Sabedoria e Prudencia Parte I


 Parte I

 Um dos primeiros versículos que memorizei na infância foi Provérbios 16:16: "É muito melhor adquirir a sabedoria do que o ouro, e muito mais excelente adquirir a prudência do que a prata." Compreendi, então, que essa afirmação em Provérbios se opõe àquilo que um adolescente tende a internalizar sobre a vida e o futuro. A televisão, a sociedade e, por vezes, a religião secular ensinam que a felicidade reside na aquisição de riquezas, bens e títulos, na busca por poder, influência e autoridade. Contudo, Provérbios 16:16 nos apresenta uma perspectiva diferente.

 A exigência bíblica para que um indivíduo alcance a verdadeira espiritualidade e a aprovação divina reside na aquisição de sabedoria e prudência. À medida que o homem se desenvolve em sabedoria e prudência, ele se aproxima da experiência da verdadeira felicidade e é considerado bem-aventurado aos olhos do Senhor. Contudo, esses valores têm sido desvalorizados na atualidade. A prudência, o discernimento e o conhecimento espiritual profundo são negligenciados. As pessoas buscam, em vez disso, reconhecimento e admiração, almejando um palco e aplausos para se sentirem realizadas, embora essa busca seja ilusória. A vida demonstra que a maioria das pessoas, após a morte, é rapidamente esquecida, e até mesmo seus túmulos desaparecem com o tempo. Assim ocorreu com meus antepassados; desconheço o local onde estão sepultados meus trisavós, há aproximadamente 150 a 200 anos, e se não fosse pela tecnologia, sequer saberia seus nomes. Todavia, existe um caminho para a verdadeira relevância. Diante de Deus, o mais importante é possuir sabedoria e prudência.



As obras poéticas e sapienciais oferecem ricas lições sobre sabedoria e prudência. Desejo enfatizar que, ao abordar as ilusões da existência, a análise apresentada no livro de Eclesiastes, por exemplo, revela uma perspectiva lúcida e direta sobre as futilidades da vida. Essa abordagem visa conduzir o indivíduo de fé, que busca o conhecimento das verdades sagradas, a uma jornada de discernimento. Ele se orientará pela prudência, buscará a sabedoria e se dedicará a uma vida que honre a Deus, enraizando-se em uma fé cristã profunda.
Com base nessa perspectiva, podemos compreender que, nos livros sapienciais, o conceito de sabedoria e prudência indica que o caminho para alcançar a maturidade reside em uma vida de progresso contínuo e crescimento constante. Salomão, em passagens como Provérbios 4:18, ilustra essa ideia ao descrever o caminho do justo como a luz da aurora, que brilha cada vez mais até atingir a perfeição. Esse progresso espiritual, aliado ao amadurecimento, fortalece a fé. O desenvolvimento espiritual, por sua vez, depende da prática de certos princípios. O cristão deve, portanto, crescer em graça e conhecimento. Um cristão maduro demonstra prudência e sabedoria, não se guiando pelos valores mundanos nem se conformando aos padrões deste século. Para ele, os valores espirituais e as virtudes bíblicas, que são exigidas de um cristão, tornam-se os objetivos primordiais a serem buscados e conquistados.

 

“Sabedoria é a habilidade na arte de viver a vida com cada aspecto sob o domínio de Deus… A sabedoria inclui a capacidade de usar os melhores meios no melhor momento para alcançar os melhores fins. Não se trata meramente de informação ou conhecimento, mas da aplicação hábil e prática da verdade às facetas comuns da vida.” (Keneth Boa)


Em algumas vertentes do cristianismo, a compreensão sobre a espiritualidade diverge significativamente dos ensinamentos bíblicos. Frequentemente, a figura do indivíduo espiritual é associada a vivências emocionais intensas, como êxtases e manifestações semelhantes. Essa perspectiva tende a valorizar comportamentos efusivos, como manifestações físicas exacerbadas, choro frequente e ausência de autocontrole, frequentemente embasados em experiências subjetivas e revelações não claras. Tais indivíduos são, por vezes, considerados os mais espirituais.

