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A Dinamica da Leitura Proveitosa das Escrituras

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“Antes e depois de ler as Escrituras, ore fervorosamente para que o Espírito que as escreveu as interprete para você, o livre da incredulidade e do erro e o conduza à verdade”. (Richard Baxter)

 

“Conhecimento sem devoção é inútil. Devoção sem conhecimento é irracional. Mas o verdadeiro conhecimento de Deus inclui compreender tudo a partir de sua perspectiva e isso é vívido, pessoal e valioso. Teologia é a arte de aprender a pensar os pensamentos de Deus. Seguindo-o é aprender o que Deus ama e odeia e ouvir, pensar e agir de maneira que Deus deseja. Conhecer os pensamentos de Deus é o primeiro passo para se tornar piedoso. Em Hebreus, capítulo 5, versículo 11 até o capítulo 6, versículo 3, ensina que aprofundar o entendimento teológico capacita a pessoa a discernir o bem do mal, exorta os crentes a amadurecer e no conhecimento de Deus. De Deus e dos seus caminhos.” (Introdução a Teologia - Alpha Institute)  

 

“Geralmente pensamos nos métodos de assimilação da Palavra como pertencentes a quatro categorias: ouvir a Palavra ensinada por nossos pastores e mestres (Jeremias 3:15), ler a Bíblia por nós mesmos (Deuteronômio 17:19), estudar as Escrituras atentamente (Provérbios 2:1-5) e memorizar passagens-chave (Salmo 119:11). Todos esses métodos são necessários para uma assimilação equilibrada da Palavra... [Mas] devemos fazer mais do que ouvir, ler, estudar ou memorizar as Escrituras. Devemos [também] meditar nelas (Josué 1:8).” (Jerry Bridges)

 

Recentemente, durante um estudo bíblico semanal, um dos participantes formulou uma questão profunda: "Como posso alcançar a iluminação e a compreensão das coisas espirituais na leitura das Escrituras?". Esta indagação revela-se extremamente pertinente aos nossos dias, visto que observamos uma escassez crescente de pessoas que possuam tal discernimento. É uma experiência extraordinária abrir as Escrituras e ser alcançado por uma iluminação espiritual que nos permite compreender, com maior profundidade, a riqueza dos ensinamentos sagrados, ver as verdades mais profundas e preciosas se revelarem diante de nossos olhos. Considero o estudo da Palavra um mergulho em um oceano profundo, onde se encontram pérolas capazes de enriquecer nossa jornada espiritual. Contudo, o acesso a esses tesouros exige a observância de certos princípios, os quais gostaria de apresentar a seguir.


A primeira condição  para o estudo das Escrituras e para a recepção de revelações profundas é a prática do temor, acompanhada de um respeito reverente pela Palavra de Deus. Não manuseamos um livro comum, mas a Palavra de Deus revelada e inspirada; por isso, devemos tratá-la com a máxima preciosidade e profunda reverencia, conferindo ao texto sagrado a dignidade que lhe é intrínseca.


A segunda condição que desejo apresentar é a necessidade de cultivar um amor profundo e inabalável pelas Escrituras. Esse zelo não deve apenas manter-se constante, mas crescer continuamente; sem uma devoção fervorosa aos textos sagrados, o progresso no conhecimento será limitado, impossibilitando o alcance da profundidade espiritual que tanto almeja. Tenha em mente que a conquista de grandes objetivos exige um amor intenso e a disciplina necessária para traduzi-lo em ações e em uma busca incansável. Portanto, estabeleço este como um princípio fundamental: a ausência de um profundo amor pelas Escrituras torna impossível o progresso no conhecimento de seus mistérios, valores e riquezas.


O terceiro princípio que desejo apresentar refere-se à humildade, que se desenvolve progressivamente pelo reconhecimento de nossas limitações e falhas. É essencial manter a consciência constante de nossas fraquezas, dispondo-nos a humilharmo-nos diante da soberania do Senhor e a confessar nossos pecados. Ao ler atentamente as Sagradas Escrituras, perceberemos que elas revelam, inevitavelmente, nossa própria imperfeição. De fato, a Bíblia não pode servir como luz para o próximo sem que, primeiramente, funcione como um espelho para nós mesmos.

