Sabedoria e Prudencia Parte II


 Parte II

 

“Dedique-se à oração, à leitura e à meditação sobre as verdades divinas: esforce-se para penetrá-las até o âmago e nunca se contente com um conhecimento superficial.” (David Brainerd)

 

 

No Salmo 1, nos versículos iniciais, encontramos uma passagem de grande relevância. O salmista declara: "Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, tem seu prazer na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite." Esta passagem apresenta um contraste marcante. No primeiro aspecto, o bem-aventurado é aquele que se guia pela sabedoria e prudência. Ele se afasta dos conselhos dos ímpios, não se associa aos pecadores e evita a companhia dos zombadores. Essa atitude demonstra a sabedoria e a prudência do indivíduo, que escolhe um caminho distinto, orientado por princípios superiores. Em contrapartida, o bem-aventurado encontra seu deleite na lei do Senhor, meditando nela constantemente. Essa prática constante revela uma profunda devoção, com a palavra de Deus enraizada no coração, servindo como norma de vida e guia. Ele é conduzido pela luz divina, como o salmista afirma em outro trecho: "Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho." Essa compreensão harmoniza-se com a afirmação de Salomão, que compara a trajetória do justo à "luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito."

 No segundo capítulo, observamos que Deus zombará dos ímpios, daqueles que duvidam e se opõem ao conhecimento do bem e do mal, negando a existência e a soberania divinas, bem como a divindade de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ao nosso redor, constatamos o surgimento de indivíduos que, com notável arrogância, empregam recursos intelectuais para contestar a legitimidade da existência de Deus, negar Jesus Cristo como Senhor e Salvador e minimizar a importância das Escrituras, rejeitando-as como a palavra divina. Essa postura, observada com crescente vigor em nossa época, é frequentemente adotada por aqueles considerados acadêmicos e intelectuais de destaque. Trata-se, na realidade, da manifestação do homem natural, corrompido pelo conhecimento do bem e do mal. Tal comportamento não se alinha com a verdadeira espiritualidade, a prudência genuína ou a sabedoria autêntica. Pois o homem prudente e sábio trilha um caminho distinto, pautado pela piedade, reverência, temor e amor a Deus. Em nosso exemplo, mencionaremos também Tiago, capítulo 3, versículo 17. Neste trecho, como no Salmo 1, encontramos um contraste significativo. Assim como o Salmo descreve a felicidade daquele que se afasta dos maus caminhos e encontra prazer na lei do Senhor, Tiago, no versículo citado, contrasta a sabedoria terrena e diabólica com a sabedoria celestial.

 A sabedoria terrena e diabólica, característica deste mundo, distingue-se da sabedoria celestial. O incrédulo e o ímpio podem possuir conhecimento e sabedoria, mas estas são limitadas ao âmbito terreno, não sendo iluminadas pelo Espírito Santo nem pela glória do Evangelho de Jesus Cristo. Em contrapartida, a sabedoria celestial é espiritual, genuína e autêntica em seus princípios. Esta é a marca distintiva do homem espiritual. Ele demonstra prudência e sabedoria de maneira diferente daquele que vive segundo os valores mundanos. Haverá sempre essa distinção, essa diferença. O homem espiritual é caracterizado por esta sabedoria superior.

“Há muitos que pregam Cristo, mas poucos que vivem Cristo. Meu grande objetivo será viver Cristo” (R. Chapman)

