O Pragmatismo Como Heresia na Igreja Moderna




 

 

 

 

"O Pragmatismo como Desafio Epistemológico à Autoridade Bíblica na Igreja Contemporânea: Uma Análise Crítica do Documento Pragmatism & The Modern Church"


Resumo

Este artigo examina o fenômeno do pragmatismo dentro do cristianismo moderno, com base no documento Pragmatism & The Modern Church (2010), de Terry Arnold. Através de uma análise crítica, investiga-se como a lógica pragmática — segundo a qual a eficácia valida a verdade — tem sido aplicada na prática eclesiástica, especialmente no evangelismo e na liturgia. O estudo argumenta que essa abordagem representa uma ruptura epistemológica com a tradição reformada, substituindo a autoridade da Escritura por critérios utilitaristas e experienciais. Por meio de revisão bibliográfica e análise teológica, o artigo demonstra que o pragmatismo religioso não apenas compromete a ortodoxia cristã, mas também gera consequências pastorais de longo prazo, como a trivialização da graça e a instabilidade discipular.


Introdução

A tensão entre verdade e utilidade tem sido central na história do pensamento cristão. No entanto, com o avanço do pós-modernismo e da lógica mercadológica, a igreja contemporânea tem sido desafiada a priorizar resultados imediatos sobre a fidelidade doutrinária. O documento Pragmatism & The Modern Church, do teólogo australiano Terry Arnold, oferece uma crítica teológica a essa tendência, identificando-a como uma forma de pragmatismo religioso — um sistema em que a eficácia pastoral valida a verdade teológica. Este artigo analisa essa crítica à luz da epistemologia cristã reformada, investigando como o pragmatismo se insere historicamente no cristianismo e quais são suas implicações teológicas e pastorais.


1. Fundamentos Filosóficos do Pragmatismo Religioso

1.1. John Dewey e a Epistemologia Experimental

O pragmatismo moderno tem em John Dewey um de seus principais articuladores. Para Dewey, a verdade não é uma correspondência com a realidade, mas uma consequência útil de uma ação. Essa lógica, quando transplantada para o campo religioso, implica que métodos que geram crescimento ou decisões públicas são, por definição, aprovados por Deus — independemente de sua conformidade com a Escritura.

1.2. Richard Rorty e o Fim da Verdade Absoluta

Richard Rorty radicalizou o pragmatismo ao negar a possibilidade de uma verdade universal. No contexto religioso, isso se traduz na suspensão da autoridade das Escrituras como norma suprema, substituída por narrativas locais e experiências válidas dentro de seus contextos. Essa visão está na base do movimento emergente, como observado por Arnold.


2. Do Liberalismo ao Movimento Emergente: Uma Genealogia do Pragmatismo Cristão

2.1. Schleiermacher e a Subjetivação da Fé

Friedrich Schleiermacher, frequentemente citado como pai do liberalismo teológico, deslocou o centro da fé cristã da revelação objetiva para a experiência religiosa. Essa mudança preparou o terreno para uma fé baseada em sentimentos e experiências, mais do que em proposições verdadeiras.

2.2. A Declaração de Cambridge (1996) como Reação Reformada

A Declaração de Cambridge, assinada por 80 líderes evangélicos, representou uma tentativa de restaurar a autoridade das Escrituras contra o pragmatismo da “igreja do crescimento”. No entanto, como observa Arnold, a declaração foi amplamente ignorada, o que indica uma resistência institucional à crítica teológica.


3. Pragmatismo na Liturgia e no Evangelismo

3.1. Liturgia como Experiência

A adoção de formatos de culto baseados em atração emocional, música performática e mensagens motivacionais é interpretada por Arnold como uma substituição da teologia pela psologia. A liturgia deixa de ser uma resposta à revelação de Deus e torna-se um instrumento de engajamento humano.

3.2. Evangelismo de Decisão e a Crise do Discipulado

O modelo evangelístico moderno, centrado em “decisões rápidas”, é criticado por produzir altas taxas de apostasia — chegando a 80%, segundo o autor. Esse modelo, baseado na lógica do “funciona, então é válido”, ignora os processos de conversão regeneracional e discipulado de longo prazo, centrados na pregação da lei e do evangelho.


4. Consequências Teológicas e Pastorais do Pragmatismo

4.1. Erosão da Autoridade das Escrituras

Ao submeter a verdade bíblica à validação pragmática, a igreja abre mão de sua função profética e se submete a lógicas mercadológicas. A Bíblia deixa de ser a norma suprema e torna-se um recurso utilitário, selecionado conforme sua eficácia pastoral.

4.2. Trivialização da Graça

A graça, quando anunciada como uma oferta emocional ou experiência consumível, perde sua profundidade teológica e sua capacidade de transformação radical. A conversão torna-se um produto religioso, e não um ato soberano de Deus.

4.3. Instabilidade Discipular

A ausência de formação doutrinária sólida resulta em crentes emocionalmente engajados, mas teologicamente frágeis. Isso gera instabilidade comunitária, sincretismo e vulnerabilidade a falsos ensinos.


5. Alternativa Reformada: Verdade como Fundamento da Prática

5.1. A Prioridade da Doutrina

Arnold recupera a tradição reformada, especialmente representada por Jônatas Edwards, Spurgeon e os Puritanos, que combinavam profundidade intelectual com vida espiritual vibrante. A doutrina não é inimiga da experiência, mas sua base necessária.

5.2. Pregação Expositiva como Antídoto

A pregação centrada nas Escrituras, sem apelo a gimmicks ou manipulação emocional, é apresentada como suficiente para converter, sustentar e edificar a igreja. A eficácia do Evangelho não depende de métodos inovadores, mas da palavra pregada com fidelidade.


Conclusão

O pragmatismo religioso, como descrito e criticado por Terry Arnold, representa mais do que uma questão metodológica: é um deslocamento epistemológico que redefine a verdade cristã com base em critérios de eficácia. Esse deslocamento não apenas compromete a ortodoxia cristã, mas também gera frutos pastorais duvidosos, como conversões superficiais e discipulado frágil. A resposta reformada, baseada na autoridade inquestionável das Escrituras e na pregação fiel, oferece uma alternativa teologicamente coerente e pastoralmente sustentável. Em última análise, a igreja não precisa “descer ao Egito” em busca de métodos — a palavra fiel, pregada com clareza, é suficiente para o trabalho de Deus.


Referências

 

Arnold, T. (2010). Pragmatism & The Modern Church. TA Ministries.
Cambridge Declaration (1996). Alliance of Confessing Evangelicals.
MacArthur, J. (1993). Ashamed of the Gospel.
McLaren, B. (2004). A Generous Orthodoxy.
Spurgeon, C. H. (1886). The Greatest Fight in the World.
Edwards, J. The Works of Jonathan Edwards (Banner of Truth).

 

 

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