Da Escuridão Ontológica e de Sua Suprema Dissolução na Luz



É uma verdade primordial, gravada tanto na consciência humana quanto na revelação divina: a escuridão, em sua essência mais profunda, constitui um princípio ativo de ocultação. Ela vela a realidade, nega a verdade, e opera este duplo obscurecimento tanto no domínio fenomênico do mundo quanto na esfera transcendente do espírito. Onde as trevas se instalam, o medo germina; a existência perde seu senso teleológico, mergulhando na absurdidade; e a alma é entregue à inquietação da incerteza e ao desconforto da cegueira.

O Apóstolo dos Gentios, iluminado pelo Espírito, diagnostica com precisão anatômica este estado decaído. Fala dos que andam "entenebrecidos no entendimento" (Efésios 4:18), e revela a causa última desta condição: "o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos" (II Coríntios 4:4). Donde se infere, com lógica irrefutável, que a cegueira espiritual é a consequência inevitável e trágica da ausência da Luz. Em antítese gloriosa a este quadro, o Evangelho proclama que "a luz resplandece nas trevas" (João 1:5), afirmando a irrupção do Divino na história humana.

Esta metáfora da escuridão transcende o mero literário para descrever realidades tangíveis. Ela se manifesta nas atividades clandestinas do "mercado negro" e nos recônditos amorfos da "internet profunda", reinos onde a ilegalidade e a anomalia moral encontram liberdade para se proliferar. Do mesmo modo, um texto hermético e impenetrável à razão é chamado de "obscuro". O processo ascende, contudo, ao plano espiritual: as artes das trevas, o satanismo, a feitiçaria — que as Escrituras identificam com precisão ao nomear "príncipes das trevas deste século" e "potestades das trevas" (Efésios 6:12; Colossenses 1:13).

As Santas Escrituras, portanto, estabelecem uma correspondência profunda entre a escuridão física e a espiritual, mostrando-as como análogas em seus fenômenos e desfechos. Se, por um lado, encontramos as trevas como recurso didático para descrever o chaos primordial (Gênesis 1:2) ou para pintar quadros apocalípticos (Joel 2:2), por outro, e de modo mais decisivo, elas são associadas à incredulidade e configuram o sistema operacional do Adversário. Nosso Senhor Jesus Cristo percebeu em Sua hora derradeira a convergência deste poder, denominando-a "a hora e o poder das trevas" (Lucas 22:53). Cegar os entendimentos é a dinâmica central da ação demoníaca.

O Apóstolo Paulo traça, com sublime clareza, a linha divisória deste conflito cósmico: outrora, os eleitos "éreis trevas" (Efésios 5:8), mas agora, em Cristo, "já não estais em trevas" (I Tessalonicenses 5:4). O mundo, em sua alienação, "ama mais as trevas do que a luz" (João 3:19), e esta paixão pela obscuridade gera uma cegueira espiritual tão profunda que, quando "um cego guia outro cego, ambos caem no abismo" (Lucas 6:39). A severa advertência ao anjo da Igreja em Laodiceia — chamada de "cega" — comprova este princípio: onde a Luz do Mundo (Cristo) se encontra do lado de fora (Apocalipse 3:20), a escuridão interior é total.

Segundo o profeta Isaías, a escuridão é sinal de infortúnio (Isaías 8:22). Ser cristão, portanto, não é meramente ter luz, mas, conforme a injunção radical do Sermão do Monte, SER luz (Mateus 5:14). Este verbo de essência — SER — implica uma transformação ontológica. Não se porta uma lanterna; torna-se um farol. O crente é chamado a brilhar, a iluminar, a ser um epifânico instrumento de revelação. A luz que emana de uma vida regenerada e santificada tem um propósito cristocêntrico: revelar o Evangelho, irradiar os raios da glória da redenção, mostrar o Salvador aos perdidos e iluminar o único caminho da Verdade, expondo a natureza falaz e maligna dos atalhos oferecidos pelo deus deste século.

Em sua visão inaugural, o Apóstolo João vê a Igreja simbolizada pelos candelabros de ouro (Apocalipse 1:12-13, 20). A função do candelabro no Tabernáculo era una: emitir luz, resplandecer continuamente. Assim é a vocação da Igreja de Cristo: ser, coletiva e individualmente, o meio pelo qual a realidade multiforme da graça de Deus brilha nas trevas do mundo, "para que todos os homens a vejam" e glorifiquem ao Pai que está nos céus.

Que esta meditação nos leve a um exame solene: permitimos que a Luz de Cristo nos tenha transformado de tal modo que nossa própria existência se torne um ato de revelação, dissipando as trevas ao nosso redor? Pois, no fim, só há duas moradas: o reino das trevas, ou o reino do Filho do Seu amor, "que nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do seu amado Filho" (Colossenses 1:13).

 

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