As diversas nuances observadas revelam que o indivíduo regenerado possui um propósito singular, uma vocação divina para trilhar os caminhos da fé e viver em conformidade com a vontade de Deus. Sem essa transformação, não se manifestariam sinais ou evidências de regeneração. O homem não regenerado, por sua vez, tende a seguir os conselhos dos ímpios, a trilhar os caminhos da iniquidade e a se associar àqueles que zombam da fé. Embora possa demonstrar inteligência, esta não se equipara à verdadeira sabedoria, sendo apenas uma expressão da sua consciência, moldada pelas circunstâncias. Na perspectiva do homem natural, que se guia pelo conhecimento do bem e do mal, e que, de certa forma, ainda persiste nos caminhos de Adão, permanecendo obstinado na impiedade, mesmo que esta se disfarce sob uma conduta aparentemente virtuosa, é preciso compreender claramente que, conforme Paulo declara em suas epístolas, notadamente em Romanos, "não há justo, nem um sequer". A única justiça que o homem pode alcançar provém da justiça imputada por meio da obra perfeita e consumada de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Assim, a justificação não se baseia nas ações do homem, mas no sacrifício redentor de Cristo no Calvário, que possibilita a redenção e a regeneração. Somente por meio dessa experiência, o homem poderá vivenciar, em suas dimensões espirituais e celestiais, o verdadeiro significado da prudência e da sabedoria. Atualmente, o cristianismo enfrenta desafios significativos, decorrentes, em parte, da ausência de uma compreensão clara por parte de alguns líderes. Frequentemente, a verdadeira natureza da Igreja, o corpo de Cristo, é negligenciada. A Igreja genuína é composta por indivíduos que experimentaram a salvação e a regeneração, passando pelo processo do novo nascimento, realizado pelo Espírito Santo.

“Santidade e felicidade são como luz e calor. Deus jamais experimentou um único prazer do pecado. Cristo tem um corpo como o meu, contudo, Ele jamais experimentou um único prazer do pecado. Os redimidos, por toda a eternidade, jamais experimentarão um único prazer do pecado; contudo, a felicidade deles é completa… Cada pecado me afasta da minha maior alegria… O diabo se esforça dia e noite para me fazer esquecer isso ou desacreditar. Ele diz: Por que você não desfrutaria desse prazer tanto quanto Salomão ou Davi? Você também poderá ir para o céu. Estou convencido de que isso é uma mentira — que minha verdadeira felicidade é ir e não pecar mais.” (Robert Murray McCheyne)



A epístola aos Efésios, capítulo 4, versículo 24, nos instrui sobre a necessidade do homem regenerado de se revestir das características divinas, uma vez que o novo homem espiritual foi criado em verdadeira justiça e santidade. Essa justiça e santidade se manifestam, acima de tudo, na prudência e na sabedoria.
 A vida distintiva do cristão genuíno, aquele que nasceu de novo, é caracterizada pela prudência e pela busca constante da sabedoria, aplicando-a em todas as esferas da vida. Compreender essa distinção é de suma importância, pois sabemos com clareza que o cristão, aquele que experimentou o novo nascimento, trilha um caminho completamente diferente do homem natural, o homem que nasceu em Adão. O cristão, por ter nascido de novo, não permanece mais em Adão; sua posição é outra: ele está em Cristo. Em Cristo, ele se torna uma nova criatura, como Paulo afirma em 2 Coríntios 5:17. Sendo nova criatura, manifesta a expressão da nova vida. Estando em Cristo, ele expressa a vida de Cristo, pois Cristo ressuscitou para conceder essa vida, conforme Jesus declarou: "Eu lhes dou a vida." Essa vida espiritual implica em viver de acordo com os princípios estabelecidos por Deus para a criação do homem novo, visando a glorificá-lo no mundo vindouro.

 O novo nascimento, ensinado por Jesus, que significa nascer do alto, não é apenas um evento inicial, mas também uma jornada contínua de progresso. O caminhar do homem regenerado é, portanto, um caminhar ascendente, com um destino eterno. Ele é um peregrino neste mundo, em constante desenvolvimento espiritual, progredindo a cada dia em direção à perfeição.
 Essa progressão é ilustrada em Provérbios 4:18, onde Salomão afirma: "A vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito." A completa manifestação de Cristo deve ser evidente na vida do cristão, pois este é parte integrante do corpo de Cristo. Esta não é uma idéia meramente teórica, nem deve ser considerada superficialmente ou de forma abstrata, mas sim como uma realidade concreta e operante. A expressão da vida ressurreta de Cristo deve se manifestar através de cada cristão. No que concerne à vida intelectual, esta está integrada à vida espiritual, a essa realidade. Dessa forma, o objeto de nossa fé é uma realidade concreta: a ressurreição e a divindade de Cristo. A manifestação desta realidade se revela como sabedoria e prudência, capacitando-nos a vivenciar esta vida superior em nossa experiência diária.



