A GRANDE ILUSÃO DO ESOTERISMO PSICODÉLICO



 

C. J. Jacinto

 

 

 

As origens do espiritualismo e do paganismo estão ligadas ao uso de substâncias psicoativas, notadamente os psicodélicos. Uma clara ilustração disso reside no xamanismo, uma das mais antigas práticas religiosas espiritualistas, seja em suas manifestações siberianas ou amazônicas. Apesar da distância geográfica, notam-se semelhanças significativas, indicando uma origem comum. O espiritualismo antigo, portanto, encontra suas raízes no uso de psicodélicos, uma característica que perdura tanto nas práticas ancestrais quanto nas contemporâneas. A Nova Era, por exemplo, popularizou muitos desses movimentos, conceitos e métodos pelos quais o indivíduo busca contato com o sobrenatural e vivencia experiências paranormais.

 No romance distópico "Admirável Mundo Novo", Aldous Huxley apresenta uma sociedade aparentemente perfeita, fruto do progresso humano, onde os cidadãos recorrem à droga "soma" para obter prazer, felicidade e um sentido para a vida dependendo dos efeitos da “soma”, para experimentar felicidade e satisfação. Essa busca por satisfação e significado, através do uso de substâncias, assemelha-se, em certos aspectos, à filosofia de alguns defensores dos psicodélicos. Estes acreditam que tais substâncias podem ser um meio de alcançar experiências espirituais, unidade com o divino, receber novas revelações, explorar dimensões ocultas e responder às questões existenciais fundamentais.

 Observa-se, atualmente, um movimento em prol da liberação de drogas, que pode, em parte, ser interpretado como uma tentativa de promover a espiritualização da sociedade, uma atuação do espírito do erro que opera progressivamente desde os dias do apostolo João (I João 4:3). Essa tendência poderia levar o homem moderno a um contato mais intenso com um plano espiritual sinistro, envolto por falsas luzes, possivelmente um plano com características diferentes das usualmente conhecidas. Essa perspectiva, em particular, auxilia na compreensão da motivação por trás da liberação e do consumo de drogas, buscando uma experiência espiritual mais profunda e a satisfação pessoal.

 Ao examinarmos os relatos iniciais do Livro de Gênesis, somos apresentados à interação entre o plano espiritual e o mundo material. O homem, em sua condição original, desfrutava de uma comunhão íntima com Deus. Deus o visitava regularmente, como um encontro amistoso entre duas pessoas, pois o desejo divino era manter uma relação com o homem. Deus descia ao Jardim do Éden para comunicar-se com Adão, revelando uma interação harmoniosa entre o divino e o humano. O propósito de Deus era proporcionar essa comunhão ao homem, para a qual ele fora criado. Independentemente das convicções pessoais de cada indivíduo, a necessidade de comunhão com o divino é intrínseca à natureza humana. A busca por essa conexão é universal. O ateísmo, portanto, pode ser considerado uma distorção da própria essência humana, pois o homem foi criado para a comunhão com Deus. E a antropologia e a arqueologia são provas irrefutáveis acerca dessa inclinação do homem ao divino e o poder de atração que possui o sobrenatural no coração humano.

 Essa comunhão, no entanto, foi interrompida pelo pecado da desobediência. O diabo, influenciando Eva e, consequentemente, Adão, provocou a queda e a expulsão do jardim. Como resultado, a comunhão com Deus foi perdida. Apesar disso, a consciência da necessidade de comunhão com o divino permaneceu enraizada no homem, uma sede inerente à sua natureza, mesmo após a queda.

 No livro de Isaías, capítulo 59, versículo 2, a passagem demonstra que o pecado estabelece uma separação entre o ser humano e Deus, resultado da queda. Após a expulsão do Jardim do Éden, Adão, Eva e seus descendentes foram privados da comunhão com Deus. Diante dessa realidade, Deus age para remediar as consequências do pecado, a ruptura da comunhão e a separação entre o mundo material e o espiritual. A remoção do Éden simboliza a transformação do mundo terreno em lugar insólito e cheio de desafios, no qual o homem passou a habitar. Observa-se que, mesmo após a queda, alguns indivíduos buscaram restabelecer o relacionamento com Deus, buscando a reconciliação. “E a Sete também nasceu um filho; e chamou o seu nome Enos; então se começou a invocar o nome do Senhor”(Genesis 4:26) Assim, surgiram homens de Deus que se dedicaram a restaurar essa comunhão, invocando o nome do Senhor Todo-Poderoso.

