O EVANGELHO MODERNO E O EVANGELHO ANTIGO


 O EVANGELHO MODERNO E O EVANGELHO ANTIGO

O Teste Supremo da Sua Fé

"Precisamos não somente seguir os ensinos de Cristo, mas também ter comunhão com Ele; não somente professar Seu nome, mas testemunhar acerca da Sua ressurreição e advertir acerca da Sua vinda iminente."

— C. J. Jacinto

"No início, a Igreja era um grupo de homens centrados no Cristo vivo. Então, a Igreja chegou à Grécia e tornou-se numa filosofia. Depois, chegou a Roma e tornou-se uma instituição. Em seguida, chegou à Europa e tornou-se uma cultura. E, finalmente, chegou à América e tornou-se um negócio."

— Richard Halverson

Introdução

Existe uma diferença de proporções abissais entre o Evangelho bíblico — a senda antiga pela qual caminharam os fiéis de todos os séculos — e esse novo evangelho fabricado à medida das preferências humanas, desenvolvido por uma cristandade egocêntrica e avessa ao custo do discipulado. Não se trata de uma divergência superficial em pontos secundários da fé; trata-se de uma diferença que define a própria natureza da salvação, do discipulado e da esperança cristã.

O apóstolo Paulo, com autoridade apostólica e sob inspiração divina, lançou sobre qualquer outro evangelho a mais grave sentença que a linguagem teológica conhece: anátema. Isso nos revela que o evangelho não é um produto passível de reformulação cultural — ele é depósito sagrado, entregue de uma vez por todas aos santos, e deve ser preservado, proclamado e defendido em sua integridade (Judas 3). Olhar para esse contraste não é exercício acadêmico, mas imperativo espiritual. É, antes de tudo, examinar a própria fé.

I. A Cruz e o Chamado ao Sofrimento

A teologia da prosperidade e do bem-estar constitui talvez a mais visível distorção do Evangelho apostólico em nosso tempo. Ela reduz a redenção a um mecanismo de promoção pessoal e proclama um Cristo que veio para eliminar toda forma de adversidade da vida de seus seguidores. Contra essa visão, o Novo Testamento ergue um testemunho unânime e inabalável: o caminho do discípulo é o caminho da cruz.

O Evangelho Moderno diz: "Não sofra mais. Deus quer que você seja feliz, próspero e livre de todo sofrimento."

O Evangelho Antigo proclama: "Sofre as aflições como um bom soldado de Jesus Cristo."  (2 Timóteo 2:3)

A metáfora paulina do "bom soldado" é deliberada e profunda. Soldados não escolhem o conforto — são formados pela adversidade. O sofrimento, no Evangelho antigo, não é anomalia a ser explicada ou vergonha a ser escondida, mas instrumento pedagógico nas mãos soberanas de Deus, que o usa para conformar o crente à imagem de Cristo (Romanos 8:28-29). A prosperidade prometida pelo Evangelho bíblico é de outra natureza: é a riqueza imperecível da comunhão com Deus no meio das tribulações.

II. Riqueza Verdadeira: A Questão dos Tesouros

O evangelho moderno converteu o cristianismo em uma religião de acumulação material, onde a prosperidade financeira é apresentada como evidência da bênção divina e indicador da maturidade espiritual. Essa teologia, além de carecer de respaldo bíblico sólido, produz uma inversão trágica: o crente passa a servir a Deus como meio para obter riquezas, e não a usufruir de Deus como a sua maior riqueza.

O Evangelho Moderno diz: "Fique rico. Ganhe muito dinheiro. Deus quer que você prospere financeiramente."

O Evangelho Antigo proclama: "Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem e os ladrões minam e roubam."  (Mateus 6:19)

O Senhor Jesus não condenou a riqueza em si, mas a idolatria que ela frequentemente engendra — o coração dividido entre Deus e Mamom. O Evangelho antigo reconhece que onde estiver o tesouro do homem, ali estará também o seu coração (Mateus 6:21). Por isso, convida o crente não ao enriquecimento material como meta, mas à generosidade como evidência de um coração liberto da tirania do dinheiro.

