O EVANGELHO MODERNO E O EVANGELHO ANTIGO
O Teste
Supremo da Sua Fé
"Precisamos não somente seguir os
ensinos de Cristo, mas também ter comunhão com Ele; não somente professar Seu
nome, mas testemunhar acerca da Sua ressurreição e advertir acerca da Sua vinda
iminente."
— C. J. Jacinto
"No início, a Igreja era um grupo
de homens centrados no Cristo vivo. Então, a Igreja chegou à Grécia e tornou-se
numa filosofia. Depois, chegou a Roma e tornou-se uma instituição. Em seguida,
chegou à Europa e tornou-se uma cultura. E, finalmente, chegou à América e
tornou-se um negócio."
— Richard Halverson
Introdução
Existe uma diferença de proporções abissais entre o
Evangelho bíblico — a senda antiga pela qual caminharam os fiéis de todos os
séculos — e esse novo evangelho fabricado à medida das preferências humanas,
desenvolvido por uma cristandade egocêntrica e avessa ao custo do discipulado.
Não se trata de uma divergência superficial em pontos secundários da fé;
trata-se de uma diferença que define a própria natureza da salvação, do
discipulado e da esperança cristã.
O apóstolo Paulo, com autoridade apostólica e sob
inspiração divina, lançou sobre qualquer outro evangelho a mais grave sentença
que a linguagem teológica conhece: anátema. Isso nos revela que o evangelho não
é um produto passível de reformulação cultural — ele é depósito sagrado,
entregue de uma vez por todas aos santos, e deve ser preservado, proclamado e
defendido em sua integridade (Judas 3). Olhar para esse contraste não é
exercício acadêmico, mas imperativo espiritual. É, antes de tudo, examinar a
própria fé.
I. A Cruz e o
Chamado ao Sofrimento
A teologia da prosperidade e do bem-estar constitui
talvez a mais visível distorção do Evangelho apostólico em nosso tempo. Ela
reduz a redenção a um mecanismo de promoção pessoal e proclama um Cristo que
veio para eliminar toda forma de adversidade da vida de seus seguidores. Contra
essa visão, o Novo Testamento ergue um testemunho unânime e inabalável: o
caminho do discípulo é o caminho da cruz.
O Evangelho Moderno diz: "Não
sofra mais. Deus quer que você seja feliz, próspero e livre de todo
sofrimento."
O Evangelho Antigo proclama: "Sofre as
aflições como um bom soldado de Jesus Cristo." (2 Timóteo 2:3)
A metáfora paulina do "bom soldado" é
deliberada e profunda. Soldados não escolhem o conforto — são formados pela
adversidade. O sofrimento, no Evangelho antigo, não é anomalia a ser explicada
ou vergonha a ser escondida, mas instrumento pedagógico nas mãos soberanas de
Deus, que o usa para conformar o crente à imagem de Cristo (Romanos 8:28-29). A
prosperidade prometida pelo Evangelho bíblico é de outra natureza: é a riqueza
imperecível da comunhão com Deus no meio das tribulações.
II. Riqueza
Verdadeira: A Questão dos Tesouros
O evangelho moderno converteu o cristianismo em uma
religião de acumulação material, onde a prosperidade financeira é apresentada
como evidência da bênção divina e indicador da maturidade espiritual. Essa
teologia, além de carecer de respaldo bíblico sólido, produz uma inversão
trágica: o crente passa a servir a Deus como meio para obter riquezas, e não a
usufruir de Deus como a sua maior riqueza.
O Evangelho Moderno diz: "Fique
rico. Ganhe muito dinheiro. Deus quer que você prospere financeiramente."
O Evangelho Antigo proclama: "Não
ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem e os
ladrões minam e roubam."
(Mateus 6:19)
O Senhor Jesus não condenou a riqueza em si, mas a
idolatria que ela frequentemente engendra — o coração dividido entre Deus e
Mamom. O Evangelho antigo reconhece que onde estiver o tesouro do homem, ali
estará também o seu coração (Mateus 6:21). Por isso, convida o crente não ao
enriquecimento material como meta, mas à generosidade como evidência de um
coração liberto da tirania do dinheiro.
III.