 A condição humana, intrinsecamente ligada à espiritualidade, impulsiona o homem, em sua atual ausência de percepção e discernimento, a buscar a conexão com o divino, como alguém que se orienta na escuridão. Esta busca incessante por comunhão com Deus é uma reação universal. As religiões, mesmo em suas manifestações mais antigas, testemunham essa necessidade humana fundamental: a busca por Deus, embora o caminho para Ele pareça obscurecido. Não importa o ponto da ancestralidade humana, a busca pelo mundo espiritual está lá.


 A separação causada pelo pecado ergueu um obstáculo intransponível, um abismo que distancia o homem de Deus. Assim, o homem tenta agora encontrar consolo e preencher o vazio existencial, buscando em elementos da natureza, como as estrelas, a lua e o sol, e até mesmo nos animais, um objeto de culto. No entanto, o pecado ofuscou a visão do homem, impossibilitando-o de reconhecer a presença divina onde ela realmente reside: no trono celestial. Em decorrência dessa cegueira espiritual, o homem busca, nas criaturas, uma divindade para adorar.
 A história da humanidade, desde os primórdios da civilização, é marcada por uma incessante busca pelo transcendente. O homem, consciente dessa dualidade, reconhece a existência de um mundo físico e de um mundo espiritual, mesmo com suas percepções limitadas e, por vezes, obscurecidas. Contudo, a compreensão da existência de um reino espiritual corrompido, que frequentemente se manifesta sob a aparência de entidades benevolentes para enganar, escapa à capacidade de discernimento. Ao longo da história, essa influência tem se mostrado sutil, mas persistentemente eficaz sobre a humanidade. “O Mundo já no maligno” (I João 5:19)

 Compreendemos que as substâncias psicoativas denominadas enteógenos, termo derivado do grego "entheos", que significa "Deus dentro" ou "a erva dos deuses", eram utilizadas pelos xamãs. Extraídas de ervas e fungos, tais substâncias eram empregadas por eles, considerados representantes de uma das formas mais primitivas de espiritualidade. Especificamente, os xamãs siberianos recorriam ao cogumelo “Amanita muscaria”. Por sua vez, os xamãs amazônicos utilizavam a ayahuasca e o pó da semente da angico como portas de abertura para a percepção do sobrenatural e para estabelecer contato com o mundo espiritual. Para estes últimos, as plantas eram tidas como "plantas professoras", pois acreditavam que possuíam espíritos capazes de transmitir conhecimentos sobre questões espirituais e sobrenaturais.

A presente situação configura o embrião de uma forma religiosa que busca restabelecer a comunhão sagrada. Em meio à escuridão que permeia o mundo, a humanidade, de forma profana e ilegítima, almeja uma revelação divina, em contraposição aos preceitos evangélicos. Conforme a Bíblia Sagrada, desde a narrativa da Queda em Gênesis 3:15 até os últimos capítulos do Apocalipse, a revelação provém de Deus, que Se manifesta ao homem para restaurar a comunhão perdida no Éden.

 Mas como podemos perceber nos eventos de Genesis 3, surgiu também um agente espiritual de revelação maligna, a malignidade na sua essência estava na oposição a vontade de Deus, não há nada de sinistro nas palavras da antiga serpente, ela apenas seduziu com palavras que Eva gostava de ouvir, era palavras suaves, que sustentam a ansiedade de um coração indisposto a permanecer nas coisas verdadeiras.



 As tentativas de acesso ao mundo espiritual por meio de substâncias psicodélicas, psicoativas e práticas similares são consideradas profanas. Tais artifícios, utilizados pela humanidade na busca da divindade perdida, abrem espaço para a ação de entidades espirituais enganosas, que se disfarçam para manipular, seduzir e escravizar os homens. Esta realidade, embora contestável à luz das Escrituras, persiste. Semelhantemente ao que se observou nas religiões de mistérios da Antiguidade, os rituais buscavam experiências em estados alterados de consciência. Nos mistérios eleusinos, por exemplo, os iniciados consumiam uma bebida ritualística, o kykeon, uma mistura de água, cevada e hortelã, a qual, em sua composição, poderia conter um composto fermentado, possivelmente contaminado por fungos do trigo. Essa combinação, por sua vez, poderia ter proporcionado efeitos psicodélicos. De modo análogo, as pitonisas do templo de Apolo, em Delfos, entravam em transe através da inalação de emanações gasosas, denominadas "gases ctonicos". Acredita-se que esses vapores sagrados fossem provenientes da serpente morta por Apolo, sepultada sob o templo onde as pitonisas faziam seus rituais e profetizavam recebendo revelações do além. Dessa forma, pode-se inferir que o espiritualismo ancestral se relaciona ao uso de substâncias psicoativas, como ervas e compostos, empregadas para induzir estados alterados de consciência e, possivelmente, estabelecer contato com entidades espirituais do mundo caído, muitas vezes disfarçados das mais variadas formas, adaptando-se ao contexto de cada crença e cultura.

