Humanismo e Cristianismo O Contraste e os Desafios


 Humanismo e Cristianismo




Duas cosmovisões em colisão — e por que o resultado desta batalha de ideias define o futuro de toda a civilização.

C. J. Jacinto

 

Estudo Bíblico & ApologéticoCom base no pensamento do Dr. Robert Morey

 

 

 

O debate entre cristianismo e humanismo não é apenas uma discussão filosófica abstrata. Trata-se de um confronto real — duas formas radicalmente opostas de enxergar a vida, o ser humano e a sociedade. Enquanto o cristianismo enxerga o ser humano como portador de um valor intrínseco derivado da sua condição de imagem de Deus, o humanismo sustenta uma premissa completamente oposta. Essas duas cosmovisões produzem culturas, leis e comportamentos radicalmente diferentes, e compreender esse contraste é urgente.

 

SEÇÃO I

 

Crenças que moldam o comportamento

 

Em um artigo seminal, o Dr. Robert Morey argumenta com grande acerto que o humanismo reduz a vida humana a uma questão de utilidade. Esse ponto de partida teológico e filosófico nos leva diretamente a uma cadeia de consequências que, quando examinadas à luz das Escrituras, revelam a profunda incompatibilidade entre as duas cosmovisões.

Concordo inteiramente com o diagnóstico de Morey e desejo salientar suas ideias, pois elas estão firmemente ancoradas nas Escrituras. Mais do que isso, quero apresentar alguns princípios fundamentais da cosmovisão cristã e, assim, oferecer um diagnóstico histórico e cultural pelo qual possamos compreender a importância dessa cosmovisão para o estabelecimento de uma sociedade justa e estável.

Aquilo que uma pessoa acredita, valoriza e considera moral acaba refletindo-se inevitavelmente na sua maneira de viver — as crenças moldam o comportamento.

PROVÉRBIOS 23.7 · MATEUS 12.37

 

Seguindo o que ensinam Pv 23.7 e Mt 12.37, entendemos que as crenças moldam o comportamento. Isso vale tanto para o cristianismo quanto para o humanismo. Uma vez adotada a premissa, seus frutos inevitavelmente se manifestam na cultura, nas leis e nos relacionamentos.

E aqui chegamos ao ponto mais polêmico e mais urgente. A Bíblia Sagrada nos ensina que os frutos revelam a árvore — conforme nos mostra Jo 7.4Mt 7.16 e a passagem clássica de Gl 5.19-21. O cristianismo bíblico não defende um relativismo moral; pelo contrário, defende absolutos. E por defender absolutos, o cristão pode — e deve — fazer juízos morais em conformidade com a Palavra de Deus.

 

SEÇÃO II

 

Cultura, leis e formadores de opinião

É lógico concluir que a cultura de uma nação reflete os valores de seus formadores culturais. Filósofos, artistas, professores, políticos, juízes, médicos, jornalistas — todos eles determinam o rumo de uma sociedade. Se essas pessoas abraçam o humanismo e toda forma de relativismo, conduzirão a sociedade para um fim catastrófico.

A própria história o declara: civilizações antigas entraram em colapso quando os absolutos foram destruídos. O que temos visto hoje é um sistema global trabalhando ativamente para a destruição dos valores judaico-cristãos — a manifestação do humanismo em sua forma mais literal, estabelecendo o relativismo moral no interior da sociedade em que vivemos.

DIAGNÓSTICO HISTÓRICO

 

Culturas pagãs pré-cristãs codificaram leis antibíblicas — era a cultura da morte. Práticas como o aborto, o infanticídio e a escravidão eram parte natural das culturas greco-romana, além da idolatria e da necromancia.

O cristianismo transformou o Império Romano. À medida que a fé cristã se espalhou, leis pagãs foram substituídas por fundamentos bíblicos, assentando toda a civilização ocidental sobre valores cristãos — o que formou uma das maiores civilizações que já existiu sobre a face da terra.

O que aconteceu foi que, pouco a pouco, desde o século passado, os cristãos foram recuando. Concentraram-se apenas na piedade pessoal e abandonaram as profissões formadoras de cultura. Saíram da posição de formadores de opinião pública, e houve um enfraquecimento do testemunho — de modo que o cristão atual, com raras exceções, já não é mais o sal e a luz deste mundo.

