C. J. Jacinto
Uma das doutrinas mais complexas presentes no
romanismo é a tese de que, mediante a consagração realizada por um sacerdote, o
pão e o vinho se tornam, literalmente, o corpo e o sangue de Jesus Cristo. Tal
conceito de transmutação de elementos evoca as práticas alquímicas,
aproximando-se do que alguns classificam como ocultismo ou rito mágico. Esta
interpretação da transformação física seria, supostamente, fundamentada na
instituição da Ceia pelo próprio Cristo. No entanto, ao proferir as palavras
"isto é o meu corpo, que é dado por vós" e "isto é o meu
sangue", Jesus não estabeleceu um ato sacrificial repetitivo a ser
realizado por sacerdotes, nem instituiu a reiteração do sacrifício do Calvário.
É hermeneuticamente impossível extrair essa perspectiva do texto bíblico
original. Tais interpretações constituem, portanto, construções humanas que não
encontram respaldo no contexto ou no sentido literal das Escrituras.
Diante desse
adendo, percebe-se que a capacidade de transubstanciar a matéria — o pão e o
vinho em corpo e sangue — carrega implicações éticas, morais e espirituais
profundas. É necessário compreender que, por meio desse ritual celebrado
diariamente em escala global, consolida-se uma “super” elite sacerdotal que se
coloca em patamar superior aos leigos, os quais, por sua vez, permanecem
relegados a uma condição que não lhes permite ascender aos níveis mais elevados
da iniciação religiosa. Essa elite, descrita por Afonso de Ligório, Doutor da
Igreja, em sua obra “A Selva” (A Dignidade do sacerdote), sustenta a premissa
de que o sacerdote detém um poder singular sobre o divino, sendo por vezes
designado como o "criador do Criador". Tal entendimento fundamenta-se
na crença de que, pelo rito da missa e pela consagração, o Filho de Deus se
encarna novamente na matéria inerte. Assim, a liturgia é compreendida como a
repetição contínua da encarnação e do sacrifício de Cristo, no qual Ele é,
simbolicamente, crucificado a cada consagração realizada sobre o altar. Jesus
nunca instituiu algo dessa natureza, e é impossível extrair a ideia dos
Evangelhos desse sistema de continuidade de encarnação e sacrifício “incruento”
Onde, nas
Sagradas Escrituras, encontramos o relato de que, durante a Santa Ceia, Cristo
teria instituído o sacrifício da missa? Em que passagem se sustenta a
interpretação de que, ao partirem o pão e partilharem o vinho, o Senhor e os
apóstolos compreenderam que, a cada repetição daquele ato, uma nova encarnação
e um novo sacrifício estaria sendo realizado, reiterando o que foi consumado de
uma vez por todas no Calvário?
Ademais, onde
se lê a determinação de que, sempre que o pão e o vinho forem consagrados por
um sacerdote — sob a égide de uma hierarquia clerical —, ocorrerá uma
transubstanciação, transformando os elementos, de modo literal, no corpo e no
sangue de Cristo? Apresente-nos o fundamento bíblico, mediante uma exegese
rigorosa, que conduza a tal conclusão.
As Escrituras
são inequívocas quanto a este tema. No livro de Hebreus, capítulo 10,
versículos 10 a 14, o autor sagrado estabelece: "Temos sido santificados
mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas. Ora, todo
sacerdote se apresenta diariamente, ministrando e oferecendo muitas vezes os
mesmos sacrifícios, que nunca podem remover pecados; mas Cristo, tendo
oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra
de Deus, aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por
estrado dos seus pés. Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre
quantos estão sendo santificados".
Dessa passagem,
depreende-se claramente a natureza equivocada da missa e da doutrina da
transubstanciação. O texto bíblico diferencia o ministério sacerdotal do Antigo
Pacto, que exigia sacrifícios contínuos, da obra de Cristo, que ofereceu um
sacrifício único e definitivo. Desde a Sua ascensão, Cristo permanece sentado à
destra de Deus. Portanto, a ideia de que Ele se encarna novamente em um
elemento consagrado por um sacerdote é teologicamente infundada e contrária à
soberania do sacrifício perfeito de Jesus. Cristo permanece glorificado junto
ao Pai e somente será visto e tocado em Sua segunda vinda triunfante.
