As Bases Evidenciais do Homem Espiritual
C. J. Jacinto
Em Hebreus 4:12, encontra-se a seguinte afirmação: "Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão da alma e do espírito, das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração." Esta passagem evidencia que a palavra de Deus, por meio do Espírito Santo, oferece-nos o discernimento espiritual necessário para distinguir a alma do espírito.
É lógico que
nós vamos entrar dentro de uma questão que para alguns é considerada como
polêmica, pois nós temos muitos teólogos que defendem a dicotomia e outros que
defendem a tricotomia. Todavia deve-se notar que em ambas as partes há verdades
que precisam ser aceitas. Se nós olharmos para o homem de um modo geral e
sabemos que a palavra de Deus, de uma forma mais geral, ela explica ou ela
afirma e ensina que o homem tem uma parte física e uma parte espiritual. De
certa forma, todo aquele que defende a tricotomia aceita isso como fato, de
modo que aquele que não aceita a tricotomia também que o homem é constituído de
duas partes, até porque nas sagradas escrituras nós vamos encontrar muitas
vezes a passagem alma e espírito como se elas fossem sinônimos e de certa forma
pode até ser correto, pois de uma forma geral a Bíblia também ensina isso.
Então, nos detalhes devemos levar em conta que aqui nesse versículo desse
capítulo do Livro de Hebreus está muito claro que há uma diferença básica entre
os dois, entre alma e entre espírito.
É imprescindível analisar com atenção o texto de Hebreus, capítulo 4, versículo
12. Neste trecho, observa-se uma distinção entre os pensamentos e as intenções
do coração, bem como entre as juntas e as medulas ósseas, embora ambas sejam
partes integrantes do corpo. As articulações e o tutano, por exemplo, não são
idênticos Um pensamento é diferente de uma intenção. O livro de Hebreus
estabelece essa diferenciação, separando pensamentos de intenções. A capacidade
de raciocinar e a capacidade de conceber pela imaginação são distintas. Diante
disso, como podemos afirmar que alma e espírito são sinônimos? Tal afirmação
contrariaria o próprio principio de interpretar o texto, impondo a possibilidade de que o Espírito
Santo fez uma redundância, alías, entender que as articulações não a medula,
não são a mesma coisa, ainda que ambas sejam parte de um corpo, e que
pensamentos e intenções não são a mesma coisa mas procedem de uma mesma consciência
e depois argumentar que alma e espírito é a mesma coisa estará incorrendo em
contradição. Se podemos discernir claramente entre intenções e pensamentos, e
entre juntas e medulas, a mesma distinção deve ser observada entre alma e
espírito. Caso contrário, o texto perderia sua coerência.
Com base nos ensinamentos de Paulo em Romanos 5:12, Romanos 8:6 e,
especialmente, em Efésios 2:1-5, compreendemos que o homem se encontra em
estado de morte espiritual, ou seja, seu espírito está inativo. É importante
ressaltar, contudo, que essa condição não se estende à sua psique. O mundo
psicológico, seus pensamentos e consciência permanecem ativos. O que se encontra
inerte é o espírito humano. Assim, podemos facilmente distinguir que o mundo
psicológico do homem decaído, o homem adâmico, está vivo, enquanto seu espírito
está morto. A alma, por sua vez, está intrinsecamente ligada à psique. Porém,
no homem adâmico, o espírito está morto. Crer que o homem está espiritualmente
morto e a psique (alma) está viva e depois defender a dicotomia absoluta é uma
contradição.
Apesar da condição de morte espiritual, o homem, em sua dimensão psicológica, não busca a Deus. Contudo, a história e as Escrituras, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, atestam que o homem, utilizando sua capacidade psicológica, procura uma divindade, busca um Criador.
É possível que o leitor questione a respeito da passagem paulina que declara a
ausência de quem busque a Deus. De fato, essa afirmação existe, mas sua
compreensão exige uma análise contextualizada. Paulo se refere,
especificamente, ao Deus verdadeiro. A humanidade, em grande parte, encontra-se
afastada d'Ele. Após a queda, o homem adâmico perdeu a comunhão com Deus e,
consequentemente, buscou, fabricou e inventou falsas divindades. Contudo, em
sua consciência e em sua estrutura psicológica, permanece a noção inata da
existência de um Criador, como atesta Paulo em Romanos 1.
Considerando a hipótese de que a psique, ou alma, do homem adâmico não se
encontra integrada ao seu espírito, devido à condição de inatividade espiritual
deste último, enquanto a alma permanece ativa. A regeneração, resultante do
novo nascimento, promove o despertar espiritual e a revitalização do espírito. Consequentemente,
a psique será a reintegrada ao espírito vivificado, transformando o indivíduo
de homem natural em homem espiritual. A epístola aos Romanos, capítulo 8,
versículo 16, corrobora essa compreensão ao afirmar que o próprio Espírito
Santo testemunha, juntamente com o nosso espírito, que somos filhos de Deus. Em
2 Coríntios, capítulo 5, versículo 17, declara-se que, em Cristo, o indivíduo
se torna uma nova criatura, com o passado superado e todas as coisas renovadas.
