Ausentes do Corpo, Presentes com o Senhor: Uma Exposição Teológica sobre a Sobrevivência da Alma Após a Morte
“Temos, portanto, sempre bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo,
vivemos ausentes do Senhor... mas temos bom ânimo e desejamos antes deixar este
corpo e habitar com o Senhor.” (2 Coríntios 5:6, 8)
A questão do que acontece após a morte é tão antiga quanto a humanidade e permanece envolta em mistério para aqueles que se afastam da revelação divina. O próprio Senhor Jesus advertiu os saduceus, dizendo: “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mateus 22:29). É somente pela guia segura da Escritura Sagrada que podemos escapar do erro e compreender, ainda que em parte, este mistério sublime. Este artigo busca oferecer uma exposição fiel, piedosa e apologética sobre o estado intermediário da alma, fundamentada na antropologia bíblica e na esperança gloriosa que temos em Cristo.
1. A Constituição do Ser Humano: Espírito-Alma e Corpo
Para compreendermos o destino do homem na morte, é imperativo compreendermos a sua constituição pela criação divina. Em Gênesis 2:7, lemos que “o SENHOR Deus formou o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente”. Aqui reside a dupla origem do ser humano: o corpo, formado da terra (material, temporal e mortal), e o espírito-alma, soprado por Deus (imaterial, inteligente e imortal).
O ser humano é, portanto, uma unidade psicossomática, mas não uma dualidade indistinta. Nosso Senhor Jesus Cristo distinguiu claramente estas essências ao afirmar: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:6). O apóstolo Paulo também contrasta o “homem exterior” que se corrompe, do “homem interior” que se renova dia a dia (2 Coríntios 4:16).
A alma (nephesh no hebraico, psuche no grego) é o princípio vital, a sede da consciência, da emoção e da vontade. É o que nos torna seres sencientes, capazes de mover, respirar e sentir. No entanto, o que distingue o homem dos animais é o espírito (ruach no hebraico, pneuma no grego). Este é o “sopro de Deus” que ilumina a mente e a consciência, tornando o homem um ser moral, racional e religioso, criado à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26-27). Como diz Jó: “Na verdade, há um espírito no homem, e a inspiração do Todo-Poderoso o faz entendido” (Jó 32:8). Os animais possuem alma (vitalidade), mas não o espírito imortal e responsável que carrega a imagem divina. Suas almas, desprovidas de consciência moral e espiritual, simplesmente se dissolvem, “descem para a terra” (Eclesiastes 3:21). O homem, contudo, ao morrer, tem o seu espírito-alma que “volta para Deus” (Eclesiastes 12:7).
2. O Estado Intermediário: A Consciência Após a Morte
A Escritura refuta veementemente a ideia de que a morte é o fim da existência ou um estado de “sono da alma” (psicopanniquia). A morte do corpo é, de fato, chamada de “sono” nas Escrituras (João 11:11), mas apenas em referência ao corpo que descansa na sepultura aguardando a ressurreição. A alma, contudo, permanece vívida e consciente.
A narrativa de nosso Senhor sobre o rico e Lázaro (Lucas 16:19-31) é uma janela inestimável para esta realidade. Ambos morrem. O corpo de Lázaro é sepultado, mas sua alma é levada pelos anjos para o “seio de Abraão”, um lugar de consolo. O rico, por sua vez, é sepultado, mas sua alma encontra-se no Hades, em tormento. A narrativa demonstra que ambos estão conscientes: Lázaro é consolado, o rico sente sede, vê Abraão ao longe, lembra-se de seus irmãos e suplica por misericórdia. Há identidade, memória, emoção e reconhecimento. Há também um “grande abismo” intransponível que separa os justos dos ímpios, estabelecendo desde já um destino moral definitivo.
Esta mesma verdade é confirmada na Transfiguração, quando Moisés e Elias (séculos após suas mortes) aparecem conscientes e conversam com Jesus sobre o seu “êxodo” em Jerusalém (Lucas 9:30-31). O próprio Deus, ao se apresentar a Moisés na sarça ardente, declara: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó”. E Jesus conclui: “Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para ele todos vivem” (Lucas 20:37-38). Abraão, Isaque e Jacó, embora fisicamente mortos, estão vivos para Deus.
O apóstolo João, no Apocalipse, vê “debaixo do altar as almas dos que foram mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que deram” (Apocalipse 6:9). Estas almas clamam em alta voz: “Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (Apocalipse 6:10). Elas estão conscientes, racionais, em comunhão com Deus, e aguardam a consumação. Pedro também nos ensina que o próprio Cristo, “mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito, foi e pregou aos espíritos em prisão” (1 Pedro 3:18-19). Portanto, o estado intermediário é um estado de existência consciente, seja de conforto e expectativa gloriosa para os justos, seja de tormento e expectativa terrível para os ímpios.
