Um apologista cristão proficiente deve exercer discernimento ao analisar a
vasta gama de informações disseminadas nas mídias sociais. É imperativo adotar
uma postura cautelosa, priorizando a integridade e a precisão na comunicação
das informações. A apologética, como disciplina, assume papel crucial na vida
cristã, evidenciado, por exemplo, pela natureza defensiva presente em grande
parte das epístolas paulinas. Adicionalmente, o livro do Apocalipse,
especialmente nos capítulos 2 e 3, oferece exemplos significativos dessa
preocupação com a defesa da fé, através das admoestações de Jesus Cristo sobre
as falhas doutrinárias em diversas igrejas da Ásia. Há informações que carecem
de veracidade e são passíveis de questionamento, não devendo ser incorporadas
ao discurso de defesa da fé. Um exemplo notório reside na utilização do título
papal "Vicarius Filii Dei", que em latim significa "Vigário do
Filho de Deus".
Observa-se, neste caso, a existência de um mito apologético. Trata-se de uma
narrativa complexa na qual, alegadamente, determinados grupos protestantes,
notadamente os adventistas do sétimo dia, seguidores de Ellen White, sustentam
que "Vicarius Filii Dei" é um título oficial do Papa e que a soma dos
valores numéricos das letras latinas que o compõem resultaria no número 666,
associando o papado à besta descrita no Apocalipse. Contudo, essa interpretação
é amplamente controversa.
O título em questão não é um título
oficial do Papa. Ele não figura em documentos magisteriais, bulas papais,
cânones conciliares ou listas oficiais de títulos pontifícios. Os títulos
oficiais do Papa incluem: Episcopus Romanus, Vicarius Christi, Sucessor Petri,
Pontifex Maximus. Alguns deles eu pessoalmente considero completamente
antibiblicos, principalmente o ultimo. A origem de qualquer alegação sobre este
título é, portanto, questionável. A expressão "Vicarius filii Dei"
aparece no documento medieval apócrifo e falso conhecido como Donatio
Constantini (Doação de Constantino), um texto forjado provavelmente no século
VIII, que foi demonstrado como falso pelo humanista Lorenzo Valla em 1440. Nesse
texto, o documento do Donatio Constantini, Lorenzo Valla provou ser falso em
1440, nesse texto, Constantino teria dado ao Papa Silvestre o título vicários
filii dei, como o documento é uma falsificação, seu valor histórico é nulo. O
Vaticano não reconhece esse título, portanto, ele se encontra numa fonte de um
documento falsificado. Não podemos usar um documento falsificado como uma arma
de argumentação para fazer apologia contra o sistema papal. Na realidade, a
disseminação da interpretação específica dessa teoria foi iniciada por Ellen
White, fundadora da Igreja Adventista. White mencionou o título em "A
Grande Controvérsia" em sua obra homônima, publicada em 1888, como suporte
para sua interpretação do Apocalipse 13. A partir de então, essa argumentação
se popularizou entre protestantes. Contudo, a interpretação de Ellen White,
neste ponto, não é considerada precisa. Consequentemente, aqueles que se
baseiam nesse mesmo argumento para criticar o catolicismo, especificamente o
papado, incorrem em equívoco. Embora minha convicção pessoal seja de que o
sistema papal não se alinha com os ensinamentos bíblicos, não devemos empregar
argumentos derivados de uma autora cuja posição teológica é controversa para
sustentar essa crítica. O argumento específico utilizado por ela para defender
sua visão sobre o sistema papal não é, portanto, apropriado.
Portanto, a Igreja Católica refutou essa
afirmação. Historiadores católicos argumentam consistentemente que tal título
papal não é reconhecido, nem nunca foi. Repito, a veracidade desse titulo papal
não pode ser comprovada por documentos da Igreja Católica. Adicionalmente, não
há evidências, nem mesmo da existência dessa suposta Tiara. É lamentável que informações imprecisas,
incorretas e fraudulentas se propaguem pelas redes sociais e outros meios de
comunicação. Sem a devida análise crítica e cautela, corre-se o risco de
reproduzir e disseminar idéias que já foram refutadas, incorrendo em
desonestidade apologética. Recentemente, observei publicações em redes sociais
que atribuíam a Albert Pike a fundação da maçonaria e a ascendência judaica. A
verdade é que Albert Pike não era judeu. Essa alegação, portanto, é utilizada
para fomentar o antissemitismo, valendo-se de argumentos falsos e enganosos. A
palavra de Deus nos exorta a falarmos a verdade (Efésios 4:25) Outros ainda
fazem uso do “Protocolos dos Sabios de Sião” documento falso, muito usado
durante a era nazista na Alemanha para justificar atos de genocídio e o
assassinato de judeus, vejam que carrascos nazistas fizeram uso amplo dos
Protocolos, alegando que os judeus estavam conspirando secretamente para
dominar o mundo.
Como cristãos, comprometidos em defender a fé cristã, devemos tomar cuidado e cautela, e não fazer uso de informações falsas para servir de argumento na defesa da fé, pois isso não é eticamente correto e não presta serviço ao Evangelho.
C. J. Jacinto
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