Uma
Análise Didática dos Argumentos a Favor da Autenticidade do Testimonium
Flavianum
Introdução
Flávio Josefo, o renomado
historiador judeu do século I d.C., ocupa um lugar singular na historiografia
antiga. Nascido em 37 d.C., filho de sacerdotes e de sangue real asmoneu,
Josefo viveu em uma época e localização geográfica privilegiadas para testemunhar
o surgimento e expansão do cristianismo. Como registra Michael Licona,
"isso coloca Josefo geograficamente e cronologicamente em uma posição onde
ele teria ouvido sobre Jesus desde o início da Igreja... Como seu pai era
sacerdote, o evangelho cristão provavelmente teria sido um tema discutido à
mesa de sua família."
O trecho que nos interessa —
conhecido como Testimonium Flavianum (Antiguidades dos Judeus 18.63-64) — gerou
debates massivos entre estudiosos. Alguns o defendem como autêntico; outros,
negam sua autenticidade ou adotam posições intermediárias. Neste artigo,
examinaremos onze argumentos robustos que sustentam a confiabilidade de Josefo
como testemunha do Cristo histórico.
Argumento 1: O
Contexto Narrativo do Testimonium
Uma das objeções mais comuns é que
o Testimonium estaria "fora de contexto" em meio a uma coleção de
histórias sobre calamidades que acometeram os judeus. No entanto, esta
afirmação não resiste a uma leitura atenta do texto.
O capítulo 3 do Livro 18 das Antiguidades
contém cinco parágrafos. O Testimonium ocupa o terceiro parágrafo, seguido pelo
quarto — o mais longo, ocupando aproximadamente metade do capítulo — que narra
o episódio de uma mulher virtuosa seduzida no Templo de Ísis, em Roma. Josefo
introduz este relato com as palavras: "Agora, primeiro chamarei a atenção
para a tentativa ímpia sobre o templo de Ísis, e então darei conta dos assuntos
dos judeus" (Jos. Ant. 18.65), e o encerra afirmando: "Agora volto à
narrativa do que aconteceu nesta época com os judeus em Roma, como
anteriormente disse que faria" (Jos. Ant. 18.80).
Conclusão: Dizer que o Testimonium
está fora de contexto é ignorar completamente o contexto que o segue
imediatamente, o qual, por sua vez, também parece deslocado. A estrutura
narrativa de Josefo segue uma lógica própria que não se alinha às expectativas
modernas.
Argumento 2: A
Gramática e o Vocabulário Incompatíveis com Autores Cristãos
A gramática do Testimonium em sua
totalidade é inconsistente com qualquer autor cristão conhecido da antiguidade.
Vamos examinar três evidências linguísticas cruciais:
A) "Tribo de Cristãos" (φῦλον)
Não encontramos em toda a
literatura cristã antiga a expressão de os cristãos se chamarem uma "tribo"
(φῦλον) de cristãos. Josefo, porém, usa esta palavra frequentemente: para as
tribos de Israel, para "uma tribo de gafanhotos" (Jos. Ant. 2.306), e
para tribos romanas como "a tribo Menenia, a tribo Lemonia" etc.
(Jos. Ant. 14.220). Heródoto a utiliza para um corpo de tropas no exército
ateniense. Não há premissa para escribas cristãos interpolarem tal frase.
B) "Homem sábio" (σοφὸς ἀνήρ)
Chamar Cristo de "homem
sábio" não seria típico de escribas cristãos, mas Josefo usa esta frase
frequentemente em sua obra (Jos. Ant. 1.166; 1.213; 7.162; 8.53; 9.18; 10.229;
13.109; 18.63; 19.167; 19.201; 20.259).
C) "Fazedor de obras
maravilhosas" (παραδόξων ἔργων)
Esta expressão não é comum entre os
cristãos para descrever os milagres do Senhor. Lucas a emprega uma única vez
(Lucas 5:26), e Clemente de Roma a usa para descrever o fênix — obviamente não
no contexto de milagres de Cristo. Josefo, contudo, a utiliza extensivamente
(Jos. Ant. 2.91, 223, 285, 295, 345, 347; 3.1, 30, 38; 5.28, 125; 6.171, 290;
9.14, 58, 60, 182; 10.21, 214, 235, 266; 15.379; Jos. Ag. Ap. 2.114), inclusive
para descrever os milagres de Elias: "Ele também realizou obras
maravilhosas e surpreendentes" (Jos. Ant. 9.182).
