Uma das passagens mais notáveis e significativas do Evangelho de João encontra-se no capítulo 6, onde Jesus profere um discurso que o compara ao maná. Ele se apresenta como o pão que desceu do céu, utilizando essa metáfora para elucidar sua própria natureza. Alguns de seus discípulos, ao ouvirem o discurso, mostraram-se perturbados. Em João, capítulo 6, versículo 60, lemos: "Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir?". No versículo 66, acrescenta-se: "Por isso, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e já não andavam com ele".
Essa passagem do Evangelho de João evoca uma reflexão sobre a advertência de Paulo em 2 Timóteo, capítulo 4, versículos 3 e 4, onde ele adverte: "Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, sentindo coceira nos ouvidos, segundo os seus próprios desejos, se rodearão de mestres e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas."
Assim, tanto
na passagem de João quanto na de Paulo, evidencia-se um princípio comum: a
dificuldade de alguns em aceitar a mensagem de Jesus, especialmente quando esta
se apresenta de forma direta e confronta as expectativas individuais.
Observa-se a resistência em suportar ensinamentos considerados
"duros" e a preferência por interpretações que se alinham com os
próprios anseios, em detrimento da verdade revelada nas Escrituras.
Diante da declaração de Cristo,
"Dura é esta palavra; quem pode ouvi-la?", os ouvintes demonstravam
resistência. Essa reação evidenciava uma superficialidade espiritual, incapaz
de aceitar verdades profundas e desafiadoras. A mensagem de Jesus confrontava
as tradições e as ideias religiosas estabelecidas sobre o Messias, causando
escândalo por sua aparente ousadia e a fragilidade das convicções dos ouvintes.
Analisemos mais detidamente o contexto do discurso de Jesus, a fim de identificar os elementos de sua mensagem que podem ter levado à apostasia de seus discípulos.
Em primeiro lugar, notamos que Jesus empregou uma linguagem impactante, sugerindo, em certos trechos, uma analogia com a prática de canibalismo. Este é o primeiro indício observado em seu discurso.
Em seguida,
Jesus se autoproclamou o "pão da vida", comparando-se ao maná do
Antigo Testamento.
Adicionalmente, um outro elemento merece atenção: a apresentação de uma
exclusividade radical. Jesus declarou ser o único caminho e salvador, afirmando
uma verdade absoluta. Este exclusivismo, de certo modo, pode ter sido
interpretado como uma afronta por seus ouvintes.
Por fim,
consideremos as expectativas messiânicas enraizadas na tradição judaica. O povo
esperava um messias político e libertador; contudo, Jesus, em diversos
aspectos, apresentava-se de maneira dissonante em relação a essas expectativas
sobre o Messias.
A postura de apostasia, observada em
certos indivíduos, frequentemente emerge de uma fé superficial e carente de
profundidade. Diante das palavras de Jesus, esses indivíduos reagem com
repulsa, declarando a inaceitabilidade de seus ensinamentos. Incapazes de
tolerar um discurso que consideram rigoroso, optam por abandonar a fé.
Essa dinâmica ressoa nos tempos atuais. Apesar de milhões professarem a fé cristã e aderirem aos ensinamentos evangélicos, muitos se sentem ofendidos quando confrontados com a pregação de doutrinas e ensinamentos de Jesus, conforme revelados nas Sagradas Escrituras. Ao ouvirem tais pregações, expressam o desejo de abandonar a comunidade religiosa, rejeitando o que percebem como uma mensagem severa.
A consequência é a busca por pregadores que ofereçam mensagens mais amenas. Em vez de procurar aqueles que, a exemplo de Jesus, proclamam a verdade de forma clara e direta, mesmo que isso desagrade alguns ouvintes, preferem se afastar de tais ensinamentos.
Não pretendo
sugerir que todos os ensinamentos evangélicos sejam árduos. Reconheço a
existência de passagens e temas de grande deleite, que merecem ser explorados.
Contudo, é fundamental considerarmos também a outra face da questão. Certos
trechos das Escrituras apresentam desafios, confrontam-nos e, em determinadas
circunstâncias, dependendo de nossa predisposição e maturidade espiritual,
podem até mesmo ofender-nos. A ausência de preparação para tais momentos nos
assemelha àqueles que, ao ouvirem Jesus Cristo declarar-se o pão da vida e
afirmar que Sua carne é verdadeira comida e Seu sangue, verdadeira bebida,
sentiram-se ultrajados. Estes não compreenderam a essência espiritual por trás
das palavras do Senhor Jesus Cristo. É imperativo estarmos dispostos a receber
os ensinamentos que nos fortalecem na fé. Frequentemente, certos temas nas
Escrituras nos desafiam, e é essencial estarmos preparados, pois isso faz parte
do nosso progresso espiritual.