Santidade: Corpo, Alma e Espírito
Uma das mais sofisticadas reduções teológicas do
evangelho moderno é a espiritualização unilateral da fé, que reduz a salvação
ao âmbito interior e desconsidera as implicações corporais e morais do senhorio
de Cristo. Afirmar que "Deus só quer o coração" soa piedoso, mas
contradiz a antropologia bíblica e a ética da encarnação.
O Evangelho Moderno diz: "Deus só
quer o coração. O que você faz com o seu corpo é irrelevante."
O Evangelho Antigo proclama: "O mesmo
Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam
conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus
Cristo." (1 Tessalonicenses 5:23)
A santificação bíblica é holística. O Deus que criou o
ser humano em sua integralidade — espírito, alma e corpo — redime e santifica
essa mesma integralidade. O corpo do crente é templo do Espírito Santo (1
Coríntios 6:19-20), e sua glorificação é parte da consumação escatológica da
redenção (Romanos 8:23). Um evangelho que negligencie a santidade corporal e
comportamental não é fiel ao Deus que Se revelou na carne.
O Evangelho Moderno diz: "Seja
fogo puro. Liberte-se de regras religiosas e viva a sua fé com intensidade
emocional."
O Evangelho Antigo proclama: "Bem-aventurados
os limpos de coração, porque eles verão a Deus." (Mateus 5:8)
Pureza de coração não é intensidade emocional — é
conformidade moral à vontade de Deus, produzida pela obra regeneradora do
Espírito Santo. O Evangelho antigo não convida ao entusiasmo espiritual
destituído de fundamento ético, mas à santidade como participação na própria
natureza divina (2 Pedro 1:4).
O Evangelho Moderno diz: "Não seja
muito santo. Isso afasta as pessoas. Seja relevante e contemporâneo."
O Evangelho Antigo proclama: "Sede
santos em toda a vossa maneira de viver, porque está escrito: Sede santos,
porque Eu sou santo." (1 Pedro 1:15-16)
A santidade não é excesso de religiosidade, mas a
condição normal do povo redimido. É a marca do caráter divino reproduzida no
crente pela ação do Espírito. Nenhuma proclamação do Evangelho que omita a
chamada à santidade pode ser considerada fiel à revelação bíblica.
IV. Liderança:
Vocação Versus Profissionalização
A eclesiologia do evangelho moderno produziu um modelo de
liderança radicalmente distante do padrão apostólico. O ministério foi
profissionalizado, transformado em carreira e mercado. O critério de avaliação
de um líder deixou de ser o fruto espiritual e o caráter semelhante a Cristo,
passando a ser a capacidade de atrair multidões, gerar receita e administrar
uma organização religiosa.
O Evangelho Moderno diz: "O
ministério é uma posição eclesiástica remunerada — uma carreira como qualquer
outra."
O Evangelho Antigo proclama: "O maior
entre vós será vosso servo. E quem se exaltar será humilhado, e quem se
humilhar será exaltado."
(Mateus 23:11-12)
O Evangelho antigo anuncia uma liderança fundamentalmente
servil: chamada por Deus, não candidatada pelos homens; formada pelo
sofrimento, não pelo marketing; validada pelo caráter, não pela audiência. O
modelo bíblico de pastor é o do próprio Cristo — que não veio para ser servido,
mas para servir e dar a Sua vida em resgate (Marcos 10:45). A crise da
liderança contemporânea é, em última análise, uma crise cristológica: perdeu-se
o modelo.
V. A
Centralidade: Cristo ou o Eu?
Talvez a inversão mais radical do evangelho moderno seja
a substituição da centralidade de Cristo pela centralidade do eu. O culto
tornou-se espaço de autoafirmação; a pregação tornou-se terapia; a adoração
tornou-se performance emocional centrada na experiência do fiel.
O Evangelho Moderno diz: "Você é
especial. Você tem um propósito único. Você merece ser amado."
O Evangelho Antigo proclama: "Para que
em tudo Ele seja o primeiro; porque nEle apraz a Deus que habitasse toda a
plenitude." (Colossenses
1:18-19)
O Evangelho antigo não nega a dignidade humana — ela é
fundada na imago Dei. Mas recusa veementemente a idolatria do eu. A autoestima
bíblica não é encontrada em um olhar para dentro de si mesmo, mas em um olhar
para Cristo, no qual o crente descobre sua identidade redimida. Quando o eu
ocupa o centro, Cristo é deslocado para a periferia — e com Ele, o próprio
Evangelho.