Conclusão: Como observa Michael
Licona, "esperar-se-ia que uma interpolação cristã usasse a palavra
'sinais' ou 'maravilhas'." A peculiaridade linguística aponta para a
autoria de Josefo, não de um interpolador cristão.
Argumento 3: A
Passagem Paralela em Antiguidades 20.200
John Dominic Crossan — certamente
não uma voz amigável à defesa da autenticidade — afirma: "A testemunha
judaica é a descrição de Jesus em Flávio Josefo, Antiguidades dos Judeus 18:63,
que parece ser pressuposta antes e pela menção passageira em 20:200."
A passagem a que se refere diz:
"Festus já estava morto, e
Albinus estava a caminho; então ele reuniu o sinédrio de juízes, e trouxe
perante eles o irmão de Jesus, que era chamado Cristo, cujo nome era Tiago, e
alguns outros... e quando formou uma acusação contra eles como transgressores
da lei, os entregou para serem apedrejados..." (Jos. Ant. 20.199-200)
Obviamente, esta passagem pressupõe
que a discussão anterior sobre Cristo já foi mencionada. Além disso, Orígenes,
por volta de 245 d.C., referencia ambas as passagens juntas, revelando que o
propósito da passagem anterior sobre Jesus (Jos. Ant. 18.63-65) é mencionado no
contexto de calamidades porque prefigura esta passagem posterior (Jos. Ant.
20.199-200), que expressa a razão para a calamidade do Templo Judeu ser
destruído.
Conclusão: Não há razões justificáveis para omitir completamente o Testimonium quando uma segunda passagem o pressupõe explicitamente.
Argumento 4: O
Testemunho de Orígenes e a Possível Corrupção do Texto
Orígenes, em seu Comentário sobre
Mateus (c. 245 d.C.) e Contra Celsus (c. 248 d.C.), alude a ambas as passagens
de Josefo que mencionam Cristo, mas não cita diretamente nenhuma delas. Ele
enfatiza que Josefo "não aceitou Jesus como Cristo", o que sugere que
ele tinha ambas as passagens como as conhecemos hoje e estava tentando
reconciliá-las — uma diz "Ele era o Cristo" (Jos. Ant. 18.63) e a
outra diz "Jesus, que era chamado Cristo" (Jos. Ant. 20.200).
Uma possibilidade intrigante é que
Orígenes, que deixou Alexandria para Cesareia em 231 d.C., pode ter tido acesso
a um texto de Josefo corrompido por escribas judeus. Ele menciona comparar
manuscritos hebraicos obtidos dos judeus com a Septuaginta. Assim, é muito
possível que Orígenes tenha lido uma cópia de Josefo corrompida por um escriba
judeu, dado o histórico de polêmica judaica contra os cristãos.
Conclusão: Eusébio, o primeiro
autor existente a nos dar a citação do Testimonium, provavelmente a cita
exatamente como Orígenes a conhecia, já que Eusébio foi "influenciado
pelas obras de Orígenes" e formou amizade com Pamphilus, que havia
coletado uma considerável biblioteca patrística em Cesareia.
Argumento 5: A
Ausência de Citações Diretas pelos Apologistas Cristãos
Um argumento frequente é: "Se
a passagem, como a temos hoje, estivesse originalmente em Josefo, então Justino
Mártir, Clemente de Alexandria, Tertuliano ou Orígenes a teriam citado, pois
seu valor apologético é tremendo." No entanto, nenhum destes apologistas
cita diretamente o Testimonium.
A resposta a esta objeção é
multifacetada:
Primeiro, como vimos, Orígenes de fato
alude a ambas as passagens sem citar diretamente nenhuma. Se a falta de citação
direta é um argumento contra o Testimonium, por que a outra passagem não é
questionada?