Esse recuo tornou-se terreno fértil para a semeadura do humanismo, do relativismo e do pós-modernismo em nossa sociedade. Agora, mais do que nunca, quem ocupa os espaços de influência são pagãos, neopagãos relativistas, ateus e humanistas que fazem militância extrema para implantar o relativismo moral em contradição direta com os valores judaico-cristãos.

 

SEÇÃO III

 

O valor intrínseco da vida — a posição cristã

Voltemos agora à teologia cristã e ao que a cosmovisão cristã oferece ao mundo. A verdade fundamental é esta: o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Por isso, toda a vida humana possui valor intrínseco e imutável desde a concepção até a velhice mais avançada. Esse valor não depende de utilidade, produtividade, saúde ou desejo dos outros.

A posição cristã ortodoxa preza pela defesa da criança ainda no útero de sua mãe, assim como pela dignidade do homem na sua velhice. Não temos uma concepção materialista e meramente utilitarista do ser humano. Ele não é produto de uma evolução cega — ele é um ser criado à imagem de Deus, com valor e dignidade intrínseca.

COSMOVISÃO CRISTÃ

A vida humana tem valor intrínseco e imutável por ser criada à imagem de Deus. Esse valor não pode ser revogado por nenhuma circunstância — doença, deficiência, idade ou utilidade social.

COSMOVISÃO HUMANISTA

 

A vida é resultado do acaso e do processo evolucionário num sistema natural fechado. Sem Deus na equação, a vida perde seu valor intrínseco e passa a ter apenas valor utilitário — vale na medida em que serve a algo.

A partir desta base, como cristãos conservadores, afirmamos com clareza as seguintes posições morais derivadas da Palavra de Deus:

POSIÇÕES DA COSMOVISÃO CRISTÃ ORTODOXA

 

Somos absolutamente contrários à experimentação genética em óvulos fertilizados, pois cada embrião já é portador da imagem de Deus. O aborto é sempre errado, com a única exceção sendo quando a vida da mãe está em risco real. Todo infanticídio é errado. A morte por piedade é assassinato, mesmo quando vestida de motivações compassivas. Não deve haver limite de idade para o acesso a cuidados médicos. A vida não pertence ao indivíduo — pertence somente a Deus.

SEÇÃO IV

 

As dez consequências lógicas do humanismo

Concordo com todos os apologistas, inclusive Morey, cujos escritos li, que o humanismo parte de uma premissa radicalmente oposta à visão cristã. Sem Deus na equação, da premissa de que a vida tem apenas valor utilitário, decorrem dez consequências lógicas e perigosas:

1.    Considerações econômicas podem justificar o término de uma vida que custa caro ao Estado ou à família.

2.  A possibilidade de uma vida miserável torna-se justificativa para interrompê-la.

3.  Crianças indesejadas devem ser abortadas, pois "é melhor não nascer".

4.  Gravidez inconveniente pode ser legalmente encerrada.

5.  Responsabilidades sociais superam direitos individuais — o coletivo pesa mais do que a pessoa.

6.  A superpopulação justificaria o extermínio de vidas consideradas inúteis.

7.   Escassez de alimentos e combustível exigiria términos planejados de vida.

8.  Os poucos deficientes e os doentes terminais devem se sacrificar pelo bem dos muitos.

9.  Pessoas em condições miseráveis "querem morrer" — justificativa que abre as portas para a eutanásia.

10.                   "Parasitas econômicos" — aqueles que não produzem bens ou serviços — devem ser eliminados.

É preciso entender que nem sempre todo humanista defende explicitamente cada um desses pontos. Porém, essas conclusões decorrem de uma lógica e de uma premissa que nega o valor intrínseco da vida. As sementes já estão plantadas — e podem permanecer latentes dentro das ideias do humanismo até que o contexto social as faça germinar.

SEÇÃO V

 

O caso histórico: Nazismo e Comunismo Soviético

Quando uma sociedade abandona a fundamentação cristã do valor da vida, as consequências culturais são inevitáveis. Para compreender isso, precisamos examinar o contexto em que as ideias nazistas proliferaram.