3. A Mudança na Economia da Salvação: Do Seio de Abraão ao Paraíso com Cristo
O Dr. Ibeme corretamente distingue a economia do Antigo Pacto da do Novo Pacto inaugurado por Cristo. Antes da cruz, o lugar de consolo dos santos (o “seio de Abraão” ou “Paraíso”) e o lugar de tormento dos ímpios (o “Hades” ou “inferno”) localizavam-se ambos no sheol/hades (o mundo dos mortos), separados por um abismo intransponível.
Contudo, com a morte e ressurreição de Cristo, uma mudança gloriosa ocorreu. Quando Cristo desceu às partes mais baixas da terra (Efésios 4:9), Ele pregou aos espíritos em prisão e, ao ascender, “levou cativo o cativeiro” (Efésios 4:8). Entendemos que Ele trasladou os santos do Antigo Testamento que estavam no paraíso inferior para a sua presença imediata no “terceiro céu”, o próprio Paraíso de Deus (2 Coríntios 12:2-4). Foi por isso que Ele pôde dizer ao ladrão na cruz: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23:43). O “hoje” indica uma transferência imediata para a presença de Cristo.
É por isso que o apóstolo Paulo pode expressar o seu dilema com tamanha confiança: “Mas estou em aperto entre os dois, tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor” (Filipenses 1:23). Para Paulo, “partir” (morrer) não era mergulhar num sono inconsciente, mas sim entrar numa comunhão mais íntima e imediata com o seu Senhor. Da mesma forma, ele afirma que ter bom ânimo é “antes deixar este corpo e habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8). A partir da cruz e da ascensão, a alma do crente, ao deixar o corpo, não vai para um compartimento no sheol, mas ascende triunfantemente à presença de Deus, ao altar celestial, onde aguarda em repouso e conforto a redenção final do corpo.
4. A Esperança Final: A Ressurreição e o Reino
É crucial entender que este estado intermediário na presença de Cristo não é o estado final. A alma desencarnada, embora consciente e em comunhão com Deus, anseia pela sua plenitude: a ressurreição do corpo. O mesmo Paulo que desejava partir para estar com Cristo também ansiava pela redenção do seu corpo (Romanos 8:23). A salvação bíblica não é uma libertação da matéria, mas a redenção de todo o nosso ser.
A esperança bendita da Igreja é a Primeira Ressurreição, que ocorrerá por ocasião da vinda gloriosa de Cristo. Este evento não será secreto, mas visível a todos (Apocalipse 1:7). Ele acontecerá após a tribulação e a manifestação do Anticristo (2 Tessalonicenses 2:1-8). Naquele dia, os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro, e os que estiverem vivos serão transformados, e ambos serão arrebatados nas nuvens, “para encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4:17).
É importante notar que este “encontro” nos ares não é uma partida definitiva para o céu, mas uma recepção triunfal ao Rei que desce. O propósito é reinar com Ele na terra restaurada durante o Milênio, o Reino de Restituição de todas as coisas (Atos 3:21; Apocalipse 5:10; 20:6). Os santos, então, não serão almas desencarnadas, mas possuirão corpos espirituais, incorruptíveis e gloriosos, semelhantes ao corpo ressurreto de Cristo (Filipenses 3:21). Herdarão o Reino preparado para eles.
Para os ímpios, a morte é o início de um estado de tormento consciente que culminará na “ressurreição da condenação” (João 5:29), o juízo final, seguido pela “segunda morte”, que é o lago de fogo (Apocalipse 20:14-15; 21:8). Este é o destino solene daqueles que rejeitam a graça de Deus em Cristo.
Conclusão: Uma Exortação Piedosa
Portanto, amados, temos diante de nós a clara revelação de Deus. A morte não é um fim, mas uma transição. Para o crente em Jesus Cristo, é o momento de deixar o corpo mortal e habitar na gloriosa presença do Senhor, num estado de consciente paz e expectativa. É o "sono" do corpo na terra, mas a vigília da alma no céu, aguardando o despertar da ressurreição.
Que esta verdade não seja para nós mero conhecimento intelectual, mas uma âncora da alma, segura e firme (Hebreus 6:19). Que ela nos console na perda de nossos entes queridos que morreram na fé, sabendo que eles não pereceram, mas estão com Cristo, "o que é muito melhor". E, acima de tudo, que esta verdade nos desperte para uma vida de santa vigilância e ardente desejo pela volta do nosso Rei.
Que possamos, como Paulo, ter bom ânimo, não apenas na vida, mas na hora da morte, certos de que, se a nossa casa terrestre se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus (2 Coríntios 5:1). Maranata! Ora vem, Senhor Jesus!
Amém.
Este artigo foi escrito com base em um texto escrito por Dr. I. U. Ibeme.
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