Satanás e a Invenção de uma divindade Utilitarista

0 comentários

Satanás e a Invenção de uma divindade utilitarista

 C. J. Jacinto



O livro de Jó é uma obra notável, que aborda a reflexão perene sobre a condição humana, a natureza do homem decaído e a atuação de Satanás. Nele, podemos encontrar valiosas perspectivas e discernimentos sobre o mundo e sobre a situação atual da cristandade.

No primeiro capítulo, versículo primeiro, é apresentada a figura de Jó. Habitava na terra de Uz um homem chamado Jó, íntegro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal. Essa descrição inicial ressalta a integridade de Jó. Ele era um homem de fé, que acreditava na justiça e na pessoa de Deus. Sua vida e caráter refletiam essa crença, manifestando-se em uma conduta íntegra e piedosa, que permeava sua experiência cotidiana.

No capítulo um, versículo 6, está escrito: "Em um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles."  A seguir, no versículo 7: "Então o Senhor disse a Satanás: De onde vens? E Satanás respondeu ao Senhor e disse: De rodear a terra e passear por ela. E disse o Senhor a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal. Então respondeu Satanás ao Senhor e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde? Porventura tu não cercaste de proteção a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? Abençoaste a obra de suas mãos, e o seu gado se tem multiplicado na terra; mas estende a tua mão e toca em tudo quanto ele tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face. E disse o Senhor a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está nas tuas mãos, somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do Senhor."

 No capítulo 1, versículo 6, está registrado o seguinte: Em um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, Satanás também veio entre eles. A partir do versículo 7, a narrativa prossegue: Então o Senhor disse a Satanás: De onde vens? Satanás respondeu ao Senhor: De rodear a terra e passear por ela. O Senhor então disse a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Pois ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal. Satanás respondeu ao Senhor: Porventura Jó teme a Deus em vão? Acaso não o cercaste com uma cerca protetora, a ele, sua casa e tudo o que possui? Abençoaste a obra de suas mãos, e seus rebanhos se multiplicaram na terra. Mas estende a tua mão e toca em tudo o que ele tem, e verás se ele não te blasfema na tua face. O Senhor disse a Satanás: Eis que tudo o que ele tem está em teu poder, mas não toques nele. E Satanás saiu da presença do Senhor.

 É evidente que, em situações de conflito, Satanás consistentemente se opõe à verdade. Ao analisarmos o terceiro capítulo de Gênesis, observamos a elaboração de uma teologia distorcida e enganosa, com o objetivo de iludir Adão e Eva. De maneira semelhante, esse comportamento do diabo se manifesta na tentação de Jesus, conforme registrado em Lucas 4 e Mateus 4. Nesses relatos, Satanás emprega versículos bíblicos, manipulando e deturpando o texto sagrado para justificar uma interpretação particular, visando induzir Jesus ao pecado. Essa estratégia evidencia a constante tentativa de Satanás em desenvolver uma falsa teologia, buscando, em última instância, induzir a humanidade ao erro. A história de Jó ilustra essa mesma tática.

 Na introdução ao livro de Jó, o Senhor, Deus Onipotente, apresenta Jó como um homem justo. Ao ouvir esse testemunho divino, Satanás objeta, argumentando que a devoção de Jó é motivada pelas bênçãos recebidas. Ele afirma que Jó serve, adora e segue a Deus apenas por causa da prosperidade concedida. Satanás sugere que, se Deus retirar essas dádivas e permitir o sofrimento, Jó O abandonará, rejeitará e blasfemará contra Ele, pois sua fé seria condicionada à utilidade das bênçãos divinas.

 A premissa subjacente a essa perspectiva, que se qualifica como "satânica", é a tentativa de persuadir Deus de que a devoção de Jó não era sincera, mas sim que a relação era invertida, com Deus a serviço de Jó. Essa noção representa a gênese de uma teologia distorcida, frequentemente propagada em nossos púlpitos, onde líderes e pregadores contemporâneos podem apresentar um Deus utilitarista, que existe para servir, em vez de um Deus a ser servido. Embora superficialmente possa parecer uma ideia inócua, suas raízes são profundamente perniciosas.