O Evangelho Moderno diz: "Ame a si
mesmo. Cuide da sua autoestima. Você precisa se amar para amar os outros."
O Evangelho Antigo proclama: "Se
alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e
siga-Me." (Lucas 9:23)
A negação de si mesmo não é autoflagelação nem desprezo
pela própria pessoa — é a recusa radical da soberania do eu como centro da
existência. É o reconhecimento de que a vida mais plena não se encontra na
afirmação do eu, mas na rendição ao senhorio de Cristo. Esse é o paradoxo
glorioso do Evangelho: quem perder a sua vida por Cristo, a encontrará (Mateus
10:39).
VI. A Cruz:
Amor ou Revelação da Gravidade do Pecado?
O evangelho moderno reduziu a cruz a um "ato de
amor" desconectado de suas implicações teológicas profundas. Ela foi
sentimentalizada, tornando-se símbolo ornamental de uma religiosidade emotiva
que não confronta o homem com a realidade devastadora do pecado.
O Evangelho Moderno diz: "A cruz é
um caso de amor. Deus quis mostrar o quanto Ele te ama."
O Evangelho Antigo proclama: "Cristo
nos resgatou da maldição da lei, fazendo-Se maldição por nós, porque está
escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro." (Gálatas 3:13)
A cruz não é menos do que amor — mas é infinitamente mais
do que sentimento. Ela é a revelação simultânea da santidade inflexível de Deus
e da profundeza abissal do pecado humano. É o lugar onde a ira divina e a
misericórdia divina se encontram na pessoa do Filho eterno, que carregou a
maldição que era nossa. Separar o amor da cruz de sua dimensão propiciatória é
produzir uma soteriologia que não salva — porque não diagnostica com precisão a
condição do pecador.
VII.
Arrependimento, Conversão e Novo Nascimento
O convite do evangelho moderno foi suavizado ao ponto de
perder seu caráter de ruptura radical com o pecado. "Venha como você está
e fique assim mesmo" pode soar inclusivo, mas produz uma conversão
fictícia: sem arrependimento, sem transformação, sem novo nascimento.
O Evangelho Moderno diz: "Venha
como você está e fique assim mesmo! Deus te aceita do jeito que você é."
O Evangelho Antigo proclama: "Vai-te e
não peques mais." (João 8:11)
O Evangelho antigo não nega o convite ao pecador
exatamente como ele é — mas recusa terminantemente a ideia de que ele deve
permanecer como está. A graça de Deus não é complacência com o pecado; é poder
transformador. O mesmo Cristo que acolheu a mulher adúltera ordenou-lhe que não
pecasse mais. A graça verdadeira não abole a santidade — ela a torna possível.
O Evangelho Moderno diz: "Venha
aceitar o Cristo que aceita tudo."
O Evangelho Antigo proclama: "Arrependei-vos
e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados." (Atos 3:19)
O arrependimento, a conversão e o novo nascimento não são
opções adicionais para cristãos mais comprometidos — são as condições bíblicas
indispensáveis para a salvação genuína (Lucas 13:3; João 3:3). Um convite
evangélico que omite essas realidades não produz convertidos — produz
religiosos não regenerados, que conhecem o nome de Cristo sem conhecer a
Cristo.
VIII. Graça
sem Permissividade: A Contextualização de Romanos 8:1
Poucos versículos foram tão sistematicamente arrancados
de seu contexto pelo evangelho moderno quanto Romanos 8:1. Tornou-se slogan de
uma graça barata que assegura ao pecador impenitente que nenhuma consequência
espiritual o alcança.
O Evangelho Moderno diz: "Não há
condenação para os que estão em Cristo Jesus. Você está livre!"
O Evangelho Antigo proclama: "Portanto,
agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam
segundo a carne, mas segundo o Espírito." (Romanos 8:1)
A liberdade que Paulo proclama em Romanos 8 não é licença
para o pecado — é a liberdade do poder dominador do pecado, conquistada pela
obra do Espírito Santo no crente. O versículo 1 não pode ser isolado do
versículo 4, que declara que a exigência justa da lei "se cumprisse em
nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito." A garantia
da não condenação pertence aos que vivem sob o senhorio do Espírito — não aos
que usam a graça como cobertura para a desobediência.
