C. J. Jacinto
A Primeira Epístola aos Coríntios, escrita por Paulo, é uma obra notável, especialmente em seu capítulo 15. Neste capítulo, encontramos uma das mais extensas exposições do Novo Testamento sobre a ressurreição, um tema de profunda importância teológica. Paulo aborda primeiramente a ressurreição de Cristo, seguida da promessa da ressurreição de todos os crentes. A clareza com que o apóstolo trata da ressurreição demonstra sua importância fundamental e essencial na pregação do Evangelho. De fato, a mensagem autêntica do Evangelho não pode ser completamente compreendida sem a inclusão e o reconhecimento desse tema crucial.
Irmãos,
torno a lembrar-vos o evangelho que vos preguei, o qual também recebestes, no
qual também perseverais e pelo qual também sois salvos, se retiverdes a palavra
que vos anunciei; caso contrário, em vão teríeis crido. Pois, por primeiro, vos
transmiti o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo
as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as
Escrituras; e apareceu a Cefas e, depois, aos doze. Depois, apareceu a mais de
quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria ainda vive, mas alguns já
dormiram.
É notável a beleza desta mensagem, que
Paulo pregou ao longo de sua vida. Após sua conversão no caminho para Damasco,
sua existência sofreu uma transformação completa. O encontro com Jesus foi
marcante, pois o Cristo ressuscitado e glorificado se revelou a Paulo,
alterando o curso de sua vida. Toda genuína conversão, todo verdadeiro encontro
com Jesus, inicia-se com um impacto em nossa vida. Posteriormente, ocorre uma
profunda transformação em nossa maneira de pensar e de viver.
A mensagem do Evangelho não se restringe
à crença na morte de Cristo por nossos pecados. Ela abrange também um
relacionamento, uma experiência pessoal e íntima. Cristo se revelou a Paulo no
caminho de Damasco, de forma autêntica e concreta, como uma pessoa real. O
cristianismo bíblico, portanto, consiste em algo mais do que apenas crer na
expiação dos pecados através da morte de Jesus Cristo; envolve também a crença
em sua ressurreição. A fé genuína é, assim, um relacionamento pessoal com esse
Cristo vivo e verdadeiro.
Consideremos atentamente as palavras de Paulo nos primeiros versículos do capítulo 15, pois ele aborda três aspectos cruciais que alicerçam uma genuína experiência de conversão. Inicialmente, ouvir o Evangelho; em seguida, receber o Evangelho; e, finalmente, perseverar no Evangelho. Essas três etapas são essenciais para a edificação de uma vida cristã autêntica. Não basta apenas ouvir o Evangelho; é imperativo acolher essa mensagem de esperança e, após recebê-la, permanecer firme em seus ensinamentos. Portanto, as três etapas mencionadas são indissociáveis na jornada da verdadeira conversão; caso contrário, a experiência se torna infrutífera. Caso não haja atenção a essa grandiosa salvação, a mera audição do Evangelho, sem a correspondente resposta ao chamado, de nada aproveitará ao pecador, que permanecerá em sua condição de perdição.
Recordo-me
de, há alguns anos, termos apresentado o Evangelho a uma família. Nossa intenção
era realizar cultos temporários e pregar o Evangelho. Essa família demonstrava
grande interesse em ouvir a mensagem evangélica. Contudo, nunca se decidiu por
aceitar Cristo como Senhor e Salvador. Os anos passaram, e o marido daquela
mulher adoeceu, debilitando-se gradualmente. Passou seus últimos dias em casa.
Certa vez, eu e outro irmão o visitamos, com o objetivo de, mais uma vez,
apresentar a mensagem do Evangelho, na esperança de que ele se arrependesse de
seus pecados e reconhecesse Cristo como seu único salvador. Ele, porém,
rejeitou completamente nossa visita. Assim, embora tenha ouvido o Evangelho
diversas vezes, não o recebeu, nem demonstrou qualquer sinal de permanência na
fé. Portanto, mesmo com a pregação, não houve um testemunho público de
conversão. A reflexão que fica é que não basta apenas ouvir o Evangelho; é
preciso recebê-lo.
Paulo não apenas aborda a questão de
ouvir e receber o Evangelho, mas também a de permanecer nele. Essa é a questão
central: ouvimos as boas novas, acolhemos o Evangelho, e então permanecemos
nessa realidade espiritual. Isso nos permite não apenas confiar no que Cristo
fez por nós na cruz, mas também nos relacionar com o fato de que Ele
ressuscitou e vive. Devemos, portanto, perseverar nas verdades desse Evangelho,
mantendo um relacionamento diário com o Senhor Jesus, vivendo em Sua presença e
obedecendo Sua Palavra. Essa atitude, embora não seja o meio de salvação, é
evidência de nossa salvação. Não afirmo que a salvação se dá pelas obras, ou
que depende da obediência ao Evangelho. Digo que, como Paulo ensinou, após
ouvir o Evangelho e conhecer a graça de Deus, nós o recebemos. Como resultado,
recebemos uma nova vida. Em João, capítulo 8, ao se dirigir à mulher adúltera,
Jesus a instruiu: "Vá e não peques mais". Em 2 Coríntios, capítulo 5,
versículo 17, Paulo declara: "Se alguém está em Cristo, nova criatura
é". Há, portanto, uma consequência da transformação espiritual, da
regeneração, do novo nascimento que ocorre quando cremos verdadeiramente no
Evangelho. Recebemos Cristo, a vida de Cristo, o perdão de Cristo e a remissão
dos nossos pecados por meio de Cristo, e assim permanecemos desfrutando dessa
realidade abençoada.
