Buscando Uma Teologia Sólida em Meio a Uma Sociedade Liquida


Buscando Uma Teologia Sólida em Meio a Uma Sociedade Liquida

 




C. J. Jacinto

 

 

Qual é o grande desafio da nossa época? Vivenciamos uma era de pós-modernidade, e alguns até sugerem que agora estamos a viver uma era pós-cristã. Na verdade, o que se tem perdido é o conceito de sola scriptura. A importância da Bíblia Sagrada tem sido muito, mas muito minimizada.  Muitas pessoas estão simplesmente a substituir a Bíblia Sagrada por experiências místicas. De outra forma, a desvalorização das Escrituras Sagradas tem sido uma característica dentro de muitos púlpitos modernos. Aquela teologia sólida, pela qual é caracterizada toda uma geração de homens de Deus do passado, parece não ter mais nenhuma importância, a não ser para poucas pessoas que ainda buscam, nos escritores antigos, um alimento espiritual sólido pelo qual podem fundamentar as suas convicções pessoais. 
​Estamos a viver uma época de crise: de crise de identidade e, acima de tudo, uma crise de amor e compromisso de estudo e de leitura das Sagradas Escrituras e de uma aceitação dela como inerente e infalível palavra de Deus.  A questão de ignorar as Escrituras não é nova; Jesus combate isso.  No capítulo 22, versículo 29, do livro de Mateus, quando está confrontando os saduceus em uma questão fundamental acerca da doutrina da ressurreição, Jesus dirige as Suas palavras aos saduceus e diz: 'Errais, por não conheceres as Escrituras. Ora, sem um conhecimento adequado e suficiente das Escrituras, jamais poderemos realmente fazer a vontade de Deus. A maior parte das pessoas está errando — mesmo aquelas que se dizem cristãs —, pois não estão indo para a Bíblia todos os dias, não estão abrindo o Antigo e o Novo Testamento para lê-los, para estudá-los, para mergulhar a sua inteligência e o seu coração na Palavra de Deus.  Essa crise também se estende a muitos púlpitos, pois, de certa forma, hoje nós temos um evangelho praticamente diluído: diluído com psicologia, diluído com autoestima, diluído com todas as formas de filosofia. E essa diluição apenas faz com que o evangelho se enfraqueça. Na verdade, vivemos tempos difíceis, tão difíceis que pregar a verdade do evangelho pode ser motivo de afronta, de insulto para muitas pessoas que estão sentando no banco da igreja e se consideram cristãs. Tal é a crise que nós enfrentamos hoje: que a própria verdade do evangelho ofende muitos evangélicos Errar, por não conhecer a Escritura, já é por si mesmo uma grande tragédia e faz lembrar de outra, ainda pior, consequência dessa primeira: em Oséias, capítulo 4, versículo 6, onde o profeta diz que o meu povo está sendo destruído por falta de conhecimento. Que grande tragédia! Sem conhecimento espiritual, sem uma teologia sólida, sem a pregação, preservação e defesa da sã doutrina, não temos como ter conhecimento espiritual; pelo contrário, o que teremos é cegueira — cegueira profunda. E dessa cegueira vem o abismo, e desse abismo, a destruição. É o que nós estamos vivendo em muitas áreas do Cristianismo hoje em dia. Infelizmente, hoje em dia, palavras como teologia se tornaram palavras de conotação praticamente negativa, associada em ambientes acadêmicos ou à frieza espiritual e falta de espiritualidade.  Portanto, o interesse pelo estudo da teologia foi praticamente abolido no contexto de muitas igrejas e muitas denominações. Há quem diga: 'Bíblia sim, teologia não', imaginando que seriam realidades excludentes ou até mesmo opostas. Mas, todavia, o termo teologia vem da palavra logos e theos. A palavra logos significa discurso e a palavra theos, Deus; portanto, um discurso para o conhecimento de Deus.  Essa é a questão principal: quando você tem uma formação teológica de maneira que conhece bem as doutrinas fundamentais da palavra de Deus e a isso tem o exercício de uma vida de piedade, você se torna um homem que vai subir em cima do púlpito e não vai pregar nenhum tipo de equivoco.  Da mesma forma, todo aquele que tem uma formação espiritual de piedade e um conhecimento teológico, bíblico e teológico, quando ele estiver sentado no banco de uma igreja, ele não será enganado por falsos profetas que distorcem a palavra de Deus e promovem suas heresias. De modo que a teologia, ela é sim, importantíssima e fundamental para o nosso tempo. O desafio para os nossos dias é desenvolver uma compreensão teológica profunda, de tal maneira que, em seu contexto vivencial, os princípios eternos e imutáveis da Palavra de Deus possam ser experimentados, aplicados e difundidos em toda a sua plenitude. Pois, de outra forma, se não estivermos edificados sobre a Palavra de Deus, a decadência espiritual será inevitável. A questão mais lógica acerca desse assunto é que nós precisamos de teologia, nós precisamos de conhecimento bíblico organizado e nós precisamos de um conhecimento teológico sistemático para que possamos compreender de fato a natureza da revelação divina e compreender a Bíblia em profundidade. Podemos observar, pela própria história da Igreja, que os grandes movimentos de reforma tiveram como base pessoas que possuíam uma formação acadêmica e teologicamente sólida. De modo que a espiritualidade verdadeira está sempre associada à sã doutrina e a um conhecimento bíblico equilibrado.  