Segundo, trata-se essencialmente de
um argumento do silêncio, que pode ser igualmente refutado ao observar que
muitos escritos cristãos antigos não mais existem — há mais escritos perdidos
do que existentes hoje. Qualquer um destes escritos perdidos poderia ter
possuído uma citação direta.
Terceiro, os estudiosos
familiarizados com a literatura antiga sabem que os autores antigos nem sempre
citavam suas fontes textualmente. Craig Keener, descrito como tendo um
conhecimento enciclopédico da literatura antiga, escreve: "A citação real
na literatura antiga não era usada como é hoje e não deve ser assumida como
atendendo aos mesmos critérios esperados dos autores modernos. Frequentemente
os autores eram parafraseados, citados de memória, ou simplesmente aludidos sem
crédito dado, desde que o significado central fosse transmitido."
Conclusão: O padrão de citação na
antiguidade era capturar a essência (gist), não a literalidade. A ausência de
citações diretas não compromete a autenticidade do Testimonium.
Argumento 6: Os
Propósitos Diferentes dos Pais Ante-Nicenos
Os Pais Ante-Nicenos que mencionam
Josefo o fazem para propósitos diferentes daqueles que exigiriam a citação do Testimonium:
Justino Mártir menciona Josefo em
seu endereço aos gregos como apologética para Moisés, não para Cristo.
Ireneu referencia Josefo no
contexto de Moisés.
Teófilo invoca Josefo para
argumentar a antiguidade dos profetas hebreus.
Clemente de Alexandria usa Josefo
para expressar cronologia, novamente para provar a antiguidade das Escrituras
Hebraicas.
Tertuliano segue o mesmo argumento
de antiguidade.
Orígenes, além das alusões já
mencionadas, encoraja outros a ler as Antiguidades dos Judeus porque Josefo
"reúne uma grande coleção de escritores que testemunham a antiguidade do
povo judeu."
Conclusão: Em todas as 11 menções
de Josefo pelos autores cristãos nos primeiros três séculos, nenhuma oferece
uma citação direta de Josefo, e fora de Orígenes (que alude às passagens em
discussão), nenhuma comenta sobre Josefo em um contexto que exigiria que o Testimonium
surgisse. Os apologistas não precisavam argumentar que Jesus era uma figura
histórica — isso nunca foi questionado no mundo antigo.
Argumento 7: A
Citação de Eusébio e a Unanimidade dos Manuscritos
A citação mais antiga desta
passagem de Josefo vem de Eusébio (História Eclesiástica, Livro 1, Capítulo
11), que a cita como a temos hoje. Sua citação de Josefo está no contexto em
que alude a outras passagens da obra de Josefo colaborando com o relato do Novo
Testamento. Eusébio conecta as Antiguidades dos Judeus, Livro 18, com João
Batista e Jesus Cristo, mostrando paralelo no pensamento da citação de Orígenes
acima.
Eusébio morreu em 340 d.C., e
aqueles que leram suas obras poderiam ter verificado cruzadamente com Josefo
para ver se a citação era precisa. Não existe uma única declaração extante de
qualquer autor expressando dúvida sobre a autenticidade do Testimonium de
Josefo ou sobre a precisão da citação de Eusébio. Ambos foram
"considerados genuínos até o século XVI, mas têm sido disputados desde
então."
Conclusão: A unanimidade dos
manuscritos gregos e latinos — com datações que remontam ao século VI para os
latinos e citações de Eusébio no século IV — fortalece a autenticidade do
texto.
Argumento 8: O
Manuscrito Árabe de Agápio
Todos os manuscritos gregos e
latinos contêm esta passagem como está. A única exceção à concordância
universal entre os manuscritos é um texto árabe do século X preservado no Kitab
al'Unwan (Livro dos Títulos), uma história do mundo escrita por Agápio, bispo
melquita de Hierápolis Frígia, na Ás Menor. Este texto diz:
"Nesta época havia um homem
sábio chamado Jesus. Sua conduta era boa, e ele era conhecido por ser virtuoso.
