“Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que, pelo engano dos homens abomináveis, sejais juntamente arrebatados, e descaiais da vossa firmeza” (II Pedro 3:17)
No livro "Mentalidade Cristã - O Posicionamento do Cristão em uma Sociedade Não Cristã", John Stott argumentou que a abordagem mais adequada e coerente com os princípios cristãos para as complexas questões da atualidade reside no cultivo de uma mente cristã. Essa mente, imbuída dos pressupostos fundamentais das Escrituras e plenamente informada pela verdade bíblica, é a única capaz de deliberar com integridade cristã sobre os desafios do mundo contemporâneo.
Uma reflexão sobre o postura do profeta Daniel evoca também a memória de José como lições profundas acerca de como ele manteve suas convicções pessoais no Egito e também vem a lembrança de Elias, em meio à apostasia de sua época. Considero ainda a Igreja Cristã primitiva, especialmente a Igreja descrita em Atos dos Apóstolos. Paulo e Pedro, entre outros, são figuras que me vêm à mente. Esses homens notáveis confrontaram a cultura e as tendências de seus tempos, enfrentando com coragem os desafios que ameaçavam a fé cristã na sua época.
Diante do contexto de oposição e perseguição enfrentado pelos apóstolos e profetas, em uma sociedade que rejeitava os princípios bíblicos e levava muitos à morte, observamos a declaração de um deles, registrada em Atos, capítulo 5, versículo 29: "Importa obedecer a Deus antes que aos homens". Creio que, frente aos desafios atuais, cada um de nós precisará reapropriar-se desta passagem, utilizando-a como resposta firme e constante quando confrontados a comprometer nossa fé e fidelidade a Deus em favor de ideologias ou do Estado.
No livro
"Passaporte 2030", Guilherme Fiúza aborda a ascensão do
"totalitarismo frouxo". A expressão, em si, requer uma análise mais
aprofundada para sua completa compreensão. Contudo, pode-se hipotetizar que a idéia
central se assemelhe à previsão de Aldous Huxley sobre um tempo em que a
sociedade e seus indivíduos estariam aprisionados em uma "prisão sem
grades".
Sob essa ótica, o "totalitarismo frouxo" descreveria um processo de
estabelecimento do poder progressivo e sutil, quase imperceptível.
Diferentemente da ascensão abrupta de regimes totalitários do passado, como o
de Hitler na Alemanha, que se consolidaram rapidamente e com notória violência,
o "totalitarismo frouxo" se manifestaria de forma gradual e lenta
,quase imperceptível seguindo padrões de adaptações psicológicas, fazer com que
a sociedade se acostume coma inversão de valores.
Essa dinâmica poderia conduzir a um cenário em que, sem percebermos, nos confrontaríamos com desafios relacionados à nossa fé e convicções. Poderíamos ser compelidos a negar nossos valores e crenças ou a defendê-los, mesmo que isso implicasse em sofrimentos, perdas financeiras ou, em casos extremos, até a morte. Talvez estejamos caminhando para isso, todos os sinais são evidentes!
Diante da inegabilidade dos fatos, vislumbra-se um embate de natureza espiritual, que em sua essência, constitui uma guerra espiritual. Observamos, na atualidade, um processo de reconfiguração social com viés contrário aos princípios cristãos.
Um imperialismo ideológico, caracterizado pela intolerância aos valores judaico-cristãos, é implementado em nossa sociedade. Tal ideal, em verdade, representa um projeto de desconstrução radical dos valores evangélicos e cristãos, buscando a aniquilação do bom senso, da individualidade, da sensatez e dos princípios éticos e morais que sustentam a estrutura tradicional da sociedade, nesse contexto totalitarista, a ciência e a ideologia podem andar em sentido contrario, mas esse paradoxo é amenizado pelo relativismo. A verdade não estaria na realidade perpétua, mas na circunstância do contexto do individuo.
