A Igreja é um negócio
Comecemos pelos
marqueteiros que saíram de moda nos anos 90, mas que se transformaram na
“igreja atrativa” no início dos anos 2000.
Na década de 1970, os
empresários de espírito empresarial tornaram-se os líderes do evangelicalismo,
substituindo a primeira geração de líderes, que estavam mais no molde do
pastor-teólogo. Na década de 1980, a esmagadora maioria das organizações
religiosas na América era evangélica.
Ao longo das últimas sete
décadas, organizações paraeclesiásticas como estas têm servido a causa
evangélica de formas surpreendentes e benéficas. De fato, quando a igreja
tropeçou, foi muitas vezes uma organização paraeclesiástica que surgiu para
fazer o que a igreja não estava conseguindo fazer. Nos primeiros anos do
pós-guerra, essas organizações estavam fora das igrejas em termos
organizacionais, mas viviam dentro da igreja em termos funcionais. Elas viviam
para fortalecer a vida das igrejas. Muitas vezes estavam fazendo coisas que as
igrejas individuais não podiam fazer. E certamente não era tão comum antes como
se tornou mais tarde que essas organizações paraeclesiásticas se tornassem
empreendimentos privados.
Na década de 1980, porém,
muitos evangélicos começaram a pensar em toda a fé evangélica em termos para.
Esse foi o desvio marcante que aconteceu nessa época. Isso, é claro, andou de
mãos dadas com um interesse cada vez menor na doutrina bíblica. À medida que a
doutrina diminuía, a igreja se emancipava. Ela começou a assumir formas que as
estruturas doutrinárias anteriores não teriam permitido.
As igrejas mais
tradicionais não foram atacadas—pelo menos não inicialmente. Mas o
evangelicalismo começou a pensar em si mesmo como significativamente separado
da igreja local. Isso não era simplesmente uma questão de organização. Era uma
questão de atitude.
E este sentimento só se
acelerou quando os marqueteiros começaram a exercer seus negócios nas décadas
de 1980 e 1990. As tradições passadas de crença, a arquitetura distinta da
igreja, a linguagem doutrinária e as formalidades da vida tradicional da igreja
pareciam ser uma bagagem que precisava de ser eliminada o mais rapidamente
possível. De repente, estava tornando-se um embaraço. Este era o maior
impedimento para o sucesso. E o sucesso é o objetivo que qualquer
empreendimento empresarial busca alcançar.
Mas, juntamente com estas
mudanças, veio outra coisa. Enquanto anteriormente as igrejas tinham sido um
ponto focal para os crentes cristãos, agora perderam essa importância. Por mais
improvável que pareça, muitas igrejas, de certa forma, começaram a desaparecer.
Começaram a desvanecer-se no fundo da vida das pessoas.
Os líderes deste
empreendimento de marketing compreenderam que estavam num mercado e que os
clientes religiosos têm escolhas. No entanto, as opções que começaram a ser
oferecidas pela concorrência eram todas no sentido de não ser religiosa
[churchy]. Esta nova direção foi fortemente reforçada pelo aparecimento de ministérios
televisivos, especialmente na década de 1980, para não falar da disponibilidade
generalizada de vídeos religiosos e, depois, de streaming on-line. A vida da
igreja perdeu importância para muitas pessoas, quanto mais não seja porque ao
domingo de manhã podiam, e muitas vezes faziam-no, “ir à igreja” na sua sala de
estar, em frente do televisor ou on-line. Nos últimos trinta anos, as
estatísticas sobre a frequência regular das igrejas refletiram toda esta
mudança. O evangelicalismo estava tornando-se ‘para-’ em termos de mentalidade,
e a igreja local estava prestes a tornar-se a sua principal vítima.
Este truque de
desaparecimento nunca teria sido possível se os evangélicos ainda estivessem
pensando em termos doutrinários. Mas não estavam.