 No século XXI, observa-se um fenômeno em que multidões são atraídas a práticas religiosas, frequentemente sob o pretexto de promessas de prosperidade material e satisfação de desejos terrenos. Essa abordagem, muitas vezes associada a certas vertentes religiosas, oferece benefícios pessoais e atrativos que apelam aos instintos humanos, como conforto, sucesso, felicidade e bens materiais.

 Essa modalidade religiosa, frequentemente apresentada sob a roupagem de ensinamentos religiosos, concentra-se na oferta de "mercadorias" em troca de fé, desviando o foco da busca por redenção e transformação espiritual. Em vez de uma busca genuína por arrependimento e reconciliação com Deus, impulsionada pela consciência da condição humana, a motivação principal parece residir na expectativa de recompensas terrenas.

 

 Essa tendência, que atrai grande número de pessoas, contrasta com os princípios fundamentais da igreja cristã primitiva. O foco na prosperidade e nos benefícios pessoais, em detrimento da busca por uma vida de acordo com os ensinamentos bíblicos, pode distorcer a verdadeira natureza da fé e da espiritualidade.

 Com sua característica de acusador, Satanás apresenta a Deus uma justificativa, semelhante à que já foi exposta. Seu argumento é que Jó servia a Deus unicamente por causa dos benefícios que recebia. Havia inúmeras vantagens em servir a Deus, como prosperidade material, bem-estar emocional e uma vida de felicidade. Satanás propõe que, caso esses benefícios fossem retirados, Jó abandonaria sua fé. Essa é a essência da acusação de Satanás, dirigida a Deus e também contra Jó.

 Podemos aprofundar a análise da questão que envolve a relação de Satanás com Deus. É possível inferir que, na perspectiva de Satanás, o que realmente importava não era Deus, o provedor, mas aquilo que se recebia de Deus. Em outras palavras, os benefícios eram considerados mais importantes do que o próprio benfeitor. Assim, Satanás acusou Jó de valorizar mais os benefícios recebidos, as bênçãos concedidas, do que a Deus, a fonte dessas bênçãos e benefícios.

 Desejo, de fato, investigar as razões pelas quais tantas pessoas professam, atualmente, seguir a um "Senhor". A qual divindade se referem? Ao Deus bíblico, considerado o Senhor Supremo? Ou estariam, porventura, sendo iludidas por uma falsa representação divina, frequentemente veiculada em algumas igrejas contemporâneas e por líderes com práticas pragmáticas? Estes últimos, motivados por ambições pessoais, almejam construir um movimento religioso que lhes permita projetar sua imagem e receber adoração, além de usufruir de recursos financeiros consideráveis, obtidos por meio da comercialização da fé em determinados contextos religiosos.

 O sistema religioso em questão, embora sofisticado em sua apresentação, tornou-se amplamente popular na atualidade. A facilidade com que se espalhou é notável, o que levou, décadas atrás, críticos da religião a observar a fragmentação acelerada do movimento neopentecostal e pentecostal. Esses críticos, ao analisar as pequenas igrejas fundadas por indivíduos sem formação teológica ou critérios rigorosos, rotularam-nas como "pequenas igrejas, grandes negócios".

 Essa tendência já havia sido prefigurada por Pedro, em sua segunda carta, no capítulo 2, a partir do versículo 1: "E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de negarem o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas práticas libertinas, e, por causa deles, o caminho da verdade será difamado; também, movidos pela ganância, farão comércio com vocês, usando palavras fingidas. A condenação deles desde há muito tempo não tarda, e a sua destruição não dormita".

 A passagem ilustra uma religião comercializada, uma doutrina adaptada para atrair fiéis. Milhares de pessoas buscam um deus que as sirva, em vez de servir a Deus, refletindo a tendência humana de priorizar os interesses pessoais. Essa era a questão central: o diabo questionou Deus, sugerindo que a devoção de Jó era motivada pelos benefícios recebidos.

