ADVERTÊNCIAS SOLENES

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Se te professas cristão, e o mundo se ofende por tua conduta virtuosa e te odeia por tuas boas ações, és bem-aventurado em Cristo. Mas, se o mundo te odeia por tua hipocrisia, por tuas atitudes reprováveis e manifestam rejeição ao Evangelho por causa de teus escândalos, és um infeliz.


Jamais se iluda, pois o amor genuíno, proveniente de Deus e infundido em nossos corações pelo Espírito Santo, manifesta-se por meio da paciência e se completa na fidelidade, concedendo ao cristão a fortaleza para perseverar diante das adversidades.

A religião desprovida da experiência de renovação espiritual assemelha-se a um invólucro no qual uma alma espiritualmente morta se refugia, perpetuando sua condição de estagnação. Nesse ambiente, a frieza espiritual favorece o florescimento da apostasia e da superstição, revelando a natureza da morte espiritual que ali se oculta.


Necessitamos de homens que, genuinamente unidos a Cristo, manifestem a vida ressurreta e abundante prometida por Ele, a fim de adentrarem o estado espiritual de morte do mundo, levando a vida que Cristo oferece àqueles que jazem mortos em suas transgressões e pecados.


Uma das passagens mais significativas do Evangelho de Mateus, no capítulo 15 e versículo 14, apresenta a seguinte declaração de Jesus: "Deixai-os; são guias cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova." Nesta afirmação, podemos constatar a gravidade e, simultaneamente, a ironia e a irresponsabilidade inerentes à entrega da própria orientação espiritual a um líder que, por sua vez, pode conduzir seus seguidores à perdição.

C. J. Jacinto

 

CEGO GUIANDO CEGO – ADVERTÊNCIAS SOLENES

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  CEGO GUIANDO CEGO – ADVERTÊNCIAS SOLENES

 


 

C. J. Jacinto

 

 

 

 A controvérsia de Jesus Cristo no capítulo 15 de Mateus, relativa aos judeus e à tradição, atinge um ponto culminante no versículo no versículo 14, Jesus profere uma declaração que se estabelece como um princípio espiritual orientador para a alma sábia. Ele afirma que, quando um cego guia outro cego, ambos cairão em um abismo.

 A passagem "Um cego guiando outro cego" ilustra a ironia da liderança espiritual defeituosa, conforme Jesus a empregou para criticar os mestres que, apesar de uma posição religiosa em evidencia, guiavam seus seguidores por caminhos de perdição. Essa advertência, proferida no contexto específico da época de Cristo, mantém sua relevância para a atualidade. A questão central, que ressoa em nossos dias, é: quem guia sua alma em direção à eternidade? Essa pergunta exige uma reflexão cuidadosa, pois confiar a direção da alma a um líder espiritual "cego" assemelha-se a embarcar em um ônibus conduzido por um motorista sem olhos. As consequências de tal escolha, no que diz respeito à eternidade, podem ser catastróficas. Você já considerou essa possibilidade?

 No décimo sexto capítulo do Evangelho de Lucas, encontra-se a parábola do Rico e do Lázaro. No versículo 23 desse mesmo capítulo, Jesus descreve que, no sofrimento do inferno, o rico ergueu os olhos e viu Abraão e Lázaro em seu seio. Considero que muitos daqueles que, na eternidade, forem conduzidos por guias cegos, seja diante do trono branco no Juízo Final, seja na perdição eterna, erguerão seus olhos e compreenderão que, durante toda a jornada de sua vida espiritual, foram liderados por guias destituídos de visão, quando não percebe que se est´sendo guiado por um cego, também está cego.

 Consideremos a importante advertência do apóstolo Pedro em sua segunda epístola, capítulo 2, versículo 2, onde ele adverte: "E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de negarem o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. E muitos seguirão as suas condutas desregradas, por causa dos quais o caminho da verdade será blasfemado."

Com isso, podemos compreender que falsos profetas e falsos mestres introduzirão heresias que conduzem à perdição. Pedro prossegue: "E muitos seguirão as suas dissoluções”, sendo eles guias cegos, e sendo guiados por cegos. E, dessa maneira, ambos cairão na perdição.

 Desejo também destacar a importante advertência de Paulo aos cristãos da Galácia onde adverte; mesmo que nós ou um anjo do céu anunciasse um evangelho diferente daquele que pregamos, que seja considerado anátema. Paulo reitera essa advertência em Gálatas, capítulo 1, versículos 8 e 9, reforçando sua exortação contra qualquer um, inclusive um anjo, que pregue um outro evangelho que seja anátema. A maldição recairá sobre aqueles que pregam e sobre os seguem um evangelho diferente.