III. Santidade: Corpo, Alma e Espírito

Uma das mais sofisticadas reduções teológicas do evangelho moderno é a espiritualização unilateral da fé, que reduz a salvação ao âmbito interior e desconsidera as implicações corporais e morais do senhorio de Cristo. Afirmar que "Deus só quer o coração" soa piedoso, mas contradiz a antropologia bíblica e a ética da encarnação.

O Evangelho Moderno diz: "Deus só quer o coração. O que você faz com o seu corpo é irrelevante."

O Evangelho Antigo proclama: "O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo."  (1 Tessalonicenses 5:23)

A santificação bíblica é holística. O Deus que criou o ser humano em sua integralidade — espírito, alma e corpo — redime e santifica essa mesma integralidade. O corpo do crente é templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19-20), e sua glorificação é parte da consumação escatológica da redenção (Romanos 8:23). Um evangelho que negligencie a santidade corporal e comportamental não é fiel ao Deus que Se revelou na carne.

O Evangelho Moderno diz: "Seja fogo puro. Liberte-se de regras religiosas e viva a sua fé com intensidade emocional."

O Evangelho Antigo proclama: "Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus."  (Mateus 5:8)

Pureza de coração não é intensidade emocional — é conformidade moral à vontade de Deus, produzida pela obra regeneradora do Espírito Santo. O Evangelho antigo não convida ao entusiasmo espiritual destituído de fundamento ético, mas à santidade como participação na própria natureza divina (2 Pedro 1:4).

O Evangelho Moderno diz: "Não seja muito santo. Isso afasta as pessoas. Seja relevante e contemporâneo."

O Evangelho Antigo proclama: "Sede santos em toda a vossa maneira de viver, porque está escrito: Sede santos, porque Eu sou santo."  (1 Pedro 1:15-16)

A santidade não é excesso de religiosidade, mas a condição normal do povo redimido. É a marca do caráter divino reproduzida no crente pela ação do Espírito. Nenhuma proclamação do Evangelho que omita a chamada à santidade pode ser considerada fiel à revelação bíblica.

IV. Liderança: Vocação Versus Profissionalização

A eclesiologia do evangelho moderno produziu um modelo de liderança radicalmente distante do padrão apostólico. O ministério foi profissionalizado, transformado em carreira e mercado. O critério de avaliação de um líder deixou de ser o fruto espiritual e o caráter semelhante a Cristo, passando a ser a capacidade de atrair multidões, gerar receita e administrar uma organização religiosa.

O Evangelho Moderno diz: "O ministério é uma posição eclesiástica remunerada — uma carreira como qualquer outra."

O Evangelho Antigo proclama: "O maior entre vós será vosso servo. E quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado."  (Mateus 23:11-12)

O Evangelho antigo anuncia uma liderança fundamentalmente servil: chamada por Deus, não candidatada pelos homens; formada pelo sofrimento, não pelo marketing; validada pelo caráter, não pela audiência. O modelo bíblico de pastor é o do próprio Cristo — que não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate (Marcos 10:45). A crise da liderança contemporânea é, em última análise, uma crise cristológica: perdeu-se o modelo.

V. A Centralidade: Cristo ou o Eu?

Talvez a inversão mais radical do evangelho moderno seja a substituição da centralidade de Cristo pela centralidade do eu. O culto tornou-se espaço de autoafirmação; a pregação tornou-se terapia; a adoração tornou-se performance emocional centrada na experiência do fiel.

O Evangelho Moderno diz: "Você é especial. Você tem um propósito único. Você merece ser amado."

O Evangelho Antigo proclama: "Para que em tudo Ele seja o primeiro; porque nEle apraz a Deus que habitasse toda a plenitude."  (Colossenses 1:18-19)

O Evangelho antigo não nega a dignidade humana — ela é fundada na imago Dei. Mas recusa veementemente a idolatria do eu. A autoestima bíblica não é encontrada em um olhar para dentro de si mesmo, mas em um olhar para Cristo, no qual o crente descobre sua identidade redimida. Quando o eu ocupa o centro, Cristo é deslocado para a periferia — e com Ele, o próprio Evangelho.