 Conheço pessoalmente muitos indivíduos que se decepcionaram com esse tipo de prática religiosa. Buscaram igrejas motivados pela promessa de cura mediante votos, milagres e bênçãos materiais. No entanto, a desilusão veio à tona quando as promessas não se concretizaram. A frustração resultante levou essas pessoas a se afastarem da fé, acusando o Deus da Bíblia de ser um mentiroso. Percebe-se, assim, que o próprio diabo utiliza falsos profetas para confundir as pessoas, pregando um deus ilusório, o qual, após a decepção, leva os indivíduos a acreditarem que foram enganados pelo Deus supremo.

 Ao enganar essas pessoas, levando-as a uma desilusão religiosa sem que possam discernir o engano de uma divindade falsa, fabricada em suas crenças com o único propósito de exploração, esses indivíduos acabam por imputar a Deus, conforme revelado nas Escrituras, a prática da decepção, do erro e da mentira. Em outras palavras, como Pedro adverte em 2 Pedro, capítulo 2, versículos 1 a 3, falsos mestres, movidos pela avareza, explorarão seus seguidores, e o caminho da verdade será difamado. Ao atribuir a mentira ao Deus verdadeiro, essas pessoas incorrem em blasfêmia. Conforme João, capítulo 8, versículo 44, declara que o diabo é o pai da mentira, e agora essas pessoas são levadas a associar a mentira ao Deus da verdade.

 Ao idealizar uma religião voltada para o lucro e uma divindade que interage com os homens em termos comerciais, surge um novo tipo de religião, na qual cada pregação e mensagem se adapta aos anseios do público. De fato, a figura de um deus justo e rigoroso, que pune o pecado e exige honra, adoração e serviço incondicional, contrasta com a teologia utilitarista que prevalece atualmente, notadamente em muitas denominações evangélicas. Lamentavelmente, essa tendência se estabeleceu e tende a se agravar, como parte de uma apostasia predita, conforme registrado pelos apóstolos.

 A filosofia religiosa utilitarista que prevalece atualmente, adotada como uma filosofia prática para impulsionar o pragmatismo, tem se esforçado para deturpar a verdadeira mensagem do Evangelho e a imagem de Deus apresentada nas Escrituras. É imperativo que os fiéis examinem se seus pastores, líderes e suas igrejas estão, de fato, pregando o Deus revelado nas Sagradas Escrituras. Aquele Deus que é simultaneamente misericordioso e justo, soberano e transcendente à vontade humana. Ao ensinar sobre a oração do Pai Nosso, Jesus enfatizou: "Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu." Isso implica que a vontade divina deve prevalecer sobre a nossa.

 Contudo, a realidade contemporânea demonstra a proeminência de uma representação de Deus disposta a "negociar" através de uma religião comercial, na qual votos e promessas condicionam a doação financeira ou a adesão a líderes religiosos em troca de bênçãos, saúde, curas, proteção e prosperidade. Essa doutrina, embora pareça nova, é, na verdade, uma reedição de uma estratégia antiga. O livro de Jó, considerado por muitos estudiosos como o primeiro livro da Bíblia, ilustra essa realidade. A filosofia do diabo, ao acusar Jó de servir a Deus por interesse, distorceu o caráter divino e a retidão de Jó. Essa teologia satânica nunca desapareceu; apenas foi adaptada, revestida de roupagem cristã e disseminada pelo mundo. Essa "religião utilitarista" é uma abominação, e dela devemos nos afastar. À medida que o tempo passa, lamentavelmente, um número crescente de igrejas se desvia da pregação do Deus verdadeiro, cedendo a essa crença e teologia maligna.

 No capítulo 4, versículo 8 da Epístola aos Gálatas, Paulo recorda que, antes de conhecerem a Deus, os cristãos da Galácia serviam a deuses que, em sua essência, não eram divinos, ou seja, não representavam o Deus verdadeiro. Da mesma forma, a adoração a um deus utilitarista, que não possui soberania, onipotência, onipresença e onisciência, e que não ocupa o lugar da Suprema Majestade, mas sim se submete às ordens do homem, de seus sacerdotes e líderes religiosos – que se arrogam a autoridade de "ordenar", "profetizar" e "determinar" como se fossem superiores à própria divindade –, constitui uma grave blasfêmia. O homem jamais pode controlar o Deus verdadeiro, pois Ele transcende a vontade e as ordens humanas.