Essa redução
da verdade, tornando-a elástica e plural, culminando num paradoxo de ideologia,
resulta na subjetivação do conhecimento. Tais nuances remetem à obra
"1984", de George Orwell, onde se descreve uma sociedade com valores
invertidos: guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força. Inversão
de valores, aceitas silnciosamente por causa da pressão de uma liderança
unilateral que não aceita quem pense o oposto. A realidade torna-se abstrata, o
conceito da verdade é estabelecido pela filosofia do subjetivismo do “grande
Irmão”.
Recordando a frase de Santo Agostinho,
"Este é o nosso preço, estarmos sujeitos à verdade", percebemos que,
como outrora, devemos, também, arcar com o preço que a verdade vale. Para o
cristão bíblico, a manutenção da ortodoxia e dos fundamentos da fé representa
um desafio frente ao movimento de desconstrução que se manifesta na sociedade.
Como podemos apreender o conceito de objetos concretos, fatos e verdades absolutas na perspectiva pós-moderna? A resposta parece residir na fragmentação inerente a essa corrente de pensamento, que questiona a própria noção de verdade objetiva. A verdade, nesse contexto, perde sua pretensão de universalidade e se torna relativa à experiência individual, às convenções sociais e aos contextos culturais. Em uma sociedade onde a desconstrução equivale a determinar tudo pelo relativismo, perde-se o rumo com relação a determinar o que é verdade e o que é mentira, a verdade será sacrificada para que a mentira ocupe o seu lugar, não sei se um cristão bíblico possa permanecer indiferente frente a essa anomalia diabólica. Mas isso está acontecendo hoje!
Observando a
realidade contemporânea, percebemos uma crescente descrença em valores morais
tradicionais, impulsionada em parte pela percepção de uma decadência ética. O
indivíduo pós-moderno, muitas vezes, adota uma postura de ceticismo em relação
às expectativas sobre os outros, o que pode mitigar desilusões.
A proliferação de verdades subjetivas e
ambíguas, especialmente no âmbito moral, acompanha uma crescente tolerância à
conduta imoral. Essa realidade parece ecoar a profecia bíblica que previa o
esfriamento do amor, notadamente o amor à verdade, como um prenúncio da
multiplicação da iniquidade, termo que, em seus originais, sugere uma
transgressão da lei divina, uma anomalia moral.
O termo "impiedade" assume,
centralmente, em conformidade com as Escrituras e com a orientação do Espírito
Santo, o significado de uma acomodação ou adaptação do senso crítico aos
padrões sociais. A sociedade, nesse processo, gradualmente se habitua a
comportamentos anômalos e a práticas consideradas incorretas, invertendo
valores e normalizando-os. Essa inversão, com o tempo, leva à indiferença,
impedindo a reação diante de tais situações. Este é um processo efetivo,
plenamente compreendido pelo adversário, que emprega todos os esforços e meios
para sua implementação na sociedade pós-moderna. Somente dessa forma o filho da perdição, o
homem do pecado, o íniquo, como Paulo o descreve em 2 Tessalonicenses, capítulo
2, versículos 3 e 8, poderá se manifestar livremente. Não é por acaso que, com
a aparição deste ser maligno e ímpio, a maioria das pessoas o acolherá e
apoiará, incluindo muitos cristãos, senão todos os cristãos nominais?
Com pesar, desejo compartilhar algo que pode ser desagradável. Ao analisarmos a história e a realidade global, onde regimes ditatoriais e totalitários se estabeleceram, tanto no passado quanto no presente, observamos que, em contextos de supressão da verdade, a sua restauração ou manutenção e defesa, em uma sociedade que cedeu ao totalitarismo, freqüentemente se dá por meio do sacrifício daqueles que a defendem como um princípio inegociável. Essa é uma constatação dolorosa, especialmente em nossos dias, nos quais a Igreja, por vezes, parece negligenciar a ascensão de um sistema contrário aos princípios cristãos, em virtude de um envolvimento com o consumismo, o capitalismo e a busca por entretenimento e experiências agradáveis, ao invés de viver a realidade ultima objetiva, uma comunhão com Deus e um amor puro e forte pelos fundamentos da fé cristã.
