ANÁLISE
EXEGÉTICA E APOLOGÉTICA
Um
Homem Chamado Mica
Sincretismo,
Religião Fabricada e o Princípio da Adoração Estranha
C.
J. Jacinto
Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que
era reto aos seus próprios olhos.
— Juízes
17:6
INTRODUÇÃO
O Livro dos Juízes e o Retrato de uma Época
O
livro de Juízes ocupa um lugar singular no cânone veterotestamentário. Não é
apenas um compêndio de narrativas heróicas e proezas militares — embora tais
elementos certamente o adornem. É, antes de tudo, um diagnóstico teológico da
condição humana quando privada da soberania efetiva de Deus sobre a vida
prática. O fio condutor que atravessa seus vinte e um capítulos é uma anatomia
do colapso espiritual: apostasia, opressão, clamor, libertação e nova apostasia,
num ciclo que se repete com a regularidade implacável da natureza humana não
redimida.
Nesse contexto, ao lado das narrativas monumentais de Gideão (Jz
6–8) e Sansão (Jz 13–16), o final
do livro reserva duas histórias menos conhecidas, mas de extraordinária
densidade teológica: o episódio de Mica e o Levita (Jz
17–18) e o crime de Gibeá (Jz 19–21). Essas
narrativas não são apêndices acidentais. São o clímax revelador do que significa
uma nação sem Palavra, sem lei e sem adoração verdadeira — uma nação onde cada
homem é o árbitro supremo de sua própria religiosidade.
A história de Mica, narrada nos capítulos 17 e 18, é
suficientemente curta para ser lida em poucos minutos e suficientemente
profunda para ser meditada por anos. É um retrato do sincretismo religioso em
sua forma mais elementar — e, por isso mesmo, mais reveladora. Ela nos
apresenta o arquétipo de todo fundador de religião fabricada: bem-intencionado
em sua própria estima, ritualmente zeloso, devotamente ignorante e, ao fim,
instrumentalmente conveniente para os propósitos alheios.
O que se segue é uma análise exegética e apologética dessa
narrativa, com vistas a demonstrar sua relevância profunda e desconcertante
para a compreensão do fenômeno religioso contemporâneo — em particular, das
correntes sincréticas, carismáticas e neopentecostais que dominam o cenário
cristão brasileiro e mundial.
SEÇÃO I
O Crime Doméstico e a
Teologia do Medo
A
narrativa inicia com uma nota que, à primeira leitura, pode parecer um simples
detalhe narrativo, mas que, examinada com atenção, revela a condição moral
completa do protagonista. Mica — cujo nome, ironicamente, significa "Quem
é como Javé?" — confessa à sua mãe o furto de mil e cem moedas de
prata que lhe pertenciam (Jz 17:2). A
revelação não é espontânea; é motivada pelo terror. A mãe, ao descobrir o
furto, pronunciara uma maldição sobre o ladrão desconhecido, e Mica, ciente de
que ele próprio era o destinatário daquela imprecação, apressou-se a restituir
o dinheiro — não por arrependimento genuíno, mas por superstição.
Este ponto de partida é teologicamente lapidar. Mica não é
apresentado como um ímpio declarado, mas como alguém cuja vida moral é governada
pelo medo das consequências e não pelo amor à santidade. É a distinção que os
reformadores chamariam de contrição servil — o temor da punição sem a
compunção do coração. Este é o solo em que a religião fabricada sempre germina:
não a fuga do pecado em direção a Deus, mas a fuga da punição em direção ao
ritual.
A resposta da mãe aprofunda ainda mais o diagnóstico. Em vez
de confrontar o filho com a gravidade moral do ato, ela o abençoa e afirma que
consagrará parte do dinheiro "ao Senhor" para que seja feita uma
imagem de escultura e uma de fundição (Jz 17:3). A
contradição é gritante: dinheiro roubado é "consagrado ao Senhor"
para a confecção de ídolos. Nenhum dos dois — mãe ou filho — parece perceber a
gravidade do paradoxo. A religiosidade deles é completamente dissociada da
ética, e a devoção é medida em gestos rituais, não em obediência moral.
E sua mãe disse: Abençoado sejas tu do Senhor,
meu filho. E tomou os duzentos siclos de prata, e os deu ao ourives, que fez
deles uma imagem de escultura e uma de fundição; e ficou em casa de Mica.