O Evangelho Moderno diz: "Ame a si mesmo. Cuide da sua autoestima. Você precisa se amar para amar os outros."

O Evangelho Antigo proclama: "Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-Me."  (Lucas 9:23)

A negação de si mesmo não é autoflagelação nem desprezo pela própria pessoa — é a recusa radical da soberania do eu como centro da existência. É o reconhecimento de que a vida mais plena não se encontra na afirmação do eu, mas na rendição ao senhorio de Cristo. Esse é o paradoxo glorioso do Evangelho: quem perder a sua vida por Cristo, a encontrará (Mateus 10:39).

VI. A Cruz: Amor ou Revelação da Gravidade do Pecado?

O evangelho moderno reduziu a cruz a um "ato de amor" desconectado de suas implicações teológicas profundas. Ela foi sentimentalizada, tornando-se símbolo ornamental de uma religiosidade emotiva que não confronta o homem com a realidade devastadora do pecado.

O Evangelho Moderno diz: "A cruz é um caso de amor. Deus quis mostrar o quanto Ele te ama."

O Evangelho Antigo proclama: "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-Se maldição por nós, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro."  (Gálatas 3:13)

A cruz não é menos do que amor — mas é infinitamente mais do que sentimento. Ela é a revelação simultânea da santidade inflexível de Deus e da profundeza abissal do pecado humano. É o lugar onde a ira divina e a misericórdia divina se encontram na pessoa do Filho eterno, que carregou a maldição que era nossa. Separar o amor da cruz de sua dimensão propiciatória é produzir uma soteriologia que não salva — porque não diagnostica com precisão a condição do pecador.

VII. Arrependimento, Conversão e Novo Nascimento

O convite do evangelho moderno foi suavizado ao ponto de perder seu caráter de ruptura radical com o pecado. "Venha como você está e fique assim mesmo" pode soar inclusivo, mas produz uma conversão fictícia: sem arrependimento, sem transformação, sem novo nascimento.

O Evangelho Moderno diz: "Venha como você está e fique assim mesmo! Deus te aceita do jeito que você é."

O Evangelho Antigo proclama: "Vai-te e não peques mais."  (João 8:11)

O Evangelho antigo não nega o convite ao pecador exatamente como ele é — mas recusa terminantemente a ideia de que ele deve permanecer como está. A graça de Deus não é complacência com o pecado; é poder transformador. O mesmo Cristo que acolheu a mulher adúltera ordenou-lhe que não pecasse mais. A graça verdadeira não abole a santidade — ela a torna possível.

O Evangelho Moderno diz: "Venha aceitar o Cristo que aceita tudo."

O Evangelho Antigo proclama: "Arrependei-vos e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados."  (Atos 3:19)

O arrependimento, a conversão e o novo nascimento não são opções adicionais para cristãos mais comprometidos — são as condições bíblicas indispensáveis para a salvação genuína (Lucas 13:3; João 3:3). Um convite evangélico que omite essas realidades não produz convertidos — produz religiosos não regenerados, que conhecem o nome de Cristo sem conhecer a Cristo.

VIII. Graça sem Permissividade: A Contextualização de Romanos 8:1

Poucos versículos foram tão sistematicamente arrancados de seu contexto pelo evangelho moderno quanto Romanos 8:1. Tornou-se slogan de uma graça barata que assegura ao pecador impenitente que nenhuma consequência espiritual o alcança.

O Evangelho Moderno diz: "Não há condenação para os que estão em Cristo Jesus. Você está livre!"

O Evangelho Antigo proclama: "Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito."  (Romanos 8:1)

A liberdade que Paulo proclama em Romanos 8 não é licença para o pecado — é a liberdade do poder dominador do pecado, conquistada pela obra do Espírito Santo no crente. O versículo 1 não pode ser isolado do versículo 4, que declara que a exigência justa da lei "se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito." A garantia da não condenação pertence aos que vivem sob o senhorio do Espírito — não aos que usam a graça como cobertura para a desobediência.

