A Dialética do Tempo e a Presença da Eternidade
“De eternidade a eternidade, Tu
és Deus.” (Salmos 90:2)
O tempo manifesta-se como a força
primordial que atua como criador, conservador e destruidor de tudo o que é
contingente. Ele inaugura a existência pelo nascimento, sustenta-a pela duração
e encerra o ciclo vital ao recolher o indivíduo ao seio do passado através da
morte. Contudo, para o cristão, o tempo não é um fim em si mesmo, mas uma
dimensão das operações do Senhor. Deus, em Sua soberania, criou o tempo e nele
inseriu a criatura; entretanto, Ele próprio habita a eternidade.
1. A
Criação Continuada e a Tensão do Ser
O tempo cria destruindo, e cada
destruição é, paradoxalmente, o prelúdio de uma realização plena. Ele é o palco
de todas as gêneses e aniquilações. A cada instante, o tempo nos retira o ser e
nos devolve o ser, suspendendo-nos entre a plenitude e o nada. Este fenômeno
remete ao conceito de Criação Continuada em René Descartes: a ideia de que a
preservação do mundo exige a mesma força que sua criação inicial. Como bem
expressou o poeta Pierre de Ronsard: "O Tempo nos prepara, o tempo nos
devora".
Historicamente, a incompreensão
desse mistério levou homens a adorarem o tempo como uma divindade. Ao adorarem
o sol, buscavam o princípio que insere vida no tempo e rege o ritmo das
estações. Todavia, o Evangelho nos revela que o tempo não é Deus, mas um meio
concedido pelo Criador para que vivamos com responsabilidade, cumprindo nossa
missão existencial rumo a um destino eterno.
2. O
Presente como Ponto de Contato com o Divino
A eternidade é a fonte perene do
tempo. É através do presente que estabelecemos contato com o Eterno.
Jesus afirmou categoricamente: “Quem ouve as minhas palavras e crê naquele
que me enviou TEM a vida eterna” (João 5:24). Note-se o uso do tempo
presente: a posse da eternidade começa agora. Watchman Nee, em sua obra O
Plano de Deus e os Vencedores, reforça que Cristo é o Homem Universal, não
restrito ao espaço-tempo, sendo o Ungido antes da fundação do mundo e Aquele
que completa o universo.
Diferente da visão grega
clássica, que via o tempo como Chronos (abstrato e linear), a cosmovisão
hebraica bíblica compreende o tempo como algo concreto e qualitativo. Viver o
"agora" é unir-se à natureza divina (II Pedro 1:4). Quando Deus se
identifica a Moisés como “Eu Sou” (Êxodo 3:14), Ele convida o homem a
participar de Sua dimensão. Ser participante da natureza divina é, em essência,
habitar a mesma dimensão de presença constante em que Deus reside.
3. A
Transcendência sobre a Linearidade
O presente é frequentemente
definido como o ponto de intersecção entre o passado que foge e o futuro que se
abre como uma ressurreição constante de momentos. Para que o indivíduo mantenha
a percepção de sua responsabilidade, o presente jamais deve cessar de se
"fazer". A vida espiritual não se curva às limitações do tempo
criado; ela as transcende, penetrando o infinito onde Deus se encontra.
Embora o passado deixe marcas,
devemos reconhecer que Deus sempre esteve lá. Nossa existência no passado é
confirmada pelo registro de nossos nomes no Livro da Vida desde a fundação do
mundo (Apocalipse 13:8). Isso prova que Deus possui a totalidade do tempo
simultaneamente. Enquanto navegamos no "rio do tempo", Deus é o
oceano completo que já contém todas as águas.
4.
Convocação à Responsabilidade Existencial
O livro de Eclesiastes (Capítulo
3) oferece a mais profunda evidência da natureza do tempo e seu poder sobre os
mortais. Há um tempo para cada propósito debaixo do céu. Deus nos concede a
vida e o tempo como um talento a ser investido. Viver com responsabilidade
dentro desta cronologia é uma convocação suprema.
A eloquência da existência reside
na percepção de que o tempo nos pertence para ser desfrutado e consagrado à
glória de Deus. Não sejamos como a maioria, que desperdiça o tempo e,
consequentemente, perde a visão da eternidade. Sejamos a minoria que utiliza o
tempo finito para pavimentar o caminho para o infinito.
Considerações Finais
Este texto é uma reflexão fundamentada na ontologia da presença de Louis
Lavelle, cujas ideias sobre a participação do ser e o ato presente impactaram
profundamente minha visão teológica, unindo a filosofia existencial à revelação
das Escrituras Sagradas.
C. J. Jacinto
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