— Juízes 17:3b-4
É impossível não recordar aqui a advertência da Lei, que Mica
certamente conhecia de nome mas ignorava de coração: "Não farás para ti
imagem de escultura, nem semelhança alguma"(Êx
20:4). A lei mosaica era explícita quanto à impossibilidade de
representar a Deus por imagens materiais, e mais explícita ainda quanto à
consagração religiosa de objetos produzidos com metais preciosos provenientes
de fontes moralmente contaminadas (Dt 7:25-26). Mica e
sua mãe constroem o altar da religião sobre as fundações do crime.
SEÇÃO II
A Religião Fabricada:
Elementos e Estrutura
Com
os ídolos instalados e a casa convertida em templo privado, Mica dá o passo
seguinte: organiza o culto. O texto nos informa que ele fez uma casa de deuses,
fabricou um éfode e terafins e consagrou um de seus filhos para exercer o
sacerdócio (Jz 17:5). Em uma única sentença, o
narrador sagrado cataloga os componentes de uma religião inteiramente
construída pela vontade e pelo arbítrio de um homem.
O
Éfode e os Terafins
O éfode era uma veste sacerdotal prescrita com precisão
milimétrica na Lei mosaica (Êx 28:6-14), reservada
ao sumo sacerdote e associada ao acesso à presença divina e à consulta
oracular. Sua fabricação por Mica é uma usurpação da ordem cultual estabelecida
— uma tentativa de reproduzir, no âmbito doméstico e privado, os instrumentos
da mediação sacerdotal legítima. Os terafins, por sua vez, eram ídolos
domésticos amplamente praticados no Oriente Próximo antigo, condenados
explicitamente pela profecia e pela lei (1 Sm 15:23;
Ez 21:21; Zc 10:2). Mica os incorpora sem aparente tensão — mesclando os
elementos da tradição javista com práticas pagãs circundantes num sincretismo
que seria característico de toda religiosidade fabricada.
A consagração de um filho ao sacerdócio é igualmente
reveladora. A ordenação sacerdotal era, sob a lei mosaica, prerrogativa
exclusiva dos descendentes de Aarão da tribo de Levi (Nm
3:10; Nm 18:7). Mica não apenas desconsidera essa restrição como a
substitui por uma nomeação familiar — o sacerdócio como extensão do poder
doméstico. A religião de Mica não é uma busca de Deus; é a projeção de Mica
sobre Deus.
Não
era um reformador da religião corrompida, mas o fundador de uma religião
inventada.
A
Estrutura do Micaísmo
O que emerge da narrativa é a estrutura arquetípica de toda
religião fabricada: (1) um episódio gerador de culpa que não produz
arrependimento genuíno, mas temor ritualístico; (2) a utilização de recursos
materiais para a construção de uma devoção substitutiva; (3) a adoção de formas
externas de religião legítima privadas de seu fundamento revelacional; (4) a
incorporação de elementos heterodoxos sem percepção do conflito doutrinário; e
(5) a nomeação de líderes pela conveniência relacional, não pela qualificação
bíblica.
Esta estrutura não é exclusiva da antiguidade. O leitor
atento a reconhecerá nos movimentos religiosos de todos os séculos, e
especialmente nos fenômenos contemporâneos que caracterizam o cristianismo
pós-moderno. A pergunta teológica central não é: "Mica era
sincero?" — certamente o era. A pergunta é: "A sinceridade é,
por si só, critério de validade religiosa?" A narrativa de Juízes 17
responde com eloquência: não.
SEÇÃO III
O Levita Assalariado:
Legitimidade pela Conveniência
O
segundo ato da narrativa introduz um personagem que completa a anatomia do
micaísmo: um jovem levita de Belém de Judá, que perambulava à procura de lugar
onde habitar (Jz 17:8). Mica, ao recebê-lo,
vislumbra uma oportunidade única: a possibilidade de conferir à sua religião
doméstica a credencial de legitimidade que faltava.
A proposta de Mica ao Levita é economicamente objetiva:
habitação, sustento, dez moedas de prata por ano e uma roupa (Jz
17:10). O Levita aceita. A partir desse momento, o micaísmo possui
todos os elementos de uma religião funcional: ídolos (Jz
17:4), liturgia (Jz 17:5), espaço
sagrado (Jz 17:5), sacerdote de linhagem
legítima (Jz 17:12) e um fundador que se crê
abençoado por Deus (Jz 17:13).
