado por essa
mesma busca, visto que a profundidade da nossa fé é medida pela grandeza do
amor que devotamos a Deus. Outro aspecto relevante, descrito no *Livro do Amigo
e do Amado*, ilustra a profunda intensidade com que a devoção de um homem pode
converter-se em uma revolução espiritual, impactando não apenas a si mesmo, mas
também aqueles que o rodeiam. O texto narra: "Após o pôr do sol,
Blanquerna subia ao terraço de sua cela e permanecia em oração até o primeiro sono,
contemplando o céu e as estrelas com os olhos marejados e o coração devoto,
meditando sobre a glória de Deus e as falhas dos homens neste mundo. Com
tamanha afeição e fervor, Blanquerna entregava-se à total e profunda contemplação,
de modo que, ao adormecer, sentia-se na presença de Deus, conforme havia
suplicado em suas preces." Observamos, nesta passagem, a profundidade com
que Blanquerna penetra nas realidades espirituais, reconhecendo Deus como o Ser
Supremo digno de adoração. Por meio de um olhar atento, ele atravessa as
dimensões da criação, encontrando na existência de um Criador o fundamento de
toda a realidade. Assim, as estrelas, o pôr do sol e os elementos mais sublimes
do mundo tornam-se vínculos inegáveis que conduzem à certeza da existência
divina e à necessidade do culto. Em sua obra “A Adoração, Prioridade,
Princípios e Práticas”, J. C. Ryle discorre com clareza sobre como a verdadeira
duração espiritual impacta o coração e a consciência humana. Esse processo
intensifica a percepção acerca da malignidade do pecado e da própria corrupção
interior, aprofundando a humildade e promovendo maior zelo pela vida
espiritual. Compreendemos, portanto, que ao acessarmos as realidades divinas e
contemplarmos a santidade do Deus a quem servimos, duas constatações emergem em
nosso íntimo. A primeira é a necessidade de oferecermos o nosso melhor — nossa
atenção, amor, devoção e tempo — ao Deus que, em Sua infinita misericórdia,
revela a gravidade de nossas transgressões ao manifestar Sua glória. É
precisamente nesse ponto que a graça e a misericórdia divinas ganham
proeminência, pois, ainda que imerecedores, fomos alcançados pelo sacrifício de
Cristo, que pagou com o próprio sangue a nossa redenção. Sendo a nossa salvação
fruto do triunfo da graça sobre a nossa miséria, germina em nosso coração uma
gratidão profunda e constante. Esta gratidão, por sua vez, manifesta-se
diariamente ao longo de toda a nossa jornada, sendo a marca indelével de todo
cristão verdadeiro, que dirige um louvor contínuo ao seu Criador. Em um tempo marcado
por tamanha superficialidade, faz-se urgente o retorno a uma vida de adoração
intensa. Devemos compreender que, ao adorarmos, reconhecemos nossas
fragilidades humanas e, simultaneamente, fortalecemo-nos ao atrair a soberania
de Deus sobre nós. É o próprio Deus quem nos chama e nos designa a essa
prática, sem a qual nos tornamos vazios e incompletos. Por ter nos criado à Sua
imagem e semelhança, como uma extensão de Sua própria natureza, Deus conhece a
nossa inclinação a buscar ídolos caso não O adoremos. Ele não nos destinou a
esta terra como morada definitiva, mas sim à eternidade ao Seu lado. Por isso,
atrai-nos à Sua presença, permitindo que O conheçamos profundamente e nos
assemelhemos a Ele — visto que nos tornamos, inevitavelmente, reflexos daquilo
que adoramos. Dessa forma, devemos dedicar a nossa vida e o nosso coração a Ele
com total foco. Reconhecendo nossa natureza frágil, é através da adoração que
recebemos o poder e a vida espiritual necessários para encontrar a verdadeira
felicidade e o sentido da nossa existência. Fomos projetados para adorar; que
possamos, portanto, buscar a profundidade de uma vida vivida inteiramente para
a glória de Deus, em espírito e em verdade. Vivemos tempos marcados por
profundas inquietações; por isso, devemos elevar o nosso espírito acima das
aflições mundanas, a fim de mantermos o pensamento voltado a Deus e às coisas
que Lhe são concernentes.
“Adorar é submeter toda
a nossa natureza á Deus. É a purificação da imaginação pela Sua beleza: a
abertura do coração ao Seu amor; a submissão da vontade a seu propósito”
(William Temple)
Atualmente, não apenas observamos uma
superficialidade na adoração, como também percebemos que a liturgia dos cultos,
por vezes, não nos conduz à necessária profundidade espiritual. Mesmo reunidos
como igreja, o interior da maioria dos presentes distancia-se da verdadeira
comunhão. Enquanto os lábios proferem orações mecânicas, as mentes dispersam-se
em fantasias e pensamentos que, se manifestados em sonhos ou intenções, seriam
considerados indignos e reprováveis diante de Deus. Essa falta de concentração
revela uma preocupante contaminação espiritual, que induz muitos a encarar o
culto como mero lazer ou entretenimento, tratando a exposição da Palavra com o
mesmo desinteresse reservado a um programa de televisão ou uma peça de teatro. Contudo,
devemos estar cientes de que o culto é um ambiente solene, um lugar de oração e
entrega. Se não sentimos deleite e felicidade genuína na comunhão com Deus —
tanto no culto quanto em nossa vida diária —, é um sinal evidente de que a
nossa fé requer exame e reparação. Não existe satisfação ou propósito superior
à experiência de caminhar permanentemente com o Senhor, adorando-O em
verdadeira santidade e devoção, amando-O de todo o coração, de toda a alma e de
todo o entendimento.
