A Teoria da Lacuna em Gênesis 1:1–2


 


A Teoria da Lacuna em Gênesis 1:1–2

Entre a Criação Original e o Caos: Uma Possibilidade Teológica Legítima

Introdução: Uma Questão em Aberto

Há perguntas que a Bíblia não responde com a precisão que gostaríamos — e isso não é uma falha das Escrituras, mas um convite à humildade intelectual. A Teoria da Lacuna, também chamada de Teoria da Restituição ou da Recriação, é uma dessas questões que orbita entre a exegese sóbria e a especulação teológica legítima. Não se trata de um dogma, nem de uma fantasia sensacionalista. É, antes, uma hipótese com raízes antigas, respaldo de pensadores sérios e capacidade de iluminar enigmas bíblicos que, de outra forma, permanecem sem resposta satisfatória.

A proposta é simples em seu enunciado, mas profunda em suas implicações: entre Gênesis 1:1 — "No princípio, Deus criou os céus e a terra" — e Gênesis 1:2 — "A terra era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo" —, pode ter havido um intervalo histórico de duração indeterminada, marcado por uma catástrofe de proporções cósmicas. Uma era esquecida, apagada do registro explícito das Escrituras, mas cujos vestígios podem ser rastreados nas páginas da Bíblia e no comportamento misterioso do mundo espiritual caído.

Este artigo não pretende defender a teoria como verdade absoluta. Ao contrário, o objetivo é apresentá-la com a seriedade que merece, reconhecer sua utilidade interpretativa em certas questões complexas — especialmente aquelas ligadas à origem dos demônios e à dinâmica do mundo espiritual — e deixar claro por que ela não pode ser simplesmente descartada com um gesto de mão.

 

I. O Enigma dos Espíritos Imundos: Por que Duas Classes?

Para compreender o apelo da Teoria da Lacuna, é preciso primeiro contemplar um enigma que a Bíblia apresenta, mas não resolve explicitamente: por que existem duas categorias tão distintas de seres espirituais caídos?

De um lado, há espíritos imundos que parecem necessitar de um corpo físico para se manifestar. Os Evangelhos retratam demônios que suplicam não serem expulsos "para o abismo" (Lucas 8:31) e que, ao serem lançados fora de um homem, buscam imediatamente outro hospedeiro. O apóstolo Paulo, em 1 Timóteo 4:1–3, adverte sobre "espíritos enganadores" que falam por meio de pessoas, dependendo das cordas vocais humanas para transmitir suas mensagens. Esses seres demonstram uma necessidade visceral de encarnação, como se a existência desencarnada fosse para eles uma forma de tortura.

De outro lado, há espíritos que falam e agem sem qualquer dependência de um hospedeiro humano. A passagem de 1 Samuel 28:15 é particularmente intrigante nesse sentido. Ali, seja o espírito de Samuel genuinamente evocado — e aqui vale uma distinção linguística importante: "evocar" vem do latim evocare, chamar para fora, ao contrário de invocare, chamar para dentro do médium — seja um espírito enganador que assumiu sua forma, o fato notável é que esse ser se comunicou sem fazer uso das cordas vocais da médium de Endor. Era uma presença externa, não uma possessão. Esse dado não é trivial.

Além disso, a Bíblia apresenta uma distinção que raramente recebe atenção adequada: há espíritos caídos que se encontram atualmente aprisionados, e há aqueles que circulam livremente pelo mundo. Efésios 6:10–19 descreve uma hierarquia de potências espirituais malignas que atuam nos "lugares celestiais", enquanto 2 Pedro 2:4–5 menciona anjos que "pecaram" e foram "lançados no inferno", mantidos em "correntes de escuridão" até o julgamento. São dois destinos radicalmente diferentes para seres da mesma natureza original. Por que essa diferença? O que determina quais estão presos e quais continuam livres?

A Teoria da Lacuna oferece uma resposta coerente para esse enigma. Se houve, entre os dois primeiros versículos de Gênesis, um evento catastrófico associado à queda de seres espirituais — e se essa catástrofe envolveu diferentes graus de participação e rebeldia —, então é possível que as duas classes de espíritos caídos reflitam diferentes julgamentos aplicados naquele momento obscuro da história cósmica. Os espíritos aprisionados seriam aqueles que participaram de forma mais direta e grave da transgressão original; os espíritos imundos, que precisam de corpos e demonstram uma estranha nostalgia da encarnação, seriam seres que outrora habitaram formas físicas — talvez corpos pertencentes a uma ordem de criaturas que existia naquela era anterior.

 

II. "Sem Forma e Vazia": Um Estado de Ruína, Não de Criação

O coração exegético da Teoria da Lacuna está em duas palavras hebraicas: tohu e bohu. A expressão "sem forma e vazia" (tohu vabohu) em Gênesis 1:2 não é, para os defensores desta teoria, uma descrição do estado inicial da criação recém-saída das mãos de Deus, mas sim o resultado de uma devastação — um caos que sucedeu uma ordem.