IX. Amor e
Doutrina: Uma Falsa Dicotomia
O Evangelho Moderno diz: "Amor,
não doutrina. O que importa é o amor, não os dogmas."
O Evangelho Antigo proclama: "Tu,
porém, fala o que é conforme a são doutrina." (Tito 2:1)
A oposição entre amor e doutrina é uma das mais perigosas
falácias do evangelismo contemporâneo. O amor cristão genuíno não é um
sentimento vago e doutrinariamente neutro — ele é moldado, definido e governado
pela verdade revelada. João, o apóstolo do amor, é também o apóstolo da
verdade. O amor que não se ancora na sã doutrina é amor sentimental, incapaz de
discernir o bem do mal e de guardar o rebanho dos lobos. A verdade sem amor
pode tornar-se crueldade; o amor sem verdade inevitavelmente torna-se
cumplicidade com o erro.
X. Adoração:
Espírito e Verdade Versus Espetáculo e Entretenimento
O Evangelho Moderno diz: "O culto
deve ser relevante, dinâmico e entretenimento. Pregadores e artistas são a
atração."
O Evangelho Antigo proclama: "Deus é
Espírito, e importa que os que O adoram O adorem em espírito e em
verdade." (João 4:23)
A adoração cristã foi projetada pelo próprio Deus para
ser teocentrada — toda a sua estrutura, conteúdo e dinâmica deve apontar para e
glorificar a Deus. Quando o culto transforma-se em show, o crente deixa de ser
adorador para tornar-se espectador ou consumidor. A ordem e a decência exigidas
por Paulo (1 Coríntios 14:40) não são formalismo estéril, mas refletem o
caráter do Deus de ordem que é adorado. O entretenimento pode encher templos;
somente o Espírito Santo pode encher corações.
O Evangelho Moderno diz: "Louve
sem cessar."
O Evangelho Antigo proclama: "Orai sem
cessar." (1 Tessalonicenses 5:17)
A inversão entre louvor e oração é sintomática: uma
cristandade que privilegia a expressão emocional coletiva em detrimento da
comunhão íntima e humilde com Deus perdeu o centro da vida espiritual. A oração
é o pulso da Igreja — onde ele fraqueja, a vida espiritual definha,
independentemente do quanto os alto-falantes estejam ligados.
XI. Amor a
Cristo e Obediência: Uma Unidade Indissolúvel
O Evangelho Moderno diz: "Ame a
Cristo. Vá à Igreja. Isso é suficiente."
O Evangelho Antigo proclama: "Se Me
amais, guardareis os Meus mandamentos." (João 14:15)
O Senhor Jesus vinculou indissoluvelmente o amor e a
obediência. Não como condição meritatória da salvação, mas como evidência
necessária de um amor genuíno. Amar a Cristo sem guardar Seus mandamentos não é
amor — é autoengano piedoso. A Igreja que reduz o discipulado à frequência no
culto e ao pagamento do dízimo produz "discípulos" sem compromisso
com a ética do Reino e sem conhecimento da Palavra que transforma.
O Evangelho Moderno diz: "Evite
aquilo que é claramente mau."
O Evangelho Antigo proclama: "Abstende-vos
de toda aparência do mal."
(1 Tessalonicenses 5:22)
O padrão do Evangelho antigo é mais exigente do que
simplesmente evitar o que é abertamente pecaminoso — inclui a abstenção de tudo
o que tem aparência de mal. Isso revela uma consciência ética apurada, sensível
à percepção pública e ao testemunho da Igreja diante do mundo. A santidade
bíblica considera não apenas o que o crente faz, mas como suas ações são
percebidas e que testemunho elas prestam.
XII. O
Cuidado do Pastor: Almas ou Finanças?
O Evangelho Moderno diz: "O pastor
se interessa pelos seus dízimos e pelas suas ofertas."
O Evangelho Antigo proclama: "Apascentai
o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas
voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto." (1 Pedro 5:2)
O pastor bíblico é aquele que presta contas a Deus pelo
estado das almas que lhe foram confiadas (Hebreus 13:17). Seu critério de
sucesso não é o crescimento financeiro da instituição, mas o crescimento
espiritual do rebanho. Quando o critério se inverte — quando o ouro importa
mais do que as almas —, o ministério pastoral foi corrompido em sua essência.