Então Mica disse: Agora sei que o Senhor me fará
bem, pois um levita me é sacerdote.
— Juízes 17:13
Esta frase é uma das mais reveladoras de toda a Escritura no
que concerne à psicologia da religiosidade fabricada. Mica interpreta a
presença providencial do Levita como confirmação divina de seu projeto. A
lógica é a seguinte: se Deus me enviou um sacerdote legítimo, então Deus aprova
minha religião. É o mesmo mecanismo pelo qual tantos fundadores de movimentos
heterodoxos interpretam circunstâncias favoráveis — crescimento numérico,
prosperidade financeira, fenômenos emocionais — como sinal inequívoco de
aprovação celeste.
A teologia reformada tem um nome para esse mecanismo: providencialismo
manipulado — a tendência de utilizar os eventos da Providência como
argumento em favor de decisões que não encontram respaldo na Palavra revelada.
O problema é que a Providência, por si só, não é norma de doutrina ou prática.
"Há caminhos que parecem direitos ao homem, mas o fim deles são os
caminhos da morte"(Pv 14:12). O fato de
as coisas parecerem funcionar não é prova de que Deus as aprova.
O
Sacerdote Mercenário
O caráter do Levita é igualmente revelador. Ele não age
movido por vocação sacerdotal ou fidelidade teológica, mas por conveniência
econômica. Quando os danitas, mais adiante, lhe oferecem uma oportunidade ainda
mais lucrativa — ser sacerdote de uma tribo inteira em vez de um único lar —
ele parte sem hesitação (Jz 18:19-20). O
narrador acrescenta um detalhe mordaz: "o coração do levita ficou
alegre"(Jz 18:20). A alegria do sacerdote
mercenário é proporcional ao tamanho do mercado, não à fidelidade da mensagem.
A história do sacerdócio assalariado não envelheceu. Em toda
geração surgem homens e mulheres que emprestam o capital simbólico de uma
ordenação — formal ou informal — a projetos religiosos cujos fundamentos não
examinam criticamente, desde que a remuneração e o prestígio sejam
satisfatórios. A cumplicidade do clero é, em muitos casos, o que confere à
religião fabricada o verniz de respeitabilidade necessário para sua
proliferação.
“
Aquele que conhece a doutrina e cala por conveniência é tão
culpado quanto aquele que ensina o erro por ignorância; pois o silêncio
conivente e a proclamação equivocada produzem o mesmo resultado: a formação de
almas mal instruídas.
— C. J.
Jacinto
SEÇÃO IV
A Adoração Estranha e o
Paralelo com Nadabe e Abiú
Para
avaliar a dimensão teológica do micaísmo, é necessário confrontá-lo com uma
narrativa paralela, de peso ainda mais dramático: o episódio de Nadabe e Abiú
registrado em Levítico 10. Os dois filhos de Aarão "ofereceram diante do
Senhor fogo estranho, que ele não lhes havia ordenado"(Lv
10:1), e morreram imediatamente pela intervenção direta da
santidade divina. O princípio teológico ali revelado é fundamental: na
adoração, a não autorização equivale à proibição.
Mica não transgride a lei por má-fé consciente, mas por
ignorância cultivada — e a ignorância, na teologia bíblica, não é circunstância
atenuante quando os meios de instrução estavam disponíveis. O texto pressupõe
que existia uma lei revelada, um sacerdócio instituído e um santuário
estabelecido em Siló (Jz 18:31; Js 18:1). Mica
simplesmente escolheu não recorrer a nada disso. Preferiu a religião à sua
própria imagem.
Tomou Nadabe e Abiú, filhos de Arão, cada um o
seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre ele puseram incenso, e ofereceram
perante o Senhor fogo estranho, que ele não lhes havia ordenado. Então saiu
fogo da presença do Senhor, e os consumiu; e morreram perante o Senhor.
— Levítico 10:1-2
A diferença entre Nadabe e Abiú, de um lado, e Mica, de
outro, é menos uma diferença de intenção e mais uma diferença de contexto
histórico. Nadabe e Abiú agiram num momento em que a santidade do santuário
havia sido recém-declarada e o padrão divino de adoração acabara de ser
estabelecido — daí a resposta imediata e fulminante. Mica age num período de
profundo colapso espiritual, em que a ausência de palavra profética e de
liderança sacerdotal fiel criou um vácuo que a religiosidade popular tratou de
preencher. Em ambos os casos, o princípio permanece: Deus não se agrada de
adoração que ele não ordenou.