Isso é de grande importância de ser compreendido, pois vivemos um momento em que a Igreja já tem mais de 2.000 anos de existência, e, ao abriremos a página da história, notamos que os grandes homens que fizeram com que a teologia e o conhecimento espiritual chegassem até os nossos dias foram homens que tiveram uma formação bíblica e espiritual profunda. Portanto, seu legado nunca pode ser considerado superficial, e nós também não devemos, de maneira nenhuma, ser cristãos de conhecimento superficial. Nós devemos subordinar todo o nosso conhecimento ao conhecimento de Deus de forma prática. A práxis espiritual deve ser uma realidade em nossa vida. Isso é crescimento espiritual genuíno e autêntico, não uma ilusão.  Experiências místicas ou opiniões pessoais não nos conduzem ao firmamento da fé; muito pelo contrário, nos levam para um campo religioso subjetivo e ambíguo.  Todavia, quando nós temos conhecimento e esse conhecimento é para a glória de Deus, e quando esse conhecimento nos traz crescimento espiritual, então estamos vivendo uma realidade. E isso se dá de forma distinta em dois pontos cruciais: Primeiro: o estudo bíblico e teológico pessoal.  Segundo: frequentar uma igreja comprometida em ensinar as verdades teológicas e as Escrituras.  Nós precisamos ir em busca do conhecimento espiritual, e a teologia nos ajuda muito; na verdade, ela é essencial para que nós possamos realmente crescer no conhecimento.  Ora, isso é um próprio mandamento do Senhor, tanto do Antigo Testamento quanto do Novo Testamento. Lá no Antigo Testamento, em Oseias, capítulo 6, versículo 6, está escrito: 'Então, conheçamos e prosseguiremos em conhecer ao Senhor'. Em 1 Pedro, capítulo 5, versículo 18 — no Novo Testamento —, temos a ordem: 'Crescei na graça e no conhecimento.  Quando pegamos passagens bíblicas como Hebreus, capítulo 5, versículos 14 e 15, vemos então como é importante que nós tenhamos esse conhecimento. Ali, o autor aos Hebreus fala sobre a busca do alimento sólido, uma teologia substancial, a doutrina real, os fundamentos da fé cristã, para que nós possamos ter os sentidos exercitados para discernir tanto o bem quanto o mal.  De maneira que nós possamos, então, ter o entendimento correto da vontade de Deus para aplicá-la sobre a nossa vida e, acima de tudo, possamos estar protegidos contra falsos profetas, falsos pastores e falsos doutores que se introduzem com heresias de perdição ao se infiltrarem  dentro da igreja, como ocorreu muitas vezes na história da igreja do Novo Testamento, como bem podemos ver de forma muito real nas igrejas da Ásia descritas em Apocalipse 2 e 3". Vivemos em uma época cujo conceito foi descrito pelo sociólogo Zygmunt Bauman como sociedade líquida. 
​A sociedade líquida é a ideia filosófica de que a vida social muda tão rapidamente que relações, instituições e certezas têm dificuldades em permanecer estáveis — ou seja, não há verdades permanentes.  A sociedade líquida propõe ser um sistema que emerge a partir da pós-modernidade e do relativismo moral que subsiste através da pós-modernidade.  Todavia, devemos entender claramente que, para o cristão, o caminho não é uma sociedade líquida, mas uma teologia sólida, onde ele permanece com seus absolutos inegociáveis e inabaláveis.  Pois é assim que a palavra de Deus nos ensina com relação a ela mesma, à sua autoridade e à sua permanência. Jesus disse em Mateus, capítulo 24 e versículo 35: "O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar".  Pedro também corroborou esse pensamento. Lá em 1 Pedro, capítulo 1 e versículo 25, diz que a palavra de Deus permanece para sempre.  A expressão também foi dada pelo salmista no Salmo, capítulo 33 e versículo 11: "O conselho do Senhor permanece para sempre" e também no Salmo, capítulo 119 e versículo 89: "Para sempre, ó Senhor, a tua palavra permanece no céu".  De modo que há, absolutos, que, a partir do momento que estamos dentro de uma espiritualidade que está sendo alimentada pelo alimento sólido da palavra de Deus, uma boa teologia e a sã doutrina, isso permanece, pois é fixado sobre uma rocha, como Jesus Cristo falou em Mateus, no capítulo 7: "Aquele que ouve a minha palavra e a pratica, é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha", ou seja, a firmeza, solidez e permanência. Ora, tentamos de forma muito clara e concluindo que nós, cristãos que temos um alicerce sobre os fundamentos da fé, possamos também clamar como o próprio salmista. No Salmo capítulo 119, versículo 98: “Pelo teus mandamentos me fazes mais sábio". E então, no mesmo capítulo do livro de Salmos, versículo 112, está escrito: "Inclinei o meu coração para guardar os teus mandamentos para sempre". Os valores espirituais do Evangelho e das Escrituras são permanentes. A Igreja está fora da pós-modernidade ou deve lutar para permanecer dentro de valores imutáveis e absolutos. O relativismo não condiz com um cristão bíblico. E assim também, a sociedade líquida, essa sociedade diluída que não tem um ponto fixo, mas que sobrevive à base da relatividade do pós-modernismo, deve ser completamente rejeitada e combatida por todo cristão. 

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