Essa distinção é teologicamente importante. O Deus que, em Isaías 45:18, declara que não criou a terra "em vão" (tohu), mas a formou para ser habitada, dificilmente teria começado sua obra criativa produzindo exatamente aquilo que ele afirma não ter sido seu propósito. A palavra tohu, usada em Isaías para descrever o que Deus não fez, é a mesma palavra usada em Gênesis 1:2 para descrever o estado da terra. Isso levanta uma questão legítima: se Deus não cria em tohu, como a terra estava em tohu?

Há também o debate sobre a tradução do verbo hebraico hayah no versículo 2. A maioria das traduções opta por "era" ("a terra era sem forma e vazia"), mas o mesmo verbo pode, em determinados contextos, ser traduzido como "tornou-se" ("a terra tornou-se sem forma e vazia"). Os massoretas — os sábios judeus que, entre os séculos VI e X d.C., sistematizaram e vocalizaram o texto hebraico — aparentemente reconheciam essa ambiguidade e há evidências de que alguns deles aceitavam a possibilidade de uma leitura que implica transformação, não estado original. Isso não é uma invenção moderna; é uma questão que o próprio texto hebraico suscita para leitores atentos.

A ideia de que o caos de Gênesis 1:2 é o resultado de um juízo divino sobre uma era anterior encontra suporte na observação de que a linguagem de "trevas sobre a face do abismo" evoca, em outros contextos bíblicos, imagens de desolação e julgamento — não de criação original. Quando Deus cria, traz ordem, luz e vida. Quando julga, às vezes deixa o vazio e as trevas falarem por si mesmos.

 

III. O Vislumbre de G. Campbell Morgan

Um dos intérpretes mais influentes da primeira metade do século XX, o pastor e expositor britânico G. Campbell Morgan, expressou com clareza e elegância a intuição que sustenta a Teoria da Lacuna:

"A terra era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo." É impossível que essas palavras descrevam o estado do céu e da terra como foram criados por Deus. Entre a criação original e as condições aqui descritas, houve um cataclismo. Sobre isso, nenhuma revelação nos foi feita. Especulações sobre o assunto são interessantes, mas não podem ser definitivas ou dogmáticas. É possível que o cataclismo físico tenha sido seguido por uma catástrofe moral. É provável que, se conhecêssemos toda a história, conheceríamos a verdade sobre a origem do mal. Em livros posteriores da Biblioteca Divina, há vislumbres que podem fornecer pistas sobre coisas ocultas. O fato de Satanás ser chamado de 'o deus deste mundo', 'o príncipe deste mundo', pode se referir à relação que ele tinha com a Terra antes do surgimento do homem. Também é possível que os anjos 'não tenham conservado sua dignidade' e que, em sua queda, tenham causado a degradação da própria Terra, levando-a ao estado descrito como 'sem forma e vazia'."

— G. Campbell Morgan

A contribuição de Morgan vai além da eloquência. Ele articula dois movimentos que a teoria pressupõe: primeiro, um cataclismo físico de dimensões planetárias; segundo, uma catástrofe moral que teria sido sua causa — ou sua consequência inseparável. A conexão entre o título de "príncipe deste mundo" atribuído a Satanás (João 12:31; 14:30; 2 Coríntios 4:4) e uma possível soberania anterior sobre a Terra é sugestiva. Por que Satanás teria domínio sobre a criação material, se não houvesse alguma relação primordial com ela? A Teoria da Lacuna responde: porque esse foi seu domínio original, antes da queda que o destituiu e arruinou o mundo que lhe foi confiado.

Morgan é sábio, contudo, ao lembrar que especulações, por mais fascinantes que sejam, não podem se tornar dogmas. A teoria ilumina; não pode, porém, ser elevada à categoria de revelação definitiva.

 

IV. Uma Teoria com Raízes Profundas

Um erro comum é tratar a Teoria da Lacuna como uma invenção moderna, nascida do desejo de harmonizar a Bíblia com a geologia do século XIX. Arthur C. Custance, um dos pesquisadores mais rigorosos a se dedicar ao tema, demonstrou que a ideia tem raízes muito mais antigas do que se imagina.

Custance rastreou a presença dessa perspectiva em escritores judeus da antiguidade, em alguns dos pais da Igreja primitiva e até mesmo em documentos sumérios e babilônicos antigos que descrevem uma era anterior ao mundo presente, marcada por caos e destruição. A ideia ressurge na Idade Média, embora sem sistematização teológica consistente.