A verdade é que, sem uma
compreensão bíblica da razão pela qual Deus instituiu a igreja, esta facilmente
se torna um risco num mercado onde compete apenas com a maior das dificuldades
com a oferta religiosa disponível na tela do computador. Já para não falar de
todos os outros gêneros produzidos com proficiência e brio que também estão
disponíveis! E a maior parte não tem nada a ver com a fé cristã. Como é que a
igreja pode competir com tudo isto, a não ser que tenha um objetivo
completamente diferente? Isto é especialmente verdade numa cultura que se quer
distrair ou entreter.
Esta experiência de
marketing tinha como objetivo fortalecer a igreja local, torná-la mais
competitiva e, de fato, atraente. Mas acabou, sobretudo, por destruir a igreja
local. Essa é a ironia.
O constante bombardeamento
cultural do individualismo, na ausência de uma teologia sólida, fez com que a
fé, que antes tinha sido corretamente entendida como pessoal, se tornasse
meramente individualista. Estava centrada em si própria e orientada para o consumo.
Era uma fé em busca de conforto e segurança no meio de todas as ansiedades
criadas pela vida moderna. Mas esse conforto e essa segurança estavam todos
relacionados com o mundo interior privado. Mais do que isso, tratava-se de
terapia e raramente da verdade. Foi esta a mudança com que os marqueteiros da
igreja se sintonizaram. Em vez de verem esta viragem internamente, esta ânsia
de terapia, como uma fraqueza a que se deve resistir, usaram-na como uma
oportunidade a explorar. Cada vez mais, a fé evangélica foi libertada de
qualquer ligação com o passado, de qualquer consideração exceto o eu, e foi
imbuída de nenhum outro objetivo pelos pastores envolvidos neste empreendimento
que não fosse o sucesso empresarial. Ao libertar-se assim, a experiência evangélica
tornou-se cada vez mais cultural, cada vez mais vazia, cada vez mais
superficial e cada vez mais irrelevante no mundo moderno. Afinal, o que é que
ela tinha realmente para oferecer?
Tudo isso foi sintetizado
por Bill Hybels na Willow Creek Community Church, que começou em 1975. Mas
Hybels fez uma descoberta surpreendente depois de ter estado no negócio durante
algum tempo. Usando uma ferramenta do mundo da consultoria empresarial, mais de
11.000 membros antigos e atuais da Willow Creek, que ele fundou, foram
inquiridos em 2004 e novamente em 2007. O inquérito incluiu seis outras
igrejas. Os resultados foram publicados no livro Reveal: Where Are You? em
2007.
Hybels ficou chocado ao
descobrir que não havia correlação entre o número crescente de pessoas que ele
via em Willow Creek e a evidência de que estavam amadurecendo na fé. De fato, a
frequência da igreja tinha pouco impacto no seu amor a Deus e aos outros. Pelo
menos, foi o que eles disseram. Hybels concluiu que a igreja tinha tido um
papel importante para muitos no início da sua vida espiritual, mas que essa
importância foi diminuindo à medida que avançavam. A igreja, afinal, era um
lugar para começar, mas não um lugar para permanecer.
Foi, a meu ver, uma
descoberta devastadora. A experiência de Hybels estava produzindo pigmeus, a
não ser que eles tomassem o assunto nas suas próprias mãos e procurassem
crescer sem a ajuda da igreja. Mas será que estamos surpreendidos? Quem poderia
imaginar seriamente que o tipo de abordagem empresarial elegante, a mentalidade
de “deixe-nos encaixar a nossa mensagem na sua agenda cheia”, teria produzido
outra coisa? É claro que o cristianismo que resulta deste tipo de coisas vai
ser pequeno, encolhido, apertado e limitado. Não será capaz de comandar a forma
como a vida deve ser vivida no nosso mundo complexo, duro e altamente exigente.