Pedro, que pastoreou sob a supervisão do Sumo Pastor, não deixa margem para
ambiguidade: a ganância torpe e a liderança clerical são incompatíveis.
XIII. A
Pregação: Exposição das Escrituras ou Entretenimento?
O Evangelho Moderno diz: "Pregue
com psicologia, técnicas de persuasão e mensagens de autoestima."
O Evangelho Antigo proclama: "Prega a
palavra, insta a tempo e fora de tempo, repreende, exorta com toda a
longanimidade e doutrina."
(2 Timóteo 4:2)
A pregação do Evangelho antigo é expositória: expõe
sistematicamente o texto sagrado, deixando que a Palavra de Deus governe o
conteúdo, o argumento e a aplicação. Não é entretenimento — é proclamação. Não
é terapia — é profecia. O pregador bíblico é um embaixador, não um artista; um
servo da Palavra, não um mestre de cerimônias. A crise homilética contemporânea
é reflexo direto da crise de autoridade bíblica: quando a Escritura perde sua
posição central, o homem ocupa seu lugar.
XIV. Fé
Verdadeira Versus Misticismo e Superstição
O Evangelho Moderno diz: "A religião
da experiência, do misticismo e das manifestações sobrenaturais
constantes."
O Evangelho Antigo proclama: "A fé é o
firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se
veem." (Hebreus 11:1)
O evangelho moderno, em muitas vertentes, desenvolveu uma
espiritualidade que confunde fé com crença em experiências subjetivas não
testadas pela Escritura. A fé bíblica não é crença no irracional ou no místico
— é confiança racional e obediencial na Palavra de Deus revelada. Quando a
experiência torna-se o critério da verdade espiritual, a Escritura é deposta de
sua autoridade normativa e o subjetivismo inevitavelmente governa.
XV. O Senhor
é Deus: Monoteísmo Bíblico Versus Sincretismo
O Evangelho Moderno diz: "Sirva a
Deus no templo, e ao Grande Arquiteto do Universo fora dele."
O Evangelho Antigo proclama: "Reconhecei
hoje, e considerai em vosso coração que o Senhor é Deus em cima nos céus e em
baixo na terra; não há outro."
(Deuteronômio 4:39)
O sincretismo — a tentativa de harmonizar o Deus bíblico
com divindades filosóficas ou religiosas de outras tradições — é condenado com
veemência ao longo de toda a Escritura. O Deus da revelação bíblica não
compartilha Sua glória e não admite equivalências. O monoteísmo bíblico não é
apenas teologia abstrata — é fundamento da ética, da adoração e da identidade
do povo de Deus. "Não haverá outros deuses perante Mim" (Êxodo 20:3)
permanece como primeiro mandamento porque é fundamento de todos os outros.
XVI. Cidadania
Celestial: Peregrinos ou Turistas?
O Evangelho Moderno diz: "Este
mundo é a sua pátria. Viva-o ao máximo. Deus quer que você seja feliz
aqui."
O Evangelho Antigo proclama: "A nossa
pátria está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus
Cristo. Somos peregrinos e estrangeiros neste mundo." (Filipenses 3:20; 1 Pedro 2:11)
A consciência escatológica é estrutural para a identidade
cristã. O crente que perdeu a perspectiva do céu inevitavelmente começa a se
acomodar aos valores e às demandas do mundo presente. O peregrino sabe que não
está em casa — e isso liberta-o de uma dependência idolátrica das
circunstâncias terrenas. O apóstolo Paulo descreveu como inimigos da cruz os
que "têm em mente as coisas da terra" (Filipenses 3:19). A esperança
da vinda de Cristo não é evasão da realidade — é a mais transformadora das
motivações éticas.
XVII.
"Seja Feita a Tua Vontade" Versus "Eu Decreto"
O Evangelho Moderno diz: "Eu
decreto, eu profetizo, eu ordeno, eu declaro!"
