O Pedro Bíblico e o Papado Antibíblico
A Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios foi escrita a partir de Éfeso, provavelmente entre os anos 54 e 55 d.C. A carta evidencia que a igreja de Corinto enfrentava divisões internas, imoralidade, sincretismo religioso e desordem nas práticas de culto. A questão dos conflitos internos é particularmente notável.
No capítulo 1, versículos 12 e 13, ouvimos as palavras de Paulo: "Quero dizer com isto que cada um de vós afirma: Eu sou de Paulo; ou, eu sou de Apolo; ou, eu sou de Cefas; ou, eu sou de Cristo." Porventura Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós? Ou fostes batizados em nome de Paulo?
Através das palavras de Paulo, percebemos que, na igreja de Corinto, em seus primórdios, existia uma tendência ao faccionismo, com grupos aderindo a determinadas lideranças, exaltando-as como figuras centrais da igreja. Paulo, com veemência, ressalta que o único centro da igreja é Cristo, e não os homens.
Notadamente,
Paulo menciona o nome de Cefas, ou seja, Pedro. Isso sugere que, na igreja
coríntia, alguns conferiam a Pedro uma posição de primazia, enquanto outros identificavam
uma liderança tipo “culto a personalidade” com Paulo, e outros, com Apolo.
Observamos, portanto, que na igreja primitiva já se manifestavam desvios que
valorizavam excessivamente a liderança humana, elevando-a a um pedestal, como
se a igreja lhes pertencesse ou o fundamento do evangelho estivesse depositado
em suas mãos. Paulo, desde o princípio, corrige essa deturpação espiritual.
Considerando a divisão interna que existia na igreja de Corinto, onde alguns crentes buscavam estabelecer lideranças como fundamentos eclesiásticos distintos de Cristo, podemos analisar a declaração de Paulo no capítulo 3, versículo 11, de 1ª Coríntios. Nesse trecho, Paulo afirma: "Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo."
Voltemos a ênfase do texto: O contexto dessa passagem revela que membros da igreja de Corinto defendiam diferentes líderes como os pilares da fé. Alguns exaltavam Paulo como o alicerce, argumentando que ele deveria ter a primazia e ser seguido como o principal representante da igreja na Terra. Outros, por sua vez, defendiam Apolo, enquanto outros ainda apoiavam Pedro.
Diante dessas divergências, Paulo corrige essa visão sectária, afirmando que nem Pedro, nem Paulo, nem Apolo são o fundamento da igreja, nem lideres de primazia universal no sistema eclesiástico, mas sim Jesus Cristo. Ele reitera que nenhum outro alicerce pode ser estabelecido além daquele que já foi posto: Jesus Cristo.
É fundamental compreender que a igreja de Corinto disseminava essa idéia de reconhecer Pedro ou qualquer outro apóstolo como líder supremo. Paulo, em sua resposta, nega categoricamente a ideia de uma primazia de Pedro. Se sua intenção fosse estabelecer um fato neotestamentário de ser Pedro o líder universal em evidencia da igreja, ele teria corrigido a igreja de Corinto dizendo: "Não é nem eu nem Apolo, mas somente Pedro." No entanto, Paulo não o fez. Ao contrário, ele refuta a possibilidade de qualquer outro fundamento que não seja Cristo, desmentindo qualquer sugestão de que Pedro detivesse a primazia na igreja naquela época.
Analisando o assunto, concluímos que o Novo Testamento não apresenta indícios da presença de Pedro em Roma nem como um líder revestido de pompas tendo primazia sobre outros lideres. A ausência de documentos antigos e o silencio do Novo Testamento seguido da correção de Paulo quando um grupo na igreja de Corinto queria dar primazia a Pedro, é uma denuncia contra essa falsa doutrina de que Pedro exercia primazia sobre todos, além disso, o Novo Testamento também não apóia o estabelecimento de Pedro em roma, não passagens biblicas que atestem sua estadia na cidade, e isso contrasta com as tradições posteriores e inferências pouco sólidas acerca disso. Em meio a um notável silêncio documental, onde seria esperado encontrar evidências no Novo Testamento e em escritos da época de João, o apóstolo, a questão permanece sem comprovação histórica definitiva.
Da mesma
forma, não há proeminência exagerada da primazia de Pedro, nem a ideia de que
ele deveria ocupar uma posição especial, com toda a igreja reunida ao seu redor
como figura central para o estabelecimento de todo o sistema cristão
subsequente. Não há evidências disso no Novo Testamento. A noção de que a
igreja deveria gravitar em torno de um líder terreno como representante universal
de Cristo é completamente infundada.