A
negligência das igrejas contemporâneas reside precisamente na relutância em
pregar a sã doutrina e os fundamentos da fé cristã, demonstrando pouco
interesse por esses aspectos. Essa ausência de apreço pelas verdades do
Evangelho, traduzida na falta de dedicação à leitura e estudo das Escrituras,
representa um problema que poderá acarretar sérias consequências para muitos
cristãos no futuro. A incapacidade de suportar a pressão espiritual inerente à
batalha que se trava no mundo invisível, aliada a um cristianismo superficial,
torna-se um obstáculo intransponível.
Em sua epístola, no capítulo 6,
versículos 10 a 18, o apóstolo Paulo aborda a realidade espiritual e exorta os
cristãos a se revestirem de toda a armadura de Deus. Essa armadura engloba
tanto equipamentos defensivos quanto ofensivos, de modo que nenhuma guerra
espiritual pode ser enfrentada com um cristianismo superficial.
Observamos, portanto, que Satanás tem empreendido esforços significativos em promover transfigurações, infiltrando-se em diversos ambientes que se autodenominam cristãos, sem que haja discernimento bíblico e espiritual. Ele se apresenta, muitas vezes, como um anjo de luz, mas trata-se, na realidade, de um disfarce, um engano, uma fraude espiritual. Essa estratégia é particularmente eficaz em locais onde a valorização da Bíblia e o amor pela Palavra de Deus são secundários à busca por experiências místicas e sensações. Ao experimentarem a presença de demônios transfigurados, essas pessoas podem erroneamente acreditar que estão diante da presença divina, pois essa vivência desperta uma falsa sensação de segurança e convicção de que estão sendo abençoadas e que a verdade se manifesta através de fenômenos espirituais e sobrenaturais, que seriam interpretados como prova da atuação de Deus. Por meio dessa artimanha, o diabo tem iludido e desviado milhões de pessoas que se dizem cristãs, conduzindo-as ao engano. Da mesma forma esse fenômeno pode ocorrer de outra maneira, a institucionalização do relativismo pode vir pelo argumento de justiça social e igualdade comunitária. A teologia da libertação apresenta exatamente essa proposta para em seguida cair em erros abissais, a política atrelada a certas ideologias pregam exatamente o que o povo deseja ouvir mas não sabe discernir, pois a tática da “novilingua” o uso de silogismos, apaga a realidade semântica dos termos. Trata-se da retórica configurada não para levar o entendimento, mas a ilusão.
É imperativo, agora mais do que nunca, que nos voltemos ao Senhor e permaneçamos firmes em nossa fé. Assim como o apóstolo Paulo, que frequentemente exortava seus ouvintes e leitores, especialmente ao abordar a questão da guerra espiritual nos últimos tempos, devemos adotar a mesma ênfase que Cristo.
Jesus, em seus sermões proféticos, frequentemente nos instava a vigiar e orar. Paulo também nos encoraja a sermos firmes, e essa firmeza espiritual só é alcançada e mantida através da participação ativa em uma igreja onde a Palavra de Deus é pregada com diligência e os fundamentos da fé cristã são ensinados a todos os membros. Essa instrução visa orientar cada cristão a permanecer inabalável diante das verdades absolutas, preparando-nos para o dia mau, conforme Paulo nos exorta e adverte em Efésios 6:10-18. Nesse trecho, somos instruídos a nos revestir completamente da armadura de Deus para resistir a este terrível dia, e a exortação não foi dada para os ímpios, foi dada aos cristãos. Os ímpios aceitam o erro, os cristãos combatem o erro. Essa é a linha que a principio define um santo de um ímpio.
C. J. Jacinto

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