NOTA HISTÓRICA

 

A Alemanha do contexto em que emergiu o nazismo era caracterizada por protestantismo e catolicismo nominais — uma cultura que aparentemente parecia religiosa, mas que havia sido abalada pelo modernismo teológico, pelo evolucionismo e pelo esoterismo. A Igreja Cristã encontrava-se profundamente enfraquecida, com a fé, a piedade e o fervor de muitos cristãos destruídos.

Foi dentro desse vácuo que as sementes do nazismo foram lançadas. O nazismo era, em essência, uma forma de humanismo: exaltava a raça ariana, buscava a superioridade radical de um povo e bebeu diretamente das ideias de Friedrich Nietzsche e da teoria da evolução de Charles Darwin. Tornou-se uma máquina de morte — tendo como lema central a exaltação de um homem "puro" e considerado quase divino.

O mesmo padrão se reproduz no comunismo soviético. O secularismo e o ateísmo humanista moldaram o sistema soviético em seu auge. Stalin estabeleceu um culto à personalidade; o cadáver de Lenin exposto na Praça Vermelha tornou-se símbolo de um estado humanista secular. Nesse sistema, o indivíduo era classificado como um ser utilitário ao Estado. Todo homem que não servia ao sistema era descartado — exemplo claro de humanismo atado a uma ideologia política anticristã.

Versões mais recentes incluem o movimento transumanista, que deposita ênfase extrema no potencial humano para vencer os limites naturais e alcançar a imortalidade através da ciência e da tecnologia. A ciência torna-se uma nova religião tecnológica — plataforma que ergue o "super-homem" que venceu a morte e se torna sua própria divindade.

 

SEÇÃO VI

 

Ideias geram culturas — e culturas geram leis

Uma vez que ideias e crenças têm o poder de mudar completamente uma sociedade, precisamos compreender as consequências em cadeia que o humanismo produz:

A CADEIA DE CONSEQUÊNCIAS

 

O humanismo, pela negação dos absolutos  leva ao fim da moralidade.
O relativismo  leva ao fim da verdade.
A ausência de valores reais  leva ao fim da justiça.
O coletivismo que substitui o indivíduo  leva ao fim da liberdade.

O que precisamos aprender, ensinar e proclamar do alto do púlpito é este princípio: ideias geram comportamentos, comportamentos geram cultura, cultura gera leis. Mude as crenças e mudará a sociedade — para o bem ou para o mal. O pós-modernismo e o humanismo nada mais fazem do que conduzir a humanidade para um fim catastrófico.

Infelizmente, tenho observado não somente uma indiferença com relação a este assunto, mas uma total inércia espiritual por parte de muitos evangélicos. Poucos têm gritado e advertido a respeito das tendências anticristãs que estão se estabelecendo por etapas em nossa sociedade — e que, mais cedo ou mais tarde, formarão não somente uma força de oposição ao cristianismo, mas um movimento para criminalizar toda forma de cristianismo fundamental e bíblico.

CHAMADO À AÇÃO

É hora de a Igreja avançar

Precisamos de um engajamento corajoso e ousado para proclamar e defender as verdades bíblicas fundamentais. Isso é uma proteção para nossas famílias, para nossas igrejas, para nossas congregações. Aqueles que estão à frente do ministério — ministros do Evangelho, pregadores — devem tomar posições firmes e defender os absolutos da Palavra de Deus.

O recuo característico de uma Igreja fraca, de pastores e pregadores tímidos, tem trazido consequências nefastas. Parte da iniquidade que se prolifera no mundo é consequência da pouca oposição que a Igreja tem feito frente à apostasia que se alastra. Não podemos mais recuar.

Em que repousam os fundamentos do valor da vida humana? Somente na verdade de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Nenhuma circunstância humana pode anular esse valor — e nossa tarefa é proclamar isso com toda ousadia, em todos os espaços que nos forem dados.

C. J. Jacinto

 

Apologista e estudioso da cosmovisão cristã. Algumas das ideias apresentadas neste artigo foram desenvolvidas a partir do pensamento teológico do Dr. Robert Morey, cujos escritos sobre humanismo e cosmovisão cristã são referência incontornável para a apologética contemporânea.

www.heresiolandia.blogspot.com

 

 

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