Permita-me retomar a figura de Afonso de
Ligório. A Igreja, ao tratar deste tema, recorre frequentemente a tais doutores
em detrimento das Escrituras Sagradas, as quais, de fato, silenciam sobre o
assunto. Pelo contrário, passagens como a da Epístola aos Hebreus que mencionei
refutam categoricamente a natureza de sacrifício ritual atribuída à missa.
Observemos,
contudo, o que sustenta este pretenso doutor da Igreja Católica:
A dignidade do sacerdote seria avaliada pelo
poder que detém sobre o corpo real e místico de Jesus Cristo. Segundo essa
doutrina, pela fé, ao serem pronunciadas as palavras da consagração, o Verbo
Encarnado seria compelido a obedecer e a manifestar-se sob as espécies
sacramentais. Afirma-se que, em resposta à ordem do sacerdote — *Hoc est corpus
meum* —, o próprio Deus desceria ao altar, atendendo a qualquer chamado e
tantas vezes quantas for convocado, submetendo-se inteiramente ao arbítrio de
mãos humanas, ainda que estas sejam as de seus inimigos. Segundo o autor, o
sacerdote poderia, então, transladá-lo, guardá-lo no tabernáculo, expô-lo no
altar, conduzi-lo para fora do templo ou, até mesmo, consumir sua carne e
oferecê-la como alimento a terceiros.
Tais palavras
de Afonso de Ligório revelam uma grave deturpação teológica, na qual Cristo, o
Senhor, é reduzido a uma posição de submissão absoluta às ordens sacerdotais.
Onde se fundamentaria tal premissa nas Escrituras? É impossível extrair essa
concepção do relato em que Jesus institui a Santa Ceia. Tratam-se, portanto, de
construções doutrinárias destituídas de base bíblica e que, por sua natureza,
incorrem em grave desonra à soberania divina.
Este trecho foi extraído da obra “A Dignidade e
os Deveres do Sacerdote”, de Afonso de
Ligório, um clássico amplamente consultado pelo clero católico e cuja citação
completa consta no Apêndice A.
Fundador da Congregação do Santíssimo
Redentor, Afonso de Ligório foi canonizado em 1839 e proclamado Doutor da
Igreja em 1871 — título conferido a apenas 33 teólogos na história. Nesta
passagem, o santo disserta sobre o mistério da transubstanciação, por meio da
qual, mediante as palavras proferidas pelo sacerdote, o pão se transforma no
próprio Cristo, que permanece submisso à mediação ministerial. Devemos observar atentamente essa
citação extraordinária de Ligório, pois ele afirma que um padre possui um poder
divino e real: ao proferir as quatro palavras no ritual da missa e da
consagração, Deus deve obedecê-lo, quer queira ou não. Isso pode parecer
exagero, mas leia novamente e tente interpretar suas afirmações de uma maneira
menos perturbadora. Se ainda houver dúvidas, consulte as obras de Afonso de
Ligório a respeito desse assunto e examine o contexto em que essas declarações
foram feitas.
Cada leitor que crê nessas doutrinas tão
estranhas ao Novo Testamento, não devem levar em conta os conselhos de guias
espirituais católicos, por exemplo, a ordem de
obedecer cegamente aos líderes do catolicismo, como Josemaría Escrivá, que em
seu livro Caminho (Pensamento 941) assim orientou aos seus leitores! Que
tragédia se você for guiado por um cego espiritual, pois, como diz a Bíblia,
quando um cego guia outro cego, ambos caem no abismo.