 Essa reflexão evoca a figura de Caim, conforme descrito em Gênesis, capítulo 4, versículo 3. Caim anseia por restabelecer a comunhão com Deus, buscando reintroduzir o culto de adoração perdido após a queda. Movido por esse desejo, ele se propõe a construir um altar, oferecendo os frutos da terra como oferenda. A origem desses frutos, provenientes de ervas e plantas, marca a primeira tentativa humana de se reconectar com o divino através dos produtos da terra. Essa busca, embora distante, representa um elo inicial que, com o tempo, evoluiria. O xamanismo e as religiões ancestrais, por exemplo, passaram a utilizar os frutos da terra, incluindo ervas e fungos com efeitos psicodélicos, poções e outras substâncias, como meio de estabelecer contato com supostas divindades, seres considerados divinos e entidades de outras dimensões espirituais.
 Abordaremos agora a figura central no renascimento do esoterismo e do ocultismo, cuja influência perdura até a atualidade. Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da Teosofia, exerceu impacto significativo sobre o movimento Nova Era, a nova espiritualidade e a expansão do espiritualismo. Em sua obra "Falsa Aurora: A Iniciativa das Religiões Unidas, o Globalismo e a Busca por uma Religião Mundial", o autor Lee Penn discute a importância dessa figura. Blavatsky, em certa época, utilizou haxixe, substância que manteve em uso por muitos anos. Sua primeira experiência com a droga ocorreu no Cairo, em 1850. Ela afirmou a um colaborador que o haxixe "multiplica por mil a vida da pessoa". Ela descreveu suas experiências como tão reais quanto os eventos da vida cotidiana. Justificava essas vivências como reminiscências de suas existências anteriores, suas reencarnações. Considerava a substância uma ferramenta valiosa para a elucidação de mistérios profundos.
 Em "Falsa Aurora" Lee Penn ainda aborda a religião transgressiva e a feitiçaria em suas origens, detalhando em seguida... A imagem pública da Wicca que pode parecer benévola; contudo, a realidade pode divergir significativamente. A Wicca, uma fé não dogmática, oferece, em certos casos, espaço para praticantes mais radicais que se dedicam a rituais sexuais, ao uso ritualístico de substâncias que promovem níveis alterados de consciência, ao ocultismo e à magia negra. Assim, observa-se que outra vertente, a contraparte da Nova Era e do neopaganismo, particularmente representada pela Wicca, tem sido influenciada pelo uso de psicodélicos e plantas e drogas que alteram a percepção, visando experiências de estados alterados de consciência e o contato com divindades e entidades espirituais.
Contudo, o assunto não se esgota aqui. É possível que a psicologia transpessoal seja pouco familiar para muitos leitores. Seu principal precursor, e talvez o mais influente, no desenvolvimento desta área, foi Stanislav Grof. Ele empregou e investigou intensivamente substâncias psicodélicas para explorar experiências de transcendência. Grof é considerado um dos fundadores da psicologia transpessoal e conduziu pesquisas inovadoras com LSD na  antiga Tchecoslováquia, no Instituto de Pesquisas Psiquiátricas em Praga, e posteriormente nos Estados Unidos. Ele via os psicodélicos como instrumentos para acessar estados não ordinários de consciência, incluindo níveis perinatais e transpessoais, que transcendem o ego, com vivências de unidade cósmica, memórias ancestrais e identificação com outros seres. Após a restrição ao uso de psicodélicos, Grof desenvolveu a respiração holotrópica como alternativa. Suas observações resultaram em uma ampliação da compreensão da psique, integrando perspectivas místicas e terapêuticas. Contudo, há um aspecto ainda mais inquietante que desejo abordar: a descrição presente no Livro de Enoque. Nesta obra, os anjos caídos são retratados como disseminadores do conhecimento sobre o uso de substâncias psicoativas. A antiga prática da farmacologia, com suas preparações a partir de raízes e poções mágicas, evidencia uma clara associação entre o uso dessas substâncias e a doutrinação demoníaca. Embora o Livro de Enoque não seja considerado canônico, ele corrobora a narrativa histórica que tenho apresentado, pois a etnobotânica e a antropologia religiosa, como mencionado anteriormente neste artigo, convergem para a mesma conclusão: a existência de uma ligação entre ervas psicoativas, substâncias psicodélicas e a influência de entidades consideradas demoníacas ou espíritos caídos. Essa associação é evidente, e as raízes do espiritualismo nas usas múltiplas formas também convergem para essa fonte.