 Um deus que pode ser manipulado, comprado ou cuja bênção pode ser negociada não é o Deus verdadeiro. Trata-se de um erro teológico, uma divindade falsa que, infelizmente, muitos apresentam e aceitam. Uma grande quantidade de pessoas se sente atraída por essa figura, pois ela não impõe desafios, mas apenas oferece benefícios que podem ser adquiridos ou creditados aos seus seguidores.

 Esse deus utilitarista não é o Deus revelado nas Escrituras, nem é o Deus pregado pelos verdadeiros cristãos. Que estas palavras sirvam de alerta a todos nós.

 

Textos bíblicos que revelam a majestade, soberania e autoridade do Verdadeiro Deus das Escrituras:

 

Efesios 1:11, Romanos 8:28, Mateus 10:29 a 31 Colossenses 1:16 a 17, Isaias 45: 7 a 9, provérbios 16:33, Jó 42:2, Lamentações 3:37 a 39, Atos 4:27 a 28, Efésios 1:4 etc.

 

Sugestão de leitura:

 

Deus é Soberano – A. W. Pink

 

 

Pensamentos Extraídos de Meus Escritos e Sermões

0 comentários


 

C. J. Jacinto

 

Muitos Cristãos hoje em dia buscam o erro doutrinário que confortem suas ilusões e não as verdades bíblicas que confrontem seus equívocos.

Aquelas pessoas que recusam crer em Deus por não vê-lo são da mesma índole daquelas que crucificaram o Seu Filho quando veio a este mundo.

O Fim dos tempos é caracterizado por dois sinais distintos: Prosperidade e iniqüidade

A consagração é um ato de plena liberdade em Cristo mas o legalismo é uma escravidão religiosa

A santa ocupação de meditar na palavra eterna de Deus nos comunica a graça para vivermos em piedade em tempos de dificuldades.

 

A VERDADE ACERCA DA VIDA APÓS A MORTE E A MEDIAÇÃO EXCLUSIVA DE CRISTO.

0 comentários


 


C. J. Jacinto

 

Em Lucas, no capítulo 16, versículos 19 a 31, encontramos a narrativa de Jesus sobre o Rico e Lázaro. Algumas traduções da Bíblia apresentam um subtítulo que a identifica como a parábola do Rico e Lázaro. É importante ressaltar que, nos textos originais, não há menção explícita de que se trata de uma parábola. Mesmo que Jesus tenha empregado a parábola como recurso didático, a comparação entre parábolas, dentro de um contexto bíblico, deve ser feita com cautela. Essa consideração é fundamental para evitar interpretações heréticas da Palavra de Deus. Explicarei os riscos envolvidos em análises inadequadas.

 Ao empregar parábolas, Jesus não recorria à ficção. Suas narrativas não se assemelham às obras de Monteiro Lobato ou às fábulas de Esopo. Ao utilizar parábolas para comunicar verdades espirituais e doutrinárias, Jesus se valia de situações e elementos reais, com o intuito de conduzir seus ouvintes a uma compreensão mais profunda.

Consideremos, por exemplo, a parábola do semeador, em Mateus, capítulo 13. O semeador, a semente, o solo pedregoso e o sol representam elementos concretos do contexto cultural da época de Jesus e do Novo Testamento. Jesus tomava fatos da realidade e os aplicava a ensinamentos com o objetivo de instruir seus ouvintes.
 Essa abordagem é essencial para a compreensão das parábolas, especialmente no que concerne a Lucas, capítulo 16, versículos 19 a 31. Independentemente de se tratar ou não de uma parábola, a narrativa apresenta elementos factuais.

