por T. Austin-Sparks
“Tenho também como
perda todas as coisas pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus”
(Filipenses 3:8)
“Para mim o viver é
Cristo...” (Filipenses 1:21).
“A excelência do
conhecimento de Cristo Jesus...” Claramente isso significa que o conhecimento
de Cristo no caso do Apóstolo Paulo bem transcendeu todos os outros
conhecimentos. Para ele era um conhecimento que ultrapassava em seu valor,
todos os outros conhecimentos que ele tinha tido, ou concebido ele mesmo capaz
de ter. ele coloca o conhecimento de Cristo Jesus, seu Senhor, contra todas as
outras coisas, e assim como a luz de velas empalidece quando o sol brilha,
deste modo para ele a mais poderosa luz e glória que o homem é capaz de
experimentar se desvaneceu na presença de Cristo Jesus, seu Senhor.
Essas palavras não eram
apenas palavras no caso de Paulo. Isto não era um floreio de fina linguagem.
Vindo de um homem como ele era, elas carregavam um peso tremendo, não por causa
de quem ele era, mas por causa da vida na qual as palavras brotaram.
Para realmente obter
algo do poder e da força – da profundidade, da plenitude, da maravilha desta
frase, desta linguagem – é necessário tornar a contemplar a vida deste homem e
ver o pano de fundo de suas palavras. Palavras são de valor em proporção à
realidade da história de um homem – a história que jaz trás suas palavras e se
relaciona às suas palavras. Nós podemos dizer coisas, porém essas coisas podem
ser sem valor, porque não há nada trás elas em nós mesmos. Ou podemos dizer
coisas, e essas coisas podem carregar com elas um peso tremendo de significado
e valor, por causa do que jaz trás elas na pessoa que as fala. Devemos lembrar,
então, que quando Paulo disse essas palavras, ele estava praticamente no fim do
seu curso terrenal... e que uma vida inteira cheia com história espiritual
jazia trás cada sílaba. Mas que vida! Tudo culminou e foi reunido nestas
declarações finais.
Os Sofrimentos de Paulo
Olhe a ele
pessoalmente. Aqui está um homem, desgastado e debilitado, sobre quem tem
quebrado... e sobre quem tem passado ondas – ondas potentes e continuas de todo
tipo de sofrimento que você poderia pensar se você se assenta-se para catalogar
os sofrimentos do homem: uma vítima de perjúrio grosso, uma presa de muitas
inimizades em disputa; uma estrutura física quebrada e debilitada; em
circunstâncias de aflição profunda; contrariado por centos, possivelmente
milhares, de oponentes; tendo pouquíssimos amigos de verdade agora restando.
Ele deixou registrado
algumas das suas experiências de adversidade. Elas chegaram assim: em aflições,
em necessidades, em tumultos, em trabalhos, em vigílias, em jejuns;
repreendido, pesaroso, pobre, nada tendo; em prisões, em açoites acima da
medida, em perigo de mortes muitas vezes; “recebi cinco quarentenas de açoites
menos um”. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três
vezes sofri naufrágio, um dia e uma noite passei no abismo; em viagens muitas
vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha
nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em
perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; em trabalhos e fadiga, em
vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejum muitas vezes, em frio e nudez.
Além das coisas exteriores, me oprime cada dia o cuidado de todas as igrejas”
(2 Corintios 11:24-28).
Existem muitas outras
comoções quanto à experiência deste homem de Deus. Ele se refere ligeiramente a
elas e passa para: “Eu que sou rude na palavra” (isso é o que alguns tinham
dito acerca dele): “E a palavra desprezível” (novamente, o que alguns tinham
dito acerca dele). O homem de sim e não – isto é, o homem que vacila, que em um
momento diz sim e em outro momento não. Enviando pedidos para um companheiro de
trabalho amado, ele diz: “traze a capa que deixei em Trôade”... claramente
mostrando que ele estava familiarizando-se com a frieza.
Se você olhar dentre
seus escritos e na sua história, você acumulará uma tremenda quantia que aponta
para sua história de sofrimento, de provação, de adversidade. No fim ele diz:
“todos os que estão na Ásia se apartaram de mim”; “Somente Lucas está comigo”.
Depois vemos do que ele
tinha desistido para isso; vemos aquilo que é a troca desde o lado humano. Ele
nos diz quais eram suas vantagens naturais – como ele tinha uma razão e ocasião
para se gloriar mais do que qualquer outro.
Os Sacrifícios de Paulo
“E bem que eu poderia
até confiar na carne. Se algum outro julga poder confiar na carne, ainda mais
eu: circuncidado ao oitavo dia (Ex., ele nasceu Judeu; ele não era um
prosélito), da linhagem de Israel (não enxertado mas da linhagem original), da
tribo de Benjamin (depois do nome da tribo, o próximo nome mais distinguido é o
de Saul, o primeiro rei, quem era da tribo de Benjamin), um Hebreu de Hebreus:
quanto à lei fui fariseu; quanto ao zelo, persegui a Igreja” (Filipenses
3:4-6).