Foi no início do século XIX, na Escócia, que a teoria ganhou sua forma mais articulada e influente. O pastor, teólogo e intelectual Thomas Chalmers, figura de enorme prestígio no protestantismo britânico, foi o responsável por dar coerência e visibilidade à hipótese. Chalmers via na lacuna entre Gênesis 1:1 e 1:2 uma solução elegante para a tensão entre o registro bíblico e as descobertas geológicas emergentes, sem comprometer a integridade das Escrituras. Seu trabalho abriu caminho para uma tradição de intérpretes sérios que, nas décadas seguintes, desenvolveram e refinaram a teoria.

 

V. Vozes Respeitáveis em Favor da Teoria

Seria um equívoco histórico ignorar o peso intelectual das pessoas que consideraram a Teoria da Lacuna uma possibilidade séria. Trata-se de uma lista que não comporta nomes superficiais.

Arthur W. Pink, um dos exegetas mais rigorosos e menos dados a especulações fáceis, escreveu em sua obra Gleanings in Genesis (1922): "O intervalo desconhecido entre os dois primeiros versículos de Gênesis 1 é amplo o suficiente para abranger todas as eras pré-históricas que possam ter transcorrido; mas tudo o que aconteceu a partir de Gênesis 1:3 ocorreu há menos de seis mil anos." Para Pink, a lacuna não compromete o criacionismo; ao contrário, acomoda as eras geológicas sem sacrificar a historicidade de uma criação recente da ordem atual.

Harry Rimmer, em seu livro Ciência Moderna e o Registro do Gênesis (1941), também defendeu a teoria, buscando pontos de convergência entre a investigação científica e o texto bíblico. Arthur C. Custance escreveu um livro inteiramente dedicado à defesa da teoria, que permanece até hoje como uma das obras mais completas sobre o assunto.

Além desses, nomes como C. S. Lewis, M. R. DeHaan e Donald Grey Barnhouse manifestaram simpatia pela hipótese. Francis Schaeffer, reconhecido como um dos intelectuais cristãos mais cuidadosos do século XX, reconheceu partes da teoria como uma possibilidade legítima em seu livro Gênesis no Espaço e no Tempo (p. 62). O próprio G. H. Pember, cujas pesquisas sobre o mundo espiritual exerceram influência duradoura sobre geração de estudiosos, foi uma referência central para Arthur W. Pink no desenvolvimento de suas reflexões sobre o tema.

Esse rol de nomes não prova que a teoria está correta. Mas prova que ela não é o produto de mentes descuidadas ou de uma teologia ingênua. Ela foi considerada por pessoas que levavam as Escrituras a sério e que tinham motivos intelectuais genuínos para explorá-la.

 

VI. Uma Possibilidade Que Não Pode Ser Descartada

A posição mais honesta diante da Teoria da Lacuna não é a de um defensor ardoroso nem a de um crítico desdenhoso. É a de um pesquisador que reconhece os limites do conhecimento humano diante de questões que as Escrituras deixaram em silêncio deliberado.

A teoria pode estar errada. Talvez nunca existiu uma era anterior à semana da criação descrita em Gênesis 1. Talvez tohu vabohu descreva, afinal, o estado inicial de uma criação que ainda estava sendo formada. Talvez a origem dos demônios e a distinção entre espíritos aprisionados e livres tenha uma explicação inteiramente diferente. Essas possibilidades não podem ser excluídas.

Mas a Teoria da Lacuna também não pode ser descartada levianamente. Ela responde perguntas reais que o texto bíblico suscita. Ela conta com o suporte exegético de uma possível tradução alternativa de hayah. Ela tem raízes na tradição judaica e cristã que antecedem em séculos o debate moderno com a geologia. Ela foi levada a sério por teólogos e exegetas de primeira linha. E ela oferece, mesmo que de forma não definitiva, uma explicação coerente para o enigma das duas classes de seres espirituais caídos — os aprisionados e os que vagam livremente, os que dependem de corpos e os que existem independentemente deles.

Em teologia, há verdades absolutas e há questões abertas. As verdades absolutas demandam convicção e confissão. As questões abertas demandam humildade, curiosidade e disposição para explorar os vislumbres que as Escrituras oferecem sem transformá-los em dogmas que elas mesmas não confirmam. A Teoria da Lacuna pertence a essa segunda categoria — e, nela, ocupa um lugar legítimo e digno de estudo.

 

Referências Citadas

Pink, Arthur W. Gleanings in Genesis. Chicago: Moody Press, 1950. [1ª ed. 1922], p. 11.

Rimmer, Harry. Ciência Moderna e o Registro do Gênesis. 1941.

Schaeffer, Francis. Gênesis no Espaço e no Tempo. p. 62.

Morgan, G. Campbell. Commentaries on Genesis.

Custance, Arthur C. Without Form and Void. [Defesa exaustiva da Teoria da Lacuna].

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