Em tempos marcados por um notável afastamento dos valores tradicionais, um
declínio moral e espiritual generalizado, o relativismo moral se estabeleceu
como uma força dominante, tanto na sociedade quanto em algumas esferas
religiosas. Observa-se um enfraquecimento de conceitos fundamentais, como a
gravidade do pecado, a compreensão bíblica da rebelião, a natureza do inferno,
o respeito a Deus e, por outro lado, o temor reverencial a Ele. Esses valores
tradicionais têm sido consideravelmente afetados pela influência do relativismo
moral e pelo relaxamento dos padrões morais e espirituais característicos da
sociedade pós-moderna.
Paralelamente, surge um novo conceito, o "politicamente correto", que dita o que é aceitável, buscando evitar qualquer forma de ofensa, seja ela direcionada a não crentes ou a cristãos, mesmo que estes últimos possam aderir a uma fé superficial. Discursos que outrora eram considerados firmes e desafiadores, agora são vistos com ressalvas, associados a pregadores impopulares. Existe a preocupação de que tais discursos possam levar ao esvaziamento das igrejas e ao isolamento dos púlpitos, uma vez que muitos fiéis atuais buscam apenas mensagens que lhes agradem.
Considerando as palavras de Paulo na Epístola aos Romanos, capítulo 16, versículos 17 e 18, somos exortados a prestar atenção. Ele nos adverte, e essa advertência merece nossa consideração: "Rogo-vos, irmãos, que noteis os que promovem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes; desviai-vos deles. Porque os tais não servem a Cristo, nosso Senhor, mas ao seu próprio ventre; e com suaves palavras e lisonjas enganam o coração dos incautos."
Não causa surpresa que indivíduos descrentes se sintam ofendidos e, por vezes, critiquem as posições de um pregador ortodoxo que valoriza e professa fielmente a doutrina, expondo tanto os aspectos consoladores quanto os ensinamentos mais exigentes do Evangelho. Recentemente, ouvi o relato de uma pessoa não cristã que, após participar de um culto em determinada igreja, manifestou críticas ao pregador, em virtude de sua abordagem franca sobre o divórcio e o novo casamento. A mensagem, embora incisiva, refletia a verdade.
Independentemente disso, quando Deus designa um pregador para proclamar a verdade e defender princípios absolutos, inevitavelmente haverá reações diversas por parte da audiência. Alguns acolherão a mensagem, assemelhando-se aos discípulos que aceitaram os ensinamentos de Jesus, enquanto outros a rejeitarão, como aqueles que, confrontados com a severidade de suas palavras, optaram por não segui-lo.
Observamos, todavia, passagens
relevantes que abordam a vida fundamentada no Evangelho, uma espiritualidade estável
e resiliente. Tais reflexões emergem quando Jesus, no Sermão da Montanha,
compara o homem prudente e o homem imprudente. A narrativa do homem prudente,
que edifica sua casa sobre a rocha, ressalta a importância da solidez. A rocha,
por sua natureza resistente e duradoura, simboliza a firmeza. Dessa forma,
compreendemos que as palavras que nos confortam e aquelas que nos confrontam
cumprem funções distintas, porém complementares. Ambas são essenciais. Aquele
que busca apenas o consolo, mas evita as verdades que desafiam, demonstra
fragilidade. Ilustra-se essa dualidade com a metáfora do trigo e do joio.
Considerando a reflexão sobre os ensinamentos, observemos a seguinte passagem:
Paulo, referindo-se aos tempos vindouros, declara que haverá um período em que
as pessoas não tolerarão a doutrina que conduz à saúde espiritual. Em vez
disso, impulsionadas por seus próprios desejos e anseios, buscarão mestres que
se ajustem às suas inclinações pessoais. Desviarão, então, os ouvidos da
verdade, voltando-se para narrativas fantasiosas.
É crucial notar que a incapacidade de
aceitar a sã doutrina conduzirá inevitavelmente à busca por ensinamentos que
agradem à própria consciência e, subsequentemente, ao afastamento da verdade.
Amado(a) irmão(ã), não desvie seu coração
da verdade. Esteja sempre receptivo(a) a ela. Que sua resposta seja de plena
concordância. Se a mensagem for desafiadora, reconheça que o Senhor está
falando ao seu coração. É imperativo que identifiquemos áreas em nossas vidas
que necessitam de transformação. Muitas vezes, precisamos enfrentar situações
que nos confrontem, pois isso é essencial para o nosso crescimento e
amadurecimento espiritual.