“Lembre-se de que não é a leitura apressada, mas a meditação séria sobre as verdades sagradas e celestiais que as torna doces e proveitosas para a alma. Não é o mero toque da flor pela abelha que recolhe o mel, mas sim a sua permanência por um tempo na flor que extrai a doçura. Não é aquele que lê mais, mas sim aquele que medita mais, que se revelará o cristão mais escolhido, mais doce, mais sábio e mais forte.” (Thomas Brooks)


O quarto princípio que gostaria de apresentar refere-se à consagração da sua capacidade intelectual e da sua mente ao Senhor. É permitir que o Espírito Santo dirija e assuma o governo da sua consciência, a fim de que você alcance o discernimento espiritual necessário para glorificar a Deus através da sua vida. Cultivar esse espírito de servidão, mediante a entrega completa da mente e do coração ao Criador, é um requisito fundamental para que Ele, por meio do Santo Espírito, possa atuar em seu entendimento, revelando as preciosas profundezas contidas nas Escrituras. Deus ilumina a mente do homem santo com o propósito supremo de que Ele seja glorificado. Lembre-se sempre de que o caminho da erudição é, essencialmente, o caminho da piedade; ambos são pilares indispensáveis para a formação do verdadeiro homem santo. Portanto, uma mente, uma vida e um coração consagrados proporcionarão a necessária clareza para compreender as verdades divinas.

“Leia a Bíblia com sincera oração, pedindo o ensino e o auxílio do Espírito Santo. Aqui está a rocha na qual muitos naufragam logo no início. Eles não pedem sabedoria e instrução, e por isso encontram na Bíblia um livro obscuro, do qual nada extraem. Você deve orar para que o Espírito o guie a toda a verdade. Você deve suplicar ao Senhor Jesus Cristo que “abra o seu entendimento”, como Ele fez com os Seus discípulos” (JC Ryle)

“Muitas vezes, ao ler [a Bíblia], cada palavra parecia tocar meu coração. Sentia uma harmonia entre algo em meu coração e aquelas palavras doces e poderosas. Parecia-me ver tanta luz manifestada em cada frase, e um alimento tão refrescante ali comunicado, que não conseguia prosseguir com a leitura; freqüentemente me detinha longamente em uma única frase, para contemplar as maravilhas nela contidas; contudo, quase todas as frases pareciam repletas de maravilhas.” (Jonathan Edwards)


O quinto princípio que desejo apresentar é o da constância e da resiliência. Devemos disciplinar nossa vontade para realizar uma leitura atenta, pausada e meditativa, de modo que a mente esteja plenamente engajada no conteúdo estudado. O objetivo é que, ao concluir a leitura ou a pesquisa nas Escrituras, o conhecimento não seja esquecido, mas sim assimilado, tornando-se parte do seu íntimo para o desenvolvimento de reflexões profundas. Ao interiorizar a Palavra, você transforma seu coração em um verdadeiro tesouro espiritual. Esse arsenal de passagens e ensinamentos, consultável a qualquer momento, servirá como combustível para manter vivo o seu fervor e, acima de tudo, como bússola e luz para guiar a sua caminhada diária.


O sexto princípio fundamenta-se na oração do apóstolo Paulo, na qual ele suplica que o Senhor ilumine o entendimento dos efésios para a compreensão das verdades sagradas. Tal prática deve ser constante em nossa vida: sempre que abrirmos as Escrituras, é indispensável rogar humildemente ao Senhor, com fervor e profunda devoção, que ilumine o nosso coração e a nossa mente. Devemos clamar intensamente para que o Espírito Santo nos conduza a toda a verdade durante o estudo da Palavra. O Espírito Santo é o nosso guia supremo.


