A Interpretação Literal das Escrituras: Fundamento Hermenêutico Inegociável


 


A Interpretação Literal das Escrituras: Fundamento Hermenêutico Inegociável

I. A Suficiência e Clareza das Escrituras como Pressuposto Teológico

A questão hermenêutica não é periférica na teologia bíblica — ela é, antes, o eixo sobre o qual giram todas as demais construções doutrinárias. Pergunte-se ao intérprete qual é o seu método e você saberá, com considerável precisão, aonde ele chegará em suas conclusões teológicas. É por isso que a defesa intransigente do método literal-gramatical-histórico não é mero preciosismo acadêmico, mas uma necessidade doutrinária de primeira ordem.

Deus não é um Deus de confusão. Essa verdade, tão simples quanto profunda, projeta consequências diretas sobre a natureza da revelação escrita. Se o Criador do universo determinou comunicar Sua vontade à humanidade por meio de um documento escrito — as Sagradas Escrituras — seria absolutamente incongruente com Sua natureza que esse documento fosse deliberadamente obscuro, hermético ou reservado apenas a uma elite interpretativa. As Escrituras, em seus fundamentos essenciais, são um livro claro, acessível e suficiente. Não porque o homem seja capaz, por suas próprias faculdades naturais, de apreender plenamente as verdades espirituais nelas contidas, mas porque Deus, em Sua providência soberana, estabeleceu o Espírito Santo como o agente eficiente da iluminação e da compreensão.

Essa distinção é crucial e deve ser firmemente mantida: a clareza das Escrituras — a chamada perspicuitas da teologia reformada — não é uma afirmação de que qualquer homem natural, sem regeneração, compreenderá espiritualmente o texto sagrado. É antes a afirmação de que o texto em si não impõe barreiras artificiais à compreensão. A obscuridade não está no texto; está no intérprete não iluminado. O Espírito Santo, que inspirou as Escrituras, é o mesmo que capacita a Igreja a compreendê-las. Portanto, a interpretação das Escrituras não é privilégio de nenhuma instituição humana — seja ela qual for — tampouco é prerrogativa exclusiva de qualquer magistério eclesiástico. Ela é, por definição, universal: acessível a todo crente iluminado pelo Espírito, que se submeta com humildade e rigor ao texto.

II. A Linguagem como Criação Divina e suas Implicações Hermenêuticas

Charles Ryrie, com a clareza que caracteriza os grandes sistematizadores da tradição dispensacionalista, articula de maneira lapidar o fundamento teológico do literalismo:

"Se Deus é o criador da linguagem e se o principal propósito de criá-la foi transmitir Sua mensagem à humanidade, então, por consequência, Ele, sendo onisciente e onipresente, criou uma linguagem suficiente para transmitir tudo o que estava em Seu coração para dizer à humanidade. Além disso, também se segue que Ele usaria a linguagem e esperaria que as pessoas a entendessem em seu sentido literal, normal e simples."

O argumento de Ryrie parte de premissas teístas incontestáveis para chegar a uma conclusão hermenêutica inevitável. Se Deus criou a linguagem com o propósito específico de comunicação, então a linguagem é, por definição, suficiente para esse fim. Um Deus onisciente não criaria um instrumento inadequado para o propósito que Ele mesmo estabeleceu. Isso significa que as Escrituras não são uma ilustração de algum uso esotérico ou especial da linguagem, que demandaria do intérprete a busca por significados ocultos por trás das palavras. As palavras significam o que significam. O sentido normal, comum e historicamente determinado das palavras é o sentido que Deus pretendia transmitir.

Aqui reside uma das mais sérias objeções ao alegorismo e ao espiritualismo hermenêutico em todas as suas formas: ao postular um "significado mais profundo" por trás do sentido literal do texto, o intérprete alegórico não está, como supõe, elevando as Escrituras a um nível superior de compreensão. Está, na verdade, substituindo a Palavra de Deus pela palavra do intérprete. E Ryrie aponta com precisão cirúrgica o problema epistemológico fundamental dessa abordagem: sem o princípio literal como padrão objetivo, toda objetividade interpretativa se perde. Quem ou o quê controlará a imaginação do intérprete? Com que autoridade uma alegoria será preferida a outra? O resultado inevitável é a proliferação de interpretações tantas quantas forem as mentes que se debruçam sobre o texto — um caos hermenêutico que contradiz frontalmente a natureza de um Deus de ordem e de revelação clara.