E muitas pessoas dentre os judeus e as outras nações tornaram-se seus
discípulos. Pilatos o condenou a ser crucificado e a morrer. Mas aqueles que se
tornaram seus discípulos não abandonaram seu discipulado. Eles relataram que
ele lhes apareceu três dias após sua crucificação, e que estava vivo; portanto,
ele era talvez o Messias, sobre quem os profetas recitaram maravilhas."
John Dominic Crossan sugere que
"temos aqui o texto original e não interpolado de Josefo." No
entanto, os métodos críticos textuais geralmente dão preeminência aos textos na
língua original (grego, neste caso) ou aos manuscritos mais antigos (como os
textos latinos), especialmente quando os textos mais antigos e as línguas
originais podem ser verificados por citações antigas como as de Eusébio.
John P. Meier comentou sobre este
texto árabe: "Duvido que este manuscrito árabe do século X tenha
preservado a forma original do Testimonium, especialmente porque contém frases
que... são provavelmente expansões posteriores ou variantes do texto."
Shlomo Pines, da Universidade Hebraica de Jerusalém, que chamou a atenção para
este texto em 1971, concluiu: "A primeira hipótese [de censura] me parece
a mais provável, mas por nenhuma razão muito conclusiva. No momento, isto é uma
suposição de qualquer um."
Conclusão: Aceitar este texto árabe
é subjetivo, baseado no que se pressupõe que o texto deveria dizer; não é
objetivo, considerando critérios que estabelecem validade mais forte e que
argumentam contra ele.
Argumento 9: A
Segunda Menção a Cristo em Antiguidades 20.200
A segunda vez que Josefo menciona
Cristo, a passagem aparece em todos os manuscritos gregos "sem qualquer
variação notável." Ela diz: "o irmão de Jesus, que era chamado
Cristo, cujo nome era Tiago."
Eusébio cita a passagem como está (História
Eclesiástica 2.23.22), o que fortalece ainda mais a precisão de Eusébio ao
citar o Testimonium. Josefo incrimina os judeus pelo procedimento ilegal de
apedrejar Tiago, o que confere autenticidade ao contexto da remoção de Ananus
de seu cargo.
Chamar Tiago de "irmão de
Jesus" não é a expressão cristã, pois eles escreviam sobre Cristo com mais
reverência. Hipólito (170-236) falou de "Tiago, irmão do Senhor"; a Constituição
dos Santos Apóstolos refere-se a "Tiago, o bispo de Jerusalém, o irmão de
nosso Senhor." Se um escriba cristão tivesse adulterado a outra passagem,
por que esta passagem ficaria ilesa? Nenhum autor cristão antigo jamais se
referiu a Tiago como irmão de Jesus, mas sim de Cristo ou do Senhor.
Conclusão: Como observa David Aune,
assumindo que o Testimonium de Josefo fosse uma interpolação cristã por volta
de 300 d.C., "dada a história de transmissão, é surpreendente que mais
interpolações cristãs não tenham sido feitas."
Argumento 10: A
Questão da Deidade de Cristo no Texto
A suspeita de que Josefo escreveria
algo que parece implicar a deidade de Cristo deve-se à ignorância sobre os
escritores antigos ou à consideração de seus escritos de forma fragmentada.
Aqueles que duvidam que Josefo escreveria "se é lícito chamá-lo de
homem" estão duvidando baseados na pergunta: "é isto que o autor
teria escrito?" em vez de considerar que o próprio autor teria em mente o
que escrever para sua audiência.
Josefo escrevia não para judeus —
que o consideravam um traidor helenístico da nação — mas para a elite do povo
da cultura grega. Ele estava bem ciente de que havia cristãos em sua audiência
pretendida, assim como do fato de que os gregos frequentemente deificavam
homens. Robin Lane Fox escreveu sobre a visão da cultura romana de deuses
aparecendo a homens em visões: "Estas crenças não eram as fantasias
estranhas de uma pequena minoria. Elas eram sensíveis a todo o clima social e
político e podiam levar a práticas sólidas e persistentes."