IX. Amor e Doutrina: Uma Falsa Dicotomia

O Evangelho Moderno diz: "Amor, não doutrina. O que importa é o amor, não os dogmas."

O Evangelho Antigo proclama: "Tu, porém, fala o que é conforme a são doutrina."  (Tito 2:1)

A oposição entre amor e doutrina é uma das mais perigosas falácias do evangelismo contemporâneo. O amor cristão genuíno não é um sentimento vago e doutrinariamente neutro — ele é moldado, definido e governado pela verdade revelada. João, o apóstolo do amor, é também o apóstolo da verdade. O amor que não se ancora na sã doutrina é amor sentimental, incapaz de discernir o bem do mal e de guardar o rebanho dos lobos. A verdade sem amor pode tornar-se crueldade; o amor sem verdade inevitavelmente torna-se cumplicidade com o erro.

X. Adoração: Espírito e Verdade Versus Espetáculo e Entretenimento

O Evangelho Moderno diz: "O culto deve ser relevante, dinâmico e entretenimento. Pregadores e artistas são a atração."

O Evangelho Antigo proclama: "Deus é Espírito, e importa que os que O adoram O adorem em espírito e em verdade."  (João 4:23)

A adoração cristã foi projetada pelo próprio Deus para ser teocentrada — toda a sua estrutura, conteúdo e dinâmica deve apontar para e glorificar a Deus. Quando o culto transforma-se em show, o crente deixa de ser adorador para tornar-se espectador ou consumidor. A ordem e a decência exigidas por Paulo (1 Coríntios 14:40) não são formalismo estéril, mas refletem o caráter do Deus de ordem que é adorado. O entretenimento pode encher templos; somente o Espírito Santo pode encher corações.

O Evangelho Moderno diz: "Louve sem cessar."

O Evangelho Antigo proclama: "Orai sem cessar."  (1 Tessalonicenses 5:17)

A inversão entre louvor e oração é sintomática: uma cristandade que privilegia a expressão emocional coletiva em detrimento da comunhão íntima e humilde com Deus perdeu o centro da vida espiritual. A oração é o pulso da Igreja — onde ele fraqueja, a vida espiritual definha, independentemente do quanto os alto-falantes estejam ligados.

XI. Amor a Cristo e Obediência: Uma Unidade Indissolúvel

O Evangelho Moderno diz: "Ame a Cristo. Vá à Igreja. Isso é suficiente."

O Evangelho Antigo proclama: "Se Me amais, guardareis os Meus mandamentos."  (João 14:15)

O Senhor Jesus vinculou indissoluvelmente o amor e a obediência. Não como condição meritatória da salvação, mas como evidência necessária de um amor genuíno. Amar a Cristo sem guardar Seus mandamentos não é amor — é autoengano piedoso. A Igreja que reduz o discipulado à frequência no culto e ao pagamento do dízimo produz "discípulos" sem compromisso com a ética do Reino e sem conhecimento da Palavra que transforma.

O Evangelho Moderno diz: "Evite aquilo que é claramente mau."

O Evangelho Antigo proclama: "Abstende-vos de toda aparência do mal."  (1 Tessalonicenses 5:22)

O padrão do Evangelho antigo é mais exigente do que simplesmente evitar o que é abertamente pecaminoso — inclui a abstenção de tudo o que tem aparência de mal. Isso revela uma consciência ética apurada, sensível à percepção pública e ao testemunho da Igreja diante do mundo. A santidade bíblica considera não apenas o que o crente faz, mas como suas ações são percebidas e que testemunho elas prestam.

XII. O Cuidado do Pastor: Almas ou Finanças?

O Evangelho Moderno diz: "O pastor se interessa pelos seus dízimos e pelas suas ofertas."