 Aqueles que buscam desvirtuar o texto, interpretando-o como uma fábula para justificar suas próprias crenças, como os defensores do sono da alma ou os que negam a imortalidade e a vida após a morte, tentam manipular o texto sagrado, principalmente esse trecho específico. Eles buscam convencer outros de que Jesus utilizava fábulas sem nenhuma base na realidade. Essa interpretação é equivocada. Ao defender tal visão, a pessoa demonstra ter sido induzida ao erro. A narrativa apresenta fatos concretos.
 Examinemos a vida do homem rico. Ele permanece anônimo, pois o Senhor Jesus não menciona seu nome. Contudo, podemos inferir que seu comportamento refletia a incredulidade e a impiedade. Ele não nutria fé na vida após a morte, depositando sua confiança no deus Mamon. Confiante em seus recursos e considerando suas riquezas como sua divindade, vivia de forma opulenta e se sentia seguro. Descrente da existência de uma vida pós-morte, possivelmente nem sequer a cogitava. Era, em suma, um materialista, um reducionista. Acreditava que a vida se iniciava e terminava aqui, restando apenas aproveitar o presente, findando-se com a morte e a extinção. No entanto, ao findar sua existência terrena e abrir os olhos para uma nova realidade, encontrou-se perdido, em tormentos. Esse choque de realidade resultou em profundo desespero.
 Examinemos agora a vida de Lázaro com maior atenção. Ele era um mendigo, um indivíduo em necessidade. Sua vida era marcada pela pobreza, mas, apesar disso, residia nele uma riqueza singular: a riqueza da fé. É imperativo interpretar a narrativa da vida de Lázaro à luz dos ensinamentos de Jesus, que relatou esta história. Jesus ensinou de maneira clara que a salvação é alcançável através da fé nele. Portanto, o destino de Lázaro foi, naturalmente, consequência de sua fé e confiança, especificamente, sua confiança em Jesus Cristo. Essa fé o conduziu ao paraíso, onde encontrou segurança. Embora não seja o propósito desta análise, é importante reconhecer a natureza transitória desse local. O foco principal reside na salvação de Lázaro, que evidencia o contraste entre sua vida e a vida do rico. Esta narrativa, portanto, demonstra a existência da vida após a morte, com a possibilidade de condenação eterna e salvação eterna. Consequentemente, a fé em Jesus Cristo é o fator determinante do destino de nossa alma.

 Analisemos novamente a situação do rico. Ele, ciente de sua condição, percebeu tardiamente a verdade. A vida não se encerra com a morte. Ele permanece consciente, aprisionado em um lugar de sofrimento e grande tormento. Observamos em seu desespero a percepção de sua condição atual, a qual o leva a recordar a vida terrena, com sua família, que agora se encontra distante. Subitamente, a morte o alcançou, lançando-o em uma situação difícil, irreversível. Essa é a condição desse homem. Concluímos, assim, que muitos, ao partirem desta vida, enfrentarão circunstâncias semelhantes, marcadas por um profundo desespero.


Em meio à intensa angústia e desespero, agravada pela consciência de seu sofrimento e pela lembrança de seus irmãos ainda vivos na terra, destinados à mesma condição, o rico vislumbra ao longe Abraão, o pai na fé dos cristãos. A figura de Abraão, amplamente mencionada por Paulo na Epístola aos Gálatas como modelo de fé, a quem o Evangelho foi pregado e a quem a fé foi creditada como justiça, surge como uma possível esperança.
 Considerando a santidade e a proeminência de Abraão no Antigo Testamento, ele se apresenta como o potencial representante, intercessor e mediador entre os vivos e os mortos. É a Abraão que o rico se volta em busca de auxílio, na esperança de encontrar uma solução, mesmo que não para si, mas ao menos para seus irmãos. Nesse estado de sofrimento, o rico deposita sua confiança em Abraão, o grande patriarca, buscando em sua intercessão uma saída para a situação de seus entes queridos.