Pode parecer inverossímil o que tenho exposto a
respeito dos ensinamentos de Afonso de Ligório; contudo, transcreverei o texto
da obra “A Selva ou A Dignidade do Sacerdote” — facilmente acessível na
internet, inclusive em língua portuguesa —, a fim de que o leitor possa, por si
mesmo, analisar o conteúdo e formar sua própria conclusão.
Atente-se ao teor das idéias de Afonso de
Ligório:
Por isso, os sacerdotes são chamados de pais de
Jesus Cristo. Tal é o título que São Bernardino lhes confere, pois são a causa
ativa pela qual Ele Se torna presente na hóstia consagrada. De fato, o
sacerdote pode, de certo modo, ser chamado de ‘criador do seu Criador’, visto
que, ao proferir as palavras da consagração, Ele traz Jesus ao sacramento,
conferindo-Lhe uma existência sacramental e apresentando-O como a vítima a ser
oferecida ao Pai Eterno. Assim como na criação do mundo bastou que Deus dissesse
‘faça-se’ para que tudo fosse criado — ‘Ele falou e foram feitos’ —, também
basta que o sacerdote diga ‘isto é o meu corpo’ para que o pão deixe de sê-lo e
se torne o corpo de Jesus Cristo. O poder do sacerdote, segundo São Bernardino
de Sena, equivale ao poder da Pessoa Divina, pois a transubstanciação do pão
requer tanto poder quanto a criação do mundo.
Se tais afirmações
não configuram uma blasfêmia, questiono-me o que poderia sê-lo. A arrogância
que emana dessa passagem é verdadeiramente espantosa. O texto retrata o
sacerdote romano como uma figura dotada de poder sobrenatural e divino,
equiparando-o ao próprio Criador. Assim como Deus, ao proferir o "haja
luz", viu a luz surgir, o sacerdote, ao pronunciar palavras sobre o pão,
reivindica a capacidade de transformá-lo na carne de Cristo. Essa analogia
eleva o sacerdote a uma condição de divindade, uma interpretação apresentada
com clareza nos escritos de Afonso de Ligório — ensinamentos que, cumpre notar,
jamais foram proferidos por Cristo ou pelos apóstolos.
Tal
doutrina não encontra eco no ensino apostólico; ao contrário, enquadra-se
precisamente na advertência contida em Gálatas 1:8-9, onde o apóstolo Paulo declara
que, ainda que um anjo desça do céu pregando um evangelho diferente, seja ele
anátema. É notável que, para sustentar tais conceitos, Ligório e outros autores
omitam as Escrituras, já que não há nelas respaldo para noções desta natureza.
Em vez de basearem-se na autoridade bíblica, recorrem a outros supostos
doutores e santos da Igreja que, a exemplo de Ligório, demonstram a mesma
negligência para com a fundamentação escriturística. As teses atribuídas a
Santo Afonso de Ligório revelam uma interpretação teológica controversa, ao
sugerir que a morte de Jesus Cristo não teria sido estritamente necessária para
a redenção da humanidade. Segundo esse raciocínio, uma única gota de sangue ou
uma breve oração do Redentor, por possuírem valor infinito, seriam suficientes
para salvar incontáveis mundos, reduzindo o propósito do sacrifício na cruz,
primordialmente, à instituição do sacerdócio.
Tais
afirmações, acessíveis a pesquisadores, levantam questionamentos profundos
quanto à conformidade desses ensinamentos com a tradição apostólica. É notável
o contraste entre essa visão e o que se depreende da doutrina bíblica,
especialmente ao analisar a natureza do sacrifício eucarístico no catolicismo
romano. A crença de que o sacerdote possui a prerrogativa de renovar, a
encarnação e o sacrifício de Cristo repetidas vezes de forma incruenta —
conferindo ao clero um papel que muitos consideram alheio à ortodoxia cristã —
representa, para os defensores da sã doutrina, uma distorção fundamental da
mensagem bíblica. A permanência de tais dogmas permanece como um ponto de grave
divergência e estranhamento para aqueles que pautam sua fé estritamente nas
Escrituras.
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