O Evangelho Antigo proclama: "Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto."  (1 Pedro 5:2)

O pastor bíblico é aquele que presta contas a Deus pelo estado das almas que lhe foram confiadas (Hebreus 13:17). Seu critério de sucesso não é o crescimento financeiro da instituição, mas o crescimento espiritual do rebanho. Quando o critério se inverte — quando o ouro importa mais do que as almas —, o ministério pastoral foi corrompido em sua essência. Pedro, que pastoreou sob a supervisão do Sumo Pastor, não deixa margem para ambiguidade: a ganância torpe e a liderança clerical são incompatíveis.

XIII. A Pregação: Exposição das Escrituras ou Entretenimento?

O Evangelho Moderno diz: "Pregue com psicologia, técnicas de persuasão e mensagens de autoestima."

O Evangelho Antigo proclama: "Prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina."  (2 Timóteo 4:2)

A pregação do Evangelho antigo é expositória: expõe sistematicamente o texto sagrado, deixando que a Palavra de Deus governe o conteúdo, o argumento e a aplicação. Não é entretenimento — é proclamação. Não é terapia — é profecia. O pregador bíblico é um embaixador, não um artista; um servo da Palavra, não um mestre de cerimônias. A crise homilética contemporânea é reflexo direto da crise de autoridade bíblica: quando a Escritura perde sua posição central, o homem ocupa seu lugar.

XIV. Fé Verdadeira Versus Misticismo e Superstição

O Evangelho Moderno diz: "A religião da experiência, do misticismo e das manifestações sobrenaturais constantes."

O Evangelho Antigo proclama: "A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem."  (Hebreus 11:1)

O evangelho moderno, em muitas vertentes, desenvolveu uma espiritualidade que confunde fé com crença em experiências subjetivas não testadas pela Escritura. A fé bíblica não é crença no irracional ou no místico — é confiança racional e obediencial na Palavra de Deus revelada. Quando a experiência torna-se o critério da verdade espiritual, a Escritura é deposta de sua autoridade normativa e o subjetivismo inevitavelmente governa.

XV. O Senhor é Deus: Monoteísmo Bíblico Versus Sincretismo

O Evangelho Moderno diz: "Sirva a Deus no templo, e ao Grande Arquiteto do Universo fora dele."

O Evangelho Antigo proclama: "Reconhecei hoje, e considerai em vosso coração que o Senhor é Deus em cima nos céus e em baixo na terra; não há outro."  (Deuteronômio 4:39)

O sincretismo — a tentativa de harmonizar o Deus bíblico com divindades filosóficas ou religiosas de outras tradições — é condenado com veemência ao longo de toda a Escritura. O Deus da revelação bíblica não compartilha Sua glória e não admite equivalências. O monoteísmo bíblico não é apenas teologia abstrata — é fundamento da ética, da adoração e da identidade do povo de Deus. "Não haverá outros deuses perante Mim" (Êxodo 20:3) permanece como primeiro mandamento porque é fundamento de todos os outros.

XVI. Cidadania Celestial: Peregrinos ou Turistas?

O Evangelho Moderno diz: "Este mundo é a sua pátria. Viva-o ao máximo. Deus quer que você seja feliz aqui."

O Evangelho Antigo proclama: "A nossa pátria está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Somos peregrinos e estrangeiros neste mundo."  (Filipenses 3:20; 1 Pedro 2:11)

A consciência escatológica é estrutural para a identidade cristã. O crente que perdeu a perspectiva do céu inevitavelmente começa a se acomodar aos valores e às demandas do mundo presente. O peregrino sabe que não está em casa — e isso liberta-o de uma dependência idolátrica das circunstâncias terrenas. O apóstolo Paulo descreveu como inimigos da cruz os que "têm em mente as coisas da terra" (Filipenses 3:19). A esperança da vinda de Cristo não é evasão da realidade — é a mais transformadora das motivações éticas.

XVII. "Seja Feita a Tua Vontade" Versus "Eu Decreto"

O Evangelho Moderno diz: "Eu decreto, eu profetizo, eu ordeno, eu declaro!"