É sempre este o problema
neste tipo de experiências. A forma modifica muito o conteúdo. A música pode
ser profissional, as cerimônias convenientemente curtas, os esquetes e as peças
de teatro sempre muito profissionais, mas esta forma diminui de fato a
seriedade da fé. Neste mundo do marketing, a forma é, evidentemente, o produto,
praticamente o único produto. O “produto” não é realmente a fé. É a embalagem
em que essa fé é supostamente apresentada. Mas a forma substitui o conteúdo ou
o “produto”. Neste mercado, a venda tem de ser feita rapidamente e da forma
menos dolorosa possível, porque os clientes têm comichão nos pés. Isto
prejudica grandemente a profundidade que qualquer igreja pode ter. E é por isso
que se abriu um profundo abismo entre os marqueteiros da igreja e a ortodoxia
protestante histórica. Não é tanto que as verdades desta ortodoxia estivessem
sendo atacadas, mas sim que pareciam ser irrelevantes para a construção da igreja.
Mais do que isso, elas pareciam estar no caminho do seu sucesso.
Não só esta abordagem
começou a dar resultados, como o empreendimento de marketing teve de contar com
o fato de as pessoas estarem ficando aborrecidas com ela. Elas queriam algo
novo. A abordagem de marketing tinha-se tornado convencional no mundo
evangélico americano, pelo que era altura de seguir em frente. Sinceramente,
não há julgamento mais temível do que este: você está agora ultrapassado
[passé]. Isso pesa mais, às vezes penso, do que as palavras que virão do grande
trono branco no fim dos tempos. Imaginem isto! Ultrapassado [Passé].
O que aconteceu não é
muito diferente da forma como a moda migra socialmente e depois perde a sua
atração. Os adeptos da cultura hip-hop, por exemplo, distinguem-se pelos seus
trajes, pelas suas tatuagens, pelos seus piercings, pelas joias, pelos moletons
com capuz, pelos bonés de basebol fora do normal e pelas calças que parecem ter
sido feitas por um alfaiate bêbado. Mas o que acontece quando a classe média—ou,
pior ainda, a meia-idade—começa também a ostentar tatuagens na pele flácida,
deixa as calças descerem até meio das coxas e começa também a usar capuzes? A
resposta, claro, é que a cultura jovem tem uma queixa legítima. Eles foram
roubados! Roubaram-lhes o seu caráter distintivo! O seu prestígio na rua foi
diminuído! É hora de seguirem em frente, em termos de moda. Assim o fazem, e
assim é aqui.
Quando o mundo evangélico
se tornou Willow Creek-zado, o sol começou a pôr-se em Willow Creek. O seu
prestígio foi por água abaixo. Se Willow Creek não podia seguir em frente em
termos de moda, outros que não estavam tão ligados ao seu modo particular de
fazer as coisas podiam.
Foi uma recordação
espantosa de como as modas são inconstantes. Como disse Dean Inge, há um século
atrás, aqueles que hoje estão casados com o espírito da época encontrar-se-ão
viúvos amanhã. O que estou descrevendo é a viuvez da igreja do marketing. O
estado de espírito mudou. Em 2016, de acordo com Barna, apenas 8 por cento da
geração Y disseram que a razão pela qual não iam à igreja era porque a viam
como ultrapassada e obsoleta. Disseram que não encontraram Deus lá (20%), ou
que podiam encontrá-lo noutro lugar (39%), ou que ele não é relevante para eles
(35%), ou que a igreja é simplesmente tediosa (31%).
Mas, de certa forma, um
pouco de castigo também se instalou no seio da igreja. Não é que os pastores
que tinham observado todo o sucesso do marketing com um pouco de admiração,
talvez até com um pouco de inveja, quisessem mudar completamente de direção.
Tornar a igreja apelativa para a sua clientela continuava a ser um objetivo,
mas as formas de o fazer tornaram-se menos descaradas e mais contidas. Os
marqueteiros transformaram-se agora em defensores da igreja atrativa. E essa
transição coincidiu com uma constatação bastante surpreendente. Esta foi a de
que a cristandade acabou.
WELLS, David F. The Courage to be Protestant:
Reformation faith in today’s world. 2 ed., Wm. B. Eerdmans Publishing Co.,
Grand Rapids: Michigan. 2017. Edição Kindle.
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Tradução: Nathan Cazé