C. J. Jacinto
Atualmente, grande parte dos
cristãos não adota critérios rigorosos ao selecionar uma versão da Bíblia.
Muitos pressupõem que todas as traduções sejam equivalentes ou igualmente
inspiradas, negligenciando a cautela necessária para buscar edições que mantenham
maior fidelidade aos textos originais do Novo Testamento. Essa falta de
discernimento na escolha de obras publicadas por sociedades bíblicas
comprometidas com a sã doutrina, a ortodoxia e os fundamentos da fé conduz,
inevitavelmente, a equívocos teológicos e perigos espirituais significativos.
Vou citar um exemplo: Teólogos
católicos romanos têm se empenhado, ao longo de séculos, em elaborar e difundir
traduções das Escrituras que se alinhem à sua teologia mariológica. Um exemplo
notório dessa prática encontra-se em uma versão de Gênesis 3:15, na qual o
texto foi adaptado para atribuir a uma figura feminina a ação de ferir a cabeça
da serpente. Tal interpretação visa sustentar a doutrina de que Maria teria
sido a protagonista de tal feito, quando, na verdade, a exegese correta da
profecia aponta para a obra redentora de Cristo, e não para uma obra de Maria,
para justificar a veneração da Virgem.
A versão da Bíblia de Douay-Rheims
apresenta a seguinte redação para Gênesis 3:15: "Porei inimizade entre ti
e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Esta te ferirá a
cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar." O texto inclui uma nota explicativa
apontando que o termo "ela" (ipsa — a mulher) esmagará a cabeça da
serpente. Qualquer estudante sério, interpretará a passagem com base na exegese
correta descobrirá que à semente da mulher é Cristo. O sentido teológico,
contudo, permanece não pode ser adulterado, você confiaria em um magistério que
torce as Escrituras de modo tão descarado? Visto é um erro de proporções
enormes, interpretar que é por meio de sua descendência, Jesus Cristo, que a
mulher esmaga a cabeça da serpente. Portanto, o que se observa é uma imprecisão
ou distorção teológica, utilizada apenas para conferir sustentação a uma
doutrina equivocada.
A Bíblia traduzida pelo Padre Antônio Pereira
de Figueiredo, publicada pelas Edições América em 1950, refuta, em nota de
rodapé na página 42 do primeiro volume, a interpretação que atribui a Maria o
ato de esmagar a cabeça da serpente. A referida nota esclarece que, embora a
tradução apresente a expressão "ela te pisará a cabeça", o original
hebraico aponta para o pronome masculino "ele". Esta correção
fundamenta-se nos parâmetros caldaicos, nas versões de Onkelo, nas traduções
siríacas, cópticas, armênias, bem como no Pentateuco Samaritano, evidenciando o
equívoco da interpretação que confere tal protagonismo à Virgem Maria. Isso
confere a grande ilusão d confiar num “magistério” para a interpretação das
Escrituras.
Gênesis 3:15 contém uma profecia e uma promessa de importância monumental e
singular. O texto é frequentemente designado como o "Protoevangelho",
ou o Evangelho da Salvação em sua forma mais rudimentar, por predizer a derrota
de Satanás pelo Messias. O ponto de divergência em algumas versões católicas
romanas reside na atribuição dessa vitória a Maria, em vez de a Cristo;
(apelando para os pais da igreja e não para as Escrituras em seu contexto e
revelação progressiva, uma interpretação que não encontra respaldo nas
traduções bíblicas que prezam pelo rigor exegético.
A Septuaginta, notável tradução do Antigo Testamento para o grego, foi
realizada no século II a.C., em Alexandria, por um grupo de eruditos judeus de
reconhecida autoridade. Dada a sua composição anterior ao nascimento de Jesus e
a proficiência linguística de seus tradutores em hebraico e grego, a obra é
considerada de credibilidade ímpar. No que concerne aos versículos 3 e 15 de
Gênesis, a Septuaginta, ao verter o original hebraico, emprega o pronome
masculino, referindo-se a um indivíduo específico. Tal precisão tradutória
corrobora a interpretação de que a passagem constitui uma profecia messiânica
sobre o Senhor Jesus Cristo, que, por si só, esmagaria a cabeça da serpente. Entretanto,
São Jerônimo, que viveu entre 342 e 430 d.C., ao realizar a tradução da Vulgata
Latina, incorreu em um equívoco ao substituir o pronome masculino pelo feminino
ipsa. Seguindo essa versão, estudiosos católicos romanos traduziram Gênesis
3:15 de modo a referenciar a figura feminina. Consequentemente, essa
interpretação tem sido utilizada como suporte para a doutrina da Mariologia,
conferindo a Maria um fundamento teológico que críticos consideram artificial,
por basear-se, segundo eles, em um erro de tradução da Vulgata para legitimar
dogmas marianos. (A Nota de rodapé de Genesis 3:15 da Biblia de Jerusalem
reconhece que a atribuição da passagem é atribuída ao Filho da mulher, fato
estabelecido pelo tradição messiânica judaica mas a tradição católica modificou
o significado para apontar para Maria)
Dessa forma, as aparições marianas,
fenômenos relatados globalmente, levam os devotos a utilizarem a denominada
"medalha milagrosa". Muitas dessas peças, cuja origem remonta a 1830,
exibem a figura de Maria sobrepondo-se a serpentes. Tal representação
sustenta-se em uma interpretação equivocada de Gênesis 3:15; contudo, a nota de
rodapé da Bíblia de Figueiredo, bem como de outras traduções fiéis ao original
hebraico, esclarece que a passagem profética não se refere a Maria, mas, sim,
ao Messias. Cito este exemplo para ilustrar que nem todas as traduções são
confiáveis. Quando traduções contêm erros graves, elas desviam o foco central —
que é Cristo — para outras figuras, o que constitui uma estratégia enganosa.
Direcionar a nossa confiança de Cristo para qualquer outro personagem, ainda
que bíblico, é uma armadilha espiritual extremamente perigosa. Essa artimanha
ocorre desde o início; no livro de Gênesis, o diabo subverteu as palavras que
Deus dirigiu a Adão ao negar a afirmação divina. Enquanto Deus declarou que ele
morreria, Satanás acrescentou o "não", adulterando a Palavra do
Senhor. Portanto, desde o princípio, percebemos que desvirtuar e distorcer as
Escrituras tem sido um método recorrente do adversário.
Por essa razão, devemos exercer rigoroso critério ao selecionar uma versão
bíblica para estudo e uso oficial. É fundamental investigar a origem da
tradução, o contexto da editora responsável e o propósito subjacente à obra.
Atualmente, dispomos de inúmeras versões, muitas das quais possuem caráter
puramente comercial ou consistem em meras paráfrases. Esse discernimento é
indispensável, visto que, historicamente — desde o Antigo Testamento até o
período da Igreja Primitiva, como exemplificado pela Vulgata —, a preservação
das Escrituras nem sempre foi uma preocupação central. Lamentavelmente, ainda
hoje circulam traduções que atenuam o teor cristocêntrico tanto do Antigo
quanto do Novo Testamento, evidenciando que as investidas para comprometer a
integridade do texto sagrado persistem através de edições não confiáveis.
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