Observamos, portanto, que o homem rico, em desespero e consciente de sua condição no pós-vida, faz um apelo. Persistindo em seus equívocos, tal qual quando em vida, ele permanece com uma compreensão errônea das questões espirituais. Ciente dessa situação, ele dirige seu apelo a Abraão, confiando em sua posição. Ele reconhece a importância de Abraão no contexto judaico, ciente de sua relevância no Antigo Testamento. Em sua súplica, ele acredita que Abraão poderia intervir e mediar em favor de seus irmãos na Terra, buscando amenizar sua situação.

 Diante de nós, vemos um homem em erro. Ele dirige suas súplicas e rogos à pessoa equivocada. De modo semelhante, hoje, muitas pessoas, no curso de suas vidas, em relação às questões da vida após a morte, dirigem suas preces a indivíduos inadequados. Não nos diz a palavra de Deus, em 1ª Timóteo, capítulo 2 e capítulo 5, que há um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem? Como podemos confiar nossa alma, nosso destino eterno, a outros seres humanos, como fez aquele homem? Intercedendo e clamando à pessoa errada, entregando os cuidados das almas de seus irmãos a indivíduos inadequados. Abraão nada pôde fazer por eles, assim como hoje também não o pode. Nem Maria, nem Pedro, nem João, nenhuma pessoa que tenha falecido pode fazer algo por nós. A parábola do rico e Lázaro desmascara essa heresia, essa confiança em pessoas equivocadas, um erro tão grande quanto o do homem rico no Hades. Ele, do abismo do inferno, clama a Abraão, pedindo que socorra seus irmãos, que corriam o risco de ter o mesmo destino que ele. Essa é a questão que deve ser considerada, pois essa parábola ensina isso, e pessoas que se dizem cristãs jamais podem ignorar esse ensinamento tão precioso e sério de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

 É evidente que a narrativa bíblica apresenta um caso de equívoco: o homem rico, em sua condição desfavorável, buscou auxílio na pessoa errada. Similarmente, muitos indivíduos contemporâneos, em busca de soluções espirituais, direcionam-se a fontes inadequadas, sem respaldo nas Escrituras.

 Não há, nos ensinamentos dos apóstolos, qualquer indicação de que devamos recorrer a figuras como Maria, Pedro, João ou Tiago, mesmo que tenham sido santos e homens piedosos, já alcançando a salvação. A Bíblia não instrui a apelar a eles em busca de ajuda para questões espirituais, especialmente no que concerne à vida eterna e ao destino final.

A parábola do rico e Lázaro demonstra claramente essa falha. O erro do rico, evidenciado em sua atitude, serve como alerta para que ninguém, hoje, tente buscar auxílio em figuras do Antigo ou Novo Testamento para resolver seus problemas espirituais ou deposite neles a esperança para a vida eterna. A salvação é exclusivamente por meio de Cristo, por sua mediação e pelo sacrifício que ele fez por nós.

 O Novo Testamento e a voz do Espírito Santo afirmam essa verdade. Caso essa mensagem não seja recebida e compreendida, o destino poderá ser semelhante ao do homem rico, que, mesmo após a morte, em vez de confiar em um Salvador, confiou em um ser humano. Atualmente, muitos depositam sua fé em fontes equivocadas, correndo o risco de uma grande decepção na vida após a morte.

 

A CRISE ESPIRITUAL DO FIM DOS TEMPOS E COMO ENFRENTÁ-LA

0 comentários

 

A CRISE ESPIRITUAL DO FIM DOS TEMPOS E COMO ENFRENTÁ-LA

 


C. J. Jacinto

 

 

"A glória de Cristo é o maior tesouro da alma, e contemplá-la é o maior privilégio do crente." (John Owen)

Na breve epístola, concisa em extensão, mas rica em conteúdo e doutrina, Judas, o apóstolo e irmão do Senhor, no versículo 3 do primeiro capítulo, sentiu a necessidade de exortar os cristãos a lutar pela fé que foi entregue aos santos. Passados dois milênios, essa exortação permanece tão relevante e essencial quanto no momento em que Judas a escreveu e enviou, para que circulasse entre as igrejas locais da época. É imperativo que, mais do que nunca, estejamos vigilantes. Devemos manter-nos firmes e agir com coragem, pois enfrentamos tempos desafiadores.
O cristianismo contemporâneo clama, com grande necessidade, por homens piedosos, homens de fé inabalável na palavra do Senhor, dotados de santa ousadia para se posicionarem firmemente contra as tendências anticristãs que ameaçam a integridade da fé. Estes homens devem defender, com firmeza e coragem, as doutrinas cristãs e os valores judaico-cristãos.

