AFLIÇÕES E O CRISTÃO MADURO


 


Um aspecto notável mencionado pelo salmista, no versículo 15 do capítulo 20 do livro de Salmos, é a exortação a clamarmos durante os momentos de angústia. Esse princípio estabelece um dos pilares fundamentais da vida espiritual cristã, fundamentado na realidade da consolação divina. Todavia,faz-  se  necessário esclarecer a questão da consolação,visto que muitos cristãos acreditam que não enfrentarão tribulações ou aflições; ou, caso as enfrentem, esperam um livramento imediato ou uma lívio direto por parte do Senhor,o que não encontra respaldo nas Escrituras.

Antecedendo o Salmo 50, encontramos o Salmo 23,no qual o salmista declara: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, tu estás comigo”. Diante disso, é fundamental compreender que a presença de Deus em meio à aflição é o aspecto central da experiência cristã, um tema recorrente tanto no Livro dos Salmos quanto em toda a Escritura. A essência da tribulação reside, precisamente,em atravessá-la sob o amparo divino.Portanto, a  prioridade máxima é cultivar essa comunhão com Deus duranteo s momentos de tranquilidade e conforto. Ao edificarmos essa relação nos dias de bonança, estaremos aptos a colher os frutos de uma presença consolidada quando os períodos de aflição inevitavelmente surgirem.

Observam-se, atualmente, diversos equívocos teológicos que persistem em igrejas cristãs, sobretudo naquelas que adotam tendências pós-modernas e triunfalistas, as quais difundem a ideia de que o cristão está isento de sofrimento. Tal ensinamento não encontra respaldo nas Escrituras, uma vez que uma leitura atenta revela que as aflições fazem parte da jornada cristã. Em João 16:33, Jesus afirma:“No mundo tereis aflições; contudo, tende bom ânimo, eu venci o mundo”.Além disso, a promessa de Sua presença constante assegura que Deus caminha conosco nos momentos mais adversos. Ele não nos oferece apenas a salvação, mas, por meio do ministério do Espírito Santo, garante uma presença contínua que nos capacita a experimentar a plenitude da graça e da misericórdia divina, mesmo diante das maiores tribulações.

Esta é a perspectiva do cristão bíblico: aquele que compreende que enfrentará, inevitavelmente, períodos de profunda adversidade, tal como todos nós. Ao analisarmos a trajetória dos santos do AntigoTestamento, observamos que atravessaram intensas tribulações; o mesmo se aplica aos santos do Novo Testamento. A adversidade atua como uma força propulsora que, mesmo em meio à dor, nos conduz para mais perto do Senhor. Podemos contemplar essa espiritualidade autêntica e esse real consolo na vida daqueles que, mesmo após serem açoitados e encarcerados,com os pési mobilizados em troncos, louvavam a Deus.Eles não proferiram blasfêmias, não abandonaram a fé, não criticaram severamente ao Senhor a quem serviam, nem murmuraram diante de seus sofrimentos. Pelo contrário, eles cantavam e se alegravam. Por que agiam assim? Porque encontravam consolo na comunhão íntima que mantinham com o Cristo ressuscitado.

Portanto,nosso tema central residena importância da preparação espiritual.Como um conselho prudente, recomendo que, em tempos de bonança, você se dedique intensamente à leitura das Escrituras, à oração e ao desenvolvimento de sua comunhão com Deus. Ao edificar sua vida espiritual e guardar a Palavra no coração,vocêacumulará provisões para os momentos de adversidade e manterá um caminho livre junto ao trono do Senhor. Desse modo,nossas tribulações tornam-se oportunidades para glorificara Deus, demonstrando a todos ao nosso redor que, mesmo diante das provações, sustentamos uma viva esperança.

Ao longo dos dois milênios de história da Igreja, testemunham os inúmeros fiéis que, privados de sua liberdade, foram perseguidos, encarcerados ou condenados à morte por causa de sua fé. Contudo, mesmo no cárcere, eles glorificavam a Deus, sustentados por uma provisão espiritual que nutria suas almas nos momentos de maior adversidade. Esse vigor advinha do hábito de terem se dedicado profundamente às Escrituras enquanto ainda gozavam de liberdade.A Palavra, anteriormente lida,havia sido internalizada; ainda que na prisão não tivessem acesso físico aos textos sagrados, eles possuíam passagens inteiras dos Evangelhos e do Novo Testamento guardadas na memória. Dessa forma, embora impedidos de manusear as Escrituras, desfrutavam de pleno acesso ao seu conteúdo por meio do depósito guardado no coração, o qual lhes servia de alento, consolo, luz e sustento espiritual. Eis a importância de, neste exato momento em que você lê este conselho, considerar a experiência de alguém que, ao longo da vida, atravessou diversas aflições, mas permaneceu inabalável nos caminhos do Senhor. Minha recomendação é que, após a leitura deste estudo, você coloque em prática uma vivência mais profunda das Escrituras: memorize a Palavra, guarde-a em seu coração e busque uma comunhão mais íntima com Deus por meio da oração constante. Ao cultivar essa riqueza espiritual, você acumulará um tesouro interior que lhe permitirá, nos momentos de adversidade,recorrer à presença consoladora do EspíritoSanto e permanecer firme, independentemente dos desafios.

Observamos esse exemplona vida de Daniel e de seus três amigos.Eles possuíam uma fé inabalável, mesmo vivendo em um ambiente inóspito e hostil aos seus valores espirituais. Quando sua fé foi posta à prova, eles não vacilaram. Essa constância não advinha de uma capacidade humana, mas de uma fé viva e de uma comunhão ininterrupta com o Criador. Embora as circunstâncias externas fossem severas, a integridade deles permaneceu intacta: Daniel persistiu em suas orações e seus amigos mantiveram a fidelidade, tratando seus valores espirituais como inegociáveis. Tal espiritualidade serviu-lhes de escudo e fortaleza contra a oposição da Babilônia. Assim, eles superaram todos os desafios daquele reino e saíram vitoriosos diante de suas provações.



C.J.Jacinto

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