O Que é Apostasia?

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É um naufrágio da fé (1 Timóteo 1:19). É o afastamento do coração do Deus vivo (Hebreus 3:13). É o retorno ao mundo e a submissão a ele, após uma fuga anterior de suas impurezas pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo (2 Pedro 2:20). Há vários passos que a precedem. Primeiro, há um olhar para trás (Lucas 9:62), como o da mulher de Ló, que, embora exteriormente tivesse deixado Sodoma, seu coração ainda estava lá. Segundo, há um afastamento (Hebreus 10:38): as exigências de Cristo são demasiado rigorosas para mais agradar ao coração. Terceiro, há um retrocesso (João 6:66): o caminho da piedade é estreito demais para satisfazer os desejos da carne. Quarto, há uma queda, que é fatal: “Para que, indo, caiam para trás e sejam quebrados” (Isaías 28:13).

 



A.W. Pink (1886-1952) : Pastor, professor itinerante da Bíblia, autor de Estudos das Escrituras e muitos livros, incluindo o seu conhecido A Soberania de Deus; nascido na Grã-Bretanha, imigrou para os EUA e, posteriormente, retornou à sua terra natal em 1934; nascido em Nottingham, Inglaterra.

 

O Disfarce Satanico

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Observamos a disseminação do engano, com muitos indivíduos seduzidos pela experiência mística, adentrando as profundezas do mal sob a ilusão de obter iluminação espiritual. Nesse contexto, a busca por uma divindade interior, presente no homem, revela-se infrutífera, pois, no estado de queda, essa divindade não reside no ser humano. Contudo, a crença na divindade inerente ao homem persiste desde tempos remotos.

 Consideremos, agora, o ensinamento de Paulo em sua segunda carta aos Coríntios, capítulo 11, versículo 14, onde se afirma que Satanás se disfarça em anjo de luz. Para aqueles com discernimento espiritual e familiaridade com as práticas do ocultismo e do espiritualismo, torna-se evidente que a busca por uma divindade interior, por um "eu superior", a introspecção e a escuta da voz interior podem criar um ambiente propício à atuação de Satanás, que se manifesta como uma luz enganosa dentro do próprio indivíduo.

 

 

Extraido de: O Gnosticismo e o Mundo Espiritual Caído – C. J. Jacinto

 

A Teoria da Lacuna em Gênesis 1:1–2

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A Teoria da Lacuna em Gênesis 1:1–2

Entre a Criação Original e o Caos: Uma Possibilidade Teológica Legítima

Introdução: Uma Questão em Aberto

Há perguntas que a Bíblia não responde com a precisão que gostaríamos — e isso não é uma falha das Escrituras, mas um convite à humildade intelectual. A Teoria da Lacuna, também chamada de Teoria da Restituição ou da Recriação, é uma dessas questões que orbita entre a exegese sóbria e a especulação teológica legítima. Não se trata de um dogma, nem de uma fantasia sensacionalista. É, antes, uma hipótese com raízes antigas, respaldo de pensadores sérios e capacidade de iluminar enigmas bíblicos que, de outra forma, permanecem sem resposta satisfatória.

A proposta é simples em seu enunciado, mas profunda em suas implicações: entre Gênesis 1:1 — "No princípio, Deus criou os céus e a terra" — e Gênesis 1:2 — "A terra era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo" —, pode ter havido um intervalo histórico de duração indeterminada, marcado por uma catástrofe de proporções cósmicas. Uma era esquecida, apagada do registro explícito das Escrituras, mas cujos vestígios podem ser rastreados nas páginas da Bíblia e no comportamento misterioso do mundo espiritual caído.

Este artigo não pretende defender a teoria como verdade absoluta. Ao contrário, o objetivo é apresentá-la com a seriedade que merece, reconhecer sua utilidade interpretativa em certas questões complexas — especialmente aquelas ligadas à origem dos demônios e à dinâmica do mundo espiritual — e deixar claro por que ela não pode ser simplesmente descartada com um gesto de mão.

 

I. O Enigma dos Espíritos Imundos: Por que Duas Classes?

Para compreender o apelo da Teoria da Lacuna, é preciso primeiro contemplar um enigma que a Bíblia apresenta, mas não resolve explicitamente: por que existem duas categorias tão distintas de seres espirituais caídos?