 Diante das inúmeras advertências presentes nas Escrituras, tanto as proferidas por Cristo quanto pelos apóstolos, é prudente questionar a conduta daquele que guia sua vida espiritual e busca conduzi-lo à eternidade. Se o líder espiritual não aborda esses assuntos com rigor e seriedade, isso pode indicar uma falta de responsabilidade. O líder, encarregado da obra, é chamado a lutar pela fé que foi confiada aos santos e a pregar a Palavra de forma fiel e completa, como um obreiro aprovado que não se envergonha e que maneja corretamente a Palavra da verdade. Se seu líder não adverte severamente contra falsos profetas, há a possibilidade de estar sendo conduzido por um líder que, por sua vez, pode estar em erro e em cegueira espiritual. Note o comportamento de tal líder, se ele acha que tudo o que diz Senhor, Senhor, vai entrar no Reino de Deus, ele está em oposição ao que Cristo ensinou! Tome cuidado! Sua alma corre perigo de perdição eterna.

 Se ele não o advertir sobre assuntos tão sérios, é relevante observar o trecho de 2 Pedro, capítulo 2, versículo 1 e 2, onde Pedro enfatiza que surgirão falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias de perdição. Onde esses falsos mestres aparecerão? Entre vós. Podemos compreender claramente a advertência de Pedro, pois, assim como outrora houve falsos profetas no meio do povo de Deus na antiguidade, da mesma forma, haverá falsos mestres entre vós atualmente. Isso indica que os cristãos podem ser seduzidos e enganados por falsos profetas, e os verdadeiros líderes advertirão com seriedade a respeito dessa situação com todo o rigor e cuidado.

 Seu líder o está guiando para a compreensão da obra da cruz? Ele fala com seriedade, promovendo uma reflexão solene, com o objetivo de levá-lo a confiar plenamente na obra consumada e perfeita de Cristo na cruz?

 Reafirmo com veemência: ele age dessa maneira com frequência? Ele está conduzindo você a uma completa dependência de Cristo, o Salvador, que morreu na cruz do Calvário? Ele está praticando tal conduta? Sua pregação é enfática com relação a obra perfeita de Cristo e a gravidade do pecado?

 Que terrível destino aguarda a alma que deposita sua fé em um guia cego, que prega um evangelho deturpado, conduzindo seus seguidores a uma confiança vã e a uma crença errônea! Estes, ensinando aos cegos que a salvação é alcançada por meio de méritos pessoais e que a redenção pode ser obtida fora de Cristo, difamam o Espírito Santo, ao afirmarem que a religião ou a instituição são capazes de salvar, em vez de Cristo. Negam a exclusiva redenção que reside em Cristo Jesus, à eficácia do sangue divino derramado na cruz, a justificação pela fé e os ensinamentos dos apóstolos dentro do Novo Testamento.

 Muitos invalidam os mandamentos de Deus por meio das tradições e doutrinas de homens. Afirmam que a salvação reside em sua organização religiosa, negando que a salvação se encontra em uma pessoa divina que cumpriu a justiça de Deus Pai satisfazendo ao Deus Todo-Poderoso quando morreu na cruz em morte expiatória e substitutiva. Ao pregar a salvação pelas obras, ensina-se que os pecados podem ser expiados por meio de ações humanas, que os pecados do homem podem ser lavados e purificados usando os trapos de imundícia que são considerados suficientes e eficientes para purificar uma alma pecadora. Apelam para ritos, tradições, cerimonialismos, regras, dias santos, sábados, superstições, crendices etc, como meios de se alcançar graça salvadora, mas Paulo adverte: “Não pelas obras de justiça que houvesses feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo”(Tito 3:5 veja também Efesios 2:8 e 9) Recentemente, ouvi alguém declarar que estava "lutando por sua salvação". Essa perspectiva enfatiza o esforço humano como condição para alcançar a salvação, através de suas próprias ações. Milhões de evangélicos compartilham essa crença. Trata-se de uma heresia, uma situação em que "cegos guiam cegos" Somos chamados para lutar contra isso (Judas 1:3) A salvação não é uma conquista humana, o esforço e o zelo religioso não apagam pecados de ninguém, o suor fedorento do esforço religioso não tem poder de apagar pecados. Isso pertence a Cristo, todos os méritos salvíficos pertencem a Cristo e ao sangue que Ele derramou na cruz. Isso é escândalo para uns e loucura para outros, mas para os que não são cegos espirituais é o poder de Deus para a salvação para todo aquele que crê em Cristo conforme diz as Escrituras, e não conforme diz a tradição, a religião ou a filosofia.