 “Se a Escritura não governa seu coração e sua mente, você está à mercê de qualquer vento de doutrina."(John Owen)


Devem demonstrar grande disposição, intenso fervor espiritual e, acima de tudo, profunda convicção ao assumir o papel de profetas e arautos da verdade em uma sociedade cada vez mais influenciada pelo relativismo moral.
Com pesar, constata-se que a discussão sobre certos temas não goza de grande aceitação no âmbito eclesiástico. Observa-se, na sociedade pós-moderna, uma tendência a relativizar as verdades absolutas, fenômeno que, lamentavelmente, se manifesta também no contexto religioso, com consequências preocupantes.


Desde os tempos bíblicos, como evidencia o Antigo Testamento e o ministério do Profeta Jeremias, a humanidade demonstrou, em geral, relutância em aceitar mensagens que demandam reflexão e mudança. Preferem, muitas vezes, mensagens agradáveis e tranquilizadoras de falsos profetas em detrimento de mensagens desafiadoras e autênticas de verdadeiros profetas. Essa tendência persiste na atualidade, onde indivíduos que se identificam como cristãos frequentemente se mostram mais receptivos a ensinamentos que ecoam suas próprias convicções e menos dispostos a considerar perspectivas que questionam ou confrontam seus valores e práticas religiosas.


"O maior perigo para a igreja não é o ateísmo, mas a mediocridade espiritual.” (A. W. Tozer)


 Podemos também analisar o ministério do profeta Elias, que, quase sozinho, assumiu uma postura firme contra as práticas religiosas desviadas de sua época. Sua atuação representou um protesto enérgico contra as tendências abomináveis, relativistas, ecumênicas e pragmáticas, defendidas principalmente por Jezabel, com a conivência de Acabe, rei de Israel. Nesse cenário, a voz de Elias ressoava como a de um homem solitário, proclamando pelas estradas de Israel contra a religião superficial e sincrética que a sociedade abraçava com satisfação, adotando crenças e doutrinas falsas, disseminadas com palavras persuasivas pelos profetas de Baal e pelos profetas de Aserá.


 Podemos retroceder às eras primordiais da história da civilização, à época antediluviana, quando Noé, arauto da justiça, anunciava o juízo, e antes dele, Enoque, o sétimo após Adão, também um pregador e profeta, proclamava o iminente juízo sobre uma sociedade profundamente corrompida. Todo homem de fé e aquele que trilha um caminho de retidão reconhece que a iniquidade é a marca que condena uma civilização. Portanto, devemos atentar às palavras de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que previu a vinda do Filho do Homem com os mesmos sinais dos dias de Noé, ou seja, uma época em que os casamentos e as relações sociais eram marcados por uma grande apostasia moral e decadência espiritual, destinando a sociedade à ruína. Nesses dias, sempre haverá aqueles que, como faróis, iluminarão a escuridão. Poucos se dispõem a fazê-lo, pois em tempos de grande indiferença, aquele que possui discernimento espiritual e denuncia as tendências nocivas e demoníacas de uma sociedade é considerado inimigo do mundo, sendo frequentemente uma voz solitária em meio à impiedade e à iniquidade.