De um lado, há espíritos imundos que parecem necessitar de um corpo físico para se manifestar. Os Evangelhos retratam demônios que suplicam não serem expulsos "para o abismo" (Lucas 8:31) e que, ao serem lançados fora de um homem, buscam imediatamente outro hospedeiro. O apóstolo Paulo, em 1 Timóteo 4:1–3, adverte sobre "espíritos enganadores" que falam por meio de pessoas, dependendo das cordas vocais humanas para transmitir suas mensagens. Esses seres demonstram uma necessidade visceral de encarnação, como se a existência desencarnada fosse para eles uma forma de tortura.

De outro lado, há espíritos que falam e agem sem qualquer dependência de um hospedeiro humano. A passagem de 1 Samuel 28:15 é particularmente intrigante nesse sentido. Ali, seja o espírito de Samuel genuinamente evocado — e aqui vale uma distinção linguística importante: "evocar" vem do latim evocare, chamar para fora, ao contrário de invocare, chamar para dentro do médium — seja um espírito enganador que assumiu sua forma, o fato notável é que esse ser se comunicou sem fazer uso das cordas vocais da médium de Endor. Era uma presença externa, não uma possessão. Esse dado não é trivial.

Além disso, a Bíblia apresenta uma distinção que raramente recebe atenção adequada: há espíritos caídos que se encontram atualmente aprisionados, e há aqueles que circulam livremente pelo mundo. Efésios 6:10–19 descreve uma hierarquia de potências espirituais malignas que atuam nos "lugares celestiais", enquanto 2 Pedro 2:4–5 menciona anjos que "pecaram" e foram "lançados no inferno", mantidos em "correntes de escuridão" até o julgamento. São dois destinos radicalmente diferentes para seres da mesma natureza original. Por que essa diferença? O que determina quais estão presos e quais continuam livres?

A Teoria da Lacuna oferece uma resposta coerente para esse enigma. Se houve, entre os dois primeiros versículos de Gênesis, um evento catastrófico associado à queda de seres espirituais — e se essa catástrofe envolveu diferentes graus de participação e rebeldia —, então é possível que as duas classes de espíritos caídos reflitam diferentes julgamentos aplicados naquele momento obscuro da história cósmica. Os espíritos aprisionados seriam aqueles que participaram de forma mais direta e grave da transgressão original; os espíritos imundos, que precisam de corpos e demonstram uma estranha nostalgia da encarnação, seriam seres que outrora habitaram formas físicas — talvez corpos pertencentes a uma ordem de criaturas que existia naquela era anterior.

 

II. "Sem Forma e Vazia": Um Estado de Ruína, Não de Criação

O coração exegético da Teoria da Lacuna está em duas palavras hebraicas: tohu e bohu. A expressão "sem forma e vazia" (tohu vabohu) em Gênesis 1:2 não é, para os defensores desta teoria, uma descrição do estado inicial da criação recém-saída das mãos de Deus, mas sim o resultado de uma devastação — um caos que sucedeu uma ordem.

Essa distinção é teologicamente importante. O Deus que, em Isaías 45:18, declara que não criou a terra "em vão" (tohu), mas a formou para ser habitada, dificilmente teria começado sua obra criativa produzindo exatamente aquilo que ele afirma não ter sido seu propósito. A palavra tohu, usada em Isaías para descrever o que Deus não fez, é a mesma palavra usada em Gênesis 1:2 para descrever o estado da terra. Isso levanta uma questão legítima: se Deus não cria em tohu, como a terra estava em tohu?

Há também o debate sobre a tradução do verbo hebraico hayah no versículo 2. A maioria das traduções opta por "era" ("a terra era sem forma e vazia"), mas o mesmo verbo pode, em determinados contextos, ser traduzido como "tornou-se" ("a terra tornou-se sem forma e vazia"). Os massoretas — os sábios judeus que, entre os séculos VI e X d.C., sistematizaram e vocalizaram o texto hebraico — aparentemente reconheciam essa ambiguidade e há evidências de que alguns deles aceitavam a possibilidade de uma leitura que implica transformação, não estado original. Isso não é uma invenção moderna; é uma questão que o próprio texto hebraico suscita para leitores atentos.

A ideia de que o caos de Gênesis 1:2 é o resultado de um juízo divino sobre uma era anterior encontra suporte na observação de que a linguagem de "trevas sobre a face do abismo" evoca, em outros contextos bíblicos, imagens de desolação e julgamento — não de criação original. Quando Deus cria, traz ordem, luz e vida. Quando julga, às vezes deixa o vazio e as trevas falarem por si mesmos.