Este princípio — chamado pelos reformados de regra
regulativa da adoração — afirma que na adoração pública a Deus somente é
lícito aquilo que a Escritura positivamente prescreve ou implica. A inversão
desse princípio, segundo a qual tudo é permitido exceto o que é explicitamente
proibido, é precisamente a que governa o micaísmo em todas as suas formas
históricas e contemporâneas.
SEÇÃO V
Os Danitas e o Colapso
Final do Micaísmo
O
capítulo 18 de Juízes narra o episódio final e devastador: a tribo de Dã, em
migração para um novo território, passa pela casa de Mica, descobre sua
religião, rouba seus ídolos, seus utensílios litúrgicos e, com uma persuasão
surpreendentemente fácil, convence o próprio Levita a acompanhá-los (Jz
18:18-20). Mica chega a protestar, mas sua queixa é melancólica e
impotente: "Vós me tirastes os deuses que eu havia feito, e o sacerdote, e
fostes embora"(Jz 18:24).
A resposta dos danitas é de uma brutalidade despreocupada:
"Que tens tu?" — e seguem em frente. O colapso do micaísmo é tão
rápido quanto foi a sua construção. Uma religião que se ergueu sobre o dinheiro
roubado, sobre ídolos fundidos, sobre um sacerdote assalariado e sobre a
autoatribuição do favor divino — não tem espessura suficiente para resistir à
primeira pressão que encontra.
O paradoxo iluminador do episódio danita é que os saqueadores
da religião de Mica são tão micaístas quanto ele. Não buscam a verdadeira
adoração — buscam instrumentos religiosos que legitimem sua conquista. A
religião, para eles, é um ativo estratégico, um capital simbólico útil para a
consolidação do poder territorial. A diferença entre Mica e os danitas não é
teológica; é apenas de escala e de poder.
A
religião que foi construída pela conveniência será destruída pela conveniência.
O narrador, com a ironia sóbria que caracteriza a
historiografia deuteronomística, registra o epílogo: os danitas estabelecem os
ídolos roubados em Dã e o neto de Moisés — Jônatas — e seus filhos exercem o
sacerdócio desta religião idólatra até o dia do cativeiro (Jz
18:30-31). A linhagem sacerdotal mais nobre do Israel bíblico termina
servindo a uma religião que deveria ter combatido. É o retrato definitivo do
que ocorre quando o talento, a linhagem e a credencial são postos a serviço da
conveniência em vez da verdade.
SEÇÃO VI
O Micaísmo
Contemporâneo: Anatomia de uma Heresia Perpétua
A
história de Mica não pertence apenas ao século XII antes de Cristo. Ela é a
narrativa fundante de uma tradição religiosa que nunca deixou de existir e que,
em nossos dias, alcançou proporções históricas. O micaísmo contemporâneo é
sofisticado onde o original era rústico, tecnológico onde o antigo era
artesanal, global onde o bíblico era local — mas a estrutura é a mesma.
Os
Ingredientes do Micaísmo Moderno
Os fundadores de religiões sincréticas e movimentos
heterodoxos contemporâneos — muitos dos quais se denominam cristãos — seguem,
com variações estéticas, a receita de Mica: tomam emprestados elementos do
cristianismo bíblico, a que mesclam doses variáveis de misticismo medieval,
gnose da Nova Era, espiritualismo pagão, psicologia humanista, filosofia pop e
a gramática do bem-estar material. O resultado é embalado na estética das
palavras suaves, na emotividade dos cultos contemporâneos e no pragmatismo dos
resultados mensuráveis (cf. Cl 2:8; 2 Tm 4:3-4).
O fenômeno não é aleatório. Paulo o descreveu com precisão
profética em sua segunda carta a Timóteo: "Virá tempo em que não
suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si
doutores conforme as suas próprias concupiscências, e se desviarão da verdade
às fábulas"(2 Tm 4:3-4). A
"comichão nos ouvidos" é a metáfora perfeita para a demanda do
mercado religioso contemporâneo: não a pregação que converte e santifica, mas a
mensagem que satisfaz, consola e valida — a adoração ao gosto do consumidor.