 Somos resgatados integralmente pela obra de Cristo, e não por nossos próprios méritos. Aqueles que confiam em suas próprias capacidades incorrem em autossuficiência e, por fim, perecerão. Depositam sua fé em si mesmos como meio de alcançar a salvação, confiar em instituições, em boas obras, em ritos e cerimônias, é seguir outro evangelho, a salvação pertence exclusivamente a Deus ,embora Cristo tenha declarado ser Ele, e não nós, o caminho, muitos não crêem nisso, mesmo confessando serem “cristãos”, sejamos cientes da voz do Espirito: “A salvação pertence ao Senhor” (Jonas 2:9) e não aos homens, nascer de novo não se efetua por boas obras! nunca! Cristo foi claro acerca dos regenerados: “Os quais não nasceram do sangue (humano) nem da carne (humana) nem da vontade do homem (méritos, ações, boas obras) mas de Deus” (João 1:13) É obra de Cristo e não resultado dos esforços humanos.

 Diante do exposto, torna-se necessário reiterar que todo líder cristão encontra em Cristo seu modelo fundamental. Ao declarar em João 10:2, "Eu sou o bom pastor", Jesus estabelece o padrão para aqueles que lideram, pastoreiam, orientam e conduzem outros aos caminhos da eternidade. Essa liderança implica responsabilidade pela alma daqueles que confiam a ela sua orientação. Um cristão que tem discernimento vai ser liderado por um ministro que tem discernimento.

Essa responsabilidade se estende particularmente aos pregadores. A pregação de um evangelho distorcido pode levar muitos à perdição. Em contrapartida, a pregação fiel às Escrituras, que proclama a justificação pela fé e a confiança na obra redentora de Cristo na cruz, guia os ouvintes com segurança em direção às moradas celestiais.

 Observamos, portanto, que um líder bíblico e ministro fiel às Escrituras influencia, de certa forma, o destino daqueles sob sua orientação e liderança. Ele é o provedor, o pastor, mas, acima de tudo, o protetor.

 Em diversas passagens bíblicas, como em Mateus 7:15, Jesus adverte sobre os falsos profetas, que se aproximam disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Um líder cego, que carece de discernimento espiritual, não consegue enxergar a verdadeira natureza desses falsos profetas. Eles podem se apresentar como ministros de justiça, falar sobre Cristo, salvação e bênçãos, mas o fazem fora do contexto do verdadeiro Evangelho. Assim, não podem conduzir adequadamente as pessoas aos caminhos celestiais se seus próprios conceitos sobre o Evangelho são equivocados.

 Diante dessas considerações, é possível afirmar que o indivíduo que demonstra preocupação genuína com a sua jornada espiritual tenderá a exercer discernimento na escolha de seus líderes e a igreja que deve frequentar. A ausência de critérios sólidos nesse aspecto pode conduzir à ruína, arrastando o seguidor na direção daquele que propaga a perdição. É, portanto, lamentável confiar a outrem a condução da própria alma sem a devida avaliação e critérios.

 Essa é uma verdade inquestionável. Por isso, exorto a todos os cristãos a estabelecerem critérios fundamentais para avaliar o tipo de liderança que os orienta, instrui e guia rumo à eternidade. Um líder cujo destino é a danação jamais poderá conduzir alguém à salvação. O princípio espiritual é claro: "Se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova." A ingenuidade não servirá como justificativa no dia do juízo.

 É imperativo seguir um líder e um pregador fundamentado nas Escrituras, se o desejo é peregrinar neste mundo com fidelidade ao Evangelho e em esperança de vida eterna. Caso contrário, a queda é inevitável. Portanto, a escolha criteriosa dos líderes espirituais, com base em seus ensinamentos e conduta, é de suma importância, afirmo ser fundamental.