 

III. O Vislumbre de G. Campbell Morgan

Um dos intérpretes mais influentes da primeira metade do século XX, o pastor e expositor britânico G. Campbell Morgan, expressou com clareza e elegância a intuição que sustenta a Teoria da Lacuna:

"A terra era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo." É impossível que essas palavras descrevam o estado do céu e da terra como foram criados por Deus. Entre a criação original e as condições aqui descritas, houve um cataclismo. Sobre isso, nenhuma revelação nos foi feita. Especulações sobre o assunto são interessantes, mas não podem ser definitivas ou dogmáticas. É possível que o cataclismo físico tenha sido seguido por uma catástrofe moral. É provável que, se conhecêssemos toda a história, conheceríamos a verdade sobre a origem do mal. Em livros posteriores da Biblioteca Divina, há vislumbres que podem fornecer pistas sobre coisas ocultas. O fato de Satanás ser chamado de 'o deus deste mundo', 'o príncipe deste mundo', pode se referir à relação que ele tinha com a Terra antes do surgimento do homem. Também é possível que os anjos 'não tenham conservado sua dignidade' e que, em sua queda, tenham causado a degradação da própria Terra, levando-a ao estado descrito como 'sem forma e vazia'."

— G. Campbell Morgan

A contribuição de Morgan vai além da eloquência. Ele articula dois movimentos que a teoria pressupõe: primeiro, um cataclismo físico de dimensões planetárias; segundo, uma catástrofe moral que teria sido sua causa — ou sua consequência inseparável. A conexão entre o título de "príncipe deste mundo" atribuído a Satanás (João 12:31; 14:30; 2 Coríntios 4:4) e uma possível soberania anterior sobre a Terra é sugestiva. Por que Satanás teria domínio sobre a criação material, se não houvesse alguma relação primordial com ela? A Teoria da Lacuna responde: porque esse foi seu domínio original, antes da queda que o destituiu e arruinou o mundo que lhe foi confiado.

Morgan é sábio, contudo, ao lembrar que especulações, por mais fascinantes que sejam, não podem se tornar dogmas. A teoria ilumina; não pode, porém, ser elevada à categoria de revelação definitiva.

 

IV. Uma Teoria com Raízes Profundas

Um erro comum é tratar a Teoria da Lacuna como uma invenção moderna, nascida do desejo de harmonizar a Bíblia com a geologia do século XIX. Arthur C. Custance, um dos pesquisadores mais rigorosos a se dedicar ao tema, demonstrou que a ideia tem raízes muito mais antigas do que se imagina.

Custance rastreou a presença dessa perspectiva em escritores judeus da antiguidade, em alguns dos pais da Igreja primitiva e até mesmo em documentos sumérios e babilônicos antigos que descrevem uma era anterior ao mundo presente, marcada por caos e destruição. A ideia ressurge na Idade Média, embora sem sistematização teológica consistente.

Foi no início do século XIX, na Escócia, que a teoria ganhou sua forma mais articulada e influente. O pastor, teólogo e intelectual Thomas Chalmers, figura de enorme prestígio no protestantismo britânico, foi o responsável por dar coerência e visibilidade à hipótese. Chalmers via na lacuna entre Gênesis 1:1 e 1:2 uma solução elegante para a tensão entre o registro bíblico e as descobertas geológicas emergentes, sem comprometer a integridade das Escrituras. Seu trabalho abriu caminho para uma tradição de intérpretes sérios que, nas décadas seguintes, desenvolveram e refinaram a teoria.

 

V. Vozes Respeitáveis em Favor da Teoria

Seria um equívoco histórico ignorar o peso intelectual das pessoas que consideraram a Teoria da Lacuna uma possibilidade séria. Trata-se de uma lista que não comporta nomes superficiais.

Arthur W. Pink, um dos exegetas mais rigorosos e menos dados a especulações fáceis, escreveu em sua obra Gleanings in Genesis (1922): "O intervalo desconhecido entre os dois primeiros versículos de Gênesis 1 é amplo o suficiente para abranger todas as eras pré-históricas que possam ter transcorrido; mas tudo o que aconteceu a partir de Gênesis 1:3 ocorreu há menos de seis mil anos." Para Pink, a lacuna não compromete o criacionismo; ao contrário, acomoda as eras geológicas sem sacrificar a historicidade de uma criação recente da ordem atual.