 As recentes tendências de legalização e consumo social de drogas, observadas com crescente popularidade, inclusive com a liberação de substâncias psicoativas em alguns países para uso pessoal e medicinal, negligenciam, a meu ver, a possível conexão entre essas substâncias e influências espirituais negativas. Acredito que esta seja a questão central a ser analisada: a notória disseminação da legalização de drogas, apoiada por diversos defensores, principalmente políticos progressistas, espiritualistas da nova era entre outros defensores, visando o acesso irrestrito a tais substâncias pela sociedade. Essa situação, em minha perspectiva, facilitará a interação entre o mundo material e o espiritual, permitindo que forças demoníacas atuem com maior liberdade sobre a humanidade. Em suma, vislumbro um cenário em que a civilização se aprofunda ainda mais em trevas espirituais.

 Relembro a distopia concebida por Aldous Huxley, na qual, em "Admirável Mundo Novo", ele descreve um totalitarismo sutil. A narrativa explora o emprego de tecnologia avançada, controle populacional e o uso de substâncias entorpecentes, como o "soma", para induzir estados alterados de consciência para induzir a um entorpecimento. Nesse cenário, a realidade autêntica se dilui, e os indivíduos habitam um simulacro de paraíso, uma prisão sem grades, um mundo obscuro entre tecnologia avançada e um sistema de domínio global centrado em indivíduos “dopados” pelo “soma” vivendo uma felicidade fria e automatizada.  A obra de Huxley, ao delinear esse futuro sombrio, prenuncia um controle global totalitário. A sociedade distópica, meticulosamente orquestrada, submete as pessoas a um domínio opressor, garantindo a sua manipulação e funcionamento. A visão de Huxley ecoa muitas vezes nas crenças do movimento perennialista e outros movimentos de tendências universalistas e globalistas, ao qual ele aderiu. Essas correntes filosóficas almejam a criação de uma sociedade global harmônica, unificando as diversas culturas sob uma única forma de governo central. No entanto, essa "democracia", concebida através do prisma dos globalistas e suas formas de ecumenismo, representam a convergência de todas as tradições numa nova filosofia mundial, visando um paraíso terreno. Essa aspiração, contudo, não é recente. Ao longo da história, diversas tentativas foram feitas para concretizá-la, desde o Terceiro Reich de Hitler que tinha uma forte influencia esotérica e espiritualista até a ideologia comunista da União Soviética, que do ateísmo materialista caiu na irreversível armadilha do culto a personalidade como uma forma de preencher as profundas aberturas psicológicas e emocionais deixadas pelo ateísmo militante. Ambos movimentos existiram com o objetivo de estabelecer uma sociedade ideal neste mundo debtro de um contexto de totalitarismo absoluto. Esse é o mover perpétuo da política misturada com a religião humana. Tais anseios remetem à ancestral história da Torre de Babel, representando, em última análise, a perpetuação de um engano infernal.

 

 

Algumas fontes de  pesquisas:

 

Falsa Aurora – A Iniciativa das Religiões unidas, o Globalismo e a Busca por uma Religião Mundial – Lee Penn – Vide Editorial

Admiravel Mundo Novo – Aldous Huxley – Editora Sétimo Selo

 

Sites:

psychedelics.berkeley.edu

apa.org

akjournals.com

grofpsychedelictrainingacademy.ca

 

Ancestralidade do espiritualismo:

https://www.themarginalian.org/2022/12/02/mushroom-santa/

 

Psicodélicos nas religiões da antiguidade:

https://www.funga.fi/Karstenia/Karstenia%2032-2%201992-4.pdf




 

 

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