Porque virá tempo em que não suportarão a sã
doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme
as suas próprias concupiscências, e se desviarão da verdade e se voltarão para
as fábulas.
— 2 Timóteo 4:3-4
A
Marca Registrada: O Favor Autoatribuído
A característica mais duradoura do micaísmo — em todos os
seus avatares históricos — é a autoatribuição do favor divino. Mica declara:
"Agora sei que o Senhor me fará bem"(Jz
17:13). Os micaístas modernos declaram o mesmo em linguagem
atualizada: "Deus está neste lugar", "o Senhor me
confirmou", "o Espírito desceu sobre nós". A declaração de
aprovação divina substitui o exame escriturístico da doutrina. O que é sentido
e experimentado é ipso facto verdadeiro; o que é provado pela Escritura — mas
incomoda — é ignorado ou reinterpretado.
Isto é precisamente o que o apóstolo Paulo temia ao escrever
aos gálatas: a possibilidade de que uma mensagem emocionalmente convincente,
culturalmente atraente e experiencialmente satisfatória pudesse deslocar o
evangelho apostólico. Sua resposta foi severa: "Mas, ainda que nós ou um
anjo vindo do céu vos pregue evangelho que difira do que já vos pregamos, seja
anátema"(Gl 1:8). A autoridade do evangelho
não deriva da identidade ou credencial do pregador, nem da intensidade da
experiência espiritual que o acompanha — mas da conformidade com a Palavra já
revelada.
O
Paralelo com Jeroboão: O Micaísmo de Estado
O micaísmo não é apenas um fenômeno individual; pode
tornar-se estrutural. O Rei Jeroboão, ao criar os bezerros de ouro em Betel e
em Dã, reproduziu o modelo micaísta em escala nacional: os ídolos presentes (1
Rs 12:28), o sacerdócio não-levítico (1
Rs 12:31), a liturgia modificada (1 Rs 12:32-33) e a
convicção — ou ao menos a retórica — de que esta era adoração ao mesmo Deus.
"Eis aqui os teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito"(1
Rs 12:28b). A fórmula idêntica à do Êxodo áureo (Êx
32:4) é usada para legitimar o que é fundamentalmente diferente. O
vocabulário tradicional a serviço de uma doutrina nova — esta é a tecnologia do
micaísmo em todas as épocas.
“
O sincretismo religioso raramente se apresenta com o nome que
merece. Chega vestido com a linguagem da tradição, emprestando o vocabulário do
sagrado para descrever o que é, em sua substância, uma outra coisa. É
exatamente por isso que exige da Igreja não apenas piedade, mas erudição — não
apenas fervor, mas discernimento.
— C. J.
Jacinto
SEÇÃO VII
O Antídoto: Sola
Scriptura e a Regra Apostólica
Se
o micaísmo é a religião do arbítrio humano em matéria de adoração — "cada
um fazia o que era reto aos seus próprios olhos"(Jz
17:6) —, o antídoto é o princípio oposto: a soberania da Palavra
revelada como norma suprema e suficiente de fé e prática. Este é o coração do
princípio da Sola Scriptura da Reforma Protestante — não a interpretação
privada ilimitada, mas o reconhecimento de que a Escritura, interpretada
gramaticalmente, historicamente e canonicamente, é o juiz final de toda
doutrina e adoração.
O apóstolo Paulo, ao exortar a seu filho na fé, articula esse
princípio com precisão: "Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro
que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade"(2
Tm 2:15). O verbo grego ὀρθοτομέω — traduzido aqui como
"manejar bem" ou "cortar reto" — sugere a imagem do artesão
que trabalha com precisão, sem torcer, sem distorcer, sem adaptar o material à
conveniência. Manejar bem a Palavra é o oposto absoluto de fazer dela uma
"colcha de retalhos" a serviço das próprias opiniões.
O profeta Isaías havia enunciado o mesmo princípio séculos
antes: "Ao ensino e ao testemunho! Se não disserem conforme esta palavra,
nunca verão a alvorada"(Is 8:20). A
Escritura é o critério, não a experiência subjetiva, não o crescimento
numérico, não a eloquência do pregador, não a intensidade do fenômeno
emocional. Toda proclamação, toda doutrina, toda forma de adoração que não se
submete a esse crivo é, em maior ou menor grau, micaísmo.