 Portanto, depreende-se, de maneira concisa e inequívoca, que confiar a alma, a essência do ser, a alguém inadequado para orientá-la na jornada para a eternidade, pode acarretar sérias conseqüências eternas. Diante disso, exorto, com fervor e afeto, que se examine atentamente a natureza do evangelho que se ouve e a liderança espiritual que guia a alma. Essa avaliação é crucial, pois poderá ser fonte de bênçãos se o ministro for fiel às Escrituras, a Jesus Cristo e à proclamação e ensino do Evangelho. Contudo, será motivo de grande infortúnio, uma tragédia, se o ministro for um falso profeta, que se disfarça de servo da justiça com o único propósito de enganar e conduzir à perdição eterna. Ao despertar para essa realidade, como o rico na parábola de Lázaro, poderá ser tarde demais para escapar daqueles que, como lobos vorazes, visam a destruição da alma ao invés da salvação dela. Você tem discernimento para enxergar esses fatos?

 

 

 

O VALOR DAS COISAS ETERNAS

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O VALOR DAS COISAS ETERNAS

A Vocação do Desprendimento e a Glória do Imperececível

C. J. Jacinto

 


 

"Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração."  (Mateus 6:19–21)

 

I. O Problema da Inversão de Prioridades

Há uma enfermidade silenciosa que corrói a espiritualidade do cristão contemporâneo: a inversão das prioridades. Trata-se não de uma apostasia ruidosa, mas de uma erosão gradual, quase imperceptível, pela qual as coisas temporais usurpam o trono que pertence às eternas. O mundo, com sua sedução calculada e suas promessas de satisfação imediata, não ataca frontalmente a fé — ele a sufoca lentamente, substituindo a oração pelo entretenimento vago, a meditação das Escrituras pelo consumo compulsivo de estímulos, e a busca do Reino de Deus pela obsessão com o reino das aparências.

A advertência do autor de Hebreus, ao exortar os crentes a manterem firme a esperança (Hb 3:6), não é um mero conselho edificante — é um chamado urgente, endereçado a uma comunidade sob pressão constante de apostatar, de retroceder para o que é visível e imediato, abandonando o que é invisível e eterno. O verbo grego κατέχω (katéchō), traduzido por "manter firme", carrega a ideia de segurar com força, de não ceder à correnteza. Isso pressupõe que há uma força antagônica atuando: a gravitação do mundo que tudo puxa para baixo, para o material, para o passageiro.

A tentação ao materialismo não é uma patologia moderna — ela é, segundo as Escrituras, uma desordem congênita do coração humano caído. Jeremias já o diagnosticara com precisão cirúrgica: "Enganoso é o coração mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?" (Jr 17:9). É dessa profundidade abissal que emergem a avareza, o apego ao transitório e a incapacidade de valorizar o eterno. Nenhuma reforma exterior resolve esse problema. É necessária uma transformação radical da percepção, uma reorientação da alma pelo Espírito Santo, que nos capacita a ver com os olhos da fé aquilo que o olho natural jamais poderia contemplar.

II. O Caso de Geazi: A Cobiça Como Escravidão

Poucos episódios nas Escrituras ilustram com mais eloquência a tirania do materialismo sobre a alma do que a queda de Geazi, o servo do profeta Eliseu (2 Rs 5:20–27). Naamã, o general sírio, havia sido curado milagrosamente da lepra e, em gratidão, ofertou presentes ao profeta. Eliseu os recusou com sobriedade e desprendimento, pois sabia que a graça de Deus não se compra e que o seu ministério não era um comércio. Geazi, porém, viu naquela recusa uma "oportunidade perdida".

O texto sagrado nos revela o mecanismo interno do pecado com extraordinária profundidade psicológica: "Mas Geazi, o moço de Eliseu, homem de Deus, disse consigo mesmo: Eis que meu senhor poupou a Naamã, este siro, não recebendo de sua mão o que trouxe; vive o Senhor, que correrei após ele, e tomarei alguma coisa dele" (2 Rs 5:20). Observe: o pecado começa no diálogo interior. A cobiça não se anuncia com estardalhaço — ela persuade, argumenta, racionaliza. Geazi não se sentia fazendo algo errado; ele apenas "aproveitava uma oportunidade".

Há uma lição de profunda aplicação pastoral aqui: o coração que não foi purificado pela graça encontrará sempre uma justificativa para correr atrás daquilo que os homens de Deus já rejeitaram. O que o servo de Deus despreza, o homem carnal deseja. O que a piedade recusa, a cobiça persegue. Geazi pagou o preço mais alto: a lepra de Naamã passou para ele e para sua descendência. Nenhuma aquisição temporal vale a perda da saúde espiritual. O que parecia ser um ganho tornou-se a maior das perdas.