 É possível retroceder aos primórdios da civilização, em tempos remotos, como o período anterior ao dilúvio. Nessa época, Noé, arauto da justiça, anunciava o juízo divino, precedido por Enoque, o sétimo após Adão, também profeta, que proclamava o iminente juízo sobre uma sociedade corrompida. Todo homem de fé, aquele que busca a retidão, reconhece a iniquidade como a marca distintiva da condenação de uma civilização.
 Devemos, portanto, considerar atentamente as palavras de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, nas quais Ele compara a vinda do Filho do Homem aos dias de Noé. Naquele tempo, as pessoas se casavam e viviam suas vidas, em uma sociedade marcada pela apostasia moral e decadência espiritual, caminhando para a ruína.

Em meio a esses tempos, sempre existirão aqueles que, como faróis, iluminarão a escuridão. Poucos estão dispostos a essa tarefa, pois, em épocas de grande indiferença e excessiva sensibilidade, aquele que possui discernimento espiritual e denuncia as tendências nocivas e demoníacas de uma sociedade é frequentemente considerado inimigo. Ele pode ser visto como alguém isolado, uma voz solitária em um mundo sufocado pela impiedade.
 É possível afirmar que o homem de fé, o homem piedoso, compartilha uma característica fundamental: a profundidade em sua relação com Deus. Para o homem de fé, aquele que possui a fé que foi transmitida aos santos, não há superficialidade. Sua crença não é rasa, sua comunhão não é superficial, e seu cristianismo não é trivial. Ele é um homem que deixa sua marca, que imprime um padrão. Esse padrão se manifesta nos homens santos que mencionamos, como Jeremias, Enoque, Noé e, sobretudo, o Senhor Jesus Cristo, que estabelece o modelo de uma verdadeira vida espiritual. Esses homens marcam cada época.

 Vivendo em um tempo de grandes crises espirituais, torna-se imperativo que esses homens sejam ousados, corajosos e proclamem incessantemente contra a decadência moral e espiritual que caracteriza nosso tempo. Pois Deus sempre reservará para si um remanescente que o represente em meio a uma geração incrédula. Esses homens são aqueles que não se conformam com este século, mas que têm seus corações inteiramente voltados para a vontade de Deus e anunciam o juízo divino sobre o mundo.

É imperativo salientar que, ao se discorrer sobre um remanescente — homens piedosos destinados a impactar profundamente uma geração corrompida e uma cristandade em processo de apostasia — torna-se evidente que indivíduos de tal estatura, dada a sua excepcionalidade, frequentemente se encontrarão em solidão. Esses indivíduos são, com frequência, confrontados pela solidão, compelidos a trilhar um caminho solitário.

“Milhares hoje mudam suas crenças para se adaptarem ao seu comportamento moral. Por outro lado, milhares adotam doutrinas falsas e, em seguida, apostatam em suas ações.” (Kenth Hugues)


A. W. Tozer há muitas décadas, abordou este tema em seu artigo "Os Santos Devem Andar Sozinhos". Tozer tinha plena consciência do que afirmava; sendo ele próprio um homem cuja voz profética já denunciava a decadência espiritual de sua época, qual não seria sua postura no cenário contemporâneo?Assim, a solidão nos remete, uma vez mais, aos ministérios proféticos, como os de Elias, Jeremias e Enoque, já mencionados neste artigo, cuja característica distintiva era a solidão e a rejeição. A sociedade recusava-se a ouvir seus sermões e suas proclamações, e não demonstrava interesse em suas posições doutrinárias. Por isso, frequentemente, viram-se compelidos a trilhar um caminho solitário.

É crucial, todavia, compreender que tal sentimento se manifestou de forma constrangedora na vida de Elias. Quando o profeta exclamou ao Senhor, questionando: "Senhor, sou o único que sobrou? Não existe mais ninguém? Acaso todos sucumbiram à cilada da apostasia?". E o Senhor, então, respondeu a Elias que ainda restavam sete mil que não haviam se prostrado diante de Baal e sete mil joelhos que não se haviam dobrado perante a imagem abominável de Baal. Havia, portanto, muitos.
A solidão, entretanto, é apenas um traço distintivo de um contingente significativo de irmãos ao redor do mundo que, perseverando, erguem o estandarte da fé em Cristo, da sã doutrina e da ortodoxia, defendendo os absolutos fundamentados na Palavra de Deus.