O sétimo princípio que desejo apresentar consiste na tríade: escrever, anotar, revisar e memorizar. Este processo demanda concentração elevada, força de vontade, determinação e longanimidade; é um exercício contínuo de aprofundamento e imersão. Tal prática requer uma dedicação rigorosa e uma constância inabalável para que haja uma crescente familiaridade com o texto bíblico e com os temas estudados nas Sagradas Escrituras. Lembre-se: o domínio do conteúdo exige o uso diligente de papel e caneta, o hábito metódico das anotações, a memorização sistemática e, acima de tudo, um nível profundo e ininterrupto de atenção.


Como um complemento ao sétimo princípio, é fundamental que você adquira o hábito de registrar versículos bíblicos relevantes, elaborar diagramas, realizar análises e promover comparações. Ao transcrever trechos, rascunhar paralelos entre passagens distintas sobre o mesmo tema e realizar apontamentos detalhados, você internalizará a aplicação desse princípio com maior eficácia. Tais práticas — que incluem a investigação minuciosa de textos, a articulação de notas temáticas e a síntese de descobertas — são essenciais para o seu aprimoramento acadêmico e para o desenvolvimento contínuo da sua percepção espiritual.
Para concluir, apresento duas diretrizes adicionais que devem ser consideradas além das que já expus.


Primeiramente, a gratidão. É imprescindível agradecer a Deus por, mediante o Seu Santo Espírito, revelar progressivamente as verdades contidas nas Escrituras. Você tem alcançado crescimento na graça e no conhecimento por meio do processo de leitura, estudo, anotação e meditação que aqui demonstrei. A oração é fundamental, tanto no que concerne ao pedido de auxílio do Espírito Santo quanto ao agradecimento pela assistência recebida.

Em segundo lugar, desejo reiterar uma verdade essencial: não existem "verdades novas" nas Escrituras. O que existe são verdades que, embora presentes, ainda não foram percebidas devido à falta de discernimento. Elas sempre estiveram lá.

 

“Nas Escrituras não existem verdades novas, existem verdades que não foram percebidas, elas estão sempre lá, o que existe é a falta de discernimento para percebê-las.”

 

Amém.


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C. J. Jacinto

 

A Perda da Visão Espiritual

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 O que significa perder a visão espiritual? Somos chamados a viver de forma celestial; portanto, mesmo inseridos neste mundo, não podemos desviar o nosso foco, que é o Senhor Jesus Cristo. A perda da visão espiritual consiste em abdicar da natureza sobrenatural da vida cristã, o que conduz à mornidão, tal como ocorreu aos cristãos de Laodiceia.

 Esse estado de indiferença — caracterizado por não ser nem quente nem frio — é descrito como uma condição tão precária que provoca a reprovação do Senhor. A causa subjacente a esse declínio é a substituição da perspectiva celestial pelo apego às coisas materiais e terrenas. A fé, antes vibrante e sobrenatural, torna-se meramente religiosa, formal e destituída de vida. Contudo, o Senhor oferece uma promessa aos vencedores em meio a tal contexto: "Ao que vencer, lhe darei que se sente comigo no meu trono". Isso demonstra que, embora o cristão tenha se voltado para a terra, existe um chamado superior à restauração. Quando se perde a dimensão sobrenatural da comunhão com Deus, de nada adianta a aparência de religiosidade. Diante da mornidão espiritual, a orientação do Senhor é clara: "compra colírio", pois esta é a necessidade urgente de quem se distanciou da verdadeira visão do Reino.



C. J. Jacinto



Inspirado nos escritos de T Austin-Sparks 

O RESULTADO DA PERDA DA VISÃO ESPIRITUAL

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 O Resultado da Perda da Visão Espiritual

C. J. Jacinto



“Perder a visão espiritual é perder a característica sobrenatural da vida espiritual, e isso produz a situação de Laodiceia. Se você buscar entrar no âmago dessa questão — esse estado de coisas representado por Laodiceia, nem quente nem frio — o estado que leva o Senhor a dizer: ‘Vomitar-te-ei da minha boca’, e se você perguntar: ‘Por que é assim? O que está por trás disso?’, só uma coisa responde: a característica sobrenatural foi perdida e desceu para a terra. É algo religioso, mas saiu do seu lugar celestial. Quando isso termina, não importa quão religioso você seja, o Senhor tem apenas uma palavra a dizer: compre colírio — essa é a sua necessidade.”