Harry Rimmer, em seu livro Ciência Moderna e o Registro do Gênesis (1941), também defendeu a teoria, buscando pontos de convergência entre a investigação científica e o texto bíblico. Arthur C. Custance escreveu um livro inteiramente dedicado à defesa da teoria, que permanece até hoje como uma das obras mais completas sobre o assunto.

Além desses, nomes como C. S. Lewis, M. R. DeHaan e Donald Grey Barnhouse manifestaram simpatia pela hipótese. Francis Schaeffer, reconhecido como um dos intelectuais cristãos mais cuidadosos do século XX, reconheceu partes da teoria como uma possibilidade legítima em seu livro Gênesis no Espaço e no Tempo (p. 62). O próprio G. H. Pember, cujas pesquisas sobre o mundo espiritual exerceram influência duradoura sobre geração de estudiosos, foi uma referência central para Arthur W. Pink no desenvolvimento de suas reflexões sobre o tema.

Esse rol de nomes não prova que a teoria está correta. Mas prova que ela não é o produto de mentes descuidadas ou de uma teologia ingênua. Ela foi considerada por pessoas que levavam as Escrituras a sério e que tinham motivos intelectuais genuínos para explorá-la.

 

VI. Uma Possibilidade Que Não Pode Ser Descartada

A posição mais honesta diante da Teoria da Lacuna não é a de um defensor ardoroso nem a de um crítico desdenhoso. É a de um pesquisador que reconhece os limites do conhecimento humano diante de questões que as Escrituras deixaram em silêncio deliberado.

A teoria pode estar errada. Talvez nunca existiu uma era anterior à semana da criação descrita em Gênesis 1. Talvez tohu vabohu descreva, afinal, o estado inicial de uma criação que ainda estava sendo formada. Talvez a origem dos demônios e a distinção entre espíritos aprisionados e livres tenha uma explicação inteiramente diferente. Essas possibilidades não podem ser excluídas.

Mas a Teoria da Lacuna também não pode ser descartada levianamente. Ela responde perguntas reais que o texto bíblico suscita. Ela conta com o suporte exegético de uma possível tradução alternativa de hayah. Ela tem raízes na tradição judaica e cristã que antecedem em séculos o debate moderno com a geologia. Ela foi levada a sério por teólogos e exegetas de primeira linha. E ela oferece, mesmo que de forma não definitiva, uma explicação coerente para o enigma das duas classes de seres espirituais caídos — os aprisionados e os que vagam livremente, os que dependem de corpos e os que existem independentemente deles.

Em teologia, há verdades absolutas e há questões abertas. As verdades absolutas demandam convicção e confissão. As questões abertas demandam humildade, curiosidade e disposição para explorar os vislumbres que as Escrituras oferecem sem transformá-los em dogmas que elas mesmas não confirmam. A Teoria da Lacuna pertence a essa segunda categoria — e, nela, ocupa um lugar legítimo e digno de estudo.

 

Referências Citadas

Pink, Arthur W. Gleanings in Genesis. Chicago: Moody Press, 1950. [1ª ed. 1922], p. 11.

Rimmer, Harry. Ciência Moderna e o Registro do Gênesis. 1941.

Schaeffer, Francis. Gênesis no Espaço e no Tempo. p. 62.

Morgan, G. Campbell. Commentaries on Genesis.

Custance, Arthur C. Without Form and Void. [Defesa exaustiva da Teoria da Lacuna].

A SABEDORIA DE DEUS E A LIBERDADE DE JONAS

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 .

 

C. J. Jacinto

 

 

Em Jonas, capítulo 1, versículo 3, encontrei, ao longo de muitos anos, um ponto de reflexão. A meditação não se limitou a este versículo, mas se estendeu a todo o livro, que tem sido para mim uma fonte de profunda análise sobre a vontade divina, os decretos de Deus e a vontade humana. Neste texto, observamos um conflito, um embate de vontades.

 Na passagem mencionada, lemos que Jonas se levantou para fugir da presença do Senhor, dirigindo-se a Társis. Descendo a Jope, encontrou um navio que se destinava a Társis. Pagou a passagem e embarcou, com o intuito de ir com os demais tripulantes para Társis, distante da presença do Senhor.