Consideremos agora passagens igualmente notáveis àquela que Paulo escreveu em 2 Coríntios, capítulo 13, versículo 5, onde ele nos admoesta a examinar nossa fé e a nos provarmos. É imperativo que façamos isso. Frequentemente, a pregação serve como um espelho, revelando nossa condição espiritual. De certa forma, quem se sentirá ofendido, senão o hipócrita? Contudo, o indivíduo sincero se sentirá tocado. Ele fará as necessárias correções em sua vida, pois essa é a motivação do Espírito Santo ao inspirar um pregador a abordar aspectos que necessitam ser aprimorados em nós. O essencial é que, diante de tal discurso, respondamos com a palavra "amém", pois, acima de tudo, o Senhor deve ser louvado. O Deus vivo e verdadeiro nos falou através de um pregador que é seu servo.
Essa é uma verdade que desejo reiterar: o crente que edifica sua fé sobre a rocha encontra fundamento inabalável e firmeza. Dessa forma, o verdadeiro crente busca apenas o que agrada a Deus, e não a si mesmo.
O
oposto em questão demonstra superficialidade. O falso cristao busca
apenas coisas superficiais Seus desejos se restringem ao que lhe proporciona
prazer imediato, visando apenas satisfazer e nutrir os impulsos egoístas,
embora disfarçados por uma fachada religiosa.
O que me atrai a atenção é a afirmação
de Paulo sobre a futura aversão à sã doutrina. Ele previu tempos em que as
pessoas não mais suportariam a doutrina, e, de fato, observamos atualmente um
cristianismo que, em certa medida, se tornou relativizado e genérico. Como
exemplo, a palavra "evangélico" pode, hoje, abranger uma vasta gama
de crenças e práticas religiosas.
Ao confrontar o cenário contemporâneo
com a Palavra de Deus e pregar certas doutrinas consideradas
"difíceis" para o tempo presente, como, por exemplo, a condenação
eterna e o lago de fogo, podemos questionar: como reagiriam a maioria dos
cristãos atuais, em igrejas pós-modernas, diante de uma pregação temática e
profunda sobre tais assuntos? Como seria a resposta à exposição contínua e
autoritária, conduzida por um pregador inspirado, dessas doutrinas, incluindo a
doutrina da danação eterna e a doutrina do inferno?
Não seria
essa uma doutrina especialmente incômoda em nossa época, a ponto de ser
evitada, assim como outras? Observa-se, em diversos contextos, uma atenuação do
conceito de pecado, muitas vezes influenciada pela psicologia, visando
minimizar a sua gravidade. A palavra "pecado" tem sido, em alguns
casos, substituída por termos menos impactantes, como, por exemplo,
"problemas".
Conforme Paulo previu, vivenciamos atualmente um período que confirma suas
palavras. Chegará um tempo, e esse tempo se manifestou de maneira clara,
resultando em uma reavaliação do cristianismo, uma reformulação do que é
pregado publicamente. Diante das pressões do mundo, que em certa medida tem
criminalizado algumas doutrinas cristãs, como as expostas por Jesus no capítulo
6 de João, a pregação se vê desafiada. Jesus enfatizou o acesso exclusivo à
salvação através dele, uma mensagem presente em todo o Novo Testamento. Os
apóstolos seguiram esse ensino, e hoje, a afirmação da exclusividade de Jesus,
a menção ao inferno, a condenação da idolatria e a crítica à homossexualidade
são frequentemente vistas como ofensivas, não apenas pela sociedade secular,
mas também por alguns grupos cristãos. Essas doutrinas, antes centrais, são
agora categorizadas como fundamentalistas, num contexto de rejeição a essas
posturas e à defesa apologética dos princípios fundamentais do cristianismo,
especialmente em uma sociedade pós-cristã.
Consequentemente, não é surpreendente
que a postura da maioria dos professores cristãos contemporâneos favoreça
igrejas com características pós-modernas marcantes, com destaque para a
incorporação de elementos da psicologia, da filosofia e de aspectos seculares
ao cristianismo. O objetivo, aparentemente, é atenuar a mensagem cristã,
transformando-a em algo mais palatável, que promova a aceitação passiva em
detrimento da reflexão crítica.
Adicionalmente, observa-se a ascensão de um culto contemporâneo, caracterizado pela música e por uma teologia de adoração que enfatiza as emoções. Esta teologia se desenvolveu a partir do movimento carismático, que utiliza a música como um meio para experimentar a presença divina. É notável que, atualmente, muitos cristãos e professores frequentem igrejas que priorizam a música, com longos períodos de cânticos. A música, nesse contexto, serve como um veículo para experiências transcendentais e místicas, frequentemente interpretadas como a manifestação da presença de Deus. Em consequência, a ênfase da fé cristã parece residir primordialmente na satisfação dessas experiências. O culto e a reunião cristã são, assim, reduzidos a essa dimensão. Em tais ambientes, raramente se observa a pregação expositiva, versículo por versículo, de livros como Romanos, pois isso seria considerado inadequado em um contexto que prioriza a experiência sensorial em detrimento do aprendizado. Essa tendência é preocupante e pode ter sérias consequências espirituais.
C. J. Jacinto
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