— T. Austin-Sparks

Introdução: O Perigo Silencioso

Existe um perigo que não faz barulho. Não se anuncia com fanfarras nem chega de forma dramática. Ele avança em silêncio, imperceptível, como uma névoa que, pouco a pouco, cobre os horizontes da alma — até que o crente, olhando ao redor, já não consegue ver onde está nem para onde vai. Esse perigo tem um nome: a perda da visão espiritual.

Este artigo não foi escrito para condenar ninguém, mas para despertar consciências. Há cristãos sinceros — pessoas que amam a Deus e frequentam a Igreja — que, sem perceber, estão vivendo muito abaixo da plenitude que Cristo conquistou para eles. A pergunta que precisamos fazer, com coragem e honestidade, é esta:

Será que ainda enxergo com os olhos do Espírito?

A visão espiritual não é uma experiência mística reservada a alguns poucos iluminados. É a condição normal e esperada de todo aquele que nasceu de novo. Perdê-la é, portanto, algo grave — tão grave que o próprio Cristo declarou que preferiria ver alguém completamente frio a vê-lo naquele estado morno e autoengano em que a visão já foi perdida, mas a religião ainda permanece.

 

I. O Que é a Visão Espiritual?

Antes de falar sobre a perda, precisamos entender o que é a visão espiritual. Não se trata de visões ou sonhos sobrenaturais, embora esses dons existam. A visão espiritual é a capacidade dada pelo Espírito Santo de enxergar a realidade como Deus a enxerga: ver o pecado como ele realmente é, ver Cristo como Ele verdadeiramente é, ver a eternidade como ela realmente pesa sobre o presente, e ver os outros como almas imortais que precisam do Evangelho.

O novo nascimento — esse ato radicalmente sobrenatural de Deus na alma humana — não é uma reforma de caráter nem uma melhora moral. É uma ressurreição. Uma criação nova. E como tal, possui três dimensões insepáveis que aprofundam a transformação operada por Deus:

Arrependimento (metanoia): Uma mudança completa no mundo do pensamento. O pecador que se arrepende verdadeiramente não apenas sente culpa — ele passa a pensar de forma inteiramente diferente sobre Deus, sobre si mesmo e sobre o pecado. O trono do eu é derrubado, e Cristo é entronizado como Senhor.

Conversão (epistrophe): Uma mudança completa de direção. Como um barco que vira o leme e navega para o lado oposto, o convertido não apenas muda de atitude — muda de destino, de lealdades e de propósito. O que antes o atraia agora o repele; o que antes desprezava agora ama.

Regeneração (palingenesia): Uma mudança completa na natureza. Não se trata de pintar a fachada de um velho edifício, mas de construir um ser inteiramente novo por dentro. A semente da vida divina é plantada na alma, e esse ser passa a ter a capacidade de perceber realidades espirituais que antes lhe eram absolutamente invisíveis.

Essa é a visão espiritual em sua origem: ela nasce no novo nascimento e é alimentada pela comunião constante com o Espírito Santo. Quando essa comunião se enfraquece, a visão começa a turvar. Quando ela se rompe completamente, o crente entra na condição mais perigosa: a de ser religioso sem ser espiritual.

 

II. A Tragédia de Laodiceia — O Retrato do Crente Sem Visão

No livro do Apocalipse, Cristo dirige sete cartas a sete igrejas. Cada uma é um raio-X espiritual de uma condição específica. Mas a última — a carta à igreja de Laodiceia — é a mais perturbadora, porque não descreve uma perseguição, uma heresia óbvia ou uma imoralidade escandalosa. Descreve algo muito mais sutil e perigoso: o autoengano espiritual.

“Conheço as tuas obras: não és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, estou a ponto de vomitar-te da minha boca. Porque dizes: Sou rico, e me tenho enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu.” — Apocalipse 3:15-17

Note com atenção: Laodiceia não era uma igreja de pessoas violentas ou descaradamente imorais. Era uma congregação próspera, satisfeita consigo mesma — o tipo de comunidade que, aos olhos humanos, parecia um modelo de sucesso. Tinham riqueza, influência, estabilidade.