III. Os Heróis da Fé: A Nobre Arte de Perder para Ganhar

O cânon das Escrituras é pontuado por uma galeria de personagens que compreenderam, à custa de sacrifícios reais, que as perdas terrenas são o preço das conquistas eternas. Hebreus 11 é o grande painel hagiográfico da fé veterotestamentária, e o fio que une todas aquelas vidas é precisamente este: todos eles viram de longe as promessas e as saudaram, confessando-se estrangeiros e peregrinos sobre a terra (Hb 11:13).

Abraão é o paradigma fundacional. Chamado a sair de Ur dos Caldeus — centro de civilização, prosperidade e vínculos familiares — sem saber para onde ia (Hb 11:8), ele obedeceu. A partida de Abraão não foi uma aventura religiosa entusiasmada; foi uma ruptura dolorosa com tudo que lhe era familiar e seguro. Calvin, em seus Comentários sobre Gênesis, observa que a obediência de Abraão só pode ser compreendida como uma obra sobrenatural da fé, pois a razão natural jamais aceitaria tamanha renúncia. O patriarca perdeu a segurança do conhecido para ganhar a comunhão com o Deus do desconhecido — e esse, diz a Escritura, é um negócio infinitamente favorável.

Moisés apresenta um paralelo ainda mais desconcertante para a lógica mundana. Filho adotivo da filha do Faraó, herdeiro potencial de poder e riqueza incomparáveis, ele "recusou ser chamado filho da filha do Faraó" (Hb 11:24). O texto hebraico implica uma recusa deliberada, consciente, repetida. Moisés não foi arrastado pelo curso dos acontecimentos — ele escolheu. E o que ele escolheu? "Antes quis ser maltratado com o povo de Deus do que ter prazer temporário no pecado" (Hb 11:25). O autor inspirado chama de "prazer temporário" (ἀπόλαυσιν πρόσκαιρον — apólausin próskaíron) o que o mundo chamaria de sucesso, poder e riqueza. A temporalidade das coisas terrenas é o argumento mais devastador contra a sedução materialista.

O apóstolo Paulo sintetiza essa teologia do desprendimento com uma intensidade que poucos escritores sagrados igualaram:

"E na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pela qual sofri a perda de todas as coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo."  (Filipenses 3:8)

A palavra grega traduzida por "escória" é σκύβαλα (skýbala) — um termo de conotação forte, que pode significar lixo, dejeto, resíduo descartável. Paulo não está sendo retórico; está fazendo uma avaliação objetiva e fria do valor comparativo das coisas. Diante da grandeza de Cristo, todo o seu currículo religioso, toda a sua distinção farisaica, toda a sua posição social — isso tudo equivale a lixo. Não porque tais coisas sejam intrinsecamente ruins, mas porque a comparação com Cristo as torna absolutamente irrelevantes.

É aqui que a teologia reformada contribui com um insight indispensável: essa capacidade de reavaliar as coisas à luz de Cristo não é uma conquista da vontade humana — ela é o fruto do Espírito Santo operando na alma regenerada. Jonathan Edwards, em seu tratado sobre os Afetos Religiosos, argumenta que o sinal mais seguro de uma graça genuína é exatamente essa reorientação dos afetos: o coração regenerado passa a estimar o que Deus estima e a desprezar o que Deus despreza. A santidade não é supressão dos desejos, mas sua purificação e redirecionamento.

IV. Abel: O Princípio do Sacrifício Primeiro

Antes de Abraão, antes de Moisés, antes de Paulo — há Abel. Ele é o primeiro mártir, o primeiro adorador aceito, o primeiro a compreender instintivamente que a relação com Deus exige o melhor, não o sobejo. "Abel também trouxe dos primogênitos do seu rebanho, e da sua gordura. E atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta" (Gn 4:4).

O contraste com Caim é teologicamente revelador. Caim ofertou "do fruto da terra" — o que havia, o que sobrou, o que custou menos. Abel ofertou dos primogênitos e da gordura — o que havia de mais precioso, o que representava uma perda real. A aceitação da oferta de Abel e a rejeição da de Caim não foi um ato arbitrário da soberania divina; foi o reconhecimento de que há uma qualidade de coração por trás do sacrifício. Hebreus confirma: "Pela fé Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim" (Hb 11:4). A fé é o que transforma o sacrifício material em adoração espiritual.