III. O Desdobramento Canônico e a Universalidade da Mensagem

A história da revelação progressiva confirma e amplifica esse pressuposto hermenêutico. O Antigo Testamento, confiado aos judeus como depositários privilegiados da Palavra de Deus, cumpriu seu papel providencial de preparação e antecipação. Toda a economia mosaica, toda a tipologia do sistema sacrificial, todo o arcabouço profético convergia para um único e glorioso ponto de consumação: a vinda do Messias. Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus encarnado realizou, pelos méritos infinitos de Seu sacrifício expiatório na cruz, uma salvação eterna, consumada e irrevogável. O Antigo Testamento encerra sua revelação nesse clímax redentor.

Mas a revelação não cessa com os evangelhos. À medida que a nova aliança avança em seu desdobramento histórico e escatológico, a Igreja primitiva testemunha um fenômeno de magnitude teológica extraordinária: o alargamento do cânon por meio das epístolas. E é aqui que a universalidade da mensagem divina se manifesta com toda a sua força. As chamadas epístolas universais ou católicas — dirigidas não a uma congregação local específica, mas à Igreja em sua totalidade — são a expressão canônica mais explícita de que o Evangelho não conhece fronteiras étnicas, geográficas ou culturais. A mensagem das boas novas, que por séculos havia sido custodiada no seio do povo hebreu, transborda agora sobre todas as nações. Os gentios, antes "estranhos às alianças da promessa" (Ef 2.12), tornam-se coherdeiros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus.

Esse desdobramento canônico magnifico impõe ao intérprete uma responsabilidade ainda maior. Se Deus, em Sua sabedoria soberana, ampliou progressivamente o escopo de Sua revelação até abranger toda a humanidade, então qualquer método interpretativo que restrinja, obscureça ou distorça essa mensagem é não apenas um erro acadêmico, mas uma falha de consequências eternais.

IV. O Literalismo como Imperativo Lógico e Teológico

O princípio da interpretação literal — entendido não como um legalismo mecânico que ignora figuras de linguagem, gêneros literários ou contexto histórico, mas como o compromisso de extrair do texto o seu sentido normal, natural e contextualmente determinado — é, ao mesmo tempo, uma necessidade lógica e uma exigência teológica.

É uma necessidade lógica porque, como demonstrou Ryrie, abandoná-lo significa abrir as portas para uma subjetividade interpretativa ilimitada. É uma exigência teológica porque a fidelidade ao texto é, em última análise, fidelidade ao Deus que o inspirou. O intérprete que se permite substituir o sentido normal das palavras por construções alegóricas ou espiritualistas coloca-se, conscientemente ou não, acima do texto — e, portanto, acima do próprio Deus que falou por meio dele.

A Igreja, iluminada pelo Espírito Santo, chamada a custodiar e proclamar o depósito sagrado das Escrituras, deve resistir com toda a firmeza às correntes hermenêuticas que, sob o pretexto de aprofundar a compreensão do texto, na prática o dissolvem. O literalismo não é um empobrecimento da leitura bíblica. É, ao contrário, o único método que preserva a integridade, a objetividade e a autoridade absoluta da Palavra de Deus.


"Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça." — 2 Timóteo 3.16.

 

O artigo acima foi escrito a partir de anotações e esboços guardados nos meus arquivos, fruto de minhas pesquisas e reflexões, a organização do texto foi feita a partir de IA, os insights centrais do texto são meus, exceto as idéias de Charles Ryrie que compartilhei junto as minhas anotações sobre o tema.

 

C. J. Jacinto

 

0 comentários:

Postar um comentário