A ideia de um homem ser um deus
também era prevalente. N. T. Wright identificou: "Na época do Novo
Testamento, os imperadores eram rotineiramente adorados como divinos, nas
partes orientais do império pelo menos, durante sua vida." Cícero chega a
dizer: "Imitemos então nossos Brutos, nossos Câmilios... todos os quais
considero dignos de serem classificados entre a companhia e o número dos deuses
imortais."
Tertuliano, um apologeta cristão do
século II que era jurisconsulto antes de converter-se ao cristianismo,
familiarizado com arquivos romanos, alegou que Pilatos se tornou cristão porque
não podia negar as evidências dos procedimentos legais quando condenou Cristo à
crucificação. Ele afirmou ainda que o imperador Tibério, "tendo recebido
informações da Palestina sobre eventos que claramente mostraram a verdade da
divindade de Cristo, trouxe o assunto perante o senado, com sua própria decisão
a favor de Cristo."
Conclusão: A expressão de Josefo
"se é lícito chamá-lo de homem" pode, de fato, estar aludindo ao
mesmo evento mencionado por Tertuliano do senado votando contra adicionar
Cristo ao panteão romano. Na expressão de Josefo, ele evoca a memória de seus
leitores de elite de que suas leis conspiraram contra Cristo, assim como os
judeus que convenceram Pilatos a crucificá-Lo.
Argumento 11: Os
Milagres de Cristo e a Erudição Moderna
Embora alguns no passado tenham
tropeçado no reconhecimento de Josefo de Cristo como fazedor de milagres, a
erudição moderna, mesmo nos círculos céticos, não questiona mais esta frase
como autêntica. As fontes polêmicas mais antigas que atacavam o cristianismo
nunca rejeitaram os fatos de Cristo realizar milagres, mas antes os chamaram de
feitiçaria.
Michael Licona registrou muitas das
posições recentes de estudiosos aceitando isto como fatos históricos. Craig
Keener declarou: "A maioria dos estudiosos hoje aceita a afirmação de que
Jesus era um curandeiro e exorcista. A evidência é mais forte para esta
afirmação do que para a maioria das outras reivindicações históricas
específicas que poderíamos fazer sobre o cristianismo mais primitivo; milagres
caracterizaram a atividade histórica de Jesus não menos do que seu ensino e
atividades proféticas."
David Aune observa: "Todos os
Evangelhos contêm defesas contra as acusações de que Jesus era um mago... Em
Marcos isto surge na perícope de Belzebu, em que Jesus reivindica ser um
instrumento de Deus, não de Satanás." Enquanto discutia o tratamento de
sinais miraculosos relatados por historiadores antigos, Keener discutiu a
disposição dos autores antigos em relatar reivindicações, quer as vissem com
veracidade ou ceticismo: "Devemos notar que as diferenças também
geralmente correspondem à expectativa das audiências para as quais
escreveram."
Conclusão: O fato de que
"fontes judaicas continuaram a associar milagres com muitos dos profetas
bíblicos" identifica por que Josefo pode ter conectado a implicação de Sua
deidade com obras maravilhosas. Aceitar Cristo como profeta não exigiria que
Josefo O reconhecesse como um homem piedoso ou ortodoxo teologicamente.
Portanto, Seus milagres poderiam atestar Suas palavras inspiradas como "um
mestre de tais que recebem a verdade com prazer", sem forçar a crença Nele
como um cristão o faria.
Uma Proposta de
Leitura: O Testimonium como Sarcasmo Retórico
Além dos onze argumentos acima, o
autor do artigo original propõe uma interpretação contextual inovadora: o Testimonium
deve ser lido não como uma confissão de fé cristã disfarçada, mas como um
ataque sarcástico de Josefo ao cristianismo, utilizando seu estilo retórico
característico.
O capítulo em questão é dividido em
cinco parágrafos com uma estrutura retórica deliberada:
Primeiro parágrafo (Jos. Ant.