Ao examinarmos as palavras de Paulo no
versículo 2, percebemos a essência do que venho reiterando. A fim de
compreendermos meu apelo àqueles que ouvem o Evangelho, que nele permanecem e
que o retêm, observemos: no versículo 2, ele declara que alguém pode ouvir o
Evangelho e, ainda assim, ter uma fé inútil.
O que significa crer em vão? Significa
ouvir sem receber e, principalmente, sem reter o Evangelho. Em outras palavras,
essa fé é superficial, meramente um assentimento mental, uma aceitação intelectual
da mensagem. Essa é a fé vã, pois o Evangelho nos conduz a um patamar superior.
Jesus, em seus ensinamentos, afirmou: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me." Seguir a Jesus, portanto, implica em ações concretas de nossa parte. Isso somente é possível quando o Espírito Santo age em nossos corações por meio da mensagem que ouvimos, transformando-nos em novas criaturas em Cristo Jesus.
A essência
do Evangelho reside em Cristo, a vida que advém através da morte. Jesus
declarou que, conforme as Escrituras, quem nele crê, "rios de água viva
correrão do seu interior". Essa promessa se manifesta através da morte. A
mensagem central do Evangelho é que Cristo morreu por nossos pecados, a fim de
nos conceder a vida. Assim, o Evangelho apresenta tanto a morte, a morte de
Jesus Cristo, quanto a vida, a ressurreição de Cristo. Nossa identificação com
Cristo não se limita à sua morte; ela se estende à sua ressurreição. Este é o
Evangelho completo.
Na passagem, Paulo declara: "Porque
primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos
pecados, segundo as Escrituras". O Evangelho, portanto, traz consigo
expectativas claras. Primeiramente, que Jesus Cristo morreu por nossos pecados
e nos identificamos com Ele na cruz. Posteriormente, que Jesus Cristo
ressuscitou, um elemento fundamental do capítulo 15 de 1ª Coríntios. Nossa
identificação é, portanto, com Cristo ressurreto, do qual morremos para uma
vida de pecado e somos ressuscitados para uma vida de identificação com Cristo.
Essa é a essência de ser cristão.
A noção da ressurreição e nossa
identificação com a ressurreição de Cristo, conforme descrita no Novo
Testamento, encontra-se exemplificada em Colossenses 3:1, onde o apóstolo Paulo
afirma: "Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que
são de cima, onde Cristo está sentado à destra de Deus".
Portanto, ouvir, receber e perseverar no
Evangelho nos introduz nessas experiências, como se observa em Efésios,
capítulo 1, versículo 3, onde Paulo novamente se refere àqueles transformados
pelo Evangelho através da regeneração: "Bendito seja o Deus e Pai de nosso
Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas
regiões celestiais em Cristo, como também nos elegeu nele antes da fundação do
mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele em amor". Isso
implica uma transformação profunda na vida daquele que ouviu, recebeu e reteve
o Evangelho. Dessa forma, a pessoa entra na experiência de uma vida espiritual
abundante, pois foi agraciada com todas as bênçãos espirituais em Cristo Jesus
nas regiões celestiais. Ela também desfruta da vida da ressurreição, não apenas
como testemunha, mas também como participante dessa realidade. Essa é a
experiência de quem não crê em vão, mas permanece no Evangelho após ouvi-lo e
recebê-lo.
Em suma, coloco a seguinte questão fundamental: Não basta apenas ter ouvido o Evangelho. Embora muitos frequentem a igreja e ouçam o Evangelho regularmente, isso não é suficiente. É preciso receber o Evangelho, acolher Aquele que nele é revelado, Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador, que morreu pelos nossos pecados. É necessário crer e testemunhar que Ele verdadeiramente ressuscitou dos mortos.
Ter um relacionamento vivo com o Senhor. Receber Cristo, receber o Evangelho, significa entrar nessa realidade espiritual, ter comunhão com Ele, viver para Ele, viver Nele, identificar-se com Cristo, com a Sua morte e com a Sua ressurreição. Significa ser uma testemunha viva. Como Jesus disse em Atos, capítulo 1, versículo 8, antes de ascender aos céus e antes da vinda do Espírito Santo, nós receberíamos poder espiritual após a regeneração, a fim de sermos testemunhas de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, não somente em Jerusalém, mas em todo o mundo, em todos os tempos, através dos séculos, desde o século I até os nossos dias. Todos os verdadeiros cristãos são testemunhas do Senhor.

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