Portanto, a integração da alma com o espírito se concretiza na regeneração, um
conceito que merece clara compreensão, pois o conjunto da discussão conduz a
essa conclusão, pois não há o testemunho do Espirito Santo acerca da
regeneração no homem caido.
Diversos trechos das Escrituras oferecem uma compreensão mais profunda sobre a
questão central da condição espiritual do ser humano: o espírito, corrompido
pelo pecado, encontra-se morto e necessita ser vivificado por meio da fé e da
experiência da regeneração, ou novo nascimento. Em Efésios, capítulo 2,
versículo 1, lemos: "E vos vivificou, estando vós mortos em vossos delitos
e pecados". No mesmo livro, capítulo 2, versículo 5, afirma: "E,
estando nós mortos em nossos pecados, nos vivificou juntamente com Cristo".
Em Colossenses, capítulo 2, versículo 13, encontramos: "E a vós, quando
estáveis mortos nos vossos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos
vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas". Em 1
Coríntios, capítulo 15, versículo 22, lemos: "Porque, assim como em Adão
todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados".
É fundamental reconhecer a dimensão psicológica do ser humano, ela nunca esteve
morta. O indivíduo, em sua condição natural, possui consciência, aspecto
intrínseco à sua natureza. Essa consciência, associada à alma, opera como uma “entidade”
distinta do espírito, que, em seu estado caído, encontra-se inativo. A
restauração dessa dimensão espiritual ocorre somente através da regeneração,
momento em que o indivíduo nasce para uma nova vida espiritual. As funções
religiosas de um individuo morto em seus pecados esta ativa, pode sentir uma
falsa presença de Deus, pode despertar fenômenos psíquicos, pode ter experiências
místicas, pode provocar efeitos paranormais e assim como as cordas vocais, a
mente pode ser usada por espíritos imundos. No homem regenerado é o Espírito
Santo que toma controle da alma psíquica, no homem adâmico são espíritos caídos
que controlam ele (Leia novamente Efésios 2:1 e 2)
A bíblia freqüentemente nunca associa "demônios" ou "espíritos
impuros" como alma, um espírito imundo nunca é chamado de alma, a alma
parece ser inerente ao ser humano. A alma, neste contexto, é entendida como um
poder facultativo associado com a psique, relacionada ao aspecto intelectual,
mental e emocional do indivíduo, de onde emana a capacidade psíquica,
especialmente no homem não regenerado.
Em 1 João 5:6, lemos que o Espírito Santo é o testemunho da verdade. João se refere ao Espírito Santo, cuja atuação no espírito humano vivificado proporciona discernimento espiritual. Essa luz espiritual guia a psique, capacitando-a e iluminando-a a distinguir entre o certo e o errado.
A psique, mesmo no estado de queda, interage com o físico e o espiritual. Contudo, sem a presença do Espírito Santo, o homem natural não possui discernimento sobre as questões espirituais. Conseqüentemente, ele dificilmente consegue identificar espíritos enganadores, que podem se disfarçar, inclusive, como "anjos de luz". A psique do homem natural, devido à queda, encontra-se deformada e incapaz de compreender ou discernir espiritualmente. Assim podemos perceber que no homem caído, o corpo físico e a sua psique/alma não estão mortas, tudo está avariado no homem adâmico, o corpo, a alma e o espírito. A redenção começa pelo espírito e termina com o corpo glorificado e restaura o completamente homem.
Somente aquele que teve seu espírito vivificado e é habitado pelo Espírito Santo possui a capacidade de discernir a verdade da falsidade, a natureza das coisas espirituais. Essa capacidade é claramente ilustrada em 1 João, capítulo 4, versículos 1 e 6. O homem espiritual, possuindo o Espírito Santo, pode discernir entre o espírito da verdade e o espírito do erro. O homem natural, por outro lado, embora sua psique funcione, percebe as coisas de maneira distorcida, pois seu espírito está morto e o Espírito Santo ausente.
Desejo ainda ressaltar que a experiência da regeneração e do novo nascimento é inacessível ao homem em seu estado pecaminoso, a menos que haja a atuação e a iluminação do Espírito Santo. Esta ação divina alcança o âmago do ser, o espírito do homem. A regeneração, o novo nascimento, revitaliza o espírito outrora morto em decorrência da queda, permitindo-lhe a vida. Tal fato se evidencia, de forma clara, em João, capítulo 16, versículos 8 a 13. É o Espírito Santo quem promove essa revelação e a percepção dessa necessidade. É o Espírito Santo quem revela e ilumina o coração do homem pecador acerca das verdades espirituais contidas no Evangelho. A regeneração e a conversão a Cristo somente são possíveis através da iluminação e da ação soberana do Espírito Santo.
As palavras de Paulo em Romanos, capítulo 8, versículo 1, são dignas de nota: "Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito." Observa-se aqui a importância de seguir a orientação do Espírito Santo de Deus. No versículo 4 do mesmo capítulo, Paulo declara: "Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito."