 O Deus Altíssimo e Soberano convocou Jonas. A este, foi incumbida a pregação do arrependimento em Nínive, por ordem divina, em cumprimento da vontade de Deus. O Senhor, comunicando-se com Jonas, filho de Amitai, proferiu uma ordem expressa, emanada diretamente do trono celestial: "Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela, pois a sua maldade subiu até mim." Contudo, após ouvir a determinação do Deus Todo-Poderoso, soberano sobre todo o universo, Jonas tomou uma decisão contrária. Levantou-se e optou por seguir em direção oposta à vontade divina. A princípio, a inclinação de Jonas pareceu conduzi-lo em sentido diverso. Diante da ordem, ele decidiu, por livre arbítrio, embarcar em um navio com destino a Társis. Observa-se, portanto, a clara oposição da vontade de Jonas à instrução recebida.
Deus permitiu, nesse contexto, a manifestação de Sua vontade permissiva, concedendo a Jonas a liberdade de escolha. Jonas, em uma atitude definida, optou por não atender à vontade divina. Assim, agindo por sua própria decisão, contrariou o desígnio de Deus. Apesar de Sua soberania e autoridade suprema, Deus permitiu essa escolha, e Jonas, por ela, arcou com as conseqüências.
 Essa postura divina, que permite ao homem tomar suas próprias decisões, é uma expressão da liberdade que Deus lhe concede. No livro de Jonas, observamos esse princípio em ação. Jonas, em vez de cumprir a ordem divina, dirigiu-se a Társis. Houve, portanto, um intervalo entre o chamado e a resposta de Jonas, durante o qual Deus permitiu que ele exercesse sua liberdade de escolha. As decisões tomadas por Jonas, que Deus permitiu, o levaram a enfrentar as consequências de seus atos.

 Diante da decisão de Jonas de ir para Társis, em desacordo com a ordem divina, Deus, embora possuísse o poder de intervir imediatamente, optou por permitir que Jonas seguisse sua própria vontade. Mesmo sendo a autoridade suprema e detentor do domínio sobre todas as coisas, inclusive sobre seus profetas, Deus permitiu que Jonas se afastasse, aparentemente, de Sua presença. Essa postura divina, que observa e permite, nos oferece profundas reflexões sobre a relação entre a vontade de Deus e a vontade humana. Compreendemos, então, que Deus, em determinado período, concedeu a Jonas a liberdade de agir, permitindo que suas escolhas direcionassem seu destino. A intervenção divina, nesse contexto, foi adiada, demonstrando o respeito de Deus pela autonomia de Jonas.


 Deus, em sua onipotência, poderia ter ordenado que Jonas se dirigisse a Nínive sem permitir qualquer objeção. Contudo, Deus permitiu que Jonas exercesse sua liberdade de escolha. Observa-se que, na experiência humana, a liberdade, ou a permissão divina para agir livremente, frequentemente leva o homem, em razão de sua natureza pecaminosa, a desviar-se do caminho correto e a opor-se à vontade de Deus. Contudo, na narrativa de Jonas, desde o momento em que ele tenta fugir de seu chamado até a iminência do naufrágio, percebemos a intervenção divina por meio da tempestade, visando conduzir Jonas de volta ao seu propósito original. Durante esse período, Deus permitiu que Jonas agisse de acordo com sua própria vontade.
A narrativa de Jonas nos oferece valiosas lições. Deus, em sua soberania e em conformidade com sua santa vontade, justiça e misericórdia, permite que o homem exerça seu livre-arbítrio. Essa concessão evidencia a incapacidade inerente ao ser humano de, por si só, discernir e escolher o caminho que agrada a Deus. A tendência natural do homem é desviar-se da vontade divina, como ilustrado na história de Jonas.

 Não é necessário que Deus determine as más ações do homem; estas emanam da própria natureza pecaminosa humana. O homem, em sua condição caída, segue esse curso desde que lhe é concedido à liberdade de agir. Mais cedo ou mais tarde, ele se afasta e age em desacordo com a vontade de Deus. Essa é uma lição que devemos continuamente internalizar. Deus concede ao homem certa autonomia, mas este, em sua fragilidade, não consegue, por seus próprios meios, trilhar o caminho da justiça e da vontade divina. Ao conceder a Jonas a liberdade de escolha, este optou por um curso de ação contrário à vontade de Deus, guiado por seus próprios desejos. Além disso, Paulo indica que Deus entrega uma sociedade para que siga livre em suas impiedades, caso o grau de rebelião seja avançado, Deus abandona totalmente a pratica de impiedade(Romanos 1:18 a 32). Não há nessas circunstancias nenhum decreto divino, anunciadas por Paulo em Romanos 1, mas conseqüências que irão resultar de uma depravação que se constitui o âmago de todas as perversões produzidas por uma sociedade que caiu na desgraça do abandono divino.