O problema não era visível por fora. Era uma cegueira por dentro. Eles não sabiam que estavam nus. Não sabiam que eram pobres. Não sabiam que eram cegos. E essa ignorância era a dimensão mais aterradora de sua condição — porque não há remédio para uma doença que o paciente se recusa a reconhecer.

Como alguém perde a visão sem perceber que a perdeu?

Essa é a natureza traiçoeira da mornidão espiritual. Ela não acontece de uma vez. É um processo gradual de pequenas concessões, de verdades que foram sendo relativizadas, de prioridades que foram sendo reordenadas, de momentos de oração que foram sendo encurtados, de convicções que foram sendo suavizadas para não ofender ninguém.

O resultado é uma fé que ainda usa o vocabulário cristão, ainda frequenta os cultos, ainda canta os hinos — mas perdeu a substância sobrenatural que tornava tudo aquilo vivo e transformador. Tornou-se uma forma sem conteúdo, um ritual sem encontro, uma religião sem Cristo.

 

III. As Causas do Enfraquecimento da Visão

1. O enfraquecimento do conceito de verdade

Vivemos em uma era que odeia os absolutos. A cultura pós-moderna declarou que a verdade é relativa, que cada um tem a sua. E essa mentalidade infiltrou-se dentro das igrejas. Quando os absolutos bíblicos são enfraquecidos — quando ‘o pecado é sério’ vira ‘somos todos humanos’, quando ‘Cristo é o único caminho’ vira ‘existem muitas formas de chegar a Deus’ — a visão espiritual inevitavelmente embaça. A visão espiritual depende da clareza da verdade como depende a visão física da clareza da luz.

2. O abandono da centralidade de Cristo

A visão espiritual do verdadeiro cristão consiste em olhar para Cristo como O Caminho — não como um caminho entre outros, mas como o único, o exclusivo, o insubstituível (João 14:6). As Escrituras são inequívocas: ‘Todas as coisas convergem para Ele’ (Efésios 1:10). Quando o pregador deixa de pregar Cristo crucificado e ressurreto como centro de tudo — quando o sermão se torna uma palestra motivacional, quando a mensagem da cruz é diluída para não ‘assustar’ os visitantes — a visão espiritual da congregação começa a se apagar.

3. A minimização da gravidade do pecado

O cristão moderno perdeu o conceito da real gravidade do pecado. Não tem inclinação para a santidade, não tem interesse pela obediência e, ao invés da separação do mundo, abraça os prazeres do presente século. Isso é devastador — porque a profundidade da nossa gratidão ao Salvador depende diretamente da profundidade da nossa compreensão do que fomos salvos. Aquele que não enxerga o pecado como uma rebelião horrenda contra um Deus santo jamais enxergará a cruz como o evento mais sublime da história.

4. A substituição da fé pela emoção

Vivemos em um momento em que a maioria dos cristãos vive mais por sentimentos do que pela razão renovada pelo ensino constante das Escrituras. Héreges já não são mais evitados, pois a unidade pelo amor sentimental é colocada acima da importância da doutrina como fundamento. Mas os sentimentos são voláteis e facilmente manipuláveis. A fé sólida é construída não sobre a areia das emoções momentâneas, mas sobre a rocha da Palavra de Deus meditada, estudada e obedecida.

 

IV. O Remédio: A Ordem de Cristo a Laodiceia

O que é admirável na carta a Laodiceia é que Cristo não abandona essa igreja. Ele não a julga de longe com frieza. Ele está do lado de fora da porta, batendo — querendo entrar, querendo restaurar o relacionamento, querendo reacender a chama.

“Eu te aconselho que compres de mim ouro refinado no fogo, para te enriqueceres; e vestes brancas, para te vestires… e colírio para ungires os teus olhos, para que vejas.” — Apocalipse 3:18

O colírio para os olhos é a imagem mais poderosa dessa carta. Cristo está dizendo: sua visão pode ser restaurada. Você não está condenado a permanecer cego para sempre. Mas precisa reconhecer que está cego — e isso exige humildade, o primeiro passo de qualquer restauração genuína.