Analisemos o livro de Atos dos
Apóstolos. O relato de Atos acompanha a trajetória de Pedro até o capítulo 12.
Posteriormente, ele deixa de ser o foco da narrativa, sumindo de cena. Atos
dedica oito capítulos inteiros à história de Paulo em Roma, dos capítulos 21 ao
28. No capítulo 28, Paulo chega a Roma. Pedro não está presente, não é mencionado,
nem lembrado, nem saudado. Essa ausência constitui um forte argumento contra a
tese da presença de Pedro em Roma. A posição do livro de Atos dos Apóstolos,
enquanto registro histórico, é clara: não há evidências de que Pedro estivesse
em Roma na época da chegada de Paulo. Nem mesmo Paulo faz qualquer referência a
Pedro, como se este devesse estar em Roma, estabelecendo ali sua sede e
presidindo toda a igreja a partir daquela cidade. Há, nesse sentido, um
silêncio eloquente.
Analisemos a epístola de Paulo aos Romanos, escrita por volta do ano 57 d.C. Nela, o apóstolo se dirige aos cristãos residentes em Roma, onde já existia uma comunidade estabelecida. Paulo dedica esta carta à igreja romana. Um ponto interessante reside no capítulo 16, onde Paulo nomina mais de vinte pessoas, incluindo Priscila, Áquila, Andrônico, Júnia, Urbano, Apeles, Rufo, Flegonte, Trífena, Trifosa e Nereu. Notavelmente, Pedro não é mencionado. Se Pedro fosse o líder proeminente ou o bispo de Roma nà época, a ausência de seu nome seria um erro colossal, especialmente considerando as saudações finais do livro. Do ponto de vista teológico e diplomático, essa omissão seria absolutamente improvável. Seria inconcebível que Paulo negligenciasse a menção de Pedro, caso este detivesse a posição de liderança na comunidade romana.
O exercício da liderança, conforme mencionado por Paulo em suas epístolas, é digno de atenção. Em 2 Timóteo, capítulo 4, versículos 16 e 17, ele declara: "Na minha primeira defesa, ninguém me assistiu; antes, todos me abandonaram". A ausência de Pedro em sua defesa suscita questionamentos. Além disso, Paulo lista alguns colaboradores e Roma. Lucas, Marcos, Tí(c)co e Demas são citados, mas Pedro não.
Portanto, observa-se que o ofício de liderança religiosa de Pedro não é demonstrado. Paulo nunca o menciona. Paulo não o cita, não o reconhece nem faz referência a seu nome, embora tenha abordado frequentemente a liderança espiritual na Igreja Primitiva, em muitas de suas epístolas presentes no Novo Testamento.
Vamos examinar as palavras do Apóstolo Pedro. Em sua primeira epístola, capítulo 5, versículo 13, Pedro declara: "Aquela que está em Babilônia, eleita como vós, vos saúda." A interpretação de que "Babilônia" seria um código secreto para Roma apresenta dificuldades. Nenhum documento do século I ou do Novo Testamento confirma essa equivalência. Babilônia era uma localização geográfica real, situada na Mesopotâmia. A história registra uma significativa comunidade judaica ali. Pedro escrevia aos judeus dispersos, e Babilônia se encaixa perfeitamente no contexto geográfico, cultural e histórico do Novo Testamento. Concluímos, portanto, que o exercício da liderança de Pedro não se situava em Roma, nem se dirigia a Roma, e que ele não residia em Roma.
Ademais, podemos situar temporalmente os
eventos. O Pentecostes ocorreu no ano 30 d.C. A primeira epístola de Pedro, por
sua vez, foi escrita entre os anos 62 e 64 d.C., ou seja, mais de trinta anos
após o Pentecostes. Pedro não exercia liderança em Roma nessa epoca, não
ocupava posição de comando na cidade e não governava a Igreja a partir de Roma.
O Novo Testamento não oferece qualquer menção a respeito disso, nem sustenta a
interpretação de que Pedro tenha sido o líder de toda a Igreja Cristã. Essa
afirmação assemelha-se mais a um mito ou a uma narrativa fictícia.
Porém, investigaremos os primeiros séculos da era cristã, focando nos escritos dos primeiros pais da Igreja. Estes documentos antigos, considerados fontes confiáveis por sua proximidade com os apóstolos, não fazem qualquer menção a Pedro como Papa ou líder supremo da Igreja.