Os
Evangelhos contêm episódios significativos que nos alertam contra a
superficialidade na vida cristã. Jesus, ao convidar seus discípulos a
acompanhá-lo ao monte para orar, estabeleceu um modelo de dedicação e comunhão
com o Pai. Contudo, enquanto Ele buscava o Senhor com intensidade, seus
discípulos foram vencidos pelo sono. Esse contraste revela uma condição que se
reflete, ainda hoje, na vida de muitos cristãos: uma latente dormência
espiritual. Observa-se, com frequência, indivíduos que participam de cultos ou
realizam leituras devocionais sem, contudo, permitirem que a Palavra penetre em
suas atitudes. A falta de profundidade impede o acesso a uma realidade
espiritual genuína, ocultando a necessidade vital da oração, da adoração e da
comunhão íntima com Deus e com o Senhor Jesus Cristo. Embora exista o chamado
ao despertamento, nota-se que, no momento crucial da entrega, o que prevalece é
a inércia física e espiritual. Durante o culto, nosso corpo está presente e
nossas vozes entoam louvores, mas questiona-se: onde está o nosso coração? Qual
é o grau real de nossa concentração e atenção? Estamos, de fato,
regozijando-nos e desfrutando das verdades espirituais, ou permitimos que nossa
alma vague por lugares distantes?
Muitas
vezes, nossa presença física não reflete a postura de nossa mente e de nosso
espírito. Vivemos em um estado de letargia, distantes da plenitude da comunhão,
ocupados com devaneios, em vez de estarmos plenamente despertos para a
realidade do Reino de Deus.
Isto
me recorda uma passagem memorável de Thomas More em sua obra “A Agonia de
Cristo”, na qual nos é apresentado o seguinte pensamento: devemos elevar nossos
corações acima das pesadas inquietações dos assuntos mundanos, a fim de
mantermos nossos pensamentos em Deus e em Seus desígnios. É imperativo
compreender que a nossa vida espiritual deve ser sopesada à luz da intensidade
do sacrifício de Cristo. O coração bendito e eterno do nosso Santíssimo Salvador
foi sobrecarregado e transpassado por dores indescritíveis em virtude dos
nossos pecados. A cruz não é um elemento supérfluo, tampouco algo superficial;
há uma densidade incalculável no evento do Calvário. As dores, os sofrimentos e
as humilhações ali contidos atingiram o grau máximo de severidade. Quando Deus
enviou Seu Filho para expiar nossas transgressões e satisfazer a justiça
divina, Ele o fez para que Jesus suportasse a mais terrível das mortes. Ele
atravessou as mais profundas agonias, tormentos que transcendem a capacidade da
imaginação humana. Diferente daqueles que morreram como punição por seus
próprios crimes, Cristo carregou sobre si o peso de todas as nossas
iniquidades. É impossível mensurar a pressão psicológica e espiritual que Ele suportou
em nosso favor.
Diante de
uma expressão tão concreta de profundidade, como podemos conceber a vida
cristã, o culto e a adoração de maneira leviana? A cruz é o parâmetro absoluto;
portanto, qualquer abordagem da sua mensagem desprovida de seriedade beira a
blasfêmia. Não há qualquer traço de superficialidade na morte de Jesus Cristo,
e, por isso, este deve ser o eixo central que orienta toda a nossa jornada
espiritual. Aprecio profundamente uma citação de William Temple, que define o
culto a Deus como o estímulo da consciência pelo reconhecimento de Sua
santidade. Segundo ele, cultuar é conduzir a mente à contemplação da beleza
divina e abrir o coração ao Seu amor, a fim de submeter a própria vontade aos
Seus propósitos eternos. Tal definição expressa, com notável profundidade, a
atitude essencial de quem ama e adora a Deus.
Que possamos, portanto, alcançar uma percepção
profunda da realidade espiritual que define a vida cristã, conduzindo nossa
existência sob o temor e a reverência devidos a Deus. Que isso não se restrinja
apenas aos cultos, os quais não devem ser espaços de entretenimento ou mera
animação, mas assembleias solenes dedicadas exclusivamente à adoração,
colocando Deus Pai, Filho e Espírito Santo no centro de nossa atenção e de
nossa alma.
Que
possamos experimentar uma alegria que transcenda a do homem mundano. Ainda que
este se regozije ao encontrar riquezas materiais após um árduo esforço, sua
satisfação é efêmera, visto que os tesouros deste mundo são passageiros.
Diferentemente, ao vivermos na presença de Deus, desfrutamos do maior de todos
os tesouros, que permanece não apenas nesta vida, mas por toda a eternidade.
Não há bem mais precioso do que o próprio Deus. Ao compreendermos esta verdade,
tornamo-nos cristãos mais espirituais, profundos e zelosos em nossa devoção.
Seremos, assim, as pessoas mais felizes do mundo, pois nossa felicidade não
emana de elementos superficiais, mas da fonte inesgotável que provém do trono
da Suprema Majestade, que vive e reina para todo o sempre.

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