O processo de restauração da visão espiritual passa por quatro caminhos indispensáveis:

1. O retorno à Palavra: Não como leitura devocional superficial, mas como alimento diário que transforma o pensamento. O crente que não medita nas Escrituras regularmente está cortando o suprimento de oxigênio da sua visão espiritual.

2. O retorno à oração real: Não a oração mecânica e ritualista, mas o clamor honesto da alma diante de Deus — incluindo a confissão de que perdemos a visão e que precisamos que Ele a restaure.

3. O retorno ao arrependimento: A palavra de Cristo a Laodiceia é clara: ‘Sê zeloso e arrepende-te’ (Apocalipse 3:19). O arrependimento não é um evento pontual na conversão — é uma postura permanente da alma humilde diante de Deus.

4. O retorno à doutrina saudável: A verdade importa. A doutrina importa. O fundamento sobre o qual se constrói a fé importa. Uma visão espiritual clara só é possível quando os contornos da verdade são nítidos.

 

V. Cristo Vivo — O Fundamento de Toda Visão Espiritual

O Cristianismo parte de um pressuposto que muda tudo: Cristo não está morto. Ele ressuscitou. Ele está vivo. E esse fato — não uma metáfora, não um símbolo, mas um evento histórico verificado por centenas de testemunhas — tem uma consequência prática imediata: com Alguém que está vivo, devemos manter um relacionamento vivo.

Um relacionamento com um Cristo apenas histórico — o Cristo das pinturas, dos sermões moralizantes, das tradições religiosas — não sustenta a visão espiritual. Ela é sustentada pelo Cristo do Espírito Santo, que habita no crente, que intercede, que guia, que convence, que consola e que transforma.

Por isso o apóstolo Paulo, mesmo depois de décadas de fé e serviço, ainda clamava: ‘Para que eu O conheça’ (Filipenses 3:10). A visão espiritual não é uma conquista que se guarda na prateleira. É uma chama que precisa ser alimentada dia após dia, na comunião, na obediência e no amor.

 

Conclusão: Não Deixe a Névoa Cobrir o Horizonte

Laodiceia não estava no inferno. Estava no purcatório espiritual — e esse talvez seja o lugar mais difícil de sair, justamente porque o conforto do morno impede o despertar. O frio ao menos sabe que está frio. O morno acha que está bem.

Se este artigo produziu em você algum desconforto, não suprima esse sentimento. Pode ser que seja o Espírito Santo usando essas palavras como colírio — para abrir seus olhos para uma realidade que você deixou de ver.

A boa notícia é que Cristo ainda está do lado de fora da porta, batendo. Ainda há tempo de abrir.

Que a Igreja de Cristo recupere a visão espiritual perdida. Que volte a ver o pecado com seriedade, a cruz com devoção, a eternidade com urgência e a Cristo com amor apaixonado. Porque o mundo ao nosso redor não precisa de uma Igreja que pareça com ele — precisa de uma Igreja que o ilumine. E não se pode iluminar o que quer que seja sem enxergar primeiro.

 

Artigo de C. J. Jacinto  |  Publicado originalmente em 2018  |  www.heresiolandia.blogspot.com

Enxergando Além da Linha do Horizonte

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Quando o homem tenta amenizar a gravidade da natureza do pecado, para justificar seus erros, pavimenta todo o curso da sua apostasia pessoal.

 

Somos tentados a agradar os homens amenizando a seriedade da danação eterna, mas aqueles que foram iludidos por não terem ouvido as advertências necessárias, podem ser potenciais testemunhas da acusação contra a nossa omissão deliberada.

 

A verdadeira espiritualidade não se demonstra por confusão, mas por ordem e decência, é como o amanhecer cuja demonstração de glória não precisa de ruídos.

 

Todas as coisas são preenchidas pela oração que pode surgir no silencio, e no silencio alcançamos a plenitude quando oramos.

 

Tudo no universo se dissolve, o presente mundo é passageiro. Há uma realidade eterna no mundo vindouro, mas só os redimidos podem ter certeza desses fatos. (Inspirado em Provérbios 23:5)

 

Nada mais trágico do que contemplar o falso brilho do fogo estranho, nutrindo a certeza de estar contemplando a glória de Deus.