 Em seu texto notável, desejo repetir de forma didática, em Romanos, capítulo 1, versículos 18 a 32, Paulo aborda essa questão com muita clareza. No versículo 26 do primeiro capítulo de Romanos, Paulo declara que Deus os entregou a paixões infames. No versículo 28, lemos que, porquanto desprezaram o conhecimento de Deus, Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não convém. Percebe-se, portanto, que Deus, de certa forma, entrega o homem às suas próprias inclinações e consequências.

 Ora, todo homem é pecador. A Bíblia afirma que não há nenhum justo, nem um sequer. Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Dessa forma, quando o homem recebe de Deus uma medida de liberdade para fazer suas escolhas, ele frequentemente optará pelas coisas erradas e, por fim, será responsável por essas escolhas.
 A parábola do filho pródigo, narrada em Lucas 15:11-32, ilustra uma verdade fundamental. O filho mais novo, ao exercer sua liberdade, toma uma decisão pessoal e voluntária que ignora a vontade de seu pai. Ele escolhe partir, trilhando um caminho adverso que o conduz a graves consequências, afastando-se progressivamente. Essa jornada culmina em uma situação trágica e de profunda escuridão espiritual.

 À medida que se distancia, sua condição se agrava. Contudo, em determinado momento, ele se conscientiza de sua situação, provavelmente sob a influência do Espírito Santo, O Espirito Santo não induz ninguém a apostasia, ele induz a o regresso a ortodoxia, não o contrario! Em sua situação de extrema miséria, o pródigo é movido pela misericórdia divina. Reconhecendo o estado lastimável em que se encontra, decide retornar. Na sua decisão de se apostatar, a luz espiritual se apaga, mas no seu retorno aos princípios, é Deus quem acende a luz espiritual na consciência.

 Essa narrativa espelha a trajetória do homem, que, ao receber a dádiva da liberdade, muitas vezes se afasta do Senhor, trilhando um caminho de trevas e alienação.

Não se pode inferir que Deus esteja impedido de determinar algo sobre indivíduos ou sociedades. Ao contrário, reconheço a capacidade divina de fazê-lo. Meu objetivo, com base nas Escrituras, é ressaltar que Deus também concede ao homem certo grau de liberdade para que ele exerça sua vontade. Observa-se, no entanto, que, em geral, o homem tende a utilizar essa liberdade de maneira contrária à vontade de Deus. Contudo, essa liberdade, outorgada por Deus, será fundamental no julgamento final, quando todos comparecerão perante o trono divino. Deus concede a liberdade, mas a liberdade humana serve como prova no julgamento. Portanto, devemos estar vigilantes e buscar sempre cumprir a vontade de Deus.

Em Colossenses 1:9 Paulo ora para que os cristãos de Colossos sejam cheios do conhecimento da vontade de Deus, o contexto ensina que essa é a via pelo qual se estabelece um relacionamento correto com Deus, unicamente através do exercício da fé cristã. A vida secular e religiosa do homem adâmico será sempre deficiente, é uma liberdade restrita cuja direção induz para “Társis”, para fora da vontade de Deus. Só a luz do Evangelho brilhando sobre este “porão escuro” é capaz de despertar o homem pecador para o resgate que Cristo pode fazer.

 Dado que Deus é total e absolutamente soberano, Ele pode, por sua própria vontade, conceder a quem desejar uma medida de liberdade e capacidade de escolha. Essa capacidade de Deus é evidente, pois Sua soberania absoluta é inegável. A Escritura atesta, de forma inequívoca, essa realidade. Além disso, compreendemos que Deus, em Sua onipotência, tem a capacidade de estabelecer decretos, exercendo domínio sobre o tempo e agindo de acordo com Sua perfeita natureza, não nego isso em hipótese alguma, porém a graça e a misericórdia de um Soberano pode exercer a dádiva da liberdade para quem quer que seja. Por conseguinte, devido à Sua onisciência, onipotência e onipresença, e em Sua benevolência, Deus concede, mesmo aos seres criados, inclusive aqueles que estão em estado de queda, uma certa medida de liberdade para que exerçam suas escolhas dentro dos limites estabelecidos por Ele. Essa verdade é amplamente demonstrada e percebida nas Sagradas Escrituras.