18.55-59): Josefo apresenta judeus verdadeiros dispostos a morrer antes de
permitir que uma imagem represente a Deus — ataque à fé cristã que afirma que
"Cristo, que é a imagem de Deus" (2 Coríntios 4:4).
Segundo parágrafo (Jos. Ant.
18.60-62): Relata Pilatos usando "dinheiro sagrado" para trazer água
a Jerusalém, resultando em tumulto e morte — paralelo antitético à crucificação
de Cristo.
Terceiro parágrafo — o Testimonium
(Jos. Ant. 18.63-64): A passagem sobre Jesus, que deve ser lida como sarcasmo:
Josefo está ridicularizando a crença cristã ao apresentá-la de forma que seus
leitores helenistas a associem ao paganismo supersticioso.
Quarto parágrafo (Jos. Ant.
18.65-80): A digressão sobre Paulina e o Templo de Ísis — uma mulher virtuosa
enganada a acreditar que "o deus Anúbis lhe aparecera." Josefo está
acusando Cristo por comparação com a noção pagã de deuses aparecendo a homens.
O fato de Mundus revelar a fraude "no terceiro dia" após o ato
(18.77) ecoa a ressurreição no terceiro dia.
Quinto parágrafo (Jos. Ant. 18.81-84):
Um judeu em Roma que engana uma mulher rica sob o pretexto de levar dinheiro
para o Templo — ataque indireto às jornadas missionárias de Paulo e suas
coletas para os pobres de Jerusalém.
Conclusão: Josefo está usando
sarcasmo sofisticado para atacar o cristianismo, equiparando-o ao paganismo
supersticioso. A "aparência" de elogio a Jesus é, na verdade, uma
condenação velada. Isto explica por que o texto soa "cristão" demais
para um judeu — porque Josefo está intencionalmente usando a linguagem cristã
para ridicularizá-la perante uma audiência helenista.
Conclusão Geral
A análise dos onze argumentos
apresentados demonstra que há bases sólidas para aceitar a autenticidade do Testimonium
Flavianum:
O contexto narrativo sustenta a
passagem, não a contradiz.
A linguagem é tipicamente josefana,
não cristã.
A passagem paralela em Antiguidades
20 pressupõe a existência do Testimonium.
O testemunho de Orígenes sugere que
ele conhecia ambas as passagens.
Os padrões de citação antigos não
exigiam literalidade.
Os propósitos dos Pais eram
diferentes daqueles que exigiriam a citação do Testimonium.
A unanimidade dos manuscritos e a
citação de Eusébio fortalecem o texto.
O manuscrito árabe não tem
precedência sobre a tradição textual grega e latina.
A segunda menção a Cristo permanece
incontestada em todos os manuscritos.
A questão da deidade é
compreensível no contexto helenístico de deificação de homens.
Os milagres de Cristo são aceitos
até mesmo pela erudição cética moderna.
Flávio Josefo, portanto, permanece
como uma testemunha confiável do Cristo histórico — não como crente, mas como
historiador que, mesmo em seu sarcasmo e antagonismo, confirma fatos cruciais
sobre Jesus: Sua existência, Sua sabedoria, Seus milagres, Seu martírio sob
Pilatos, Sua reivindicação messiânica, a crença em Sua ressurreição, e a
persistência do movimento cristão.
Referências Bibliográficas
HENNING, Heath. "Josephus'
Testimony of Christ: Is It Reliable?" TruthWatchers, 2016. Disponível em: https://truthwatchers.com/josephus-testimony-of-christ-is-it-reliable/.
Acesso em: 10 jul. 2026.
(O artigo original cita
extensivamente: Whiston's translation of Josephus; Licona, Michael. The
Resurrection of Jesus; Keener, Craig S. Acts: An Exegetical Commentary;
Crossan, John Dominic. The Historical Jesus; Meier, John P. A Marginal Jew;
Wright, N. T. The Resurrection of the Son of God; Yamauchi, Edwin (entrevistado
por Lee Strobel); Stein, Gordon; Schaff, Philip; Aune, David; e as obras dos
Pais da Igreja: Origen, Eusebius, Justin Martyr, Tertullian, entre outros.)
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