 

Autor: Clavio J. Jacinto

 

 

 

O CAMINHO DA VERDADEIRA VISÃO ESPIRITUAL

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O CAMINHO DA VERDADEIRA VISÃO ESPIRITUAL

 

C. J. Jacinto

 

Em Mateus, capítulo 5, versículo 8, Jesus proclama: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus." Esta promessa é frequentemente associada à visão beatífica, a contemplação direta de Deus que os redimidos experimentarão na vida futura. Tal experiência, que implica na visão e na comunhão com a divindade, somente será possível com um corpo glorificado. Nossa condição presente, limitada pela natureza humana, não nos permite suportar a visão direta da glória divina sem um efeito profundo em nossa estrutura psicológica, Paulo no caminho de Damasco e João na Ilha de Patmos são exemplos de uma visão do Cristo glorificado com um impacto psicológico profundo. Assim, a promessa de Jesus se refere a um futuro, e não à experiência imediata, pelo menos no que tange a imensidão da formosura perfeita e da glória do Deus Triúno, pois no esvaziamento e na encarnação, quem via a Cristo via o Pai, mas a natureza do corpo do Verbo escondia a glória excelsa de Sua Divindade. No presente, a contemplação de Deus se dá por meio da fé e da admiração de suas obras. Talvez, esse exercício de fé e contemplação seja um preparo para a capacidade de, um dia, contemplar a glória do Deus supremo e infinito, o Deus Trino que se revela de maneira maravilhosa nas Escrituras. Oh quão abençoadas são as praticas piedosas do homem celestial, pois assim o Espírito do Senhor trabalha em nossas vidas para que a visão celestial seja cada vez mais ampla enquanto nossa peregrinação terrena chega no fim.

 Em um trecho notável, Santo Agostinho assevera: "Toda a nossa tarefa nesta vida, queridos irmãos, consiste em curar os olhos do coração para que possamos contemplar a Deus." Aqui nesse trecho, concordo completamente com Agostinho. Acredito que aprimoramos nossa capacidade de visão ao nos dedicarmos à profunda contemplação da obra redentora de Jesus Cristo na cruz do Calvário.

 Considerar a encarnação, a razão pela qual Ele desceu do céu, é essencial. As Escrituras nos informam que Jesus veio em busca daqueles que estavam perdidos, e a encarnação teve um propósito definido, permeado por uma profundidade incomensurável. Nada relacionado à obra consumada e perfeita de Jesus Cristo na cruz pode ser considerado trivial. A mensagem da cruz é intrinsecamente oposta a uma fé superficial e a uma religiosidade meramente formal. Trata-se de um evento esplendoroso e sublime, cujo estudo aprofundado nos conduz a um coração repleto de temor reverencial perante esta verdade extraordinária: a obra realizada por Jesus Cristo na cruz do Calvário.
 Tal obra só foi possível graças à encarnação de Cristo. Ele se tornou humano para, na cruz do Calvário, oferecer um sacrifício perfeito. Tudo isso possui implicações profundas e magníficas. O exercício constante de meditar e refletir sobre essa verdade suprema pode nos capacitar a exercitar nossos olhos espirituais, a fim de contemplar a Deus, Seus mistérios, Suas bênçãos e Sua vontade.

 De fato, a prática da nossa fé é um exercício que promove uma profunda transformação espiritual em nosso íntimo, visando o nosso aperfeiçoamento. Este processo nos prepara para, no futuro, contemplarmos a glória, a majestade e a incomensurável sabedoria de Deus. A visão face a face com Deus, essa experiência é possível através de Cristo, por meio da obra consumada e perfeita de Jesus. É fundamental refletirmos sobre isso, pois Jesus afirmou: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim." Portanto, a viabilidade dessa jornada, esse caminho de peregrinação em nossa vida terrena, que nos leva ao encontro com Deus Pai, realiza-se única e exclusivamente por intermédio de Cristo.

