Quando Jesus Parece Não Querer Ser Entendido – e Por Que Isso é um Convite à Reflexão.
“adquire a sabedoria, emprega tudo o que possuis na aquisição de entendimento” (Provérbios 4:7)
Um olhar rápido sobre os evangelhos pode deixar o leitor intrigado: por que Jesus, que veio revelar a verdade, diz que fala por parábolas “para que, vendo, vejam, mas não percebam”? (Mc 4.11-12). Seria Ele um mestre elitista, que esconde o ensino dos “simples”? Ou será que, ao contrário, essa estratégia esconde um convite profundo à reflexão – e não uma exclusão?
A Bíblia, longe de ser um manual de respostas prontas, foi escrita para estimular o pensamento crítico, o questionamento e até a dúvida. O problema não está na falta de luz, mas na vontade de enxergar.
“A fé cristã não é um passo para a escuridão mas para o conhecimento que ilumina, se assim não fosse Salomão jamais teria dito que a vereda do justo é como a luz da aurora que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito e Cristo jamais teria dito, que quem segue Ele jamais andará em trevas”(C. J. Jacinto)
1. Parábola não é charada – é espelho
Jesus não usava estórias para entreter ou confundir. Ele usava imagens da vida cotidiana – semeadores, ovelhas, festas, moedas – para que o ouvinte se visse dentro da história. A parábola é um espelho pintado: quem se debruça sobre ela vê sua própria imagem espiritual.
Quando o fariseu ouve a parábola do fariseu e do publicano (Lc 18.9-14), ele deveria se reconhecer no personagem que ora “consigo mesmo”. Mas, se não refletir, só ouvirá uma crítica ao “outro”. A parábola separa o que parece ouvir de quem realmente escuta.
2. “Quem tem ouvidos, ouça” – a graça da repetição
A expressão “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” aparece sete vezes apenas em Marcos. Não é um elogio à audição física, mas um desafio à vontade. Jesus não impede ninguém de entender – Ele exige que se queira entender.
A reflexão cristã começa aí: não basta ouvir a Palavra; é preciso querer ser transformado por ela. A parábola é como água congelada: só serve se derretida pelo calor da meditação. Quem não parar para pensar, questionar, confrontar, leva para casa apenas uma história bonita.
"Para que a alma de uma pessoa se inflame com paixão pelo Deus vivo, a mente dessa pessoa deve primeiro ser informada sobre o caráter e a vontade de Deus. Não pode haver nada no coração que não esteja primeiro na mente."(R. C. Sproul)
3. A “pós-verdade” também existe na religião
O texto original lembra: vivemos a era da pós-verdade, onde meias-verdades e versões confortáveis substituem os fatos. Isso não é exclusividade da política ou da ciência. Nas igrejas também há “evangelho alternativo”: versões bonitinhas de Jesus que nunca incomodam, não exigem arrependimento, não custam nada.
A reflexão bíblica é o antídoto contra o cristianismo de confuso da pós-modernidade, a fé cristã bíblica é um convite a estabelecer absolutos:
“Será que entendi bem?”
“Será que estou usando a Bíblia para confirmar o que já penso?”
“Será que Deus está me dizendo algo que não quero ouvir?”
"O conhecimento é indispensável para a vida e o serviço cristão. Se não usarmos a mente que Deus nos deu, nos condenamos à superficialidade espiritual e nos isolamos de muitas das riquezas da graça de Deus." (John Stott)
4. Um exercício de reflexão para esta semana
Leia Marcos 4.1-20 – a parábola do semeador.
Escreva num papel:
Qual caminho (caminho pedregoso, espinhos, terra boa) mais me parece hoje?
Qual preocupação tem tirado a Palavra de mim?
Ore: “Senhor, não deixo que eu me ouça sem me escutar. Tira a casca do coração.”
Coloque o papel na Bíblia. Relia por três dias. Deixe a parábola cavar o solo.
Quando a lagrida da reflexão molhar o coração, a semente vai brotar – e não será mais a mesma.
"O pensamento é indispensável no caminho para a paixão por Deus. Pensar sob a mão poderosa de Deus, pensar imerso em oração, pensar guiado pelo Espírito Santo, pensar ancorado na Bíblia... tal pensamento é indispensável em uma vida de louvor pleno a Deus." (John Piper)
Conclusão: a dificuldade é parte do projeto
Jesus quer ser entendido, mas não quer ser ouvido por acidente. Ele esconde para revelar: só enxerga quem se inclina para ver. A reflexão cristã não é um luxo de teólogo, é a porta de entrada do Reino.
Quem reflete, converte.
Quem não reflete, apenas opina.
Abra a Bíblia hoje – mas não corra.
Deixe a parábola te parar.
E, na pausa, ouça o que o Espírito diz às igrejas – e a você.
"Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sentido, razão e intelecto, pretendia que renunciássemos ao seu uso." (Galileu Galilei)
Fonte da pesquisa: https://www.leboncombat.fr/bible-stimuler-reflexion/
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