 Contudo, a Bíblia apresenta uma visão distinta de espiritualidade. A pessoa verdadeiramente espiritual, segundo as Escrituras, demonstra, acima de tudo, domínio próprio. Sua vida é guiada pelo Espírito Santo, refletindo-se em humildade, prudência e sabedoria. Um indivíduo sábio, reconhecendo a natureza humana, compreende que aqueles com fé fragilizada, falta de discernimento e ausência de sabedoria ou prudência, tendem a idealizar aquilo que lhes causa admiração.

 De certo modo, um dos sinais do homem imaturo, sem prudência e sem sabedoria, é que ele idolatra aquelas pessoas que ele considera espirituais. Dotada de profunda espiritualidade, essa pessoa não almeja ser objeto de idolatria, temendo inclusive que isso ocorra. A característica central de sua personalidade, ou talvez o que a distingue, reside em sua aversão a ser o centro das atenções. Seu desejo genuíno é que Deus seja glorificado por meio de sua vida, e nada mais. Consequentemente, sua postura é cristocêntrica, e não egocêntrica, em contraste com indivíduos menos maduros, que tendem a idolatrar figuras humanas.  A virtude da prudência, em consonância com a sabedoria, eleva o caráter humano e promove uma espiritualidade equilibrada. Essa postura, resultante da prática da piedade fundamentada na sabedoria e na prudência, conforme ensina a Bíblia, distingue o indivíduo e se manifesta em frutos positivos.

 Na cosmovisão cristã, o homem espiritual é aquele que busca a sabedoria e a prudência, conforme os ensinamentos bíblicos sobre tais virtudes. Distingue-se dos conceitos seculares, pois sua fonte é o Espírito Santo, revelado na Bíblia Sagrada como a verdadeira fonte de sabedoria. O amor e o temor a Deus, evidenciados em passagens significativas do Antigo e do Novo Testamento, são fundamentais na vida cristã. A piedade, o temor a Deus e o conhecimento espiritual são princípios que se manifestam na vida do crente, distinguindo-o por meio das virtudes que moldam sua espiritualidade.

“A recepção livre e calorosa no favor divino é o mais forte de todos os motivos para levar um homem a buscar a conformidade com Aquele que, tão livremente, lhe perdoou todas as transgressões.” (Horatius Bonar)

 No livro de Provérbios, capítulo 9, versículo 10, encontra-se uma passagem fundamental para a compreensão do tema em questão. Ali, lemos que "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo, a prudência". Desta forma, torna-se evidente que a verdadeira sabedoria e a verdadeira prudência são alcançadas por aqueles que conhecem e servem ao Senhor, estabelecendo uma relação íntima e constante com Ele. A verdadeira sabedoria e a prudência florescem na medida em que cultivamos um relacionamento profundo com Deus, tornando a comunhão diária e essencial à vida espiritual. Somente quando essa relação se torna impactante e parte fundamental da existência, podemos experimentar a verdadeira prudência e sabedoria, pois estas emanam do conhecimento e do temor ao Senhor.
 Eis, portanto, a essência da vida espiritual autêntica do cristão genuíno, aquele que se dedica à piedade. Como afirmou o apóstolo Paulo em uma de suas epístolas, o imperativo reside em exercitar-se na piedade, de modo que tal prática conduza à prudência e ao caminho da sabedoria. Em Provérbios, capítulo 2, versículo 5, encontramos a seguinte promessa: "Então entenderás o temor do Senhor e acharás o conhecimento de Deus".

“Somos salvos para adorar a Deus. Tudo o que Cristo fez no passado e tudo o que Ele está fazendo agora leva a este único fim.” (A. W. Tozer)

 



É maravilhoso possuir esse conhecimento e essa intimidade com Deus, pois, ao compreendermos o Senhor, seus atributos e sua natureza santa e justa, reconheceremos a importância de viver dignamente diante d'Ele, buscando agradá-Lo em tudo. Assim, o dever de todo aquele que possui conhecimento do Santo, conforme descrito nas Escrituras e revelado pela Palavra Sagrada, é viver em dignidade e temor ao Senhor. Sua vida se tornará uma expressão de piedade prática, pois aquele que conhece a Deus também conhece a Sua santidade e deseja andar na luz dessa santidade.