A questão fundamental reside na esfera interior, transcendendo a dimensão exterior. Freqüentemente, anelamos uma expressão religiosa superficial. Muitos de nós assimilamos a idéia de que o cristianismo se resume à participação em atividades eclesiásticas ou ao apoio financeiro a programas religiosos. Embora essas práticas possam ter valor, não alcançam a essência da transformação espiritual. É necessária uma mudança interior profunda e radical, uma renovação do coração, para que possamos manifestar a transformação e o poder do evangelho, experimentando a regeneração. Essa metamorfose espiritual nos conduz a um crescimento constante em sabedoria e prudência, proporcionando benefícios espirituais significativos e, concomitantemente, um impacto social positivo em nosso meio.
Na existência natural, a centralidade da pessoa reside em si mesma; contudo, na vida espiritual do indivíduo transformado, o centro da existência não é o eu, mas Jesus Cristo. Quando o homem se encontra inclinado à matéria, tende a priorizar seus próprios interesses. Suas ações são, em grande medida, motivadas pela busca da satisfação pessoal. Mesmo que se esforce para ajudar o próximo, em seu íntimo reside o desejo de obter os meios para sua própria realização, de encontrar satisfação e, por vezes, de aliviar o peso da consciência, que, em determinados momentos, pode lhe revelar a fragilidade da condição humana. Em contraste, o homem espiritual se distingue pela prudência e sabedoria. Ele compreende que Deus deve ser o centro de sua vida, e não seus próprios desejos. Suas ações não visam a autopromoção, mas a honra e a glória de Deus. Ele não se importa de passar a vida no anonimato, desde que possa cumprir seu propósito.


“Para alcançar a plena semelhança com Cristo, devo ter grande apreço pela felicidade que ela proporciona. Estou convencido de que a felicidade de Deus está indissoluvelmente ligada à Sua santidade.” (Jerry bridges)



Compreendemos, portanto, que a salvação em Cristo promete uma vida orientada pelos mais elevados princípios do pensamento e da conduta. Essa transformação reflete, de certa forma, a vida do próprio Cristo em cada cristão renovado. Este é um ponto fundamental. Nos Evangelhos, observamos de maneira clara e evidente a sabedoria e a prudência que guiaram os passos de Cristo. Ele vivia de acordo com esses valores, concretizando-os em suas ações. Sua vida, íntegra, permitia-lhe enfrentar as circunstâncias mais adversas com serenidade. Ele possuía uma lucidez, transparência e discernimento que lhe permitiam tomar decisões acertadas mesmo nas situações mais difíceis. Essa é a essência da questão. Ele superava as dificuldades da vida com sabedoria. Esse é o caminho a ser seguido pelo cristão.
Consideremos um exemplo de verdadeira santidade. Percebemos que o homem terreno, em busca de poder, geralmente necessita de dois elementos principais: autoridade e riqueza. Ao deter o poder, seja ele eclesiástico ou político, e ascender em uma estrutura hierárquica, o indivíduo pode exercer domínio e autoridade sobre os outros. Da mesma forma, a posse de grande riqueza, bens materiais e posses terrenas confere, em certa medida, domínio e poder sobre os demais. No entanto, ao examinarmos o Evangelho, como em 2 Coríntios, capítulo 12, versículo 9, encontramos uma perspectiva distinta. Deus declara a Paulo uma verdade fundamental: o poder divino se manifesta e se aperfeiçoa na fraqueza. Paulo, mesmo em sua aparente fragilidade, sem posses e em absoluta carência, encontrava a expressão do poder de Deus. Este princípio inverte a lógica do mundo: quanto menos dependemos de nós mesmos, mais dependemos de Deus. Quanto menos nos apegamos às posses terrenas, mais nos aproximamos das coisas celestiais. Quanto mais nos reconhecemos fracos e dependentes, mais Deus age e trabalha em nossas vidas. É assim que as coisas funcionam no reino de Deus.