Abel perdeu o melhor de seu rebanho para ganhar o que nenhum rebanho poderia proporcionar: a aprovação divina, o testemunho de que era justo (Hb 11:4), e uma memória que ainda fala séculos depois de sua morte. "E por ela, sendo morto, ainda fala" (Hb 11:4). Nenhum materialismo produz uma herança assim.

V. A Lógica Invertida do Reino: Perder é Ganhar

Há em toda a economia da fé bíblica uma lógica que subverte os cálculos humanos: a perda voluntária, motivada pelo amor a Deus e à sua glória, é sempre o caminho para o ganho mais elevado. Não se trata de um misticismo ascético que nega o valor das coisas criadas — a Escritura celebra a criação como boa (Gn 1:31). Trata-se, antes, de uma hierarquia correta de valores, pela qual o Criador ocupa o primeiro lugar e as criaturas o seu lugar legítimo — inferior e dependente.

Paulo, enfrentando a perspectiva iminente do martírio, não recua para a lamentação. Ele declara: "Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho" (Fp 1:21). E em seguida: "Tenho desejo de partir e estar com Cristo, porque isso é ainda muito melhor" (Fp 1:23). A morte, para o apóstolo, não é uma tragédia a ser lamentada, mas uma transição a ser antecipada com esperança. Isso não é estoicismo — é escatologia. É a certeza de que o que aguarda o crente além do véu da morte é incomparavelmente superior ao que ele deixa aqui.

Martyn Lloyd-Jones, pregando sobre Filipenses, observa que a serenidade de Paulo diante da morte é a prova mais eloquente de que o Evangelho funciona. Um homem que genuinamente crê que morrer é ganho não pode ser intimidado por ameaças nem seduzido por ofertas materiais. Ele vive com uma liberdade que o mundo não pode dar nem tirar. Eis a paradoxal riqueza do despojamento cristão: ao abrir mão das coisas que passam, o crente se torna possuidor das que permanecem.

VI. A Consagração Como Estilo de Vida

O caminho da verdadeira piedade — aquilo que os puritanos chamavam de the narrow way, o caminho estreito — é pavimentado com as pegadas daqueles que antes de nós souberam distinguir o eterno do transitório e fizeram suas escolhas em conformidade. Não se trata de um heroísmo excepcional reservado a uns poucos gigantes espirituais; é a vocação ordinária de todo crente que leva a sério as palavras do seu Senhor: "Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me" (Lc 9:23).

A consagração não é um evento pontual — é um processo diário, uma disciplina espiritual que se renova a cada manhã. Ela pressupõe o que os reformadores denominavam de mortificatio: a mortificação progressiva dos desejos desordenados, a educação dos afetos à luz da Palavra, a submissão contínua da vontade ao senhorio de Cristo. John Owen, o grande teólogo puritano do século XVII, escreveu que "aquele que não está mortificando o pecado, está sendo mortificado por ele" — advertência que se aplica com igual pertinência ao apego às coisas terrenas.

O crente que cultiva um relacionamento íntimo e ininterrupto com o Senhor — através da oração, da meditação das Escrituras e da comunhão com a ecclesia — desenvolve naturalmente um paladar espiritual aguçado, que aprende a saborear o eterno e a se enfastiar do transitório. Não porque o mundo seja mal em sua essência, mas porque, à luz da glória de Cristo, ele simplesmente empalidece. Como escreveu Isaac Watts em seu célebre hino: "When I survey the wondrous cross... all the vain things that charm me most, I sacrifice them to his blood."

Há sempre, por cada perda voluntária aceita em nome de Cristo, um ganho que excede infinitamente o que foi deixado para trás. Isso não é um cálculo mercantil — é a lógica da graça. É a certeza de que Deus não se deixa vencer em generosidade, e que aquele que semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna (Gl 6:8).

 

 

Que possamos, portanto, olhar para a nuvem de testemunhas que nos rodeia (Hb 12:1) — Abel, Abraão, Moisés, Paulo, e tantos outros — e nos despir de todo peso e do pecado que tão facilmente nos enreda. Que o nosso coração aprenda, pela graça do Espírito, a enxergar além do imediato e do visível, a depositar os seus tesouros onde nem a traça nem a ferrugem podem corroer. Porque onde estiver o nosso tesouro, aí estará também o nosso coração — e não há investimento mais seguro, nem herança mais duradoura, do que aquela que é guardada nos lugares celestiais em Cristo Jesus.

 

 

C. J. Jacinto

Artigo escrito em 2018 - os ajustes e correções foram feitos com IA