 Para aprofundar nossa compreensão sobre este tema, visando uma maior clareza sobre sabedoria e prudência, é necessário que sejamos espiritualmente sóbrios. Esta é a característica de um indivíduo transformado, pois a regeneração genuína nos conduz por este caminho: o do progresso espiritual, do crescimento e do desenvolvimento rumo à maturidade. Em contrapartida, a natureza do homem em sua condição original, a do homem natural, manifesta-se sob a influência da queda. Ao analisarmos os capítulos 2 e 3 do livro de Gênesis, notamos que Deus proibiu aos primeiros seres humanos o acesso ao fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, representando uma restrição. Contudo, ao desobedecerem a Deus, instigados por Satanás, a antiga serpente, e consumirem o fruto proibido, experimentaram também uma queda espiritual, de natureza negativa e escravizadora. Nesse momento de desobediência, adquiriram o conhecimento do bem e do mal. Diferentemente, o homem regenerado possui um conhecimento distinto, o conhecimento do santo. Conseqüentemente, sua vida após a regeneração se dedicará ao desenvolvimento da fé, da espiritualidade, da teologia e do entendimento, a fim de se moldar ao conhecimento e à comunhão com o Deus Trino: Pai, Filho e Espírito Santo.

“As experiências de homens que caminharam com Deus nos tempos antigos concordam em ensinar que o Senhor não pode abençoar plenamente um homem até que primeiro o tenha conquistado. O grau de bênção desfrutado por qualquer homem corresponderá exatamente à completude da vitória de Deus sobre ele.” (A. W. Tozer)


 Acredito firmemente que este é um dos principais motivos pelos quais se torna necessária a regeneração humana. Trata-se de uma restauração, um retorno à condição original do homem, um ser santo e adorador, capaz de viver para glorificar a Deus. A capacidade de adorar reside na essência do ser humano. Nenhum indivíduo escapa a essa natureza e a esse princípio. Desde as eras primitivas, aqueles que deixaram de adorar a Deus passaram a adorar as criaturas, principalmente a natureza. O sol, a lua, as estrelas e outros astros foram transformados em divindades, e ancestrais e espíritos passaram a ser invocados. Em outras culturas, a adoração se voltou para flores e animais. Em sua forma mais extrema, o ateísmo, paradoxalmente, corrói a própria razão. Assim, creio essencialmente no Evangelho, em sua essência e perspectiva, conforme a qual o homem é convocado à santidade. Esta é a nossa vocação. Todo cristão é chamado a ser santo e a trilhar o caminho da piedade. Deve cultivar a piedade, conduzindo uma vida santa, buscando e invocando a Deus. É imperativo que o cristão faça de seu coração um santuário, sendo um verdadeiro adorador, aquele que adora o Pai em espírito e em verdade. Após a regeneração, o novo nascimento, o cristão buscará viver em conformidade com o Evangelho e a graça divina, pleno do Espírito Santo, demonstrando prudência e sabedoria em suas ações. Este será o caminho a ser percorrido durante toda a vida, até alcançar as moradas celestiais e o reino de Deus. Esta é a direção a ser seguida pelo homem de Deus. Cito, portanto, Provérbios 4:18, onde o sábio Salomão afirma que a vereda do justo é como a luz da aurora, que brilha cada vez mais até o dia perfeito.


“O objetivo final de Deus para nós, porém, é que sejamos verdadeiramente conformados à semelhança de Seu Filho, tanto em nossa pessoa quanto em nossa posição... Jesus não morreu apenas para nos salvar da pena do pecado, nem mesmo apenas para nos santificar diante de Deus. Ele morreu para purificar para Si mesmo um povo ansioso por obedecê-Lo, um povo ansioso por ser transformado à Sua semelhança... Esse processo de nos conformar gradualmente à semelhança de Cristo começa no próprio momento da nossa salvação, quando o Espírito Santo vem habitar em nós e nos dar uma nova vida em Cristo. Chamamos esse processo gradual de santificação progressiva, ou crescimento em santidade, porque é verdadeiramente um processo de crescimento.” (Jerry Bridges)

 

 

Adão perdeu o caminho da comunhão e da contemplação, na regeneração, Cristo recupera esse caminho e a possibilidade da comunhão com o Pai, e Cristo mesmo se torna o único mediador e o único Caminho de acesso, o primeiro Adão nos desviou do caminho mas o segundo Adão tornou-se o nosso caminho

 

 C. J. Jacinto

 

 

 

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