Toda essa posição
representada, vantagem, influencia, reputação – algo neste mundo que fornece uma
base de honra e sucesso, um nome e lugar dentre os homens. Ele tinha trocado
isso por tudo isto que temos falado....e muito mais.
Como Paulo se sente
acerca disto? Veja os extremos na vida deste homem: o extremo, por um lado, de
honra e glória terrenal – aquilo do que os homens se orgulham, aquilo que do
ponto de vista deste mundo era de sua vantagem. Dava para muita coisa. Por
outro lado está o extremo oposto. Pense nisso! Um homem assim, estando entre os
homens num lugar de conspícua honra e privilegio e influência, mesmo assim
açoitado com varas, espancado com um chicote, jogado na prisão, apedrejado, e
todo o resto. Como se sente ele da troca? Qual é sua atitude para com tudo? No
fim de uma vida assim, como ele o resume?
“Alegrai-vos no Senhor”
...alegrai-vos.... alegrai-vos! Você diz: não existe nada trás essas palavras!
Estas palavras não são vazias. Coloque uma história, uma experiência como essa,
trás uma declaração, e a declaração significará muito. É assombroso.
Se ficássemos para
meditar sobre isso, estaria calculado para nos levar aos joelhos em vergonha.
Não há queixas, não há descontentamento aqui, não dizendo: “tenho desistido de
tudo (e é um grande “tudo”) por Cristo, e veja ao que Ele me levou – veja o que
tenho! Não! Não há nenhum som ou sinal de queixa sobre isso tudo.
Se ele diz,
“entristecidos” (e ele está), ele imediatamente junta isso com: “mas sempre nos
alegrando”. Se ele diz, “não tendo nada”, imediatamente ele diz, “possuindo
todas as coisas”. Se ele diz “como pobre”, ele instantaneamente diz, “e contudo
fazendo a muitos ricos”. Sua atitude para com todo o assunto não é de
reclamação, porém do oposto – se gloriando, alegrando, ordenando outros a se
alegrarem. Sozinho, abandonado, inimigos por todo redor, sua obra da vida sendo
despedaçada por esses inimigos, suspeito universalmente. Todos os amigos
deixando ele, sozinho em prisão – se alegrando, gloriando, exultando.
A Excelência do
Conhecer Cristo Jesus
Isto vai muito além.
Mas qual é a explicação? É a excelência do conhecimento de Cristo Jesus. O
conhecimento de Cristo – conhecer Cristo como Ele pode ser conhecido; conhecer
Cristo assim como Ele está aberto para ser conhecido; conhecer Cristo como Ele
deseja se dar a conhecer; essa é a explicação... e Paulo tinha em grande medida
entrado nisso.
Ele está dizendo isto,
em outras palavras: é possível conhecer Cristo de tal forma que, embora para
começar você perca tudo neste mundo que é precioso aos olhos dos homens, você
terá algo infinitamente mais; e ir em frente com isso, é possível conhecer
assim a Cristo que não importem quantas sejam as formas de sofrimento, quão
profundo seja o sofrimento, quão inexplicáveis sejam algumas experiências, quão
contínuas – direito até o fim – sejam as adversidades, contudo o conhecimento
de Cristo é algo que mantém você acima e bem acima... de modo que você não é
submergido. Embora estes fortes mares de pesar e sofrimento e adversidade
possam lançar seu peso contra você, elas quebrarão; elas não quebrarão você...
elas quebram em você. É possível conhecer Cristo dessa forma. É isso o que ele
está dizendo, se nós entendemos ele corretamente.
A maioria de nós terá
que confessar que muitas vezes o problema tem nos abalado; o sofrimento tem
trazido nuvens de questionamentos e dúvidas em nossos corações; não temos feito
frente assim. Mas nosso objetivo não é apenas ver Paulo fazendo isto, nem é nos
medir numa desvantagem ao lado de Paulo; mas é ver que o Cristo de Paulo é
nosso Cristo, e o que foi possível para Paulo é possível para nós... que Cristo
é o mesmo ontem, e hoje, e para sempre; Ele é um Cristo que é conhecível
exatamente da mesma forma em que Paulo conheceu Ele.
Cristo como a Dinâmica
da Vida
Qual é o caminho para
este conhecimento? Por um lado, existe nosso lado, e penso que a resposta é:
“Para mim o viver é Cristo”. Como você conhecerá Cristo em plenitude? Como você
conhecerá Ele da forma em que Ele pode ser conhecido: somente nesta base, que
para você o viver é Cristo. O que isso significa?