 No Evangelho de João, capítulo 16, versículo 35, o Senhor abordou a vinda do Espírito Santo. É crucial observar que Jesus afirmou: "Mas, quando aquele, o Espírito da verdade, vier, ele os guiará a toda a verdade." Destaca-se, portanto, a função do Espírito Santo na vida do cristão: conduzi-lo aos caminhos do Senhor. Estes caminhos representam um nível superior, uma jornada mais elevada do que a trilhada pelos descendentes de Adão. Estamos, assim, em direção ao mundo vindouro, à ressurreição e glorificação de nossos corpos, e ao encontro com o Senhor. Trata-se de um processo contínuo de progresso e movimento, culminando na consumação perfeita de todas as coisas.
 Essa dinâmica se evidencia, por exemplo, na Epístola aos Efésios. No capítulo 1, versículo 10, encontramos uma mensagem fundamental: "de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra." É nesse movimento, nessa direção, que cada cristão está inserido.


 Diante disso, podemos discernir a magnitude do futuro e a consumação, bem como o propósito final pelo qual a regeneração se efetiva, o chamado ao Evangelho e a transformação. Em Romanos, capítulo 8, versículos 28, 29 e 30, vislumbramos um objetivo fundamental para o qual fomos chamados a viver a vida espiritual e cristã, como pessoas salvas. A partir do versículo 28, Paulo declara que sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito. Constatamos, portanto, a existência de um propósito. Qual é esse propósito? No versículo 29, vemos que Deus predestinou os que conhecia a serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Ele fosse o primogênito entre muitos irmãos. O propósito de Deus é que possamos refletir a imagem de Cristo em nossa vida, conforme mencionado em Efésios 1:10, um processo que culminará em plenitude, em um tempo em que todas as coisas estarão centralizadas em Cristo. Aqueles que não estão centrados em Cristo, que não caminham com esse foco, com esse objetivo, olhando para o autor e consumador da nossa fé (Hebreus 12:2), estão desviados dessa direção. No versículo 30 do capítulo 8 de Romanos, lemos que aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou. Assim, a consumação final, o objetivo derradeiro, a realização de todas as coisas para o homem regenerado, segundo essa passagem, é a glorificação. A pergunta que eu faço diante dessas verdades tão preciosas que lhe apresentei aqui é: você tem andado em prudência e sabedoria, sabendo que Deus o chamou para um grande propósito, apresentado agora no final desta pequena obra? Você tem exercido sua prudência e sabedoria para expressar a vida de Cristo e satisfazer ao Senhor, em vez de satisfazer a si mesmo? Você tem crescido em graça e em conhecimento, buscando um relacionamento mais profundo com Deus e com nosso Senhor Jesus Cristo? Pois João, em uma de suas epístolas universais, declara que nossa comunhão é com o Pai e com o Filho, o que promove uma intimidade cada vez maior entre o cristão e seu Salvador.
Você tem se aprofundado e mergulhado nas Sagradas Escrituras, encontrando nelas uma nascente de verdadeira sabedoria e luz para caminhar neste mundo de trevas? Você tem procurado uma vida de santidade e piedade, cultivando em seu coração e em sua alma todas aquelas virtudes que estão em Cristo Jesus e que são concedidas mediante a operação e a presença do Espírito Santo em nossa vida? Que Deus o abençoa e que essas palavras lhe sirvam de grande auxílio para viver estes tempos difíceis em sobriedade e consagração. 

 


C. J. Jacinto

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