Compreendo plenamente que o homem natural não pode discernir as coisas do Espírito, encontrando-se, portanto, em uma condição precária. Ao referir-se ao homem natural, Paulo alude ao homem adâmico, afetado pela Queda. Em Efésios, capítulo 2, a partir do versículo 2, lemos sobre como, outrora, o homem andava segundo o curso deste mundo, sob o domínio do príncipe da potestade do ar, o espírito que agora atua nos filhos da desobediência. Portanto, o homem adâmico não desfruta de liberdade total, só os filhos de Deus podem desfrutar de uma verdadeira liberdade; todos são enganados pelo príncipe das potestades do ar. Em certo sentido, o homem não possui livre arbítrio para escolher fazer a vontade de Deus, a menos que Deus lhe conceda entendimento dessa verdade. A ação do Espírito Santo na pregação do Evangelho é, portanto, essencial para que o pecador se arrependa e se converta.

 Que o homem recebe certa medida de liberdade e com isso ele usa para responder sua visão de vida e razão, não há duvida! Que Deus pode abandonar e deixar que uma sociedade pecadora siga livremente o curso de suas paixões carnais é um fato bíblico! A maior parte dos homens responderá por seus atos, justamente porque foi lhes mostrado o caminho da vontade de Deus, mas eles resolveram seguir o caminho da própria vontade. O juízo justo de um Deus Santo, Soberano e Perfeito cairá sobre homens pecadores que tomaram escolhas erradas.


 A proclamação do Evangelho frequentemente se apresenta como a ferramenta espiritual essencial para a abertura dos olhos e do entendimento, obscurecidos pela influência do "deus deste século" e pelo condicionamento imposto aos pecadores. Essa abertura é crucial para que o indivíduo responda positivamente ao Evangelho, quando sua mente e coração se tornam receptivos a essa verdade. Assim, a pregação e a proclamação do Evangelho são instrumentos vitais, possibilitando que o homem receba a iluminação necessária para discernir sua condição espiritual. Reforço, com base em passagens bíblicas, que Deus concede ao homem uma medida de liberdade para fazer suas próprias escolhas. Dessa forma, no Juízo Final, o homem será responsabilizado por essa liberdade que lhe foi concedida. Considero essa liberdade, em maior ou menor grau, uma grande dádiva divina, um reflexo da misericórdia de Deus para com o ser humano pecador, sujeito ao engano espiritual, conforme descrito em Efésios 2. Portanto, a liberdade que Deus concede ao homem é, de fato, uma bênção extraordinária, um testemunho da misericórdia divina.

 A narrativa de Jonas nos oferece uma valiosa lição. Deus, em sua infinita sabedoria, concede a Jonas a liberdade de escolha. Reconhecendo a soberania divina, observamos que Deus permite a Jonas tomar suas próprias decisões. Essa liberdade, limitada em sua duração, é, em certo sentido, condicional, pois a intervenção divina é inevitável. Deus age na vida de Jonas, enviando uma tempestade que o leva a reconsiderar suas ações e a buscar a vontade divina. Apesar disso, essa experiência inicial representa uma liberdade concedida por Deus a Jonas. Até certo ponto, Jonas desfruta dessa liberdade, mesmo que suas escolhas e decisões o conduzam por caminhos equivocados. Essa tendência humana a cometer erros, como evidenciado na história de Jonas, é parte da condição humana. Contudo, a intervenção divina tem o propósito de redirecionar a vontade de Jonas. Através dessa experiência, Jonas é levado a compreender a importância da soberania de Deus sobre a vida de todos os seres humanos. Mais incrível ainda é ver como Deus administra essa rebelião do profeta, pois na sua suprema soberania, o texto revela que Deus tem completo controle sobre a criação, enviando a tempestade, o grande peixe e induzindo os acontecimentos num processo tal que ali naquela tragédia de experiência profunda, o profeta engolido pelo grande peixe vai representar a gloriosa ressurreição de Cristo depois de consumar a obra redentora na morte na cruz.