Paulo foi para Arábia
por três anos depois de ter se encontrado com Cristo na estrada de Damasco, e
durante esses três anos ele teve um amplo tempo em solidão para encarar as
implicações de seu novo relacionamento. Para ele ficou perfeitamente claro no
curso de três anos solitário que lhe iria custar tudo. Todos estes
acontecimentos foram encarados naquele então. Para ele se tornou simplesmente e
em última análise um assunto de vida e morte. Significou isto: Tudo que tenho
nesta terra – neste mundo – tem que ser detido para o Senhor, para Cristo; e se,
no curso do meu relacionamento com Ele, todas ou qualquer uma destas coisas têm
que ir, então resolverei isso agora. Se significa sofrimento, perseguição, e
morte mesma, vou lá agora – eu o aceito tudo – de modo que para mim o viver não
será casa, família, amigos, reputação, aceitação, influência; mas se significa
nada destas coisas de modo algum – antes, a perda de todas as coisas – então o
próprio motivo de eu estar neste mundo não será nenhuma destas coisas, mas
somente Cristo... Cristo, a dinâmica da vida!
Em outras palavras
Paulo diria: “Para mim estar nesta terra simplesmente significa Cristo!
Aceitarei com gratidão o que Ele der! Se Ele me dar algo ou permite que retenha
alguma coisa aqui, serei grato por isso; mas se tudo tem que ir, então não fará
nenhuma diferença. Cristo – e somente Cristo – é o objetivo, a dinâmica, o
motivo do meu ser nesta terra!”
Quando tenhamos
resolvido as coisas dessa forma – quando é realmente trazido até essa conclusão
da questão – que para nós o viver é Cristo, então o Senhor terá um caminho
muito aberto para se tornar tudo para nós. Não é acaso verdade no nosso caso
que muitas vezes nosso relacionamento com o Senhor, nossa vida cristã – sermos
cristãos e ser postos em dificuldade, resultando em sofrimento nos tem levado a
ficar parados ou a retirarmos por um minuto e dizer: “Ah, bem, não esperava que
iria significar isto! Não sei se estou preparado para isso!” Algo assim tem
muitas vezes acontecido conosco, não é? Sofrer a perda de todas as coisas é uma
linguagem fácil, mas realmente um homem que unicamente tem colocado tudo de uma
vez por todas nos balanços pode conhecer Cristo em plenitude – plenitude total
– e dizer: “Eu sofro a perda de todas as coisas pela excelência do conhecimento
de Cristo!”
Significa apenas isto:
“a totalidade de Cristo para nós requere nossa totalidade para Ele. Se estamos
assegurando qualquer coisa ao invés de Cristo – à parte de Cristo, contrário a
Cristo – estamos limitando nosso próprio conhecimento de Cristo.
Esse é um lado – nosso
lado: “Para mim o viver é Cristo”. Temos falhado – temos nos quebrado neste
assunto. E mesmo assim nossos corações estão curvados e fixados numa coisa (
confio que eles estão)... que quando temos passado este caminho, o qual
passamos somente uma vez, o veredito eterno será que termos vivido, foi Cristo.
É algo solene trazer à vista: Qual vai ser o efeito de eu ter passado este
caminho? Para o que tenho vivido? Que representará o fim da minha vida quanto
ao resultado dos meus anos? O que a eternidade mostrará – e o que o tempo
mostrará – quanto ao valor de eu ter ido neste caminho?
Quando nós estamos
totalmente para o Senhor assim, dá ao Senhor a oportunidade do outro lado – o
lado divino: “Os olhos do seu entendimento sendo iluminados... para conhecer o
amor de Cristo que excede todo entendimento... que Deus nos dê um espírito de
sabedoria e revelação no conhecimento Dele”.
Tenho certeza de que se
o lado humano está correto e existe totalidade para o Senhor... o lado divino
dará tudo certo. Mas entre dois ou três virá um teste – chegará um ponto em que
toda a questão da vida é focada sobre uma completa decisão: Vou ficar neste
mundo com qualquer interesse próprio quer que seja, ou vai ser, sem importar o
que custar e seja o caminho que for, só Cristo? Isso é muitas vezes encaminhado
num teste prático – não num teste mental – e não se o Senhor nos pede para
dizer algo... mas fazê-lo. Tudo quanto ao nosso conhecimento de Cristo em
plenitude pende sobre um ato – às vezes um ato que nos compromete.
Podemos reconhecer as
implicações: ostracismo, perseguição, difamação, deturpação, suspeita, perda de
influência, perda de reputação, perda de lugar – lançado fora numa maneira na
qual comparativamente poucos irão conosco e na qual seremos mal entendidos.
Esse pode ser o caminho do desafio do Senhor... e do Seus mais altos
interesses. A pergunta é: “Para mim o viver é Cristo?” se é... e colocamos isso
no ato requerido... conheceremos a excelência de Cristo e teremos o mais
excelente conhecimento de Cristo – Cristo sobressaindo. Que seja assim como
todos nós.
Um extrato do Capítulo
2 de “A Excelência do Conhecimento de Cristo”, primeiramente publicado na
revista “Uma Testemunha e Um Testemunho” Mar-Abr 1935, Vol. 13-2.
Origem: "The Transcendence Value of the Knowledge of Christ"