Procura apresentar-te a Deus aprovado, como
obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.
— 2 Timóteo 2:15
Isso não significa que a vida cristã seja reduzida a uma
árida conformidade intelectual com proposições doutrinais. A Reforma jamais
pregou isso. Significa, antes, que a experiência espiritual autêntica — a
emoção legítima, o fervor genuíno, o encontro real com Deus — é aquela que a
Palavra produz, não aquela que a Palavra apenas decora. Há uma diferença
fundamental entre a emoção que nasce da contemplação da glória de Deus tal como
revelada nas Escrituras e a emoção que é artificialmente induzida por técnicas
de manipulação emocional revestidas de linguagem religiosa.
✦ ✦ ✦
CONCLUSÃO
Mica, o Espelho e o
Chamado ao Discernimento
A
história de Mica não termina bem. Ele perde o que construiu — seus ídolos, seu
sacerdote, sua religião — para homens mais poderosos e mais sem escrúpulos do
que ele. É o destino natural de toda religião construída sobre fundamentos
humanos: a conveniência que a ergueu é a mesma força que a destrói.
O valor permanente dessa narrativa é o de um espelho. Ela nos
convida a examinar os fundamentos da nossa própria devoção: ela nasce da
Palavra ou da conveniência? É ordenada por Deus ou inventada por nós? O sacerdote
que a sustenta o faz por vocação ou por salário? O favor divino que proclamamos
é atestado pela Escritura ou autoatribuído por experiências que julgamos
convenientes?
A Igreja em toda época precisa do duplo chamado que o
episódio de Juízes 17–18 silenciosamente formula: o chamado ao conhecimento
— porque a ignorância das Escrituras é o solo em que o micaísmo sempre
germinará; e o chamado ao discernimento — porque nem tudo que se
apresenta sob o nome de Cristo é da parte de Cristo. "Amados, não creiais
em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus; porque muitos falsos
profetas têm saído pelo mundo"(1 Jo 4:1).
Mica é um retrato perturbador porque é um retrato familiar.
Reconhecemo-lo não apenas nas manchetes religiosas do nosso tempo, mas nos
impulsos da nossa própria alma — na tendência humana, profundamente enraizada,
de construir o sagrado à nossa imagem em vez de nos deixarmos transformar à
imagem do sagrado. O antídoto não está na nossa sofisticação teológica, mas na nossa
submissão ao Deus que fala. "Ao ensino e ao
testemunho."
✦
Referências
Bíblicas Citadas
Juízes 17–18 Narrativa de
Mica e os Danitas — texto base da análise.
Juízes 17:6 "Cada um
fazia o que era reto aos seus próprios olhos" — contexto moral da época.
Êxodo 20:4 Proibição do
segundo mandamento: não farás imagem de escultura.
Êxodo 28:6-14 Prescrição
detalhada do éfode sacerdotal.
Êxodo 32:4 O episódio do
bezerro de ouro — paralelo ao Jeroboão e ao micaísmo.
Levítico 10:1-2 Nadabe e Abiú —
o julgamento pelo fogo estranho; princípio da adoração não ordenada.
Números 3:10; 18:7 Exclusividade
sacerdotal da linhagem aaronita.
Deuteronômio 7:25-26 Proibição de
consagrar objetos provenientes de fontes moralmente contaminadas.
1 Samuel 15:23 "A
rebeldia é como o pecado da adivinhação" — condenação dos terafins.
1 Reis 12:28-33 Jeroboão e os
bezerros de ouro — o micaísmo em escala de Estado.
Provérbios 14:12 "Há
caminho que parece direito ao homem, mas o fim dele são os caminhos da
morte."
Isaías 8:20 "Ao ensino
e ao testemunho!" — a Escritura como critério de discernimento.
Mateus 15:9 "Em vão me
adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens."
Gálatas 1:8 Anátema sobre
qualquer evangelho diferente do apostólico.
Colossenses 2:8 Cautela contra
a filosofia e a tradição dos homens.
2 Timóteo 2:15 O obreiro que
maneja bem a palavra da verdade.
2 Timóteo 3:16-17 Toda Escritura
inspirada — suficiência do cânon.
2 Timóteo 4:3-4 A comichão nos
ouvidos — descrição profética do micaísmo contemporâneo.
1 João 4:1 "Provai os
espíritos, se são de Deus" — chamado ao discernimento.
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