 A liberdade de Jonas, como desejo enfatizar, embora limitada, foi genuína. Jonas vivenciou essa liberdade. Considero a narrativa de Jonas como um relato autêntico em todos os aspectos. Ela se insere na experiência humana e é registrada no texto sagrado como um paradigma de liberdade, algo que todos nós, em diferentes medidas, experimentamos. Acredito firmemente que, em virtude disso, somos responsáveis por nossas ações e escolhas. Especialmente em nosso tempo, quando as Escrituras Sagradas, com seu cânon completo e fechado, nos oferecem todas as orientações necessárias para viver uma vida orientada pela vontade divina e não pela nossa própria. (Salmo 119:105)




Vamos relembrar os fatos hisóricos, Deus interveio, enviando uma grande tempestade, e o curso dos eventos começou a mudar. Jonas foi lançado ao mar, e então um grande peixe o engoliu. Jonas perdeu completamente sua liberdade, sua capacidade de escolha. Encontrava-se agora no ventre do peixe, e ali, pela primeira vez, vemos Jonas orando. Quando oramos em nossa escuridão provocada pela desobediência, uma luz espiritual se acende em nosso espírito. Nos primeiros versículos do livro de Jonas, ao receber o chamado divino para pregar em Nínive, talvez em seu íntimo ele pudesse expressar o desejo: "Seja feita a minha vontade e não a vontade de Deus". Deus, porém, concedeu a Jonas a liberdade de prosseguir, abraçando seu destino, sua vida, como se fosse supostamente o senhor de sua própria história. Um equivoco a ser corrigido.  Contudo, agora, confinado no ventre do grande peixe, sua oração poderia ter se transformado em uma lâmpada para a cosnciencia. Ele poderia simplesmente estar dizendo: "Seja feita a tua vontade e não a minha". Essa mudança faria toda a diferença na vida de Jonas. Agora, a vontade de Deus deveria ser cumprida, e Jonas estava decidido a isso. Ao chegar à praia, Jonas tomou o caminho de Nínive, abandonando a ideia de Társis. Não se tratava de perda de liberdade, mas sim de uma experiência da verdadeira liberdade, pois a liberdade humana está atrelada ao propósito para o qual Deus existe. Deus projetou a existência de Jonas para ser um profeta, alguém que caminhasse na vontade de Deus, e não fora dela. Nesse sentido, podemos compreender as profundas escolhas presentes neste pequeno livro, onde a vida de Jonas é retratada dentro e fora da direção divina.


Da mesma forma, Deus age em nossas vidas. Sua permissão em relação às nossas escolhas é um ato de misericórdia, embora a liberdade que nos concede nos responsabilize. Portanto, necessitamos da luz divina, da orientação constante da voz de Deus. Afirmo a cada um de vocês que a Bíblia, como um livro concebido para perpetuar a palavra de Deus, apresenta verdades atemporais e extraordinárias. É uma sabedoria singular, pois Deus consegue comunicar-se com pessoas de todas as culturas e línguas através de um livro sagrado, por meio do qual Sua voz pode ser incessantemente propagada. Desejo que, por intermédio de pregadores que se baseiam nas Escrituras e são fiéis ao chamado, como Jonas, após o processo de aprendizado decorrente de suas escolhas, possamos ouvir essa voz divina e estarmos sempre atentos a Deus, frequentemente sem questionar Sua direção. Deus nos conduzirá, com certeza, ao caminho correto, apesar dos desafios e obstáculos. Ele sempre nos concederá a graça e o auxílio necessários para trilharmos a estrada da vontade divina, na qual nossa existência encontrará significado, respostas e nos encaminhará ao propósito para o qual fomos criados.




Embora Deus permita que muitos se desviem por meio de suas ações e decisões, é imprescindível reiterar minha inabalável crença na soberania e majestade do Senhor, Deus Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, e na de nosso Senhor Jesus Cristo, bem como na supremacia do Espírito Santo sobre nossas vidas.



Deus, em sua infinita sabedoria, concede a cada indivíduo a capacidade de fazer escolhas que moldam sua existência. Ele não interfere nessas escolhas, a menos que estejam alinhadas com Seus propósitos. Entretanto, como ensina a epístola aos Romanos, por vezes Deus permite que sigamos nossos próprios caminhos. Aqueles que, em sua obstinação, persistem em seus desejos e se tornam escravos de suas próprias inclinações, podem ser entregues a si mesmos.

Quando um indivíduo trilha o caminho da ilusão, guiado por uma visão distorcida da realidade, as conseqüências em longo prazo podem ser severas.

 Que possamos, humildemente, dobrar nossos joelhos e, diariamente, declarar: "Senhor, eis-me aqui, peregrino nesta Terra. Desejo caminhar sob Tua luz, ilumine meus passos e me conceda a sabedoria para escolher a Tua vontade, e não a minha. Amém."