 Essa afirmação não se configura como uma teoria, mas sim como um fato, fundamentado em realidades espirituais duradouras e profundas. Assim sendo, é imperativo reiterar a orientação bíblica de direcionar o olhar unicamente a Jesus Cristo, o autor e consumador da nossa fé. A Ele, somente a Ele, devemos nossa devoção.

 Este é um ensinamento apostólico fundamental: a doutrina apostólica nos direciona a um único foco. Qual a direção que os apóstolos nos indicam? Eles nos orientam a olhar exclusivamente para Jesus. (Hebreus 12:2) É através do olhar fixo em Jesus, cultivando nossa fé e direcionando nosso coração a Ele, que encontramos a verdadeira orientação. Jesus, o Divino, o Verbo Encarnado, o Cristo Ressuscitado, o Cristo Ascenso aos céus, o Cristo Mediador, o Cristo Triunfante: é Nele que devemos depositar nossa confiança, nossa segurança e nosso amor. Ao fixar nosso olhar em Jesus, nosso coração será moldado continuamente. Assim, no futuro, na promessa dos novos céus e da nova terra, poderemos comparecer diante de Deus e, em uma visão beatífica, contemplá-lo, adorá-lo e amá-lo com toda a nossa intensidade.



É imperativo, em sinal de plena obediência, que conservemos nosso coração voltado para Cristo, crucificado e glorificado, assentado à direita de Deus, aquele que retornará em majestade e poder. Deste modo, contemplamos o autor e consumador de nossa fé. A esta realidade devemos dedicar nossa atenção, pois a obediência cristã reside na firmeza do olhar. Olhar fixo na vontade divina. E qual é essa vontade? É que voltemos nosso olhar a Cristo, unicamente a Ele.

 No entanto, outrora, no jardim, a serpente seduziu Eva, desviando-a da obediência. Induziu-a a desviar o olhar de Deus, a ignorar Sua palavra e Sua vontade. Em Gênesis 3, compreendemos que Deus instruiu: "Voltem-se para mim, ouçam minha palavra e obedeçam-me". Satanás, a antiga serpente, porém, persuadiu Eva a desviar o foco da obediência e da vontade de Deus, direcionando-a a outra imagem, a algo completamente diferente, em desacordo com os propósitos divinos. Assim, Eva abandonou o direcionamento divino e transgrediu a proibição de Deus.

 Tudo isso fez Satanás, intentando contra o que Deus disse, sua malignidade foi menosprezar a autoridade do que Deus disse, impondo a idéia da insuficiência das declarações divinas. Eva caiu na armadilha, e hoje muitos caem na armadilha da crença induzida de que Cristo só Cristo não é suficiente, só a obra da cruz não é perfeita e suficiente, é preciso algo mais, um acréscimo além de Cristo, mas se você ler o Novo Testamento descobrirá que os apóstolos centralizaram a obra e a Pessoa de Cristo e concentraram todas as doutrinas da redenção dentro desse principio único e absolutamente como um assunto encerrado. Cada pequeno desvio, por mínimo que seja, de tirar Cristo desse centro absoluto, pelo qual o cosmos está em processo de total unificação por meio somente de Cristo, pode a longo prazo, causar uma distancia enorme da verdade central do cristocentrismo apostólico para a escuridão da crença errada que culmina em uma esperança errada, uma fé errada e uma verdadeira decepção. (Efésios 1:10)

 Meu querido irmão, peço que não se deixe seduzir por discursos e ensinamentos vãos, provenientes de pessoas insensatas que buscam desviar seu olhar de Jesus, o autor e consumador da nossa fé. Ele é o princípio e o fim, pois sua obra foi completa na cruz do Calvário. Não permita que nada nem ninguém o afaste dessa certeza. Afaste-se de tudo aquilo que possa tentar desviar seu foco de Jesus Cristo somente. Evite doutrinas e ensinamentos que possam obscurecer o entendimento da centralidade de Cristo em sua vida. Que seus olhos estejam fixos em Jesus, contemplando-o diariamente, até que, um dia, depois da aurora, chegue o dia perfeito, e você possa contemplá-lo na plenitude da glória.