O Evangelho Antigo proclama: "Seja
feita a Tua vontade, assim na terra como no céu." (Mateus 6:10)
A teologia da "confissão positiva" e dos
decretos proféticos substitui a soberania de Deus pela vontade do crente. O
orar bíblico não é a arte de manipular as forças espirituais por meio de
decretos; é a rendição confiante ao senhorio de Deus, cujos propósitos são mais
sábios e mais perfeitos do que os nossos desejos. O Getsêmani é o modelo máximo
da oração cristã: "Não a Minha vontade, mas a Tua seja feita" (Lucas
22:42). Uma fé que decreta em vez de orar não conhece o Deus bíblico — projeta
um deus à sua própria imagem.
O Evangelho Moderno diz: "Venham
as minhas bênçãos! Eu reclamo minhas promessas!"
O Evangelho Antigo proclama: "Venha o
Teu reino; seja feita a Tua vontade." (Mateus 6:10)
A distinção entre "venham as minhas bênçãos" e
"venha o Teu reino" não é gramatical — é teológica e espiritual.
Revela onde está o centro de gravidade da fé: no eu ou em Deus. A oração do
Senhor é o antídoto para a espiritualidade egocêntrica: começa pela
santificação do nome de Deus, continua pelo estabelecimento do Seu reino e
culmina na realização da Sua vontade. As necessidades humanas aparecem — mas em
seu lugar correto, subordinadas à glória e aos propósitos de Deus.
XVIII.
Escatologia: Esperando o Próximo Evento ou a Vinda do Senhor?
O Evangelho Moderno diz: "Os
adeptos do evangelho moderno aguardam o próximo evento, o próximo congresso, a
próxima conferência."
O Evangelho Antigo proclama: "O
Espírito e a noiva dizem: Vem! E quem ouve, diga: Vem! Maranata! Vem, Senhor
Jesus!" (Apocalipse 22:17; 1
Coríntios 16:22)
A esperança escatológica do Evangelho antigo é pessoal e
urgente: não é a expectativa de um evento religioso, mas o anseio pelo retorno
do Senhor Jesus Cristo. "Maranata" — "Vem, Senhor Jesus" —
era o clamor da Igreja primitiva, que vivia sob constante tensão escatológica.
Essa esperança gerava urgência missionária, santidade prática e desapego do
mundo. A Igreja que substituiu a esperança da parousia pelo entretenimento dos
grandes eventos perdeu sua orientação escatológica — e com ela, boa parte de
sua vitalidade espiritual.
Conclusão: O
Teste da Sua Fé
Diante de tão radical contraste, o texto bíblico nos
convida não ao espectadorismo crítico, mas ao autoexame honesto. É possível — e
tragicamente comum — participar de formas religiosas exteriormente corretas
enquanto o coração adere ao evangelho moderno, com sua lógica de conforto, de
autocentramento e de prosperidade. A advertência apostólica é direta:
"Examinai-vos a vós mesmos, se
permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos,
que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados."(2 Coríntios
13:5)
O teste da autenticidade não é a intensidade emocional
das experiências religiosas, nem a sofisticação teológica das formulações
doutrinárias, nem sequer a quantidade de atividades eclesiásticas. O teste,
como observou D. Martyn Lloyd-Jones, é o que está "debaixo da
superfície" — o que o coração verdadeiramente ama, teme e obedece. A
pergunta que o Evangelho antigo faz a cada um de nós é simples e devastadora: a
quem pertence o centro da sua vida — ao Cristo crucificado e ressurreto, ou ao
seu próprio eu?
A sentença apostólica de Gálatas permanece como fronteira
inamovível entre o Evangelho de Cristo e todo evangelho humano:
"Mas, ainda que nós mesmos ou um
anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos anunciamos, seja
anátema. Assim como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo: se
alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja
anátema."(Gálatas 1:8-9)
Não há espaço para negociação quando o próprio Evangelho
está em jogo. A Igreja de Jesus Cristo foi chamada a preservar, proclamar e
defender — com amor e com coragem — a Boa Nova que o Pai enviou o Filho para
anunciar, o Espírito Santo veio para confirmar e os apóstolos nos legaram. Esse
Evangelho, e nenhum outro, é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que
crê (Romanos 1:16).
"A
maneira de provar a si mesmo, a maneira de provar qualquer homem, é olhar
debaixo da superfície." — D. Martyn Lloyd-Jones
C. J. Jacinto
· Paulo Lopes — SC
claviojj@gmail.com
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