Tomemos, por exemplo, Clemente de Roma, que viveu por volta do ano 96. Em seus escritos, ele não relata Pedro como bispo de Roma. Embora mencione o martírio de Pedro e Paulo, não o apresenta como bispo em Roma, líder ou figura de maior proeminência na Igreja Cristã, cuja sede estivesse em Roma. Ele não afirma que Pedro governou a Igreja na capital italiana e do Império Romano
. Da mesma forma, Inácio de Antioquia, por volta de 110, escreveu uma carta à Igreja de Roma, mas não menciona Pedro, nem qualquer sucessão petrina.
Papias, no ano 120, também aborda Marcos e Pedro, mas não associa Pedro a Roma, nem o designa bispo de Roma ou Papa. Para Papias, não há evidência de que Pedro tenha sido o líder máximo da Igreja primitiva. Se Pedro tivesse exercido essa função, sua figura seria centralizada no Novo Testamento e nos escritos dos primeiros pais da Igreja, e não marginalizada.
A
proeminência de Pedro como figura central no cristianismo, superior aos demais
apóstolos e primeiro bispo de Roma, consolida-se a partir dos escritos de
Irineu de Lyon. Irineu atribui a Pedro e Paulo a fundação da igreja em Roma,
embora sua obra seja posterior em 150 anos aos eventos descritos. Dado que ele
não foi testemunha ocular dos acontecimentos, suas afirmações baseiam-se inteiramente
na tradição oral.
Similarmente, no século IV, Eusébio de
Cesareia compilou tradições, mas não apresentou documentos originais. Ele
reiterou fontes posteriores e baseou sua narrativa sobre a proeminência de
Pedro como bispo de Roma inteiramente na tradição, desconsiderando a
documentação histórica dos séculos I e II. Dessa forma, ignorou completamente o
contexto do Novo Testamento, que permanece silente sobre o assunto.
É notável
que Agostinho, renomado teólogo católico romano e figura proeminente no pensamento
cristão, em sua obra “Retractationes”, 1.21, apresenta uma interpretação
ambígua de Mateus 16:18. Ele sustenta que a interpretação de que Cristo é a
pedra, bem como a de que Pedro também o é, são ambas válidas. Essa ambiguidade,
segundo se infere, visa sustentar a excessiva atribuição de liderança e
autoridade ao apóstolo Pedro. Contudo, a inspiração do Espírito Santo nos
autores do Novo Testamento, documentos basilares para a doutrina cristã do
primeiro século, permanece omissa sobre essa questão.
Analisemos o texto de Mateus, capítulo
16, versículo 18, onde Jesus aborda o fundamento da Igreja. "Tu és Pedro,
e sobre esta pedra edificarei a minha igreja." A referência imediata é a
Cristo.
O livro de Mateus, direcionado a um público judeu, apresenta paralelos no Antigo Testamento. Em Daniel, capítulo 2, versículos 34, 35, 44 e 45, é mencionada uma pedra não lavrada por mãos humanas, que simboliza Cristo.
A interpretação bíblica concorda que a pedra fundamental é Cristo. O apóstolo Pedro, em 1ª Pedro, capítulo 2, versículos 4 a 8, confirma essa interpretação. Paulo, em Efésios, capítulo 2, versículo 20, também endossa essa visão. As profecias do Antigo Testamento, o testemunho do Novo Testamento e a inspiração do Espírito Santo convergem para identificar Cristo como a pedra angular, conforme também é declarado em 1ª Coríntios, capítulo 10, versículo 4.
Adicionalmente, em Mateus, capítulo 21, versículos
42 a 44, o próprio Cristo cita o Salmo 118, referindo-se a si mesmo como a
pedra rejeitada pelos construtores.
Diante disso, a interpretação bíblica,
em ambos os testamentos, aponta consistentemente para Cristo como a pedra
angular e fundamental onde a igreja é erguida e sustentada, em vez de um
apóstolo. Observa-se que essa compreensão encontra respaldo tanto no Novo
Testamento quanto nos primeiros séculos da era cristã.
Este é o testemunho do Antigo Testamento, o testemunho do Novo Testamento, o
testemunho dos apóstolos e o testemunho do Espírito Santo, que inspirou os
autores do Antigo e do Novo Testamento. Amém.
C. J. Jacinto

1 comentários:
Texto profundo. Infelizmente muitos crentes não buscam essas informações e deixam se enganar pelos ventos de doutrinas. Essa ciência materialista moderna é fruto desse ocultismo antigo.
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