O Evangelho Antigo proclama: "Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu."  (Mateus 6:10)

A teologia da "confissão positiva" e dos decretos proféticos substitui a soberania de Deus pela vontade do crente. O orar bíblico não é a arte de manipular as forças espirituais por meio de decretos; é a rendição confiante ao senhorio de Deus, cujos propósitos são mais sábios e mais perfeitos do que os nossos desejos. O Getsêmani é o modelo máximo da oração cristã: "Não a Minha vontade, mas a Tua seja feita" (Lucas 22:42). Uma fé que decreta em vez de orar não conhece o Deus bíblico — projeta um deus à sua própria imagem.

O Evangelho Moderno diz: "Venham as minhas bênçãos! Eu reclamo minhas promessas!"

O Evangelho Antigo proclama: "Venha o Teu reino; seja feita a Tua vontade."  (Mateus 6:10)

A distinção entre "venham as minhas bênçãos" e "venha o Teu reino" não é gramatical — é teológica e espiritual. Revela onde está o centro de gravidade da fé: no eu ou em Deus. A oração do Senhor é o antídoto para a espiritualidade egocêntrica: começa pela santificação do nome de Deus, continua pelo estabelecimento do Seu reino e culmina na realização da Sua vontade. As necessidades humanas aparecem — mas em seu lugar correto, subordinadas à glória e aos propósitos de Deus.

XVIII. Escatologia: Esperando o Próximo Evento ou a Vinda do Senhor?

O Evangelho Moderno diz: "Os adeptos do evangelho moderno aguardam o próximo evento, o próximo congresso, a próxima conferência."

O Evangelho Antigo proclama: "O Espírito e a noiva dizem: Vem! E quem ouve, diga: Vem! Maranata! Vem, Senhor Jesus!"  (Apocalipse 22:17; 1 Coríntios 16:22)

A esperança escatológica do Evangelho antigo é pessoal e urgente: não é a expectativa de um evento religioso, mas o anseio pelo retorno do Senhor Jesus Cristo. "Maranata" — "Vem, Senhor Jesus" — era o clamor da Igreja primitiva, que vivia sob constante tensão escatológica. Essa esperança gerava urgência missionária, santidade prática e desapego do mundo. A Igreja que substituiu a esperança da parousia pelo entretenimento dos grandes eventos perdeu sua orientação escatológica — e com ela, boa parte de sua vitalidade espiritual.

Conclusão: O Teste da Sua Fé

Diante de tão radical contraste, o texto bíblico nos convida não ao espectadorismo crítico, mas ao autoexame honesto. É possível — e tragicamente comum — participar de formas religiosas exteriormente corretas enquanto o coração adere ao evangelho moderno, com sua lógica de conforto, de autocentramento e de prosperidade. A advertência apostólica é direta:

"Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados."(2 Coríntios 13:5)

O teste da autenticidade não é a intensidade emocional das experiências religiosas, nem a sofisticação teológica das formulações doutrinárias, nem sequer a quantidade de atividades eclesiásticas. O teste, como observou D. Martyn Lloyd-Jones, é o que está "debaixo da superfície" — o que o coração verdadeiramente ama, teme e obedece. A pergunta que o Evangelho antigo faz a cada um de nós é simples e devastadora: a quem pertence o centro da sua vida — ao Cristo crucificado e ressurreto, ou ao seu próprio eu?

A sentença apostólica de Gálatas permanece como fronteira inamovível entre o Evangelho de Cristo e todo evangelho humano:

"Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos anunciamos, seja anátema. Assim como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo: se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema."(Gálatas 1:8-9)

Não há espaço para negociação quando o próprio Evangelho está em jogo. A Igreja de Jesus Cristo foi chamada a preservar, proclamar e defender — com amor e com coragem — a Boa Nova que o Pai enviou o Filho para anunciar, o Espírito Santo veio para confirmar e os apóstolos nos legaram. Esse Evangelho, e nenhum outro, é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Romanos 1:16).

 

"A maneira de provar a si mesmo, a maneira de provar qualquer homem, é olhar debaixo da superfície." — D. Martyn Lloyd-Jones

 

C. J. Jacinto · Paulo Lopes — SC

claviojj@gmail.com

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