Em Romanos, capítulo 8, versículo 10, Paulo reafirma: "E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça". Ao mencionar o corpo morto, Paulo alude à condição de mortalidade e sujeição ao pecado ao espírito que vive, o resultado da regeneração. Em 1 Coríntios, capítulo 15, Paulo aborda essa mesma questão, distinguindo entre o corpo natural e o corpo espiritual. Contudo, em Romanos 8, a vida do Espírito é restrita à experiência completa do homem regenerado. Somente no homem regenerado o Espírito habita e opera em continuidade funcional.
Em seguida, alcançamos outra passagem na qual Paulo distingue alma e espírito. Inicialmente, em sua primeira carta aos Tessalonicenses, capítulo 5, versículo 23, ele escreveu: "O próprio Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo."
Ao ler a passagem referida, recordo-me de outra passagem proferida por Cristo nos Evangelhos, especificamente em Marcos, capítulo 12, versículo 30, onde Ele declara: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento." Observa-se, então, uma diferença sutil, mas importante, que exige do homem uma percepção clara e sólida sobre as questões espirituais mais profundas. Compreendemos que entendimento, coração e alma são elementos distintos, refletindo a integridade do homem em sua natureza renovada, evidenciando sua solidez.
O coração simboliza o vigor da vida, a força vital que se manifesta no corpo
biológico, conferindo-lhe sua expressão singular. Amar o Senhor de todo o
coração, portanto, é amar honrando-o com o corpo, com as ações e com a própria
vida. Essa força vital, que reside em nós, expressa o amor que dedicamos Àquele
que ofertou a vida.
Mas existe algo mais profundo, a alma. Amarás o Senhor com todo o teu coração e com toda a tua alma. A alma, aqui, refere-se à psique, o centro das emoções e sentimentos. A psique, com suas funções restauradas, são essenciais para uma vida de santidade.
A predisposição psicológica inerente ao ser humano, em sua condição natural, freqüentemente o inclina a ações consideradas moralmente inadequadas e a buscar experiências espirituais de maneira distorcida, devido à ausência de discernimento. Essa tendência, associada ao desenvolvimento do egoísmo e egocentrismo, contrasta com a transformação experimentada pelo indivíduo renovado e regenerado pela influência do Espírito Santo. Neste estado, o foco se desloca para Cristo, e a força psicológica é direcionada ao serviço do Reino de Deus, ao amor pelo Evangelho e ao amor a Deus.
Finalmente, consideramos o entendimento, a faculdade espiritual interior que recebe o testemunho do Espírito Santo. Essa faculdade da mente espiritual é restaurada pelo novo nascimento. É por meio desse contato entre o Espírito Santo e nosso espírito que compreendemos as coisas espirituais. Por conseguinte, a leitura das Escrituras, para o homem espiritual, distingue-se daquela do homem carnal, pois o primeiro compreende as coisas do Espírito. A revelação do Espírito Santo lhe concede aprofundamento do entendimento, permitindo que ele receba luz, discernimento e compreensão sobre todas as coisas espirituais. Somente assim é possível experimentar e vivenciar a ordem divina em sua plenitude. Conforme Jesus declara em João, capítulo 4, versículo 24: "Deus é Espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade".
Com efeito, é fundamental compreender, de maneira
concisa e precisa, que Hebreus, capítulo 4, versículo 12, apresenta essa
distinção da alma e do espirito. Trata-se de uma diferenciação que, em muitos
casos, se mostra complexa de apreender e até mesmo de discernir, em razão das
consequências da queda, que obscureceram as realidades espirituais devido à
nossa condição limitada. Por conseguinte, torna-se necessário considerar o que
está escrito no livro de Hebreus. Ali, a distinção é manifesta, pois, assim
como há diferença entre o movimento e a fala em um corpo, e entre o pensamento
e a intenção (pensar e intentar são distintas), também devemos entender, pelo
próprio texto de Hebreus 4:12, que a distinção ali se torna evidente.
Portanto, seguindo o princípio de que, ao analisarmos o homem em termos gerais,
a dicotomia pode ser, de fato, uma realidade, e de fato o é, pois
compreendemos, de maneira geral, que existe uma parte espiritual e uma parte
biológica no ser humano. Todavia, deve-se entender que a Bíblia é clara ao
ensinar e evidenciar uma distinção entre a alma e o espírito. O espírito não
está frequentemente associado à psique, mas a alma esta integrada ao mundo
psicológico, e muitas vezes se manifesta através de capacidades e manifestações
psíquicas. Contudo, o espiritual é mais profundo, conecta a integração da
presença e da comunhão divina com a psique do homem regenerado, é onde a verdade
divina se integra a totalidade do ser transformado pelo novo nascimento, tendo
sua origem unicamente na regeneração. Dessa forma, os homens verdadeiramente
espirituais são homens regenerados. Todas as outras pessoas que almejam ser
espirituais, manifestando poderes, revelações, experiências místicas ou de
qualquer natureza paranormal ou sobrenatural, na verdade estão vivenciando
experiências psíquicas, algo inerente à psique, algo proveniente da própria
natureza caída do homem e a influencia de espíritos enganadores.
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